domingo, 12 de julho de 2020

SOZINHA EM CASA (Conto de suspense)



Desliguei a televisão antes da meia noite. Fechei as cortinas, atirei em cima da mesa as revistas que inutilmente tentei ler e preparei-me para ir dormir.

Aliás, dormir não era bem o termo certo. Rolar na cama seria mais apropriado. Há alguns dias meu sono me abandonara. Quando eu conseguia cerrar os olhos os sonhos mais tenebrosos invadiam minha mente.

Eu havia perdido meu bebê há dez dias.

Depois uma gravidez muito esperada, na 12ª semana tudo chegara ao fim e nenhum médico soubera me dizer o motivo. Naquela terrível segunda-feira voltei para casa com minha alma aos pedaços e escondi todas as roupinhas que já tinha comprado dentro de um baú. E nunca mais o abri outra vez.

Meu marido não sabia do tamanho da minha dor e eu não pretendia me fazer de vítima para ninguém. Precisava manter minha aura de mulher forte e sofri em público durante dois dias. Depois, me fechei em mim mesma. Só eu poderia viver aquele tipo de dor.

Eu estava sozinha em casa. Uma viagem a negócios de última hora fez com que meu marido pegasse um voo às sete horas da noite. Controlei o ímpeto de pedir para que ele ficasse, porém calei-me. De repente vi-me abandonada em um apartamento grande e, subitamente, vazio. Liguei a televisão no mais alto volume, acendi todas as luzes da casa. Minha mãe me ligou antes das dez horas da noite e perguntou como eu estava.

Tudo estava ótimo. Omiti que o vento lá fora me perturbava e que precisava tão somente de algumas horas de sono. Desliguei o telefone e assisti a quase duas horas de programas sem graça nenhuma. Troquei de canal a cada vez que aparecia um bebê na tela.

Por fim, cansei de tudo. Apaguei todas as luzes do apartamento. Lá fora ainda ventava. A lua cheia iluminava meu quarto quando me escondi debaixo das cobertas pesadas. Senti um pouco de sono. Talvez conseguisse dormir algumas horas seguidas e acordar renovada na manhã seguinte.

 

Foi aquele chorinho de bebê que me despertou exatamente às três horas da manhã. Até então eu dormia bem, sem sobressaltos e sem sonhos. Vi-me de olhos arregalados olhando para o teto. O luar ainda clareava meu quarto.

Silêncio.

Fiquei atenta para qualquer som diferente. Talvez alguma vizinha tivesse algum bebezinho novo ou fosse até mesmo um filhote de gato. O certo é que tudo estava silencioso. Lá de cima eu não escutava sequer o barulho de uma buzina. Não era nada. Acomodei-me novamente e fechei os olhos.

Aquele som.

Desta vez sentei-me na cama no mesmo segundo. Havia alguém – um bebê! – dentro da minha casa. Escutei de novo. Meus cabelos na nuca se arrepiaram todos. O choro parecia ser de alguma criança com poucos dias de vida. Estava próximo demais. Era pouco mais de três horas da madrugada e um bebê chorava na minha sala.

Joguei as cobertas para o lado e saí do meu quarto. Eu precisava atravessar o corredor para chegar até a sala e procurei o interruptor de luz. A princípio não acreditei que eu estava sem luz em casa. A única luminosidade vinha da lua e mesmo assim não resolvia muito. Fiquei tensa e meu coração disparou. Aquele corredor escuro não parecia muito convidativo para atravessar.

E o chorinho continuava.

Respirei fundo. Alguma coisa estava acontecendo naquele apartamento. Alguém estava brincando comigo. Senti medo, mas raiva também. Tateando as paredes caminhei de pés descalços e sem fazer qualquer ruído até minha sala. Quando parei na entrada, o som cessou.

Na semi-escuridão eu conseguia enxergar algumas coisas. O sofá, a mesa de jantar, as estantes, o lustre. A sala era grande. Alguém podia estar tentando se esconder atrás dos móveis ou das cortinas. Mas como alguém conseguiu escalar dez andares sem ser visto?

