sábado, 24 de março de 2018

MEU AMOR MISTERIOSO - A ESTRANHA MARIANA







Reunidas na varanda, Dona Iara, Clarissa e Mariana, uma amiga da avó. A mesinha com chá e biscoitos estava disposta frente a elas. Com o canto do olho, Clarissa observava a convidada de Dona Iara.

Mariana. Eita mulher esquisita. Ela tinha mais ou menos uns quarenta anos e o cabelo de tons avermelhados emolduravam um rosto que poderia até ser bonito senão fosse tão triste. Segurava a xícara de chá tomando o líquido aos golinhos por estar muito quente. Quem mais falava era Dona Iara. Mariana concordava com tudo e Clarissa não conseguia tirar Dani da cabeça.

— Você viu como minha neta cresceu, Mariana?

A mulher olhou para Clarissa e deu um sorrisinho meio tímido.

— Lembro dela bem garotinha. Agora está uma moça.

Clarissa devolveu o sorriso sem saber o que dizer. Mariana era delicada no falar e seus gestos eram suaves. Se fizesse um corte moderno nos cabelos e sorrisse com mais frequência para aliviar o semblante sisudo poderia se tornar uma mulher atraente.

— Clarissa já tem me ajudado bastante – disse Dona Iara bem orgulhosa. — Hoje ela foi à feira e ainda me auxiliou nas encomendas.
— Quanto tempo você vai ficar aqui, Clarissa? – Mariana estava tentando ser simpática.
— Um mês. Já fazia um tempão que eu não vinha para cá.
— Clarinha – Dona Iara olhou para a neta enquanto se servia de mais chá, — conte para Mariana sobre o que você viu na feira hoje de manhã. Pode ser que a Mari saiba quem ele é.

A jovem ficou totalmente desconfortável. Não queria expor seus sentimentos à Mariana. Mal lembrava dela. Era como se houvessem se conhecido naquela tarde. Era constrangedor abrir seu coração para uma desconhecida. Sim, pois Clarissa já se sentia quase apaixonada por Dani.

Mariana a encarou esperando que a moça falasse alguma coisa.

— Eu… eu… − Clarissa começou a gaguejar.

Dona Iara tentou ajudar.

— Minha neta viu um rapaz bem interessante hoje na feira. O problema é que ela não sabe quem é.
— Ah… − fez Mariana, colocando a xícara na bandeja, interessada. — Como ele é?

Clarissa tentava segurar o rubor nas bochechas.

— Ele é loiro.
— Sim? – Mariana aguardava o restante da descrição.
— Um metro e setenta de altura, mais ou menos. O cabelo é ondulado e… bem, ele estava parado no meio da feira, sem fazer nada. Dani... bem, ele não parecia com jeito que iria comprar alguma coisa, sabe? Aí ele me encarou. Mas justo neste momento tive que pagar o pastel. Quando o procurei novamente, o Da… ele já tinha sumido.
— Oh, que pena – lamentou Mariana. — Você não foi atrás dele?

Clarissa ficou mais vermelha.

— Tinha gente demais lá.

Mariana respirou fundo, os olhos parecendo mais tristes do que nunca.

— Não me lembro de nenhum vizinho com estas características. Acho que ele pode ser mesmo um turista.
— Não entendo o que um turista pode estar fazendo em uma feira – desabafou Clarissa. — Em uma cidade com tantas coisas bonitas para ver, por que ele estaria em uma feira?!
— Para vocês se conhecerem – falou Mariana.
— E ele sumir depois.

Mariana falou com a voz distante e olhando para lugar nenhum:

— As coisas acontecem quando são para acontecer.

Clarissa ficou sem saber ao certo onde ela queria chegar com aquela frase tão óbvia. Porém, Mariana parecia tão perdida nos seus pensamentos que a jovem achou melhor ficar calada.

Realmente Mariana era uma mulher bem esquisita.

*

O dia seguinte amanheceu com chuvarada desde manhã cedo. Agarrada à cortina da sala, Clarissa olhava desolada para as poças d’água que se acumulavam nas calçadas. O céu estava cinza, tão cinza que não havia qualquer esperança que o sol pudesse aparecer pelos próximos dias. Aquilo era péssimo. Se Dani fosse um turista, cada dia que passava as chances de encontrá-lo se reduziam.

Mas... e quando o encontrasse? O que iria dizer para ele?

— Eu vi na televisão que amanhã o tempo já vai estar bom. Aí você poderá dar suas voltinhas de bicicleta.

Clarissa sentiu um tom de malícia na voz de Dona Iara.

— Pode ser tarde demais, vó. Talvez ele até já tenha ido embora.
— Tenha calma. O fato de não sabermos quem ele é não significa que seja um turista. Ele pode muito bem morar por aqui.
— Ah, seria excelente – Clarissa suspirou. — Mas acho isto meio improvável.
— Deixe para se preocupar amanhã. Vamos fazer um bolinho de chuva?

O dia passou à base de muita comilança, jogos de cartas e dominó, mais os causos contados pelo avô Ricardo. A chuvarada só parou quando Clarissa foi dormir, às onze horas da noite. Sinal que o dia seguinte poderia lhe trazer boas novidades.

*

Era mais ou menos quatro horas da tarde e o sol brilhava forte. Clarissa recém havia ajudado a embalar alguns doces para a avó e não aguentava mais de vontade de sair de bicicleta.

— Vó, posso dar uma saída? Você ainda vai precisar de mim?
— Está tudo pronto aqui, Clarinha. Pode ir passear na sua bicicleta.

Vô Ricardo apareceu naquele instante. Ele era um homem grande, com quase setenta anos, sempre esbanjando boa saúde e disposição.

— Alguém falou em andar de bicicleta? Vamos lá, Clarinha. O dia está pedindo uma diversão.

Clarissa sorriu amarelo. Não estava nos seus planos sair acompanhada.

— Que ótimo, vô. Estou pronta.

Os dois partiram em seguida e Ricardo a levou por lugares que a garota ainda não conhecia. Ela estava atenta, olhando para todos os lados procurando Dani. Nem sinal e nem ninguém parecido para lhe dar algum tipo de esperança. E com o avô Ricardo ao seu lado, falante e brincalhão, o risco de dar algo errado era praticamente 100%. Depois de quase duas horas de pedaladas, Ricardo convidou Clarissa para ir tomar suco em uma lanchonete. Os dois estavam aproximadamente a dez minutos de casa.

Àquela altura Clarissa já estava cansada e desabou em uma cadeira ao lado do avô. Logo um amigo dele apareceu e ambos engataram um papo animado. Sedenta, Clarissa tomou todo seu suco de laranja bem rápido. Já o avô não dava mostras de que pretendia sair dali tão cedo.

— Vô – ela cutucou o braço dele. — Eu vou indo para casa. Encontro você por lá.

O homem fez um gesto liberando a neta, distraído na sua conversa. Louca por um banho, Clarissa montou a bicicleta e saiu pedalando devagar. Sem dúvida dormiria feito um anjo naquela noite. Quem sabe pelo menos nos seus sonhos Dani aparecesse?


segunda-feira, 19 de março de 2018

MEU AMOR MISTERIOSO - QUEM É AQUELE CARA?







Clarissa abriu a janela daquele que seria o seu quarto por pelo menos trinta dias. Lá fora as flores do canteiro da avó Iara estavam cada vez mais coloridas e deixavam um doce aroma no ar. Pelo visto as férias na serra seriam produtivas e felizes. A jovem consultou o relógio. Já passavam das oito horas da manhã e lembrou que prometera à avó ajudar na preparação dos doces. Dona Iara comentara, na véspera, que não estava dando conta de tantas encomendas. Clarissa se vestiu rapidinho, penteou os cabelos e abriu a porta do quarto. O cheirinho de café logo alcançou as suas narinas. Tudo na casa da avó lhe remetia a sua infância.

— Bom dia, vó!

Dona Iara estava na cozinha passando café. Ganhou um beijo estalado na bochecha enquanto colocava as gostosuras sobre a mesa.

— Acordou bem na hora. O café está quase pronto.

Clarissa olhou para a mesa farta e pegou um pedaço de pão.
— Acho que não vou dar conta de tudo.
— Coma à vontade. Você está muito magrinha.
— Onde está o vô Ricardo?
— Na varanda lendo jornal.

A senhora serviu a neta de café e a jovem ficou em silêncio por alguns instantes enquanto mastigava o pão. A casa não era grande, mas tudo lá dentro era aconchegante, desde os quadros antigos nas paredes às cortinas de florezinhas que enfeitavam as janelas. A temporada de férias de verão eram dias de tranquilidade, conversas amenas e passeios sem pressa pela cidade calma. Fazia uns bons cinco anos que Clarissa não visitava os avós e tinha esquecido que a vida podia correr serena. Sem atropelos. Sem celulares recebendo mensagens a todo instante. Sem seus irmãos falando em voz alta e perturbando o silêncio. Era bom demais ficar na companhia da vó Iara e do vô Ricardo, ainda que não tivesse feito nenhuma amizade com pessoas da sua idade.

Mas isto não lhe fazia falta. A companhia dos avós lhe bastava.

— Preciso que você vá à feira para mim, Clarissa.

O pensamento dela ia longe.

— Hein? Sim, vó?

Dona Iara repetiu:

— A feira. Preciso que você compre algumas coisas para mim.
— Ah, tudo bem. Posso ir de bicicleta? Assim já dou uma voltinha.
— Claro. Você lembra onde fica?

Clarissa lembrava e estava ansiosa por percorrer as ruas calmas da cidade. Combinou com a avó de ajudar a fazer os doces na volta. Uma hora depois, com uma bolsa a tiracolo e com a cestinha da bicicleta pronta para receber as compras, Clarissa recebia as últimas instruções de Iara no portão:

— De bicicleta você vai levar mais ou menos dez minutos. Pegue a rua de trás e vá por mais três quadras. Não tem como errar.

Clarissa balançou a cabeça, pacientemente:

— Vó... eu lembro onde fica.
—Cuidado com esta bicicleta. Olha o trânsito.

A moça riu.

— Trânsito, vó? Onde?
— Você entendeu. Vá sem pressa.

Clarissa conduziu a bicicleta calmamente e não demorou muito até chegar à feira. Preocupada em comprar tudo certinho, