sábado, 30 de agosto de 2014

O SUMIÇO DE LARA (Parte 4)



Claudia ficou paralisada, segurando a fatia do pão no meio do caminho. Não era possível. Sua mãe só podia estar delirando.

Ou não.

Cantarolando, dona Julia levantou para atender o celular. Restaram somente Claudia e o pai que encarava tristemente a xícara de café.

− São os remédios, minha filha – disse o homem pesaroso. – Talvez sejam fortes demais. Vou ter que falar com o médico.

Mas Claudia sabia que não era delírio. Não bastava um vampiro apenas estar no seu encalço... Agora mais um? E sua irmã? Era demais para suportar.

− Pai... E se realmente ela enxergou alguma coisa?
− Mas como, Claudia? Por que sua irmã ficaria do lado de fora da janela? Pendurada como? Não, isto não tem o menor sentido.

Como ela gostaria de dizer que quase fora atacada por um vampiro na noite passada e que sim, Lara realmente aparecera para transformar a todos em criaturas das trevas. Porém, quem acreditaria em uma história sem noção como aquela?

Claudia comeu sem vontade a primeira refeição do dia enquanto sua cabeça trabalhava sem parar, ferozmente. Vampiros não gostavam de crucifixos, alho e água benta. A única maneira de se defender era usar estes artifícios. De repente dona Julia voltou para a sala muito feliz.

− Era a sua tia Verinha, Claudia. Ela ficou muito feliz em saber que a Lara vai voltar.
− Que ótimo, mãe.

Pobre tia Vera, pensou Claudia. Devia estar apavorada com os delírios da irmã.

− Bem, eu preciso dar uma volta.

Os pais olharam para ela. Seu Getúlio perguntou:

− Com este tempo horroroso onde você pretende ir?
− Comprar algumas coisinhas. Volto logo.

Ela se arrumou rapidamente, pegou a sombrinha, a carteira e ganhou a rua. Lá fora o tempo ruim ficara ainda pior enquanto ela se dirigia até o armazém a duas quadras de casa. As ruas estavam meio desertas. Caminhou sempre olhando para trás, para os lados e observando os raros carros que se aproximavam. Tinha medo que o vampiro ou Lara aparecessem de repente. Afinal, o dia estava um pouco escuro, com nuvens grossas. Não era tão impossível assim dar de cara com um deles.


Claudia retornou meia hora depois trazendo várias réstias de alho. Sua intenção era pendurá-las na casa e assim proteger a família do ataque dos vampiros. Porém, quando dona Julia a viu chegando com aquilo tudo, fez uma cara de nojo e perguntou:

− O que você vai cozinhar? Para que tanto alho?
− É a nova moda, mãe. Pendurar alho em casa. Elimina os maus fluídos, purifica o ar e traz boas energias.

Ela esperava ter sido convincente. Não deu certo.

− Este cheiro está me enojando. Se quiser, que pendure no seu quarto.

Getúlio apareceu vindo da cozinha.

− O que é isto, Claudia?
− Eu quero pendurar aqui em casa, pai.
− Por quê? Tem algum vampiro por aqui?

Dona Julia teve um ataque de riso. Getúlio também riu, mas ficou sério quando se deparou com a expressão apavorada da filha. Sem dizer mais nada, Claudia foi para o quarto e ficou um bom tempo lá pendurando alho por toda a parte. Mais tarde, depois do almoço, Getúlio se aproximou da filha e avisou:

− Vou trabalhar esta noite. Preciso que você fique com a sua mãe.
− Mas pai! – protestou Claudia apavorada. – Você vai me deixar sozinha com ela?
− Minha filha, sinto muito. Os remédios que ela está tomando são muito caros e eu não posso desperdiçar este bico. Não vai acontecer nada. Dê o medicamento para sua mãe dormir cedo, antes da novela. Ela vai dormir feito um anjo.

Claudia sentiu vontade de chorar. Não se sentia preparada para enfrentar uma noite sozinha ao lado da mãe. E dos vampiros.


