sexta-feira, 15 de junho de 2018

MEU AMOR MISTERIOSO - ASSOMBRAÇÃO







Dona Iara e Ricardo acharam a ideia excelente. O evento terminou por volta das 15 horas e dali Mariana e Clarissa saíram juntas.
Assim que Mariana deu a partida no motor a garota perguntou, curiosa:
– Você já foi à hospedaria alguma vez?
Mariana respondeu enquanto manobrava o carro:
– Sim, há muitos anos, quando ela estava no auge – suspirou. – Era um lugar muito bonito, cheio de gente sofisticada e alto astral. Não acreditamos quando fechou. Ninguém esperava por aquilo.
– Meu vô disse a mesma coisa. E eu quase não acreditei. Ontem… bem, ontem parecia tudo normal lá em cima. Quase normal, com exceção dos hóspedes que me ignoraram ou fugiram.
A outra ficou silêncio quase todo o caminho. Clarissa a observava com o canto do olho, tentando adivinhar o que se passava na cabeça dela. Mariana não estava sendo apenas “legal”. Havia alguma coisa por trás daquele convite. Clarissa tinha quase certeza que Mariana conhecia Dani. Só não conseguia imaginar qual a relação que ambos poderiam ter.
O bairro estava deserto quando o carro cruzou as ruas pouco arborizadas. Sacos de lixo se acumulavam nas calçadas. Nem todas as casas estavam abandonadas. Havia alguns carros nas garagens, mas não se via vivalma caminhando pelos passeios. Clarissa murmurou:
– Onde está todo mundo?
Mariana conduziu o carro ainda imersa em silêncio. Ela parecia tensa, apertando com força o volante. A hospedaria se aproximava e Clarissa se deu conta que segurava o ar.
A placa com os dizeres “hospedaria” estava pendurada, presa por somente um prego, sem charme nenhum. Mariana perguntou:
– Quer mesmo subir?
Os olhos de Clarissa estavam arregalados. As coisas estavam bem diferentes. O calçamento desmoronava. Havia partes da calçada que estavam esburacadas e havia menos árvores. Nada parecia ter vida naquele lugar.
– Sim, eu quero.
Mariana começou a subir a lomba ignorando os solavancos causados pelos buracos.
– A ganância deixou este local magnífico ficar deste jeito – suspirou ela com as mãos firmes na direção. – Você não tem ideia de como esta propriedade era incrível.
Clarissa tinha ideia, sim. Pudera ver com seus próprios olhos todo o glamour de Castelo de Pedra. Há apenas 24 horas a hospedaria parecia emitir luz própria, pulsando vida e beleza. Porém, ao chegar lá em cima tudo o que Clarissa via era o mato tomando conta, o telhado faltando em algumas partes e a madeira sendo consumida pelo cupim.
– Vamos descer – disse Mariana abrindo a porta do carro.
Clarissa, em choque, levou alguns segundos para sair do seu torpor. Lentamente, ela saiu do carro com os olhos arregalados. O primeiro passo dado quase a levou ao chão quando, distraída, enfiou o pé em um dos tantos buracos. Mariana alertou, preocupada:
– Olhe onde você pisa, Clarissa. O terreno não é de confiança.
As duas caminharam lado a lado pelo jardim devastado. Os balanços estavam pendurados pelas correntes de um lado só ou quebrados. Não havia flores em lugar nenhum. Do banco onde sentara ao lado da velha senhora só restara o assento. A garota olhou ao redor. A hospedaria nada mais era que um esqueleto, uma montanha de ossos abandonada.
– Onde você viu o rapaz? – a voz de Mariana rompeu o silêncio. Ela também não se sentia bem naquele lugar. Apesar de saber o estado precário da hospedaria, não imaginava que tudo estivesse tão arrasado. O interior deveria estar pior ainda devido ao telhado em péssimas condições e a chuva que caía dentro. O cenário era desolador.
– Lá – Clarissa apontou para a edificação que, no dia anterior, se erguia imponente. Ela não sentia a menor vontade de seguir naquela direção.
Mariana tomou a frente e Clarissa terminou por segui–la. Quando se aproximaram Clarissa se deparou com a enorme janela totalmente fechada por pedaços de madeira.
– Não estava assim ontem – ela murmurou, chocada.
– O rapaz tocava piano dentro do salão? – indagou Mariana com a voz sumida.
– Sim. E era o salão mais lindo que eu já vi na minha vida.
Mas agora não havia nada. Clarissa e Mariana ficaram paradas, lado a lado, sem saber ao certo o que fazer.
