segunda-feira, 1 de junho de 2020

A COISA (suspense)







            Eu não gostava de ir para a casa da minha avó. Ela no morava no meio do mato, em um lugar que só se chegava por uma estradinha de terra. Era para lá que eu ia durante minhas férias, quando meus pais queriam se livrar de mim. Algumas vezes eu encontrava meus primos na chácara. Outras vezes não tinha ninguém para me distrair. Vovó era uma mulher forte e ativa. Ela fazia tudo dentro de casa. E também não tinha tempo para mim.

            Eu devia ter mais ou menos quinze anos quando aportei em pleno mês de janeiro na casa dela. Para minha sorte, minha prima Betina estava lá e nós nos dávamos muito bem. Destemida, Betina não tinha medo de nada. Ela era um pouco mais velha do que eu e muito atrevida. Betina gostava de nadar no rio que cortava a propriedade a qualquer hora do dia ou da noite. Costumava circular pelos caminhos escuros em plena noite só pelo gosto de aventura. Eu não a acompanhava. Minha avó nunca desconfiou das loucuras da neta mais velha e, se algum dia soube de alguma coisa, também não se importou. Mas eu ficava tensa, deitada na cama, esperando, de olhos arregalados, minha prima favorita voltar para a segurança do nosso quarto quentinho. Eu tinha alguma desconfiança que alguns dos seus sumiços era para Betina se encontrar com algum namoradinho da redondeza. Porém, naquele fim de mundo eu não tinha a menor ideia de quem poderia ser.

            Naquela noite Betina jantou normalmente ao meu lado, ambas sentadas no sofá, tagarelando, animadas. Peguei no sono em algum momento e quanto despertei, às duas horas da manhã, a TV estava desligada e eu sozinha. Estonteada de sono fui para o quarto que dividia com Betina. Para minha surpresa, ela não estava dormindo. Não estava em parte alguma.

            A princípio, levei um susto. Depois me acalmei. Betina devia ter ido dar suas voltas noturnas. Dei de ombros, me preparei para dormir e o sono foi embora. Gostaria muito que minha prima voltasse logo para que eu pudesse ficar mais descansada.

            Cochilei e acordei justo no momento em que ela entrava no quarto. Sentei imediatamente na cama e acendi o abajur. Fiquei assustada. Minha prima estava com as roupas em desalinho e descabelada. Não parecia estar retornando de uma aventura legal.

            — O que houve, Betina?

            Ela não me encarou. Tirou a roupa, vestiu a camisola e só então virou o rosto para mim.

            — Uma coisa me pegou.

            Betina estava sombria e meu coração ficou aflito.

            — Que coisa, Betina?

            — Sei lá – minha prima tremia. — No meio do mato tinha uma coisa. Ou alguém.

            Me assustei ainda mais. Fiz menção de sair da cama e ir até ela, contudo Betina se cobriu com o lençol até a cabeça e me ignorou. Fechou os olhos e fingiu dormir.

*

            Pelo restante do dia também fui ignorada por Betina. Ela construiu uma espécie de muro a sua volta e ficou quase em silêncio total o dia inteiro. Minha avó achou esquisito e perguntou o que ela tinha. Betina foi breve:

            — Dor de barriga.

            Tentei arrancar alguma coisa dela, mas foi inútil. Betina ficou alheia a mim todo o tempo. Reparei alguns arranhões nos braços dela e que foram disfarçados com um casaquinho leve.

            A noite chegou e percebi que Betina foi se tornando mais ansiosa. Fomos deitar cedo e jurei para mim que não iria dormir para controlar os movimentos dela.

            Caí no sono em menos de cinco minutos.

            Acordei, de repente, às duas horas da manhã. Minha prima não estava na cama como eu já suspeitava. Joguei as cobertas para o lado e desci correndo as escadas que levavam ao andar térreo da casa. Mesmo com medo abri a porta da frente.

            Lá fora estava frio e caminhei até a varanda. Minhas pernas tremiam tanto que me apoiei no alpendre. Tudo deserto e escuro. Betina estava em algum ponto do mato que cercava a propriedade. De longe eu escutava a correnteza do rio.