O pai saiu e restou a Claudia tentar distrair sua mãe. Na verdade, ela mostrava estar muito bem. Falante e bem humorada, chegou mesmo a preparar um jantar especial para as duas. Porém, Claudia sabia que aquele não era o estado normal dela. Quando sentaram para assistir a novela, dona Julia não tirava os olhos da janela da sala.
Parecia estar esperando alguém.

− Mãe, preste atenção na novela. Veja, vai rolar uma cena boa.

Dona Julia subitamente se levantou. Parecia agoniada. Ela foi até a janela, afastando as cortinas.

− Minha filha, venha aqui!

A mulher deu um grito agudo e Lara pulou do sofá. Em segundos estava ao lado da mãe. Dona Julia apontava um dedo trêmulo para a rua.

− Veja… Ali do outro lado... É Lara! É Lara!

Claudia olhou na direção em que a mãe apontava e estremeceu. Do outro lado da rua, quase na esquina, havia uma moça parada. Os cabelos estavam presos e ela vestia uma capa longa e escura e esvoaçante. Era muito parecida com Lara.

− Fique aqui dentro, mãe! Não abra a porta para ninguém! Eu vou atrás dela!

Sem sequer pegar um casaco, Claudia abriu a porta do apartamento e saiu em disparada pelo corredor. Quando chegou na rua não viu nada. O coração batia tão forte que ela precisou se apoiar na grade do prédio para tentar se acalmar. Ao longe viu uma figura vestida de negro caminhando na calçada. Só podia ser ela.

O medo quase fez com que Claudia ficasse parada no mesmo lugar, mas não podia deixar Lara desaparecer. Tinha quase certeza que era ela. Vampira ou não, precisava ficar frente a frente com sua irmã fujona.

Ela correu pela rua vazia quase até a esquina. Nada. Não havia uma vivalma em lugar nenhum. Um movimento fez com que ela olhasse para o lado. Do outro lado da rua um homem a encarava atentamente. Os cabelos longos dele e os olhos com um brilho amarelado fizeram com que Claudia quase caísse de puro terror. Era ele.


O vampiro.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

QUER DAR UMA VOLTA? (erótico)

Final de tarde de primavera. Ela vinha caminhando pela rua, minissaia, cabelos loiros ao vento. Não percebeu quando um possante carro negro parou praticamente ao seu lado. Uma buzina fraca lhe chamou a atenção.

– Quer dar uma volta?

Renata encarou o homem grisalho que estava por trás do volante. Ele exalava sensualidade e poder.

– Volta? Onde?
– Para onde você quiser.

Ela pensou. Olhou para o carro. Nunca havia colocado os pés em algo igual. O homem devia ter por volta de 50 anos. E era tudo de bom.

Sem dizer nada, Renata deu a volta pela frente do carro e entrou. Acomodou-se no banco macio e logo sentiu a mão dele na sua perna.

– O que…?
– Quantas vezes você já transou em um carro como este?
– Em um carro assim? Nunca.

Renata ficou excitada. Podia ver o volume nas calças dele. Mesmo assim hesitou. Não era garota de programa, não tinha por hábito transar com desconhecidos. Porém resistir a uma tentação daquelas não estava nos seus planos.

– Quer experimentar a melhor trepada da sua vida?
– Só se for agora.

Duas horas depois Renata foi deixada na esquina de casa. Ajeitou a minissaia e passou as mãos no cabelo para o marido não desconfiar de nada. A calcinha vermelha de renda havia sido deixada com o garanhão. O nome dele? Nem imaginava.


terça-feira, 19 de agosto de 2014

O SUMIÇO DE LARA - Parte 3

Ela acordou depois de algum tempo com mãos frias a sacudindo freneticamente. Claudia soltou um grito antes de se dar conta de que quem estava ao seu lado era a mãe, Dona Julia.

− O que aconteceu, minha filha? Por que você está vestida deste jeito?