– Não é perigoso?
– O quê?
Clarissa sacudiu os ombros.
– Ficarmos neste lugar, sozinhas.
– Nada acontece aqui.
Ambas falavam em tom baixo como se tivessem medo de serem ouvidas. Clarissa, então, decidiu caminhar até a grande janela do salão. Queria tocar na madeira para ter certeza que ela era de verdade.
Mariana ficou parada no mesmo lugar enquanto Clarissa se dirigia até o janelão. Ela se posicionou em frente, respirou fundo e encostou a ponta do dedo.
A madeira estava ali. Úmida pelas condições climáticas e alertando que ela existia de verdade. Mesmo assim Clarissa não se deu por vencida. Precisava se certificar. Bateu com o nó dos dedos na madeira, suavemente. Depois usou de mais força dobrando o peso da mão. A madeira cedeu um pouco.
– Não convém forçar muito, Clarissa – advertiu Mariana sem entender direito o que a garota pretendia.
Mas foi exatamente o que Clarissa fez. Sem pensar ela deu um empurrão na madeira para testar sua resistência. A madeira não suportou a pressão. Com um estrondo ela desabou para dentro do salão, revelando um lugar escuro, fedendo a mofo e à podridão.
Mariana deu um pequeno grito, enquanto a própria Clarissa colocava a mão no coração, de susto. Ela aproximou–se um pouco mais. Precisava saber se realmente havia um piano lá dentro.
Um clarão iluminou o céu e o interior do salão. Clarissa enxergou nitidamente Dani, em pé, no meio do vasto aposento, encarando–a com um olhar triste.
O relâmpago durou meio segundo, se tanto, mas foi o bastante para Clarissa recuar com um grito de horror, tropeçar e cair sobre as pedras. Ela se levantou em seguida, apavorada e com as palmas das mãos sangrando. Mariana, pálida, precipitou–se em sua direção tentando ajudá–la.
– Clarissa, o que houve?
– Vamos embora daqui!
Clarissa caiu de novo desta vez aos pés de Mariana. A imagem vista dentro do salão a assustara terrivelmente. Mariana tentou ajudá–la a se levantar preocupada com o estado da garota.
– O que você viu? – perguntou ela, ansiosa, reparando nas mãos ensanguentadas e trêmulas de Clarissa. – Clarissa, me conte o que foi!
A garota finalmente ficou em pé evitando olhar na direção do salão. Tinha medo de ver Dani na janela feito uma assombração.
– Vamos sair daqui! – repetiu Clarissa muito pálida.
As duas correram para o carro e, antes de dar a partida, Mariana insistiu:
– O que você viu lá dentro?
A voz de Clarissa custou a sair:
– Eu vi… Eu vi… Ele parado no meio do salão.
– O quê?
Mariana deixou o motor apagar e Clarissa ficou mais apavorada. Estava morrendo de medo que alguém aparecesse de repente na frente do carro e impedisse a saída delas de lá.
– Ele está lá! – Clarissa respirou fundo. – Meu Deus, eu acho que é ele sim!
– Não pode ser! – o carro apagou de novo nas mãos de Mariana. – Não tem ninguém lá dentro! A hospedaria está fechada há anos!
Clarissa não respondeu. E nem poderia. A respiração ofegante e entrecortada lhe impedia de articular as palavras.
Mariana finalmente conseguiu fazer o carro movimentar e, rapidamente, as duas saíram dali. Em silêncio cruzaram o bairro deserto. Ameaçava chover novamente em Santa Maria da Serra.
– Está doendo? – Mariana perguntou com a voz estrangulada.
– Hein?
– Suas mãos – ela apontou com a cabeça para as mãos feridas de Clarissa. – Estão machucadas.
– Oh, é mesmo.
Clarissa recém havia se dado conta que as mãos estavam arranhadas e sangrando. Isto não importava tanto. Estava chocada demais com o que vira na hospedaria.
– Estou bem.
– Tem uma caixa de lenços de papel no porta–luvas. Pode usar.
– Obrigada.
À medida que se afastavam, tanto o coração de Clarissa quanto o de Mariana pararam de bater com tanta força. Volta e meia Mariana respirava fundo, tamborilando os dedos no volante. Parecia querer falar alguma coisa. Por fim disse:
– O que você vai dizer para sua avó sobre as mãos esfoladas?
– Já tenho a mentira pronta – confessou Clarissa. – Vou contar que estivemos em uma das trilhas que levam às cachoeiras e acabei escorregando. Isto explica minha calça suja de terra.