            Não me agradava ficar muito tempo ali fora, mas eu temia por Betina. Por que ela fora atrás do perigo novamente? O que Betina tinha na cabeça?

            Ruídos de passos um pouco mais à frente me provocaram um arrepio na espinha. As pernas me pesaram e eu custei um pouco a me mover do lugar. Os passos pareceram se aproximar e eu dei meia volta e entrei correndo na casa. Encostei-me à porta tentando puxar o ar. E se a “coisa” que pegara Betina tentasse algo contra mim? Sem pensar duas vezes tranquei a porta e, com as pernas bambas, me arrastei até a janela.

            Escondida entre as cortinas, fiquei agachada espreitando o lado de fora. O luar iluminava um pouco mais agora. Tive a impressão que os arbustos se mexiam como se alguém estivesse por ali. O pavor foi tamanho que abandonei o posto e, na correria, derrubei o vaso preferido da minha avó. No quarto, lá em cima, me aproximei de novo da janela, tremendo inteira. Porém, desta vez, parecia tudo calmo.

            Menos eu. Não iria conseguir pregar o olho até Betina voltar. Alguma coisa rondava a casa e eu não tinha a menor ideia do que seria. Não sei qual hora Betina retornou. Mas quando acordei (tive um sono recheado de coisas ruins) ela dormia com a expressão atormentada. Muito pálida.

            Aquele dia foi esquisito. Estava nublado, cinzento e frio, em pleno janeiro. Betina passou o dia de chambre, apática. Vovó deu várias xícaras de chá para ela que, supostamente, sentia dor de estômago. Toda vez que minha vó ia até a frente da casa eu morria de medo que a “coisa” saísse do meio do mato e a atacasse.

            Betina pareceu despertar por volta das oito horas da noite. Eu estava sentada ao lado dela quando minha prima exclamou:

            — Eu preciso ir!

            Sua voz saiu fraca e eu a encarei, pasma.

            — Ir para onde, Betina? Você está doente.

            Vovó estava no quarto assistindo TV e provável que não descesse mais.

            — Ele... ele está me esperando.

            — Meu Deus! Ele quem?

            Betina parecia febril, o que eu confirmei quando encostei a palma da mão na sua testa. Ela não respondeu e caiu em um leve cochilo.

            — Vamos deitar, Betina. Eu ajudo você.

            Ela não ofereceu resistência e em poucos minutos Betina estava na sua cama com dois cobertores por cima. Não falou mais nada e deduzi que caiu no sono logo.

            Restou eu. Sozinha, perguntei o que deveria fazer. A curiosidade era grande, maior que meu medo. Quem estava lá fora? Quem era o habitante noturno que rondava a propriedade da minha avó?

            A coisa.

            Desci, devagar, as escadas. Não haveria mal se eu fosse até a varanda. Ali estaria protegida. Se fosse o caso, era só correr de volta para dentro de casa.

            O ventinho frio era um convite para que eu criasse juízo e retornasse para a segurança do meu quarto. Mas eu fiquei parada no meio da varanda esperando algo acontecer. Por que só minha prima podia cometer loucuras? Eu também queria emoção na minha vida. Um friozinho na barriga me deixou mais encorajada ainda.

            — Ela não virá hoje – eu disse em voz alta.

            Silêncio.

            — Ela está doente.

            Nada mudou. Desci os degraus da varanda e caminhei alguns passos. Seja lá o que fosse, a coisa não queria nada comigo.

            Talvez eu não fosse especial como Betina o era.

            — Ei, você está aí? – levantei a voz um pouco mais ainda temendo que minha vó escutasse. — Ela não virá ver você hoje.

            Um ventinho mais frio fez com que eu estremecesse. Não se ouvia um único som naquele lugar. Decidi, então, voltar para dentro de casa. A razão me dizia que eu não era para estar ali.

            Contudo, antes que eu me virasse senti algo se aproximando por trás de mim. Escutei uma respiração pesada e passos mais fortes. Não tive tempo sequer de ver o que era. Alguma coisa me envolveu passando os braços ao redor da minha barriga. Não tive voz para gritar. O hálito quente no meu ouvido fez com que eu me arrepiasse de prazer (Não! É errado!). Senti-me tonta de desejo, um arrebatamento nunca experimentado. Era tão bom que fechei os olhos, extasiada.