Tentei novamente o interruptor de luz e nada. A cortina se mexeu. Havia uma circulação de vento que entrava pela casa e fazia balançar meus cabelos. Será que era isso que sacudia a cortina também? Lembrei que eu guardava as velas dentro do balcão. Ajoelhei-me, tensa e trêmula, procurando por elas dentro do móvel. Quando as encontrei, acendi a maior de todas. Algo passou por trás de mim naquele momento. Dei um pulo e fiquei em pé sufocando um grito.

Pus a vela a minha frente como tentando me defender de algum ataque. Contudo, não havia ninguém. Ninguém deste mundo, pelo menos. Pois junto à janela havia um vulto. Uma mulher. E ela trazia algo nos braços.

Engoli em seco. Eu mal podia enxergá-la direito. Os cabelos compridos também se balançavam ao sabor do vento. O vestido longo não disfarçava a barriga de gravidez. No colo dela havia uma trouxinha. A mulher parecia estar segurando um boneco.

Engoli em seco. E o bebê chorou.

— Quem é você? - perguntei em pânico.

Minha voz, no entanto, mal saiu. Eu sentia minhas pernas bambas, sem forças para dar um passo em direção à porta da frente. Queria pedir por socorro, mas ninguém iria acreditar que eu estava vendo uma mulher na minha sala, grávida e segurando um bebê.

Mas e se fosse meu filho? Aquela mulher estava segurando meu filho nos braços. Sim, havia sido ela que roubara o bebê de mim e agora estava ali, na minha sala, zombando da minha cara.

— Devolva meu bebê.

Nada. Fui tomada de uma imensa raiva. Eu queria meu bebê de volta. A mulher o roubara de mim. Agora eu estava entendendo tudo. Uma alma de outro mundo levara meu filho e isso a medicina jamais conseguiria explicar.

— Eu quero meu bebê agora! - vociferei.

Sem saber como, avancei como uma leoa em direção à mulher, segurando a vela com força. À medida que me aproximava a raiva também me consumia e era possível enxergar os traços da mulher que trazia meu bebê nos braços. Apenas poucos passos nos separavam agora. A criança começou a chorar mais alto e um forte vento entrou vindo de alguma janela escancarada. Coloquei a vela na mesa e estiquei meus braços para alcançar meu filho.

O grito que eu dei atravessou os mundos. A luz voltou de repente e vi-me frente a frente com uma mulher muito parecida comigo. Ela vestia um longo vestido branco até os pés, sujo de sangue. A dor que trazia nos seus olhos era muito parecida com aquela refletida pelo meu espelho todos os dias. Tentei pegar a criança dela, mas a mulher a segurou fortemente. Eu não podia enxergar o rostinho do bebê, uma fralda o encobria. Fiquei furiosa e atemorizada. Mas o bebê era meu e não iria deixá-lo fugir de mim de novo.

Entramos em luta corporal. Grudei-me nos cabelos dela, ao mesmo tempo em que ela parecia fazer o mesmo comigo. Apesar da luta, nem por um momento a mulher soltou a criança. Eu sentia o hálito fétido dela no meu rosto e um cheiro de queimado também. Meus gritos deveriam estar sendo ouvidos por toda a vizinhança. No prédio ao lado as luzes começaram a ser acesas.

Gritos que já não eram mais os meus se faziam ouvir no corredor do meu prédio, na porta do meu apartamento. Comecei a sentir calor e uma sensação de queimação. Mesmo assim não interrompi a luta. A mulher cravou as unhas podres no meu rosto e eu fiz o mesmo. Alguém meteu o pé na porta no exato momento que ela se voltou para a janela, sorriu diabolicamente e jogou o bebê dez andares para baixo. Fui salva um centésimo de segundo antes de me jogar atrás do meu filho.

*

Acordei-me dois dias depois deitada em uma cama de hospital. Estava com os braços enfaixados devido às queimaduras. Meu couro cabeludo doía. Um vizinho havia me agarrado pelos cabelos evitando que eu saltasse atrás do meu filho.

Meu filho?

Algumas cenas daquela noite pavorosa vieram a minha mente. E tudo começou a ficar claro. Eu surtara. Enxerguei um vulto que era eu mesma. Lutei contra mim na ânsia de trazer o bebê de volta. Nada daquilo havia acontecido. Minha mente produzira imagens. Eu havia enlouquecido por poucos minutos e quase havia me matado.

