quinta-feira, 18 de maio de 2017

A CASA DA FRENTE (Caps. 1/2/3)


Capítulo 1

            Quando Marcelo estacionou o carro junto ao meio fio, Samanta perguntou surpresa:
− Você tem certeza de que é esta?
− Eu não iria brincar com uma coisa tão séria – respondeu ele sorrindo.
            Ela riu alto. Aquela casa era simplesmente demais. Samanta abriu a porta do carro praticamente em câmera lenta analisando cada detalhe da construção. Em pé, na calçada, ficou em silêncio até escutar a voz de Marcelo:
− E então? O que você acha?
− Incrível. É a casa que eu sempre sonhei. Moderna, clean... Podemos entrar?
− Claro – Marcelo pegou as chaves do bolso e perguntou: − Você acha que eu a traria aqui só para ficar do lado de fora?
− Ora, eu mataria você!
            De mãos dadas, ambos entraram na casa. O hall e a sala eram de bom tamanho e Samanta logo se viu pensando na decoração
− Me aparece aconchegante – e ela apontou para o canto da sala. – Sempre sonhei em ter uma lareira como aquela ali.
− Você ainda não viu o resto. Venha  − disse Marcelo, puxando-a pela mão. – Tem muito mais.
            Durante a meia hora seguinte o casal percorreu a casa de dois pisos fazendo planos como se ela já lhes pertencesse. No final, Samanta enumerou tudo o que tinha gostado:
− Piscina, banheira de hidromassagem, lareira, escritório para você, um quarto de casal enorme… O que posso querer mais? Para mim ela é perfeita. Sem falar que este condomínio é bem bacana.
            Marcelo e Samanta estavam casados há pouco mais de um ano. Modelo famosa, Samanta fazia ainda alguns trabalhos, optando por ficar o maior tempo possível com o marido. Já Marcelo era um advogado em ascensão em uma notória firma jurídica. O casamento ia muito bem. Desde o primeiro dia que se viram nunca mais haviam se desgrudado.
            Porém, apesar de ambos estarem vivendo momentos de grande paixão, Samanta jamais poderia suspeitar que Marcelo, poucos anos antes, sofrera uma terrível decepção amorosa. Aliás, isto era um tabu na vida dele, um assunto que poucos conheciam e que Marcelo não fazia a menor questão de lembrar. Mulher de rara beleza, Samanta o fascinara instantaneamente com seus olhos verdes e a pele negra. Em três meses estavam casados e vivendo intensamente cada instante.
− É só você dizer “sim” e eu ligo para o corretor – Marcelo apontou para o celular. – A decisão está toda em suas mãos.
− Ligue para ele agora. Eu quero esta casa!
            Sem perder tempo, ele telefonou para o corretor acertando uma visita. Samanta já tinha mil idéias para decorar a casa quando o marido desligou o celular.
− Vou fazer deste lugar o nosso ninho de felicidade, meu amor. Será que fui piegas demais?
− Acho que sim – sorriu Marcelo, abraçando-a. – Mas qual é o problema, desde que isso a faça mais feliz?
− Você é o responsável por tudo de bom que tem acontecido na minha vida – confessou ela. – Mal vejo a hora de me mudar para cá – Samanta lhe roubou um beijo.
− Vamos dar uma volta pelo condomínio e conhecer nossos novos vizinhos?
− Claro, estou ansiosa por isto!
            O condomínio agradou em cheio Samanta. Com ciclovia e calçadão para caminhar, ela se sentiu em casa. De mãos dadas com o marido enquanto faziam o reconhecimento de área, ela apontou discretamente e exclamou:
− Veja, tem até um supermercado!
− Eu falei que você encontraria tudo o que precisa aqui – replicou Marcelo, satisfeito com a alegria da esposa.
− Realmente, estou cada vez mais surpresa. E aliviada.
− Aliviada por quê?
− Não suporto mais o estresse da cidade. Estou precisando de um lugar calmo para viver. E você também – reparou ela. – Aquele escritório suga toda sua energia.
− Você repõe todas minhas energias.
− Pensei que eu também tirasse.
− Nas horas certas, sim – Marcelo riu.
− E depois – emendou ela com um sorriso no rosto, – nossos bebês serão criados com mais liberdade e qualidade de vida. Este lugar é perfeito para crianças.
            Marcelo ficou em silêncio. O assunto “filhos” era constante na vida do casal, porém sempre por parte de Samanta. O sonho dela era ser mãe. Ele, no entanto, jamais revelara que fizera uma vasectomia meses antes de conhecê-la. E não tinha se arrependido disso mesmo depois de se apaixonar por ela. Crianças, sinceramente, somente a dos outros. E mesmo assim com alguma distância. Marcelo sabia que deveria ter contado para Samanta desde o início. Mas não o fizera. Assim, ela continuava alimentando seu sonho, mal sabendo que com Marcelo isso jamais poderia se concretizar.
− Você não acha? – perguntou ela.
− Acho o quê?
− Os nossos filhos serão muito felizes aqui. Viverão uma infância de verdade e não presos dentro de apartamentos, em uma selva de concreto.
− Ah, claro... Aqui é o lugar ideal – para trocar de assunto, Marcelo rapidamente falou. – Vou deixar você encarregada das reformas, dos pedreiros, de tudo. Com o novo caso que me deram na firma não terei tempo de gerenciar as coisas mais de perto.
− Deixa comigo – Samanta concordou feliz. – Vou adorar me ocupar com a reforma e a decoração da casa. Posso até consultar você de vez em quando.
− Gostaria muito, mas reconheço seu bom gosto. Fico tranquilo deixando tudo em suas mãos.
            Samanta deu uma gargalhada gostosa e o abraçou.
− Tenho certeza de que seremos muito felizes aqui, meu amor.
− Viveremos momentos inesquecíveis neste lugar.
            Eles mal podiam imaginar o quanto a frase de Marcelo tinha de verdadeira.