            Desmaiei.

*

            Acordei ao amanhecer de um dia sombrio deitada no piso gelado da varanda. Levantei, fraca, mal podendo sustentar as pernas. Minha avó não podia me ver naquela situação. Do jeito que pude, subi os degraus em direção ao meu quarto. Precisava da minha cama. Não sabia o que tinha acontecido, estava exausta. Me atirei na cama e dormi feito uma pedra. Quando abri os olhos outra vez era perto do meio dia. Betina estava sentada em sua cama e me encarava intensamente.

            — Ele pegou você.

            Minha cabeça pesava.

            — Hein?

            — Você não devia ter permitido – sussurrou ela com os olhos sinistros.

            — Permitir o quê? – sentei com alguma dificuldade.

            Betina veio até mim, devagar. Puxou para baixo a gola da camiseta que vestia. Dois furos bem redondos eram visíveis no seu pescoço.

            — Betina, o que é isto?

            Ela sorriu para mim. Seus caninos estavam maiores e pontiagudos. Eu a encarei, incrédula. Imagens de filmes de terror invadiram minha mente.

            — Somos duas agora – ela murmurou se ajeitando ao meu lado.

            Engoli em seco. Que merda era aquela? Senti uma fome incontrolável.

            — Desejei tanto seu sangue... – Betina sorriu. — Mas eu não podia fazer isto com você.

            — Quem é ele, Betina?

            Ela estava tão bonita naquela manhã... Não tinha mais aquele aspecto doentio.

            — Estou apaixonada, prima. Ah, eu o amo tanto.

            Ela me alcançou um pequeno espelho. Procurei minha imagem no reflexo, mas não a encontrei.

            Betina prosseguiu:

            — Você não devia ter se envolvido, prima. Mas sua curiosidade foi além dos limites. Seguiremos juntas por toda a eternidade. Com ele. É isto que você quer? Responda logo.

            Se eu negasse o que aconteceria comigo? Ganharia uma estaca pontiaguda bem no meio do coração?

            — Betina, estou com fome – gemi. Minha fome era algo difícil de descrever. Não era normal. Eu poderia facilmente avançar sobre o pescoço de qualquer mortal que ousasse aparecer na minha frente.

            — Calma – pediu ela. — Podemos ir até a casa do seu João. Lembra que a esposa dele ganhou bebê mês passado?

            Seu João era um senhor muito simpático que prestava serviços caseiros para minha avó. Não, eu não queria ir até lá. Precisava de sangue. Urgente. Para ontem.

            — O gato – sussurrei. — O gato dela.

            Pimpão, o gato angorá da minha avó. Ela o adorava. Eu também.

            — Ótima ideia. Sabe, também estou com fome – revelou Betina. — Acho que vou pegar o coelho dela também.

            Naquele momento a porta do quarto abriu. Vovó nos encarou, sorridente, de avental. Na certa preparava o nosso almoço. Eu senti o aroma subir as escadas e entrar no meu nariz.

            — Bom dia, meninas! Fiquei preocupada! Dormiram tanto hoje!

            Eu olhei para Betina. Betina me devolveu o olhar.

            Desculpe, vovó.


quinta-feira, 28 de maio de 2020

MARIA E A BONECA DE CACHINHOS DOURADOS (infantil)





No seu aniversário de seis anos Maria ganhou dos pais um presente inesquecível.

Uma linda boneca de cachinhos dourados.

Maria mal podia acredita que agora tinha nos seus braços o presente mais esperado de todos. Seu sonho dourado. Anabel passou a ser sua boneca preferida. Maria realmente amava aquela boneca.

Para onde Maria ia, Anabel ia junto. Nas viagens, na pracinha do condomínio, na casa das primas. Eram companheiras inseparáveis. Porém, um dia aconteceu algo inesperado. Maria estava brincando nos balanços da pracinha do seu prédio quando desabou um temporal com raios e trovões.

E Maria morria de medo de tempestades.