Meu marido se aproximou, abatido, da minha cama. Parecia que ele não dormia há muito tempo.

— Como você está? – ele perguntou, passando a mão nos meus cabelos.

— Bem – Era verdade. Desde que tinha perdido a criança era a primeira vez que me sentia perto do meu normal.

— Bem mesmo?

— Claro, não estou mentindo.

— Por que você não contou que estava passando por problemas? – cobrou ele. — Eu não teria viajado aquela noite.

— Desculpe, meu amor... Não pensei que eu estivesse tão mal. Acho… que o estresse foi grande demais.

— O que aconteceu, afinal?

— Escutei um choro de criança, de madrugada. Levantei-me para ver o que era e não havia luz. Acendi uma vela e deparei-me com uma mulher próximo à janela segurando um bebê. Tive certeza que era nosso filho. Avancei contra ela e entramos em luta. Depois…

— Depois você quase botou fogo na casa. Em seguida quase se atirou pela janela. Se não fosse pelo vizinho do lado, você teria se jogado de dez andares. Isso não deve ficar assim. Você vai começar um tratamento psiquiátrico assim que sair do hospital.

Concordei imediatamente. Aquele episódio me dava calafrios. Jamais poderia imaginar que minha mente pudesse chegar tão longe. Jurei a mim mesma que pediria ajuda caso algo semelhante acontecesse outra vez.

Passei o resto do dia bem. Alimentei-me normalmente e distrai-me com a visita de amigos. Tentei ignorar a cara de espanto e algumas perguntas mais inconvenientes. No outro dia eu daria alta e já estava planejando uma curta viagem com meu marido. Era tudo o que eu precisava, disposta a iniciar uma nova vida.

A noite chegou e com ela meu sono. Depois de conversar algum tempo com meu marido, preparamo-nos ambos para dormir. Eu me sentia calma e sem dor. Para minha felicidade dormi logo. Acordei-me às três horas da manhã com um choro de criança.

Sentei na cama, tal qual a outra noite. Só que desta vez foi pior. O pânico parecia mais real. Meu parceiro dormia ferrado e não escutou meus chamados. Lembrei-me que o quarto poderia estar localizado perto da maternidade e fiquei mais aliviada. Porém, como o choro persistia, resolvi levantar-me para tirar a dúvida.

Abri a porta do quarto. O posto das enfermeiras ficava um pouco afastado. O choro cessou. Definitivamente a maternidade não era naquele andar. No fim do corredor algo se mexeu. Fiquei com os olhos vidrados ao deparar-me com aquele vulto vindo em minha direção.

Ele trajava um manto negro e trazia uma foice na mão.


quinta-feira, 9 de julho de 2020

O NOME DELE ERA DIEGO







 

Eu tinha uns 11 anos e uma paixão platônica. O nome dele era Diego, talvez uns dois anos mais velho que eu. Era o gatão da rua. Já naquela época, início dos anos 80, Diego era cheio de estilo. Sempre com bermudas coloridas, moreno do sol, loiro e lindo. Tempos depois ele se tornou surfista profissional e... bem, esta é outra história. Eu era louca pelo Diego.

Mas ele não estava nem aí para mim.

Até então eu nunca havia namorado ninguém, porém, na minha mente, Diego tinha todos os requisitos para ser o número um. Eu mal sabia como se beijava.

Bolei uma estratégia para conquistá-lo. Diego costumava andar de bike pela minha rua. Às vezes sozinho, outras vezes com amigos. Minha ideia era abordá-lo em um destes passeios. Ele com a sua bicicleta e eu, com a minha.

Dito e feito. Em um sábado monótono, à tarde, (lembrem, não havia internet naquela época), eu cheguei à janela e me deparei com meu futuro namorado passando de bike pela rua calma. Dez minutos depois eu já estava lá fora, pedalando, ansiosa, procurando Diego. Céus, ele tinha sumido.