– Vou entrar junto com você. Dona Iara pode se aborrecer por eu não ter lhe cuidado direito.
Quando chegaram em casa, mais calmas, Dona Iara não desconfiou dos machucados de Clarissa e ainda convidou Mariana para tomar um chá. Enquanto as duas conversavam na cozinha, Clarissa observou o modo que Mariana se comportava. Depois do que acontecera a mulher parecia ainda mais esquisita. Ela respondia aos monossílabos e bebeu um número maior de xícaras de chá a que estava acostumada. Era nítido o esforço que fazia para manter a serenidade. Dona Iara não percebeu nada.
Depois da quarta xícara de chá Mariana se levantou tão bruscamente para ir embora que a cadeira caiu para trás. Com o rosto em chamas ela tentou se desculpar:
– Oh, perdão, Dona Iara. Como sou desastrada!
Os olhos de Clarissa e Mariana se encontraram por um instante, mas a mulher logo tratou de desviar o olhar. Mariana se despediu de Dona Iara e deu um abano rápido para a menina. Ela saiu apressada e em seguida foi ouvido o barulho do carro indo embora.
Clarissa se aproximou da janela. As nuvens que antes ameaçavam cair com força haviam dado lugar às estrelas. Dona Iara parou ao lado da neta e perguntou:
– Estava bom o passeio?
A jovem evitou olhar para a avó.
– Ótimo. Pena que eu não olhei para onde pisava.
– Mariana é uma ótima pessoa, só muito reservada. Me surpreendi de ela ter convidado você para um passeio. É um bom sinal.
Clarissa também estava muito surpresa. Mariana havia mudado depois de ter visto o desenho de Dani. Tinha certeza que ela o conhecia. Ou alguém próximo a ele.
– Por que você acha que é um bom sinal, vó?
 – Mariana não se relaciona com muitas pessoas. Às vezes tenho a impressão que ela tem medo de conversar com gente diferente. Acho que ela não lhe encara como uma ameaça. Ou uma intrusa. Talvez minha amiga esteja mudando. Fará muito bem a ela.
A garota tentava não pensar na visão que tivera. Tinha sido horrível. Assustador. Dani, ou seja lá quem ele era, era dono de um semblante muito triste, de cortar o coração.
Havia alguma errada naquele lugar.
Ela precisava saber o que existia de verdade lá em cima. Uma hospedaria em ruínas ou um lugar em seu esplendor? A hospedaria estava em funcionamento ou seus hóspedes transitavam em outro mundo?
Mas... se eles transitavam em um plano diferente, isto significava que estavam mortos?
– Ai, meu Deus! – gemeu Clarissa sentindo um arrepio.
– O que houve? – Dona Iara estranhou. – As mãos estão doendo?
– Ardendo, mas não é nada – ela novamente evitou olhar para a vó. – Já vai passar.
Naquela noite Clarissa custou a dormir como já era o esperado. E, por precaução, deixou a luz do abajur acesa. Cada ruído da casa ou na rua era motivo para o coração acelerar. O desenho de Dani estava bem guardado na bolsa. Desde que voltara não tivera mais coragem de olhar para ele.
“Dani, quem é você?”
A dor dos olhos do rapaz doía também no peito de Clarissa. No fim das contas, por volta das duas horas da manhã, ela já não sabia mais o que havia visto na hospedaria. Sua mente estava lhe pregando peças. Mas, por via das dúvidas, era melhor mesmo deixar a luz acesa.



segunda-feira, 4 de junho de 2018

MEU AMOR MISTERIOSO - O CONVITE






O salão onde se realizava o encontro estava cheio de gente simpática e ávida por uma conversa. Dona Iara fez questão de apresentar a neta para as pessoas, fato que não deixou Clarissa muito contente. Não naquele dia, pelo menos, quando seu humor não estava dos melhores. Ela não se desgrudava da bolsa de jeito nenhum. E não era por causa dos seus pertences. O desenho de Dani se tornara algo precioso demais. De jeito nenhum podia perdê-lo ou amassá-lo.
Meia hora depois de terem chegado ao salão Mariana surgiu com suas roupas sóbrias e o cabelo preso em um coque. Ela pareceu um pouco tímida enquanto vasculhava o ambiente procurando algum lugar para sentar. Todas as mesas já estavam ocupadas. Dona Iara, assim que a viu, fez um amplo gesto com a mão chamando-lhe para ficar com eles. Clarissa percebeu o sorriso aliviado insinuando-se entre os lábios dela quando se aproximou da mesa. Dona Iara já tinha providenciado uma cadeira extra e todo mundo se apertou um pouco para Mariana poder sentar.