A babá puxou a garotinha pela mão e ambas entraram no prédio, apavoradas com a violência da chuva que desabava. Mas só quando estava na segurança e do calor da sua casa, Maria se deu conta que a babá não tinha pego Anabel do banco da pracinha.

Maria se desesperou. Chorou e sapateou. Mas a chuva estava muito forte para descer. Quando finalmente a chuva amainou, uma hora depois, a babá e Maria foram correndo até a pracinha.

Anabel não estava mais lá.

Ansiosa, Maria procurou por todos os cantos, mas nada da boneca. Desalentada, a garota voltou para casa, triste e chorosa. Não quis jantar e seu sono foi interrompido por sonhos ruins em que Anabel nunca mais iria voltar.

A mãe, percebendo a tristeza da filha, apareceu dois dias depois com uma boneca nova. Era bela e vistosa, contudo não era Anabel.

Os dias passaram e nada de Anabel. A boneca nova, que nem nome tinha, continuava sentada no sofá com seu sorriso congelado e cabelos não tão brilhantes quanto os de Anabel.

Então, um dia em que passeava com mãe até a confeitaria (quem sabe um brigadeiro animasse a filha?), Maria enxergou, encostado a um muro, um amontoado louro jogado no chão. Soltando as mãos da mãe, Maria correu até lá e juntou aquele ser inerte.

Anabel. Suja, cabelos emaranhados e com terra entre os fios, roupas encardidas. Mas o sorriso brilhante ainda era o mesmo. Era a sua Anabel.

Nem precisaram ir até à confeitaria. Mãe e Maria voltaram para casa e mergulharam a boneca em uma bacia cheia de água perfumada. As roupas foram postas fora e a avó prometeu que costuraria um novo vestido para Anabel. Um vestido cor de sol. Os cabelos ganharam novo penteado e quando Maria foi dormir com a sua boneca, ela estava toda cheirosa.

Anabel voltara de vez para casa.


sábado, 23 de maio de 2020

COVA RASA (Conto de terror)





Era uma criança muito bonita. Quando me candidatei ao emprego fiquei encantada com tanta formosura. Laila tinha cinco anos e doces olhos azuis. Parecia tão mimosa que rezei para conseguir aquela colocação. Passei por uma entrevista tranquila. A mãe de Laila, fisicamente muito parecida com a filha, me passou confiança e sensatez. Fiquei em torno de uma hora naquela casa e adorei tudo. A criança perfeita, pais lindos, atenciosos e educados. Seria tão bom se eu conquistasse o emprego de babá de Laila! Resolveria muito dos meus problemas. Eu ficaria muito feliz de viver naquela casa enorme e confortável. Na hora de ir embora, Laila fez questão de me dar um abraço bem apertado e nunca me senti tão acolhida.

            A resposta veio em uma semana. Eu estava empregada! Juntei minhas roupas em duas mochilas e no dia combinado assumi minhas funções de babá da Laila.

            A família morava numa grande casa em um bairro afastado do centro. Havia outras residências no condomínio, mas o contato com a vizinhança era mínimo. No início estranhei. Parecíamos tão isolados! Porém, logo me vi às voltas com os cuidados de Laila. Os pais saiam cedo para o trabalho e nós passávamos o dia todo juntas. Laila foi um amor nos dois primeiros dias.

            Até que ela resolveu matar um gato.

         Eu estava preparando o almoço com a porta da cozinha aberta para o vasto jardim. De repente olhei para o lado e deparei-me com Laila, tão angelical no seu vestidinho cor-de-rosa, segurando um gato branco pelo pescoço. Dei um grito e soltei a colher que caiu no chão espalhando comida. Os olhos de Laila, tão frios, e o gato de língua de fora me deixaram muito assustada. O rosto de Laila era uma máscara de maldade. Nem parecia a menina fofa que eu aprendera a amar.

            — Laila, o que você fez?

            Ela sorriu e largou o bicho no chão. Eu nunca havia visto aquele gato na vida. Devia ser dos vizinhos. Eu queria muito que Laila respondesse que não tinha nenhuma relação com a condição do bicho.

            — Eu o matei.