Andei mais um pouco e descobri, enfim, onde Diego estava: pendurado na janela do apê térreo da Márcia, uma guria que eu odiava. Metida, arrogante e nojenta, todos estes atributos pertenciam a uma fedelha de doze anos. Fiquei tão furiosa que quase perdi o controle da bicicleta. Minha inteligência emocional aos 11 anos era nula. Fui até o fim da rua pedalando com raiva e voltei. Diego continuava no mesmo lugar. Márcia era toda sorrisos. Eu, puro despeito. Passei várias vezes por ele, Diego não me viu. Me senti invisível e ultrajada. Então, lá pela décima vez, aconteceu algo horrível. O cachorro da Dona Sílvia, um histérico pinscher que eu odiava, resolveu atacar a bicicleta. Sempre morri de medo daquele bicho e quando eu o vi partindo para cima do pneu da frente, perdi o equilíbrio.

E eu caí. Desabei sem glamour nenhum em cima do jardim do edifício da Márcia, ante os olhos do Diego. Não sabia o que era pior. O pinscher surtado ou o meu vexame. Quase fiz xixi na calcinha.

Dona Sílvia arrancou o cachorro de cima de mim e desapareceu. Restou eu com meu joelho esfolado com uma perna por cima e a outra por baixo da bike. Uma cena a ser esquecida.

Então, o milagre. Diego surgiu como por encanto ao meu lado e, com aquele sorriso que me tirava de órbita, me juntou do chão.

Fiquei tão emocionada que quase emudeci. Não olhei mais para a cara da Márcia. Diego, gentil, perguntou como eu estava e ainda me levou para casa. Eu enxergava estrelas de amor por todos os lugares. Depois que ele foi embora levei uns tapas da minha mãe, pois eu tinha saído de casa sem avisar. Mas nem me importei. A felicidade que eu sentia era maior que tudo. Na minha cabecinha delirante eu iria casar com o Diego. Era só uma questão de tempo. Meu futuro havia sido traçado graças a um pinscher perturbado.

Uma semana depois o Diego se mudou para São Paulo e deixou um vazio no meu coração. Foi o primeiro vazio de vários que vieram pela frente. Mas, pelo menos, a Márcia também não casou com o garoto mais bonito da rua.


quarta-feira, 24 de junho de 2020

FELIZ ANIVERSÁRIO





Ele estava de aniversário. E eu pensei o monte de coisas que podia lhe dar. Cerveja, livros, bombons, cueca boxer, um celular novo, a viagem que ele tanto queria, pagar aquele boleto vencido, sexo selvagem, meu eterno amor. Não dei nada a ele. A quarentena me desempregou e eu não o amava mais. Feliz aniversário, cuide-se.


segunda-feira, 15 de junho de 2020

O CARA MAIS BONITO DO CAMPUS






Leitorinhos, surpresa! Liberei dois capítulos de O cara mais bonito do campus para degustação. Mas a história inteira vocês encontram na Amazon. O link está no final da história.

Divirtam-se!

 

Entrei no quarto da minha irmã para pegar a blusinha amarela nova dela e que nunca havia sido usada. Eu tinha o hábito (que Aline odiava) de roubar as suas roupas. Aline, avoada, quase nunca se dava conta dos meus furtos. Já com a blusinha na mão me deparei com o notebook aberto e uma mensagem prestes a ser enviada. Oi? Quem ainda envia mensagens por e-mail? Só podia ser coisa da retardada da Aline. Me aproximei, curiosa, e quase caí para trás. Não era possível! Então minha irmã era apaixonadinha pelo Gabriel, o cara mais lindo da faculdade? Que trouxa! O cara nunca iria olhar para a cara dela, ainda mais que namorava a Bia, uma linda. Linda e ciumenta. Será que a Aline iria mesmo enviar aquela mensagem ridícula para o Gabo? Bem, se lhe faltava coragem, a mim sobrava. Apertei o enter e a mensagem foi.

      — Boa sorte, maninha.

      Vesti a blusinha correndo, peguei a bolsa e saí para meu compromisso. Aline estava na cozinha tentando dar um jeito no bolo de chocolate agora tão preto que parecia um pneu.

      Minha irmã era mesmo uma idiota.