— Muito obrigada, Dona Iara. Achei que não encontraria lugar para mim – agradeceu ela.
— Você sempre terá lugar conosco, Mari. Pensei que você não viria.
Clarissa prestava bastante atenção nas coisas que Mariana falava. Sentia certa curiosidade sobre a vida dela.
— Meus gatinhos sempre me prendem na hora de sair – respondeu, sorrindo, como se tivesse falando de algum filho. — Acho que eles não gostam de ficar sozinhos.
A jovem resolveu se intrometer na conversa.
— Adoro gatos. Se um dia eu morar sozinha também vou querer ter vários para me fazer companhia.
Assim que falou Clarissa se deu conta que havia sido um pouco inconveniente. Mariana disfarçou olhando as unhas e Dona Iara fuzilou a neta com os olhos. Ela tentou ajeitar:
— Gatos são excelentes companhias para qualquer pessoa.
— Tem razão – Mariana concordou disposta a quebrar o clima estranho que se formou. — Me divirto muito com eles.
Dona Iara elogiou:
— Está muito bonito o seu penteado, Mariana.
Clarissa quase engasgou com o refrigerante. Para variar, o coque de Mariana a envelhecia uns cinco anos. Além do mais, um batom vermelho teria dado mais vivacidade ao seu rosto. De qualquer forma Mariana gostou do elogio.
— Ah, muito obrigada, amiga. Hoje eu não estava com muito tempo para me arrumar. Então fiz um penteado básico.
As duas começaram uma conversa que não interessou nem um pouco Clarissa. Um garçom trouxe os galetos para a mesa e o almoço oficialmente teve início. A comida estava ótima, mas Clarissa mal sentia o gosto. Embora fosse improvável que Dani estivesse no salão, sempre havia alguma esperança de isto acontecer. Os olhos dela eram como um radar esmiuçando cada canto do lugar. Havia vários jovens, mas nenhum com as características de Dani para pelo menos ter alguma ilusão de que algo diferente estava para acontecer. Algumas pessoas se aproximavam da mesa para cumprimentar Dona Iara e o vô Ricardo e, algumas vezes, Clarissa percebeu que Mariana a encarava como se quisesse perguntar alguma coisa. Esta situação a deixava um pouco constrangida e intrigada. Afinal, se Mariana queria saber algo, que perguntasse de uma vez.
— Vó, preciso ir ao banheiro. Onde é?
Antes que Dona Iara respondesse, Mariana se adiantou:
— Eu também estou precisando usar, Clarissa. Posso lhe levar.
— Ah… que ótimo – murmurou ela levantando-se devagar. Quem sabe agora Mariana desembuchasse de vez?
As duas caminharam em silêncio até o banheiro do outro lado do salão. Clarissa simplesmente não sabia o que dizer e não tinha coragem de encará-la. O banheiro era grande e com um enorme espelho. Naquele exato momento estava vazio. Quando Clarissa saiu da sua cabina pensou seriamente na hipótese de voltar para o salão e deixar Mariana sozinha. Contudo, antes que tomasse qualquer atitude, a mulher saiu da sua própria cabina e deu mais um daqueles sorrisinhos estranhos.
— Como foi sua primeira semana na cidade, Clarissa?
Finalmente Mariana falara alguma coisa. Enquanto lavava as mãos, a jovem respondeu:
— Interessante. Passeei algumas vezes de bicicleta.
— Quando eu tinha sua idade adorava andar de bicicleta também.
— Ah…
— Não viu mais o menino bonito da feira?
Clarissa a encarou. Seria isto que desde o início ela queria saber? Qual o interesse nela por Dani?
— Eu… não exatamente. Bem, eu… eu o segui um dia destes.
Mariana se empertigou.
— Sério? Conseguiu falar com ele?
Por algum motivo Clarissa sentiu vontade de contar sua história estranha para Mariana. Ela não fazia o tipo que iria pegar um megafone e contar para a cidade inteira.
— Não. Mas eu descobri onde ele está hospedado.
— Onde?
O banheiro continuava vazio, propício para a grande revelação.
— Na hospedaria.
Mariana fez uma expressão de incompreensão.
— Que hospedaria?
— Castelo de Pedra.
Ela empalideceu e colocou a mão no coração.
— Como assim? Castelo de Pedra? Mas esta hospedaria não existe!
Um rubor subiu ao rosto de Clarissa. Ao contar a história percebia o quanto aquilo era ridículo.