Claudia a encarou e em seguida voltou seus olhos para a janela. As cortinas continuavam abertas, porém não havia ninguém do lado de fora. Tudo parecia estranhamente calmo.

− Você saiu? – tornou a perguntar a mãe.
− Eu fui dar uma volta – Claudia se levantou rapidamente e correu para fechar as cortinas. Com um rápido olhar percebeu que não havia ninguém lá fora. Nem mesmo o carro negro.
− Fiquei assustada quando levantei e encontrei você caída aqui no chão. Por que não nos avisou que pretendia sair?
− Não quis preocupar vocês, mãe. E eu queria respirar um ar mais leve.

Mas Claudia continuava pálida e trêmula. Era impossível esquecer a terrível visão do vampiro grudado na janela. Se ele era uma criatura das trevas, será que Lara também...

Aquele pensamento horrível deixou Claudia arrasada. Ela olhou novamente para a mãe.

− Não aconteceu nada de diferente aqui em casa?
− Diferente?
− Bem… alguém estranho passou por aqui?
− Claudia, você bebeu? Não estou entendendo o que você está falando.

A garota respirou aliviada. Ao que parecia, nenhum vampiro havia visitado o apartamento durante sua ausência. Claudia, por fim, declarou se sentindo bem cansada:

− É melhor que eu vá dormir logo. Esta noite foi cruel.
− Você ainda não me contou por que desmaiou.

Claudia não respondeu a última pergunta. Trancou-se no quarto e tentou dormir.


O sábado amanheceu cinzento e chuvoso. Claudia levantou por volta das nove horas da manhã e quando se lembrou da terrível cena do vampiro grudado na janela da sala, um arrepio de terror percorreu todo o corpo. Estava na dúvida se devia ou não avisar seus pais quando os encontrou na sentados junto à mesa tomando o café da manhã. Imediatamente estranhou a expressão de encantamento de Dona Julia. Ela trazia no rosto um sorriso abobalhado e os olhos perdidos no espaço. Claudia sentou frente a ela com um peso no peito. Algo não estava certo.

− Bom dia, pai. Bom dia, mãe. Mãe?

Dona Julia voltou seus olhos para Claudia. Eles brilhavam de felicidade. Por alguns instantes a jovem esperou que fosse ouvir uma excelente notícia.

− Você já contou para ela, Getúlio?

O pai estava meio esquisito também, não compartilhando do mesmo encanto da esposa.

− Não, querida. Claudia recém levantou.

Tensa, Claudia olhou de um para outro sem entender nada. Não estava gostando nada daquilo.

− Contou o quê? É sobre Lara?

Dona Julia segurou as mãos da filha mais velha e sussurrou como se tivesse medo que mais alguém escutasse a boa nova que ela estava prestes a revelar:

− Lara me visitou esta madrugada!

Claudia sentiu todo o ar fugir do seu corpo. Não era possível.

− Como… como assim?
− Depois que você foi para o quarto, eu voltei para a cama e não consegui dormir logo. Quando estava pegando no sono, escutei um barulho na janela. Levantei-me e fui até lá. Abri as cortinas e adivinhe! Lara estava do lado de fora.

Com as mãos na boca segurando um grito de espanto, Claudia olhou para o pai que baixou os olhos, constrangido. Pelo visto, ele não acreditava naquela história que a esposa estava contando com tanta emoção.

− Lara? Lara esteve aqui? E você abriu a janela?

Sem querer, Claudia olhou para o pescoço da mãe, procurando marca de caninos. Não havia nada. Por enquanto.

− Não tive tempo! – Dona Julia estava empolgadíssima. – Eu me aproximei do vidro. Ela estava grudada ali, os olhos brilhantes como eu nunca tinha visto até então. Mas na hora que eu esbocei um gesto de abrir a janela, seu pai acendeu a luz. Acho que isto a assustou, pobrezinha. Mas ela ainda teve tempo de me dizer alguma coisa. Eu pude ler seus lábios.