 

*

 

      Levei meia hora para tentar tirar o cheiro de fumaça (minha mãe iria me matar) da cozinha, desgrudar o bolo arruinado da forma e lavar tudo. Até já tinha esquecido o e-mail açucarado para o Gabo. Porém, quando entrei no quarto e dei de cara com o notebook escancarado, gelei. Nossa, que burrada. Esquecer o e-mail aberto com uma mensagem daquele nível exposta poderia me causar constrangimentos. Corri até o computador para apagar aquela besteira adolescente.

      Levei um choque.

      O e-mail já havia sido enviado. E o pior. A caixa de entrada acusava que do outro lado a mensagem havia sido recebida e lida. Meu Deus!

      Escorreguei pela parede até cair amontoada no chão. Quanto tempo eu pegaria de prisão por matar minha única irmã?

 

 

Link da Amazon

https://amzn.to/2CcfJsN


segunda-feira, 1 de junho de 2020

A COISA (suspense)







            Eu não gostava de ir para a casa da minha avó. Ela no morava no meio do mato, em um lugar que só se chegava por uma estradinha de terra. Era para lá que eu ia durante minhas férias, quando meus pais queriam se livrar de mim. Algumas vezes eu encontrava meus primos na chácara. Outras vezes não tinha ninguém para me distrair. Vovó era uma mulher forte e ativa. Ela fazia tudo dentro de casa. E também não tinha tempo para mim.

            Eu devia ter mais ou menos quinze anos quando aportei em pleno mês de janeiro na casa dela. Para minha sorte, minha prima Betina estava lá e nós nos dávamos muito bem. Destemida, Betina não tinha medo de nada. Ela era um pouco mais velha do que eu e muito atrevida. Betina gostava de nadar no rio que cortava a propriedade a qualquer hora do dia ou da noite. Costumava circular pelos caminhos escuros em plena noite só pelo gosto de aventura. Eu não a acompanhava. Minha avó nunca desconfiou das loucuras da neta mais velha e, se algum dia soube de alguma coisa, também não se importou. Mas eu ficava tensa, deitada na cama, esperando, de olhos arregalados, minha prima favorita voltar para a segurança do nosso quarto quentinho. Eu tinha alguma desconfiança que alguns dos seus sumiços era para Betina se encontrar com algum namoradinho da redondeza. Porém, naquele fim de mundo eu não tinha a menor ideia de quem poderia ser.

            Naquela noite Betina jantou normalmente ao meu lado, ambas sentadas no sofá, tagarelando, animadas. Peguei no sono em algum momento e quanto despertei, às duas horas da manhã, a TV estava desligada e eu sozinha. Estonteada de sono fui para o quarto que dividia com Betina. Para minha surpresa, ela não estava dormindo. Não estava em parte alguma.

            A princípio, levei um susto. Depois me acalmei. Betina devia ter ido dar suas voltas noturnas. Dei de ombros, me preparei para dormir e o sono foi embora. Gostaria muito que minha prima voltasse logo para que eu pudesse ficar mais descansada.

            Cochilei e acordei justo no momento em que ela entrava no quarto. Sentei imediatamente na cama e acendi o abajur. Fiquei assustada. Minha prima estava com as roupas em desalinho e descabelada. Não parecia estar retornando de uma aventura legal.

            — O que houve, Betina?

            Ela não me encarou. Tirou a roupa, vestiu a camisola e só então virou o rosto para mim.

            — Uma coisa me pegou.

            Betina estava sombria e meu coração ficou aflito.

            — Que coisa, Betina?

            — Sei lá – minha prima tremia. — No meio do mato tinha uma coisa. Ou alguém.

            Me assustei ainda mais. Fiz menção de sair da cama e ir até ela, contudo Betina se cobriu com o lençol até a cabeça e me ignorou. Fechou os olhos e fingiu dormir.

*

            Pelo restante do dia também fui ignorada por Betina. Ela construiu uma espécie de muro a sua volta e ficou quase em silêncio total o dia inteiro. Minha avó achou esquisito e perguntou o que ela tinha. Betina foi breve:

            — Dor de barriga.

            Tentei arrancar alguma coisa dela, mas foi inútil. Betina ficou alheia a mim todo o tempo. Reparei alguns arranhões nos braços dela e que foram disfarçados com um casaquinho leve.

            A noite chegou e percebi que Betina foi se tornando mais ansiosa. Fomos deitar cedo e jurei para mim que não iria dormir para controlar os movimentos dela.

            Caí no sono em menos de cinco minutos.

            Acordei, de repente, às duas horas da manhã. Minha prima não estava na cama como eu já suspeitava. Joguei as cobertas para o lado e desci correndo as escadas que levavam ao andar térreo da casa. Mesmo com medo abri a porta da frente.

            Lá fora estava frio e caminhei até a varanda. Minhas pernas tremiam tanto que me apoiei no alpendre. Tudo deserto e escuro. Betina estava em algum ponto do mato que cercava a propriedade. De longe eu escutava a correnteza do rio.

            Não me agradava ficar muito tempo ali fora, mas eu temia por Betina. Por que ela fora atrás do perigo novamente? O que Betina tinha na cabeça?

            Ruídos de passos um pouco mais à frente me provocaram um arrepio na espinha. As pernas me pesaram e eu custei um pouco a me mover do lugar. Os passos pareceram se aproximar e eu dei meia volta e entrei correndo na casa. Encostei-me à porta tentando puxar o ar. E se a “coisa” que pegara Betina tentasse algo contra mim? Sem pensar duas vezes tranquei a porta e, com as pernas bambas, me arrastei até a janela.

            Escondida entre as cortinas, fiquei agachada espreitando o lado de fora. O luar iluminava um pouco mais agora. Tive a impressão que os arbustos se mexiam como se alguém estivesse por ali. O pavor foi tamanho que abandonei o posto e, na correria, derrubei o vaso preferido da minha avó. No quarto, lá em cima, me aproximei de novo da janela, tremendo inteira. Porém, desta vez, parecia tudo calmo.

            Menos eu. Não iria conseguir pregar o olho até Betina voltar. Alguma coisa rondava a casa e eu não tinha a menor ideia do que seria. Não sei qual hora Betina retornou. Mas quando acordei (tive um sono recheado de coisas ruins) ela dormia com a expressão atormentada. Muito pálida.

            Aquele dia foi esquisito. Estava nublado, cinzento e frio, em pleno janeiro. Betina passou o dia de chambre, apática. Vovó deu várias xícaras de chá para ela que, supostamente, sentia dor de estômago. Toda vez que minha vó ia até a frente da casa eu morria de medo que a “coisa” saísse do meio do mato e a atacasse.

            Betina pareceu despertar por volta das oito horas da noite. Eu estava sentada ao lado dela quando minha prima exclamou:

            — Eu preciso ir!

            Sua voz saiu fraca e eu a encarei, pasma.

            — Ir para onde, Betina? Você está doente.

            Vovó estava no quarto assistindo TV e provável que não descesse mais.

            — Ele... ele está me esperando.

            — Meu Deus! Ele quem?

            Betina parecia febril, o que eu confirmei quando encostei a palma da mão na sua testa. Ela não respondeu e caiu em um leve cochilo.

            — Vamos deitar, Betina. Eu ajudo você.

            Ela não ofereceu resistência e em poucos minutos Betina estava na sua cama com dois cobertores por cima. Não falou mais nada e deduzi que caiu no sono logo.

            Restou eu. Sozinha, perguntei o que deveria fazer. A curiosidade era grande, maior que meu medo. Quem estava lá fora? Quem era o habitante noturno que rondava a propriedade da minha avó?

            A coisa.

            Desci, devagar, as escadas. Não haveria mal se eu fosse até a varanda. Ali estaria protegida. Se fosse o caso, era só correr de volta para dentro de casa.

            O ventinho frio era um convite para que eu criasse juízo e retornasse para a segurança do meu quarto. Mas eu fiquei parada no meio da varanda esperando algo acontecer. Por que só minha prima podia cometer loucuras? Eu também queria emoção na minha vida. Um friozinho na barriga me deixou mais encorajada ainda.

            — Ela não virá hoje – eu disse em voz alta.

            Silêncio.

            — Ela está doente.