Capítulo 2

            Devido ao trabalho de Marcelo e ao tempo livre de Samanta, foi ela quem inspecionou as reformas que haviam planejado. Tudo estava saindo bem e dentro do cronograma proposto e o casal não via a hora de se mudar para o condomínio. Todos os dias pela manhã, Marcelo deixava Samanta na nova casa que tomava a forma que ambos desejavam e aparecia para buscá-la no horário do almoço e depois no final da tarde. Ela estava adorando sua nova atividade.
            Parada na calçada, Samanta observava, próxima ao gramado da frente, a paisagista conversar com o jardineiro. Pelo andar da carruagem, ela teria o mais lindo jardim do condomínio. Satisfeita, olhou em volta. As ruas calmas e com pouco movimento eram perfeitas para uma corridinha matutina ou ao entardecer.
            De óculos escuros e com os cabelos cacheados presos no alto da cabeça, Samanta se destacava em qualquer lugar graças ao seu porte altivo. Por isto não estranhou quando percebeu, pelo canto do olho, que alguém a observava da casa da frente. Samanta voltou-se rapidamente para dar o flagra, porém não foi rápida o bastante para ver quem era. Quem a espreitava escondeu-se atrás das cortinas. O mistério permaneceu durante o dia inteiro.
            Mais para o fim da tarde, quando Marcelo veio buscá-la após o trabalho, Samanta comentou:
− Sabe que havia alguém me espionando na casa da frente? Muita falta do que fazer!
− Certamente era algum fã seu. Deve estar se achando o cara mais sortudo do mundo porque você vai morar bem na frente da casa dele. É uma pena, porque quem ganhou a sorte grande fui eu.
− É impossível manter-se modesta ao seu lado, meu amor – comentou Samanta acariciando o rosto dele.
− Você é a única mulher que eu conheço que não precisa bancar a modesta.
− Estou tão feliz que nós vamos morar nesta casa, Marcelo – sussurrou ela enquanto o carro saía do condomínio e pegava a via movimentada. − Espero que os vizinhos também sejam legais.
− Bem, você tem a capacidade de se entrosar com qualquer pessoa, qualquer que seja o lugar. Você realmente não tem com que se preocupar.
− Mas você sabe que muitas pessoas só se aproximam porque sou relativamente famosa.
− Depois que essas mesmas pessoas lhe conhecem de verdade, ficam encantadas com seu carisma. Eu me encantei à primeira vista.
− E eu também – confessou ela com os olhos brilhantes. – Meu encanto permanece até hoje.
            Marcelo olhou para Samanta perguntando-se o que ela havia visto nele. Não que Marcelo fosse um homem sem atrativos. Pelo contrário. Mas sua esposa havia desfilado pelas passarelas de Nova York e Milão ao lado dos homens mais bonitos do mundo. O fato de ela achá-lo interessante e amá-lo a ponto de se casarem, era praticamente um milagre.
− Tenho a mais absoluta certeza de que seremos muito felizes na nossa nova vida – assegurou ele dando um beijo em Samanta.
           