− E o que ela disse? – perguntou Claudia, histérica.
− Que vai voltar em breve.



sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O SUMIÇO DE LARA - Parte 2

O sumiço de Lara causou comoção na vizinhança, na escola e na família. Os pais de Claudia ficaram atordoados com o desaparecimento da caçula. Em vão, Claudia tentou falar para os pais e para a polícia sobre o carro negro que havia parado em frente ao prédio duas noites atrás, mas aquilo não pareceu ser um ponto relevante para ninguém.

A vida da família virou um inferno. Desesperada para ter alguma notícia de Lara, Claudia pendurou cartazes pelo bairro, postou fotos da irmã nas redes sociais, implorou ajuda até de quem não conhecia. Tudo em vão. Lara simplesmente havia se evaporado no ar. Ninguém tinha a menor ideia de onde Lara estava.

O carro negro não saia da cabeça de Claudia. Ele era a chave de tudo. Passados os primeiros dois dias, a garota decidiu entrar em ação. Na primeira noite novamente se postou na janela do quarto esperando que o carro retornasse. Nada aconteceu. Durante toda aquela semana Claudia fez tocaia, na vã esperança de que algo acontecesse. Mas na verdade, mesmo que o automóvel estacionasse na frente do seu prédio, ela também não tinha a menor ideia do que iria fazer.


Os pais viviam abaixo de calmantes e a casa estava sempre cheia de amigos e parentes tentando trazer algum consolo. Aos poucos, Claudia tentou retomar sua vida normal do jeito que podia. Era difícil ver os pais naquele estado, sem falar no temor que eles tinham de que algo acontecesse à filha mais velha. O carro nunca mais passara pela sua rua, esfriando todas as esperanças dela. Mas… e se fosse atrás dele?

Sim, ela tinha certeza de que era como procurar uma agulha em um palheiro um carro daquele tipo em uma cidade grande como a que vivia. Só que precisava fazer alguma coisa. Até agora não haviam surgido pistas de Lara. O motorista daquele carro maldito levara Lara e certamente rodava a cidade procurando novas vítimas. Quem sabe nestes bares da moda... Claro! Era lá que ele circulava!

Animada, Claudia esperou que a sexta-feira chegasse. Os pais foram dormir cedo, logo depois da novela, já sentindo os efeitos dos remédios. Claudia se trancou no quarto, passou maquiagem, prendeu o cabelo e colocou uma roupa sexy. Sua intenção era passar pelos locais de maior movimento e procurar o carro negro. Caso o encontrasse, daria um jeito de atrair o motorista. Dentro da bolsa ela levava um pequeno canivete, caso precisasse usar. Claudia sentia tanta raiva que seu medo se evaporara.

Ela pegou um táxi e rumou para a zona nobre da cidade. Pediu para descer uma quadra antes e foi caminhando lentamente até onde o movimento de pessoas era maior. Sua concentração era tanta que não percebeu os olhares masculinos de admiração. Ela deu duas voltas na quadra, com os olhos fixos nos carros. Seu esforço até então estava sendo inútil. Mas Claudia não estava disposta a desanimar.

Lá estava ele. Um carro negro, potente e igual àquele que passara na frente da sua casa no dia que Lara sumiu. Estava estacionado junto à calçada defronte um bar. Claudia ficou com as pernas trêmulas e precisou se apoiar em uma árvore para respirar fundo. “Que sorte”, pensou ela enquanto criava coragem e ía até lá. Parou ao lado do automóvel. Olhou-o bem e mentalizou a placa. Quando pegou o celular para ligar para a polícia, escutou uma voz atrás de si.

− Oi? Tudo bem?

Claudia levou um susto e deixou o celular caiu no chão. Antes que o juntasse, alguém foi mais rápido que ela. Um jovem um pouco mais velho que Claudia lhe estendeu o telefone com um sorriso aberto. Não parecia nem um pouco ameaçador.

 − Tudo bem com você?

Claudia sabia que estava pálida. Com a mão tremendo ela pegou o celular que o rapaz lhe estendia e jogou dentro da bolsa.

− Sim. Eu… sim, estou bem.
− Meu nome é Flávio. E o seu?

Flavio era louro e alto. Devia ter uns 23 anos e trazia no rosto um sorriso amigável.

− Claudia – respondeu ela. Será que… Será que ele era o homem que levara Lara?
− Você está bem? – tornou ele a perguntar. Parecia preocupado com Claudia.
− Sim. Eu… me perdi de uma amiga. E... bem vou pegar um táxi e voltar para casa.
− Eu posso levar você.

Claudia levou um susto. Embora Flávio parecesse ser um cara normal, ele era um total desconhecido. Havia ao redor muitas pessoas, talvez observando a conversa dos dois. Ou não dando a mínima para eles.

− Não tenha medo – sorriu ele. – Não vou fazer nada contra você. É que… Bem, você está pálida e parece estar passando mal. Só estou tentando ajudar.

Ela se lembrou do canivete que trazia na bolsa. Realmente Flávio não fazia o tipo assassino em série. Talvez fosse apenas uma coincidência. Bem, por que não aceitar? Afinal, ele tinha um carro igual ao da pessoa que levara Lara e talvez soubesse de alguma coisa.

− Tudo bem. Eu aceito.
− Certo. Onde você mora?

Claudia indicou o local e Flavio disse:

− Ok, então vamos até meu carro.

Para espanto de Claudia, Flavio passou reto pelo carro negro e levou a garota até uns 100 metros a frente. Sempre sorrindo, ele abriu a porta de um automóvel mais popular, branco e pequeno. Então ele não era o dono do automóvel negro? Claudia entrou decepcionada e tentou disfarçar quando Flávio se acomodou ao lado dela. A pessoa que sequestrara Lara devia estar em uma daquelas festas, provavelmente procurando a próxima vítima. E, para piorar tudo, Claudia havia se esquecido da placa do carro negro.

O trajeto foi feito calmamente até sua casa. Flavio era um cara bem agradável e nem por um momento tentou forçar a barra. Quando se despediram na frente do prédio, ele passou um cartãozinho para Claudia.

− Meu telefone está aí, caso você queira me ligar para a gente marcar uma saída.
− Certo, Flavio. Muito obrigada por ter me trazido até em casa – respondeu ela, um pouco constrangida. Na outra noite era certo que voltaria ao mesmo lugar – Bem, até mais então.

Ela nem esperou a despedida de Flavio e desceu do carro. Ele ainda esperou Claudia abrir a porta do prédio e ambos se abanaram. O garoto partiu e Claudia se voltou para atravessar o jardim.

Uma freada forte chamou sua atenção. Claudia parou no meio do caminho, os músculos todos tensos. Ela respirou fundo. Não era Flavio, ela tinha certeza. Bem lentamente, a jovem virou a cabeça para trás.

O carro negro estava parado do outro lado da rua, exatamente como da outra vez. O motor estava ligado e de vez em quando o motorista dava uma leve acelerada, como se estivesse chamando Claudia. Então, tomada pela raiva e pela coragem que jamais soubera possuir, a garota foi até a calçada e pegou uma pedra de bom tamanho que estava próximo a uma árvore. Sem pensar duas vezes, mirou a janela do carona e jogou certeiramente a pedra. O vidro do carro era tão forte que mal trincou. Mesmo assim, Claudia atiçou a fúria de quem dirigia o automóvel. O motor foi desligado e a porta se abriu. Porém, ela não esperou para ver quem sairia lá de dentro. Apavorada, Claudia deu meia volta e entrou correndo no prédio.

A luz do corredor havia queimado e ela tropeçou no primeiro degrau. Lá atrás a porta se abriu e ela escutou passos no corredor. O joelho doía quando Claudia começou a subir as escadas até o terceiro andar. Dali para frente já havia luz. Os passos vinham atrás dela fortes e parecia que a alcançariam a qualquer momento. A chave custou um pouco a entrar na fechadura do apartamento. Claudia olhava a todo instante para o início do corredor. Finalmente, ela conseguiu abrir a porta, entrou em casa e a trancou. O apartamento permanecia em silêncio e no escuro.