            Nada mudou. Desci os degraus da varanda e caminhei alguns passos. Seja lá o que fosse, a coisa não queria nada comigo.

            Talvez eu não fosse especial como Betina o era.

            — Ei, você está aí? – levantei a voz um pouco mais ainda temendo que minha vó escutasse. — Ela não virá ver você hoje.

            Um ventinho mais frio fez com que eu estremecesse. Não se ouvia um único som naquele lugar. Decidi, então, voltar para dentro de casa. A razão me dizia que eu não era para estar ali.

            Contudo, antes que eu me virasse senti algo se aproximando por trás de mim. Escutei uma respiração pesada e passos mais fortes. Não tive tempo sequer de ver o que era. Alguma coisa me envolveu passando os braços ao redor da minha barriga. Não tive voz para gritar. O hálito quente no meu ouvido fez com que eu me arrepiasse de prazer (Não! É errado!). Senti-me tonta de desejo, um arrebatamento nunca experimentado. Era tão bom que fechei os olhos, extasiada.

            Desmaiei.

*

            Acordei ao amanhecer de um dia sombrio deitada no piso gelado da varanda. Levantei, fraca, mal podendo sustentar as pernas. Minha avó não podia me ver naquela situação. Do jeito que pude, subi os degraus em direção ao meu quarto. Precisava da minha cama. Não sabia o que tinha acontecido, estava exausta. Me atirei na cama e dormi feito uma pedra. Quando abri os olhos outra vez era perto do meio dia. Betina estava sentada em sua cama e me encarava intensamente.

            — Ele pegou você.

            Minha cabeça pesava.

            — Hein?

            — Você não devia ter permitido – sussurrou ela com os olhos sinistros.

            — Permitir o quê? – sentei com alguma dificuldade.

            Betina veio até mim, devagar. Puxou para baixo a gola da camiseta que vestia. Dois furos bem redondos eram visíveis no seu pescoço.

            — Betina, o que é isto?

            Ela sorriu para mim. Seus caninos estavam maiores e pontiagudos. Eu a encarei, incrédula. Imagens de filmes de terror invadiram minha mente.

            — Somos duas agora – ela murmurou se ajeitando ao meu lado.

            Engoli em seco. Que merda era aquela? Senti uma fome incontrolável.

            — Desejei tanto seu sangue... – Betina sorriu. — Mas eu não podia fazer isto com você.

            — Quem é ele, Betina?

            Ela estava tão bonita naquela manhã... Não tinha mais aquele aspecto doentio.

            — Estou apaixonada, prima. Ah, eu o amo tanto.

            Ela me alcançou um pequeno espelho. Procurei minha imagem no reflexo, mas não a encontrei.

            Betina prosseguiu:

            — Você não devia ter se envolvido, prima. Mas sua curiosidade foi além dos limites. Seguiremos juntas por toda a eternidade. Com ele. É isto que você quer? Responda logo.

            Se eu negasse o que aconteceria comigo? Ganharia uma estaca pontiaguda bem no meio do coração?

            — Betina, estou com fome – gemi. Minha fome era algo difícil de descrever. Não era normal. Eu poderia facilmente avançar sobre o pescoço de qualquer mortal que ousasse aparecer na minha frente.

            — Calma – pediu ela. — Podemos ir até a casa do seu João. Lembra que a esposa dele ganhou bebê mês passado?

            Seu João era um senhor muito simpático que prestava serviços caseiros para minha avó. Não, eu não queria ir até lá. Precisava de sangue. Urgente. Para ontem.

            — O gato – sussurrei. — O gato dela.

            Pimpão, o gato angorá da minha avó. Ela o adorava. Eu também.

            — Ótima ideia. Sabe, também estou com fome – revelou Betina. — Acho que vou pegar o coelho dela também.

            Naquele momento a porta do quarto abriu. Vovó nos encarou, sorridente, de avental. Na certa preparava o nosso almoço. Eu senti o aroma subir as escadas e entrar no meu nariz.

            — Bom dia, meninas! Fiquei preocupada! Dormiram tanto hoje!

            Eu olhei para Betina. Betina me devolveu o olhar.

            Desculpe, vovó.