Capítulo 3
           
            Dia da mudança. No interior da casa, Marcelo indicava onde os móveis deveriam ser colocados. Do lado de fora, além de verificar se os seus pertences estavam sendo bem transportados, Samanta observava disfarçadamente a casa da frente, a espera que o “espião” que a observara na vez passada aparecesse novamente por detrás das cortinas. Infelizmente para ela, nada aconteceu. Nenhum vulto suspeito apareceu na janela, a porta da frente se manteve fechada o tempo todo e parecia que realmente não havia ninguém na casa. Dando de ombros, Samanta se consolou pensando que teria muito tempo para descobrir quem a havia espionado.
            Uma mão bateu no ombro dela e Samanta levou um susto. Uma mulher simpática, de aproximadamente 45 anos e baixinha lhe sorria com todos os dentes possíveis. Sorrindo também, Samanta cumprimentou:
− Olá, bom dia.
− Olá, como vai você? Meu nome é Laura e seremos vizinhas. Vim aqui lhe dar boas vindas em nome do nosso condomínio.
            Ambas trocaram dois beijinhos e Samanta ficou na dúvida se ela não seria a moradora da frente.
− Oh, muito obrigada. E você? Mora onde?
− Do lado da sua casa. Estamos apenas separadas por um muro.
− Que ótimo! – exclamou Samanta. – Depois que estiver tudo arrumado, eu convido você para tomar um chá comigo. Você gosta de chá? Ah, eu nem me apresentei. Meu nome é Samanta.
− E quem não sabe disto? Já faz tempo que eu vejo você embelezando as capas das revistas de moda de todo o país.
− Depois que casei com Marcelo somente faço alguns trabalhos eventuais. Prefiro bancar a dona de casa. É bem menos cansativo, acredite.
− Escute, Samanta – disse Laura cada vez mais simpática. – Quando chegam moradores novos no condomínio, nossa associação costuma oferecer uma pequena recepção para que todos possam se conhecer e manter este clima de cordialidade que reina aqui. O que você acha de eu organizar um encontro assim em torno de você e seu marido?
− Eu acho ótimo. Afinal, eu preciso conhecer meus vizinhos. Quando seria?
− Bem, hoje é terça-feira... Que tal na sexta? Fica bom para vocês?
− Sim! – garantiu Samanta animada. – Para mim fica perfeito e tenho certeza que para Marcelo também.
− Então está combinado. Vou avisar os nossos vizinhos. Sexta-feira, às 21 horas. Pode ser?
− Claro!
− Na minha casa, então.
− Eu tenho certeza de que vou adorar conhecer todos vocês.
*
− Eu não vou.
            Samanta colocou as mãos na cintura. Ambos estavam parados no meio do quarto, ainda com as roupas dentro das malas e as portas do closet escancaradas esperando que alguém pusesse ordem na bagunça. Marcelo se despiu atirando a calça e a camisa para cada canto. A única coisa que ele queria era uma ducha relaxante.
− Marcelo, por favor! Não seja antipático.
− Não é que eu seja antipático. Sou apenas antissocial, só isto.
− Bem, então está na hora de você começar a se socializar.
− Justo na sexta-feira? – perguntou Marcelo, já nu e pronto para entrar no banho.
− Qual o problema?
− Sabe como eu vou estar na sexta? Um caco – ele tentou fugir da conversa se enfiando dentro do banheiro. Samanta foi atrás.
− Marcelo, é muito feio deixar as pessoas falando sozinhas.
− Não fiz isto – protestou Marcelo experimentando a água. – É que estou ansioso por um bom banho. Nosso dia foi pesado.
− Se você não for, eu irei sozinha – ameaçou ela.
− Sozinha? Vai me deixar sozinho em uma sexta à noite?
− Você vai ficar sozinho porque quer. Estou lhe dando a opção para me acompanhar.
            Ele ficou em silêncio por alguns instantes, enquanto se metia embaixo da água. Depois disse:
− Sabe o que eu havia planejado para a gente na sexta-feira? Um jantarzinho romântico, um bom vinho…
− Meu amor, teremos todas as noites de sexta-feira das nossas vidas para um programa como esse. Vamos, não seja ranzinza. Eu não posso desmarcar, já concordei com a Laura. A esta altura ela já deve ter convidado os outros moradores. Imagine que chato ter que ligar cancelando tudo? As pessoas vão pensar que somos um casal antipático!
− Está bem – concordou ele, depois de algum tempo em que o único som audível foi o da ducha. – Já que você faz tanta questão…
− Faço questão, sim. Tenho certeza que nós iremos ter uma noite muito agradável.