O coração dela disparou enquanto tentava observar pelo olho mágico se o cara estava se aproximando ou não. O som dos passos cessaram de repente. Claudia tremia de medo, embora achasse que ele já tivesse ido embora. Depois de alguns minutos, ela chegou a conclusão que a pessoa apenas lhe quisera pregar um susto. Mas aquilo não ficaria assim. A polícia deveria saber tudo o que acontecera, pois era certo que quem sumira com Lara podia voltar e fazer o mesmo com ela.

Claudia juntou a bolsa que havia caído no chão. Talvez o carro ainda estivesse lá fora. Ela se encaminhou até a janela, disposta a tirar uma foto do automóvel e também do cretino para mostrar à polícia. Claudia segurou o celular firme e afastou as cortinas decidida. O desgraçado certamente não havia tido tempo de ter se mandado.

Havia alguém na grudado no vidro da janela da sala, do lado de fora. As garras dele eram afiadas, os cabelos longos balançavam mesmo que não houvesse vento nenhum naquela noite. Claudia tentou gritar, mas sua voz saiu fraquinha. O homem sorriu. Seus caninos brilharam sob a luz da lua. A beleza dele tonteou Claudia, que recuou alguns passos tropeçando nos móveis, sem poder afastar os olhos dele. Agora sabia por que Lara havia sumido.

Claudia desmaiou no segundo seguinte.




terça-feira, 12 de agosto de 2014

O SUMIÇO DE LARA

Ela acordou de madrugada com uma freada forte na rua. A madrugada estava quente e o luar clareava um pouco a noite. Claudia chegou até a janela e afastou a cortina. Lá embaixo um carro negro estava estacionado junto ao meio fio da calçada, do outro lado da rua.

Um pouco depois, Claudia sentiu um movimento ao seu lado. Era a irmã mais nova, Lara. Esfregando os olhos, ela perguntou:

− O que você está olhando?
− Aquele carro ali – e Claudia apontou para frente. – Acordei-me com um barulho forte de freios. Ele está estacionado faz uns cinco minutos.
− Ninguém entrou ou saiu? – Lara também se mostrou intrigada.
− Não. Você não acha perigoso o motorista ficar parado ali, sujeito a assaltos?
− Humm... a não ser que seja ele o assaltante.

As duas ficaram em silêncio. O automóvel era possante, rodas pesadas e vidros negros. Na verdade, parecia não haver ninguém lá dentro.

− Que horas são? – perguntou Lara.
− Três horas da manhã.
− E você pretende ficar a noite toda aqui olhando para fora?
− Não – e Claudia fechou a cortina. – Já é tarde e eu vou dormir. Aconselho você a fazer o mesmo.

As duas irmãs voltaram para cama. Mas Claudia custou a dormir. A visão daquele automóvel negro povoou seus sonhos até o despertador tocar às 6:30 da manhã. E ela não pensou mais no assunto.


Ao contrário de Lara. Ela acordou pontualmente às duas horas da madrugada seguinte, jogou as cobertas para o lado e se dirigiu silenciosamente até a janela. Para sua decepção, o carro não estava lá. Não podia explicar, mas sentira algo diferente quando se deparara com ele na noite anterior. Parecia que o automóvel emanava uma força de atração incrível, como se a estivesse chamando. Se não fosse por Claudia, teria aberto a porta do apartamento em que dividiam com os pais e iria até lá ver qual era. Do alto dos seus 17 anos, imaginava que dentro do carro estaria lhe esperando um homem deslumbrante, forte e poderoso. E sim, ele a levaria para um passeio inesquecível. Claro, alimentava a esperança de que ele também não a trouxesse mais para aquela sua vidinha sem graça.