— Mas eu o segui até lá. Atravessei o bairro arborizado, subi o caminho de pedras que leva até a hospedaria e encontrei duas meninas brincando no jardim bonito. Havia uma senhora sentada em um banco fazendo crochê, mas ninguém me deu bola. Então escutei o som de um piano.
— Piano?
Mariana se mostrava cada vez mais surpresa. Toda a cor desaparecera do seu rosto.
— Exatamente, um piano. Caminhei até um salão cujas janelas davam para o jardim. Ele tocava piano lá dentro.
— Ele… viu você? – a voz de Mariana saiu sombria.
— Que nada! Nem olhou para o lado!
— Então vocês não se falaram?
— Não. Quando me dei conta já estava anoitecendo e eu estava longe de casa. Tive que voltar.
— Que pena... vocês não terem se falado.
Clarissa olhou para Mariana.
— Você está se sentindo bem?
— Eu? Claro! Acho que minha pressão caiu um pouco.
— Eu desenhei o rapaz. Na verdade, eu o chamo de Dani para ficar mais fácil. Quer ver?
— O quê?
— Meu desenho. Acho que está bem fiel.
Mariana balançou a cabeça dizendo que sim. Clarissa abriu a bolsa e pegou o desenho guardado dentro de um envelope cor-de-rosa.
— Veja. Ele é assim.
Clarissa ficou surpresa ao ver a fisionomia de Mariana se alterar mais ainda.
— É este o rapaz que você… se apaixonou?
Mariana pegou o desenho das mãos de Clarissa para olhar mais de perto. Intrigada, a jovem perguntou:
— Você o conhece?
— Não – disse ela, rapidamente, devolvendo o pedaço de papel para Clarissa. — Ele é um rapaz muito bonito.
Mariana respirou fundo e se recompôs logo.
— E então? Você pretende voltar à hospedaria?
— Sim – Clarissa estava muito determinada. — Acho que hoje não poderei ir por causa deste encontro. Além do mais, é domingo e deve estar mais deserto por aquelas bandas. Mas amanhã é certo que eu vou. Mariana, não encontrei ruína nenhuma por lá. Preciso ver tudo outra vez.
— Eu posso levar você hoje, se quiser.
Clarissa pensou ter escutado mal.
— Onde? Na hospedaria?
— Por que não? – Mariana parecia ansiosa para que Clarissa aceitasse o convite. — Eu estou com a tarde livre. E você também, pelo visto. É melhor ir de carro do que de bicicleta.
— Eu acho ótimo! – a garota ficou empolgada. — Mas eu prefiro não comentar nada com meus avós. Eles vão achar estranho.
— Não há problema. Eu posso dizer que vou levar você para dar uma volta pela cidade para conhecer alguns pontos turísticos. O que você acha?
— Formidável.



quarta-feira, 16 de maio de 2018

MEU AMOR MISTERIOSO - OLHE PARA MIM








  

Era cerca de onze horas da noite e vô Ricardo fumava cachimbo na varanda. Dona Iara já tinha ido para a cama e Clarissa, inquieta, não tinha sono nenhum. Precisava falar com alguém sobre a hospedaria. Aquelas informações do site não podiam estar certas. Estivera há poucas horas no local e não havia ruínas de nada.
— Oi, vô.
Ricardo levantou os olhos das palavras cruzadas que estava fazendo.
— Achei que você já tivesse dormindo.
— Estou sem sono, por enquanto – ela puxou uma cadeira e sentou frente a ele. Pretendia ir direto ao assunto, sem enrolação. — Eu estive fazendo umas pesquisas agora sobre a cidade.
— Ah, isto é ótimo. Temos muitos lugares bonitos aqui para ver.
— Entrei em um site que falava sobre vários lugares, inclusive sobre uma hospedaria antiga.
O homem levantou os olhos, intrigado.
— Castelo de Pedra?
Os olhos dela brilharam.
— Você conhece?
— Claro que sim. Era o local mais chique da cidade. Fui a várias festas lá quando era solteiro. E depois de casado também.
— “Era” o local mais chique?
— Sim, ela está fechada há quase trinta anos. Isto não está no site também?
Clarissa sentiu o coração acelerar.
— Sim, está... Mas é que... as fotos são tão bonitas que eu não acreditei.
— Infelizmente, é verdade. O proprietário morreu, já era velho e estava doente. Depois os herdeiros começaram a brigar entre si. Ninguém nunca se entendeu. Não sei como está a questão hoje. O certo é que hoje Castelo de Pedra são só ruínas.