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sexta-feira, 5 de maio de 2017

O HOMEM DO JARDIM (FINAL)




Francesca estava com as malas prontas no hall da mansão. Sofia a acompanhava enquanto o táxi não chegava.

— Pelo visto todos nós perderemos nossos empregos, Fran – resmungou Sofia, bem desanimada. — Espero que você tenha melhor sorte. Não sobrou ninguém da família nem para nos dar uma carta de recomendação.
— Não fique preocupada, Sofia. Para trabalhar na mansão não é qualquer um. Tenho certeza que logo vocês todos irão conseguir boas colocações – Francesca pegou as mãos de Sofia. — Muito obrigada por ter falado à polícia sobre o que você viu no quarto. Se não fosse seu testemunho, talvez eles não acreditassem em mim.
— Só falei o que eu vi. Você está com alguns hematomas, Fran. Qualquer perícia afirmaria que você foi agredida por ela. Tudo o que aconteceu foi por legítima defesa.

Francesca suspirou.

— A única coisa que eu queria era um emprego tranquilo. Eu gostava tanto de Dona Laura.
— Quer dizer que você enxergava o falecido no jardim? Meu Deus, só de pensar fico toda arrepiada! Este era o maior mistério das redondezas!
— Incrível, não? Gregório foi aparecer justo para mim!
— Dona Magda... Nunca ia imaginar que a própria filha foi capaz de matar o pai. Ela guardou o segredo por anos. Isto que é ter sangue frio!
— E eu cheguei para estragar tudo. Ela só podia querer me matar mesmo.
— Quando a polícia terá resultado se o corpo é do marido de Dona Laura?
— Ainda vai demorar um pouco. Talvez eu até tenha que voltar aqui outras vezes.

Naquele momento o táxi apontou no caminho que levava à mansão. Francesca, sentindo um misto de saudade e tristeza, despediu-se de Sofia.

— Obrigada mais uma vez.

As duas jovens trocaram um abraço apertado e Francesca embarcou. Lentamente, o veículo percorreu o trajeto que levava à estrada. Saudosa, a moça se virou para trás. Queria lançar um último olhar à mansão.


Francesca sufocou um grito. O espectro de Magda a encarava entre as árvores.