             A confissão feita em tom frio me chocou mais ainda. Tentei fingir serenidade. Laila parecia possuída por um espírito maligno e eu não podia mostrar para ela o quanto aquilo tudo era terrível para mim.

            — Por que você fez isto com o gato, Laila?

            — Não gosto dele.

            Fiquei sem ter o que dizer. Olhei para o gato morto aos pés da criança. De uma hora para outra os olhos azuis se tornaram doces. Outra garota. Eu permanecia pasma.

            — Bem, temos que enterrá-lo.

            Laila pulou por sobre o gato, passou por mim ignorando-me totalmente e foi para a sala assistir televisão. Fiquei estática por alguns segundos, meio catatônica. Eu teria que enterrar o gato. Nunca tinha passado por uma situação semelhante na vida.

            Achei uma pá na garagem e fiz uma cova para enterrar o bicho. Quando terminei, meia hora depois, eu sentia uma bola dentro do estômago. De repente, Laila e aquela casa me pareceram muito sinistras.

            O restante da tarde foi tranquilo, mas não consegui mais ficar à vontade com Laila. Ela, contudo, se portou normal o tempo todo. Almoçou bem, dormiu o soninho da tarde, andou de bicicleta pelas ruas do condomínio, sempre sorrindo e exalando doçura. Era tudo muito surreal.

            Os pais chegaram no horário habitual e aproveitei o momento que a mãe de Laila estava na cozinha para contar o ocorrido. Ela me escutou atentamente enquanto tomava um copo de suco de laranja. Era possível escutar os gritinhos felizes de Laila brincando no outro cômodo com o pai.

            — Posso entender seu desconforto afirmou ela me olhando fixamente. Peço que não se assuste. Laila é assim mesmo.

            — Assim mesmo? Como assim?

            — É um traço da sua personalidade a mulher baixou o tom de voz. Ela não gosta de animais. Da outra vez aconteceu o mesmo com um filhote de cachorro que veio, por engano, parar no nosso jardim.

            Arregalei meus olhos. Achei que estivesse entendendo tudo errado.

            — Ela é uma boa menina a mãe de Laila sorriu. Contamos com a sua discrição.

            Meu Deus, pensei. A criança é psicopata.

            Pensamentos conflitantes passaram velozes pela minha mente. E se eu pedisse para ir embora? Não, eu não podia. Estava cheia de dívidas. Precisava aguentar firme. Laila não era uma garotinha ruim. Era dona do sorriso mais lindo do mundo, a despeito de ter assassinado dois animais.

            — Que Deus me ajude.

*

            Aquele primeiro mês passou tão rápido e com tantos afazeres que quase me esqueci dos feitos de Laila. No mais, ela vinha se portando muito bem, como uma criança normal. Laila gostava de me presentear com belos desenhos que fazia com seus lápis de cor. Líamos histórias juntas e depois ela dormia no meu ombro igual um anjo. Eu queria acreditar que aquilo que eu presenciara nunca mais iria se repetir.

            O próximo golpe veio em um dia à tarde. Os pais de Laila precisaram fazer uma viagem a negócios. Eles voltariam somente no dia seguinte. Mas não me importei. Laila vinha se comportando tão bem que a morte do gato parecia algo surreal.  Eu decidira – para meu próprio  bem – esconder aquele fato em um canto obscuro do meu cérebro. Descobrimos, no jardim, um enorme formigueiro. Arrepiei-me só de ver aquelas formigas graúdas. Laila, ao meu lado, disse:

            — Odeio estes bichos.

            Estremeci. A voz de Laila saiu algo... tenebroso. Virei para o lado. Os olhos dela estavam parados e a boca era um risco fino. Fiquei sem saber como agir.

            — Er... Elas não causam mal, Laila.

            Foi tudo muito rápido. Com uma força que me surpreendeu, Laila me empurrou sobre o formigueiro. Eu caí de cara sobre os insetos em meio a um grito de susto. Formigas entraram na minha boca, olhos e morderam minhas bochechas. Fiquei em pé, batendo no meu rosto com as mãos, tentando afastar os bichos dos meus braços, cuspindo as que entraram na minha boca. Foi horrível. O tempo todo Laila riu de mim. Uma risada maldosa e asquerosa.

            Então um véu vermelho cobriu meus olhos. Enlouqueci. Desferi um tapa tão forte ao lado da cabeça de Laila que ela caiu. Somente percebi o que tinha feito quando o surto passou e vi que a pedra que Laila havia batido a cabeça se tingia de sangue.

            — Laila, levante.

            Suspendi Laila pelos ombros, porém ela parecia uma boneca de pano. O ferimento ao lado da cabeça era feio. Feio e fatal. Sacudi-a algumas vezes aos berros:

            — Acorda, desgraçada! Acorda!

            Fiquei em pânico. Meu corpo gelou. Não senti mais as picadas das formigas. Com a mesma pá que havia enterrado o gato, fiz um buraco para Laila e a pedra ensanguentada. A sepultura foi no limite com a outra propriedade, afastada da casa.

         Eram apenas quatro horas da tarde. E eu tinha o cadáver de uma criança enterrado no jardim.

*

         Fiquei sentada no degrau da varanda, atordoada, e a noite chegou. Meus olhos não desgrudavam da pequena sepultura. De repente, me dei conta que era noite e levantei para acender a luz. Estava sozinha, com medo e pasma com o que tinha acontecido. Eu não sabia o que fazer. Pensei em ligar para a policia, correr até o vizinho mais próximo, fugir. Me matar.Mas não fiz nada. Continuei sentada, em estado catatônico, tão gelada que parecia que a morta era eu.

         Algo se moveu próximo à sepultura de Laila. No início pensei que fosse algum animal e levei um susto. O movimento cessou e então achei que fosse impressão minha. Eu estava perturbada demais. Uns dois minutos depois aconteceu a mesma coisa. Algo estava se movendo na cova rasa de Laila. Fiquei em pé. Não sabia se fugia ou ia até lá conferir o que era.

         Permaneci no mesmo lugar.

         Uma mão saiu de dentro da terra. Não me dei conta na hora o que era aquilo. Os dedos romperam a terra e em seguida apareceu a mão inteira. Meu coração quase parou. Depois surgiu a outra mão. Ambas as mãos se ergueram em direção ao céu como se quisessem pegar alguma coisa. Lágrimas correram pelo meu rosto inchado pelas mordidas das formigas.Minha voz ficou presa na garganta. Achei que fosse um pesadelo. Mas não era. Eu estava bem acordada.

         Depois das mãos terem rompido a terra, a cabeça loira de Laila surgiu. Ela sentou, ereta, e balançou os cabelos de um lado para o outro para tirar a sujeira da cabeça. Então olhou para mim.

         Nossos olhos ficaram fixos um no outro por alguns segundos. Laila havia virado um zumbi. Levantei pronta para fugir, porém meus joelhos estavam fracos demais para me sustentarem tamanho meu medo. Caí no chão, sem ar e à beira de um ataque de nervos. Olhei para frente outra vez. Laila chutou a terra que voou para cima e para todos os lados. Eu observava a cena bizarra. Parecia que ela estava se divertindo ao fazer aquilo. Acho que escutei uma gargalhada. Havia vários sons ao meu redor. Pássaros, um cachorro latindo ao longe, meu coração descompassado. E a gargalhada de Laila.

         Então ela se virou de lado e ficou em pé. Eu, caída no chão, sem forças para me levantar, assisti Laila tirar a terra do vestido, da pele e dos cabelos. A ferida agora havia virado uma massa seca de sangue. Eu devia ter fugido. Laila era uma morta-viva.

         A criatura (sim, agora Laila era isto) veio caminhando até mim. Um andar meio arrastado, mas firme. Laila sorriu e mesmo com as bochechas sujas de terra eu pude enxergar suas covinhas. Mas aquele sorriso... Era como se o diabo tivesse entrado naquele corpo. Tentei levantar, contudo não consegui ficar em pé outra vez. Uma fraqueza enorme tomara conta do meu corpo. Uma tonteira, um enjoo, eu me sentia doente. Ao mesmo tempo a coisa vinha se aproximando. Laila era tão bonita quando era viva, mas agora... Agora ela era um monstro que caminhava na minha direção e que chegava cada vez mais perto. As mãozinhas se crisparam como se ela quisesse me esganar. Ah, mas eu tinha mais força que Laila. Ela era uma criança e eu, uma mulher adulta. Laila não me venceria ainda que eu estivesse me sentindo tão mal.