— Ruínas, vô? – Clarissa chegou a se sentir enjoada. — Mas como?
— Não tem explicação, Clarissa. São coisas que acontecem. Parece que tentaram revitalizar a hospedaria, mas a briga na justiça desestimulou todos investidores que apareceram.
“Eu não estou louca. Eu vi aquelas crianças. Sentei ao lado de uma hóspede. Eu assisti Dani tocando piano. Nada estava caindo aos pedaços.”
— Onde ela fica, vô?
Ricardo deu uma risada.
— Não me diga que você pretende fazer uma visita? Sua vó vai enlouquecer. De qualquer forma, é longe. Talvez de bicicleta você não se canse tanto. A hospedaria fica quase na saída da cidade, em um bairro que foi planejado justamente em torno dela. Depois que Castelo de Pedra fechou as portas, o lugar ficou quase abandonado. Antes era um bairro lindo, muito arborizado, muitas flores. Parece que ainda mora gente, mas são poucas pessoas. Eu passei uma vez por lá. Chegou a bater uma certa tristeza, até.
Ele fez uma pausa.
— Você pretende visitar o lugar? Sua curiosidade é tão grande assim?
Clarissa fez força para manter a voz normal.
— Eu achei as fotos muito bonitas, vô. Estou meio… chocada em descobrir que não existe mais nada lá.
— A cidade ficou pasma como você está agora quando a hospedaria fechou. Foi um baque. Parecia que tínhamos perdido alguém da família.
Um vazio no peito, inexplicável, fazia com que a respiração de Clarissa ficasse entrecortada. Ela ficou em silêncio por alguns instantes tentando pôr os pensamentos no lugar. Não conseguiu.
— Passaram alguns anos até todos nós nos acostumarmos com a situação – prosseguiu Ricardo dando uma longa tragada no cachimbo. — Preferia que tivesse passado um trator por cima do Castelo a saber que está naquele estado. Você não tem ideia do quanto aquele lugar era lindo, Clarinha. Uma pena que você não pôde conhecer.
Como explicar ao avô que havia conhecido a hospedaria e um pouco das suas belezas? Precisava voltar para conferir tudo outra vez. Aquilo a perturbava de tal maneira que uma dor de cabeça forte começou a incomodá-la.
— Estou impressionada com tudo o que você me contou, vô. Talvez eu até sonhe com a hospedaria! – Clarissa tentou fazer graça em cima do assunto que a deixava tão desnorteada. — Bem, eu preciso ir dormir. Já é tarde.
Ricardo consultou o relógio e se espreguiçou.
— Daqui a pouco eu irei também. Boa noite, Clarinha.
Clarissa beijou a bochecha do avô e foi para o quarto. A garota ficou cerca de uns cinco minutos parada em pé no meio do aposento respirando fundo. Não havia imaginado coisas. Castelo de Pedra estava em pleno funcionamento, com hóspedes, com vida! Aquilo tudo não passava de uma piada.
Ela foi até a gaveta e pegou uma folha de papel. Apesar da dor de cabeça, ainda não pensava em ir para cama. Com uma caneta azul levou cerca de vinte minutos para desenhar o rosto de Dani. Os professores a consideravam uma boa desenhista, mas Clarissa nunca levara muito sério. Mas naquela noite ela precisava demais usar os seus dotes. Quando terminou suspendeu a folha a sua frente e suspirou. Sim, havia ficado bem parecido.
Apesar de nunca ter ficado cara a cara com Dani, Clarissa tinha certeza que conseguira passar seus traços principais para o papel. O rapaz do desenho a encarava com seus olhos doces e curiosos e a boca de lábios finos estavam em um meio sorriso, exatamente como no momento em que ele tocava piano. Era tão bonito que Clarissa fechou os olhos sentindo o coração se partir de dor. Sofrer por um desconhecido não estava nos seus planos. Quando o encontrasse iria perguntar a ele porque escolhera tocar piano em um lugar virado em ruínas.
“Eu vou voltar a vê-lo, Dani, ou seja lá qual for seu nome. E, por favor, quando este momento chegar, olhe para mim.”
*
Quando finalmente dormiu, com o desenho ao lado na cabeceira, Clarissa teve vários sonhos estranhos com Dani e com a hospedaria. Acordou às nove horas da manhã com a impressão que as garotinhas que encontrara no jardim da hospedaria faziam algazarra aos pés da sua cama. No entanto, era a avó que conversava com o marido na cozinha, dando risadas de vez em quando.
— Finalmente você acordou! – saudou Dona Iara esquentando o leite no fogão. — Esqueci de lhe dizer que hoje temos compromisso na hora do almoço.