Lara ficou cerca de uma hora esperando que o carro aparecesse novamente. Mas não aconteceu nada. Poucos veículos passaram pela rua, o silêncio predominava. Decepcionada, somente restou a Lara voltar para sua cama e tentar dormir, agradecendo aos céus por Claudia não ter reparado nada.

Durante todo o dia, Lara não conseguiu afastar dos pensamentos a visão daquele carro e do que ele podia representar na sua vida. Quando se deu conta, sua imaginação estava a mil, e teve sua atenção chamada pelos professores várias vezes. Tensa, Lara voltou para casa e se trancou no quarto. Claudia chegou mais tarde e não se deu conta do tumulto que a irmã enfrentava. Nem percebeu que ela mal tocou no jantar.

A hora de dormir chegou e para surpresa de Lara, o sono veio forte, talvez por ter ficado algum tempo acordada na madrugada passada, esperando em vão pelo carro misterioso. Lara mal deitou a cabeça no travesseiro e caiu em sono profundo. Claudia leu o trecho de um livro e resolveu dormir também. E o silêncio tomou conta do quarto.


Uma freada poderosa às 2:30 da manhã fez com que Lara sentasse na cama, já com o coração saltando no peito. Olhou para o lado e se deparou com Claudia dormindo a sono solto. Ansiosa, Lara pulou da cama e voou até a janela.

O carro estava parado do outro lado da rua.

Lara abriu a janela e colocou a cabeça para fora. A brisa da noite sacudiu seus cabelos louros e a camisola leve. Lá embaixo o farol piscou três vezes. Era um sinal.

“Ele está me chamando.”

A jovem não lembrou sequer de colocar uma roupa. Não se importando por estar com pouca roupa, Lara saiu do quarto e abriu cuidadosamente a porta do apartamento. Silenciosamente, ela atravessou os corredores do prédio, cruzou o jardim e em pouquíssimo tempo estava na calçada, os pés descalços no chão frio. Do outro lado da rua, o carro parecia lhe aguardar. Os vidros continuavam levantados e Lara não tinha a menor ideia de quem estava lá dentro. Na sua mente estava certo que era o homem lindo que povoava seus sonhos.

Respirando fundo para criar coragem, Lara atravessou a rua decidida a entrar naquele carro. Ela foi se aproximando, olhando curiosamente para aqueles vidros escuros. Era impossível visualizar qualquer coisa. Seus dedos tocaram na porta e alguém lá dentro a destrancou. Sentindo-se poderosa, Lara a escancarou confiante e sorridente. E soltou um grito de horror.

Alguém a puxou para dentro do carro pelos cabelos e a porta foi fechada em seguida. A partida foi dada violentamente e o automóvel desapareceu na escuridão da noite.


Claudia se acordou com o barulho de um carro arrancando. Chegou rapidamente na janela, ainda tonta de sono e pôde vê-lo ao longe, dobrando na primeira rua. Aquilo a arrepiou toda.

− Lara, acorde. Aquele carro estranho passou por aqui.

Silêncio. Claudia estranhou.

− Ei, Lara!

Ela olhou para a cama da irmã. A luz da lua iluminou uma cama vazia.


Claudia compreendeu tudo. E gritou.

(será que este conto merece uma continuação?

sábado, 2 de agosto de 2014

MORRA!





Ele era meu chefe. Nem era tão bonito assim, mas eu era apaixonada por ele. Não sei o que me atraía. O poder. A voz grossa. O fato de ser mais velho. Na minha cegueira de paixão achava também que ele era louco por mim. De onde tirei esta maluquice não faço ideia. O fato é que ele me tratava bem, sempre gentil, elogiava meu trabalho. Mal reparava que o cara era assim com meus outros colegas.

Nos meus sonhos mais loucos nós nos casávamos e vivíamos um amor de sonhos. Para não cair no ridículo, eu sabia disfarçar muito bem meus sentimentos. Lá no escritório ninguém sabia o quando eu adorava aquele homem.

Ele era tudo pra mim. Eu era capaz de fazer qualquer coisa por ele. Mesmo, de verdade.

Um dia voltei do almoço e encontrei a esposa dele lá. Foi um choque e eu tive que engolir a seco. A desgraçada era linda. Jovem, longos cabelos louros, olhos verdes. Nem parecia ser de verdade. Fui obrigada a cumprimentá-la como se a achasse o máximo. Aliás, o clima de puxa-saquismo no escritório em torno dela era total. Precisei me afastar um pouco para tentar digerir aquela novidade. Pensando bem, era óbvio que meu chefe não poderia ser solteiro. Um homem daqueles jamais estaria sozinho.

Fui para casa e chorei tudo o que podia agarrada no travesseiro. Eu tinha que pôr tudo para fora e assim poder enfrentar o dia seguinte. Enfrentar o vazio, pois nada mais seria o mesmo agora.

Contudo, no outro dia, acordei-me com uma fúria incontrolável. Enquanto tomava o café da manhã me peguei desejando a morte daquela mulher. Com requintes de crueldade. Eu simplesmente não conseguia aceitar que meu chefe amava outra pessoa e que todos os meus belos sonhos jamais seriam realizados. E foi assim, furiosa, que cheguei ao escritório.

Para minha raiva, minhas colegas ainda comentavam sobre ela. Linda, simpática, carismática, estes eram os adjetivos. Comecei a me sentir inferior, como se eu jamais conseguisse chegar aos pés dela e conquistar um homem como meu chefe. Fechei os olhos desejando ardentemente que ela morresse. E assim foi o dia inteiro. Meu amor chegou, comportou-se normalmente e atendeu algumas ligações que eu sabia serem dela. Naquele dia mal me deu bola. Nem olhou direito para mim. Tive vontade de chutar tudo, inclusive ele. Fui para casa me sentindo mal, muito mal.

Então tive uma ideia.

Peguei meu saco de retalhos e menos de duas horas eu tinha produzido uma bonequinha mal costurada, com fiapos de lã amarela fazendo de cabelos. Fiz rostinho tosco, roupas semelhantes a que a desgraçada vestia naquele dia. Minha mãe bateu na porta chamando-me para jantar. Eu respondi que dentro em 15 minutos estaria sentada à mesa com ela. Peguei uma tesoura bem afiada e cravei na boneca diversas vezes enquanto dizia morra, morra, morra.

Depois desta sessão de “tortura” senti um alívio grande. Abri a porta do quarto, jantei calmamente com a minha mãe e mais tarde dormi um sono maravilhoso.

No outro dia pela manhã me levantei bem disposta. Entrei no ônibus assobiando, pronta para mais um dia de trabalho. Aquele homem seria meu de uma maneira ou de outra. A vaca iria morrer.

Quando cheguei ao escritório, clima total de consternação. As pessoas falavam baixinho, todas com uma expressão de assombro e incredulidade. Larguei a bolsa em cima da mesa e me dirigi a uma das minhas colegas, curiosa e preocupada ao mesmo tempo:

− O que houve? Por que vocês estão deste jeito?
− Aconteceu uma tragédia, Cris.

Gelei. Meu Deus, que não fosse com ele! Por favor, Deus, que não tenha acontecido nada com ele. Senti-me empalidecer na hora e peguei com força o braço da colega. Devo-a ter machucado na minha ânsia de saber o que acontecera.

− Com quem? Diga logo!
− Foi com a Rebeca.
− Quem é Rebeca?
− A mulher do chefe. Ela foi assaltada ontem à noite. Reagiu e levou uma série de facadas.

Juro que tonteei. Precisei me agarrar na mesa para não cair.

− E…
− Ela morreu.
− Que coisa horrível – eu disse, sabendo que minha frase soara super falsa.

Pedi licença e fui até o banheiro. Me tranquei lá dentro e escorreguei pela porta devagarinho até chegar ao chão. Então comecei a rir. Ri descontroladamente até meu estômago doer.


Bem feito. Ele vai ser meu agora.