         Ela me sorriu e eu reparei nos dentes sujos de terra. Eu estava completamente sozinha com Laila. Ou no que ela se transformara. Então ela deu uma gargalhada, uma coisa sinistra e maquiavélica. Estremeci. Não, eu precisava me erguer. Precisava sair daquele lugar antes que ela chegasse perto de mim. Eu devia ter chamado a polícia desde o início, antes mesmo de enfiar Laila na cova rasa.

         Uma paulada na cabeça me deixou mais zonza do que eu já estava. Caí para o lado e me vi deitada no gramado olhando para as estrelas. Minha cabeça doía e encostei a mão na testa. Estava pegajosa. Era sangue. Gemi. Laila cresceu ao meu lado. Reparei que ela segurava um pedaço de pau na mão. Foi aquilo que me atingira. Se eu estivesse no meu estado normal, não teria sido abatida daquele jeito.

         — Laila, por favor... – consegui murmurar. — Me perdoe.

         Ela apernas me olhou com aqueles olhos que antes eu achara tão lindos. A última coisa que vi foi aquele pedaço de pau firme nas mãos dela.  

         —Morra.

*

         Dei um cutucão com meu pé na cabeça dela. A babá sangrava pelo nariz e pela boca. Morta. Feito o gato. Como o cachorro que arranquei a cabeça. Tipo meu primo que eu empurrei no lago aquela vez. Ops, mas ele não morreu. Meu tio conseguiu salvá-lo antes. Uma pena. Minha cabeça doía, acho que tenho terra na garganta. Preciso ligar para meus pais. Acho que eles estão longe, mas serão os únicos que poderão me salvar (de novo).

         Peguei o celular da babá que estava sobre o sofá. Minha mãe atendeu logo.

         — Oi, mamãe. Eu fiz de novo.



segunda-feira, 18 de maio de 2020

O VULTO (conto de suspense)








O ruído estranho me despertou em alta madrugada. Levantei devagar. Pensei que fosse o gato, mas logo esbarrei no rabo peludo do bicho dormindo sobre o tapete do quarto. Abri a porta com o coração disparado. O som cessara, mas mesmo assim eu me mantinha em alerta. A luz acesa da sala me tranquilizou até eu reparar que a cadeira estava torta. Não era daquele jeito que eu a havia deixado antes de ir para a cama horas antes. Logo após tê-la colocado no lugar, percebi algo estranho no prédio vizinho. Uma sombra me observava dois andares acima. O vulto estava próximo a janela e não dava para distinguir se era homem ou mulher. 

Outra vez o barulho. Vinha da cozinha. Fiz força para as minhas pernas saírem do lugar de tão moles que já estavam. Empurrei a porta com o pé e apertei o interruptor para acender a luz. Foi tudo muito rápido. Gritei.

Um morcego desgovernado passou voando por mim, esbarrando seu pequeno corpo justo no meu rosto. Me debati, apavorada, respirando com dificuldade. O bicho voou para a sala, mas a luz era sua maior inimiga. Desorientado, ele dava voltas em círculos pela sala em meio aos meus murmúrios nervosos. Entre esta confusão toda, o vulto permanecia na janela. Distingui, entre a escuridão do ambiente em que ele estava, dois fachos amarelos.

Seriam... olhos?

O morcego me atropelou de novo e eu gritei. Apaguei a luz na esperança de o bicho se acalmar e encontrar a saída pela janela que eu acabara de abrir. O vulto desaparecera. Suspirei, aliviada. O morcego, enfim, saiu janela afora e eu a fechei no segundo seguinte. Fiquei parada junto às cortinas, respirando fundo, tentando me acalmar. Eram 3:30 da manhã. Eu precisava dormir, meu dia seria cheio.

Espreguicei-me em um bocejo alto. Alguma coisa roçou na minha mão. Virei para o lado bem devagar. Aqueles dois olhos amarelos estavam sobre mim.