A primeira coisa que veio à mente de Clarissa foi a hospedaria. Por alguns instantes achou que alguma coisa estaria acontecendo por lá.
— Que compromisso, vó? – ela sentou à mesa e pegou um pedaço de bolo.
— Um encontro de famílias na igreja. Será servido galeto. Assado pelo seu avô!
A avó parecia bem empolgada contrastando com o humor sombrio da neta. Seu Ricardo apareceu na cozinha vindo do quintal e exclamou:
— Nem coma muito. Hoje você experimentará o melhor galeto que comeu na sua vida!
Clarissa tentou sorrir ainda mastigando um pedaço de bolo.
— Que legal. Estou ansiosa.
No fundo o que mais Clarissa queria era voltar à hospedaria e conferir como estavam as coisas. Mas, pelo visto, naquele domingo seria bem complicado. Ela tomou o desjejum quase que em silêncio, somente escutando a conversa animada dos avós. Percebeu que o encontro das famílias da comunidade era um evento festivo e muito esperado. Será que Dani não iria aparecer por lá também, mesmo aparentemente sendo um turista?
Clarissa não sabia mais quando havia sido a última vez que seu coração tinha batido de uma forma normal. Dentro do carro do avô, indo para a igreja, o desenho de Dani estava bem guardado dentro da bolsa. Fazia bem para ela olhar para aquela imagem que conseguira construir dele. Durante o trajeto manteve os olhos nas calçadas, rezando para que pudesse enxergá-lo em alguma esquina. Foram várias vezes que seu coração saltara ao visualizar algum rapaz com as mesmas características de Dani. Porém, ao se aproximar, tinha a infeliz surpresa de perceber que a pessoa em questão era bem diferente.



quarta-feira, 9 de maio de 2018

MEU AMOR MISTERIOSO - A HOSPEDARIA








— Clarinha! Olha quem veio nos visitar! – Dona Iara abriu a porta sendo seguida de Mariana e Ricardo. Porém, a casa estava vazia e escura. — Ué! Onde está Clarissa? Clarissa!
Ricardo acendeu a luz da sala. Não havia sinal da neta em lugar nenhum. Ele foi até o quintal e voltou segundos depois.
— A bicicleta não está aqui. Acho que ela foi dar uma volta.
Dona Iara mostrou toda sua inconformidade.
— Ela me disse que ficaria em casa! Já é noite e não voltou!
Mariana tentou contemporizar:
— Pode ser que tenha havido algo urgente para ela fazer.
— Que coisa urgente Clarinha teria para fazer, Mariana? Ela não conhece ninguém aqui!
Ricardo disse:
— Clarissa é uma moça responsável, Iara. Daqui a pouco ela vai estar aí.
Mariana esperou que o homem entrasse na cozinha para sussurrar:
— Será que Clarissa não está de namorado?
— Não, de jeito nenhum! Eu teria percebido! Ela me disse que ficaria aqui, lendo.
Mariana olhou para Dona Iara com uma expressão de riso.
— Vai ver que ela encontrou aquele rapaz misterioso...
— Será? – Dona Iara pôs as mãos na cintura considerando a hipótese. — Ela teria me dito alguma coisa. Clarinha é tão ajuizada...
— Estas meninas são ajuizadas até entrar o coração no meio – devolveu Mariana com uma risadinha. — Mas não se preocupe. Logo ela vai aparecer.
Não satisfeita, Dona Iara foi até a janela.
— Vai chover, Mariana! De novo! E nada desta menina! – na cozinha Ricardo bebia um copo d’água e Dona Iara foi atrás do marido, perturbada. — Será que não é melhor chamar a polícia?
— Para quê, mulher? – Ricardo colocou o copo vazio em cima da pia e encarou a esposa. — Desde quando acontece alguma coisa nesta cidade?
— Ricardo, sua neta sumiu.
— Ela não sumiu. Foi só dar uma volta. Daqui a pouco ela vai chegar. Acalme-se.
Dona Iara, contudo, não conseguia relaxar. Mariana a olhava sem saber o que dizer.
— Eu tenho certeza que a Clarinha vai aparecer a qualquer instante – disse ela, por fim.
— Mariana, ela disse que ficaria em casa lendo! – a mulher apontou para a janela. — Olhe! Já está noite!
Naquele momento a porta da frente se abriu. Mariana e Dona Iara se voltaram no mesmo instante. Clarissa as encarava ainda com a mesma expressão de susto de quando saiu correndo da hospedaria. Nunca pedalara tão rápido na vida para fugir do bairro deserto e suas ruas escuras.
— Clarissa! Onde você estava?
A garota viu o tamanho da encrenca que havia se metido pelo olhar furioso da avó.
— Eu fui... fui dar uma volta – ela respondeu meio gaguejando.  A bicicleta já havia sido deixada na garagem.
— Assim? De repente? E o livro que você disse que ficaria lendo?
Mariana escutava a tudo atentamente.
— Eu li. Mas depois fiquei com vontade de andar… de bike.
— Por que não deixou um bilhete, Clarinha? Você me deixou muito preocupada!
— Vó, por favor, me desculpe! Não quis preocupar vocês!
Ricardo apareceu da cozinha, rindo.
— Sua avó queria chamar até a polícia.
Clarissa empalideceu de vez.
— Nossa, que exagero! Eu nem fui… longe.
Dona Iara fuzilou a neta com o olhar.
— Você foi se encontrar com o tal moço bonito?
Somente então Clarissa se deu conta o quanto Mariana prestava atenção na conversa. O que ela tinha que ver com o assunto?
— Quem me dera, vó!
Ela bem que tentou ser convincente com sua mentira deslavada, sustentando, firme, o olhar inquisidor de Dona Iara.
— Tudo bem. Mas que seja a última vez. Se alguma coisa acontecer o que eu vou dizer para sua mãe?
— Nada. Não vai acontecer nada.
Clarissa ignorou o olhar vigilante de Mariana.
— Vamos encerrar o assunto. Esta confusão até me deixou perturbada. Mariana, eu me esqueci de lhe entregar a encomenda!
— Não tem problema, Dona Iara!
Clarissa aproveitou que a avó tivera a atenção desviada e foi se refugiar no quarto. O coração ainda não havia acalmado quando ela sentou na cama, respirando fundo. Apesar do medo, o retorno para casa havia transcorrido bem. O bairro tão bonito quando de dia, mas tão sinistro ao anoitecer, não ofereceu perigo algum. No entanto, tudo o que vivera parecia ser um tanto estranho.
Castelo de Pedra. Era um lugar lindo, sem dúvida. E os hóspedes? Os poucos que tivera contato haviam se comportado de forma totalmente esquisita.
Dani... Então ele era um pianista? E dos bons. A música que ele tocara ainda ressoava na sua mente e Clarissa esperava dormir naquela noite com ela nos seus ouvidos. Era uma pena que não tivesse percebido a presença dela. Talvez até lhe presenteasse com uma melodia especial. Ah, que romântico seria...
Ignorando a promessa que fizera de se manter longe do notebook, Clarissa foi até a mesinha que ficava encostada a um canto da parede e ligou o computador. Precisava saber mais sobre a hospedaria. Deveria ter algum site em que pudesse ver como eram os seus aposentos. Talvez houvesse até alguma programação de apresentação de Dani ao piano. Seria uma ótima pista.
Quase alucinada, Clarissa jogou no Google “Hospedaria Castelo de Pedra”. Não surgiram muitos links, mas um deles parecia mais esclarecedor. Clarissa clicou no endereço e surgiu um site que falava sobre lugares antigos da cidade. Em um primeiro momento, a garota não entendeu nada. Embora o site fosse atual, as fotos não o eram. Debaixo de cada imagem havia informações sobre o local, curiosidades e detalhes sobre o funcionamento. O maior destaque do site era para a hospedaria. Ansiosa, Clarissa clicou em cima e, à medida que lia, seu semblante ficava cada vez mais pálido:
 A hospedaria Castelo de Pedra foi inaugurada em 1933 e por muitos anos foi o meio de hospedagem mais procurado pelos turistas que chegavam à Santa Maria da Serra. O hotel se destacava pela arquitetura rústica, aconchego dos seus ambientes e pelo jardim criado pelo paisagista da cidade, Breno Pavão. Famosa por suas festas, apresentações e hospedagens de artistas, Castelo de Pedra encerrou suas atividades em 1990, depois que seu fundador faleceu. No local hoje só restam as ruínas de um lugar que embalou os sonhos de muitas pessoas.
Clarissa sentiu o coração quase parar. Não era possível. Havia mais fotos e a garota clicou em todas. As imagens mostravam o auge do hotel. Festas onde pessoas apareciam chiques e felizes. O piano que Dani tocara foi retratado em duas ou três fotos com seus respectivos músicos. Clarissa se deu conta que tremia e decidiu parar de ver aquilo.
Havia alguma coisa muito errada ali.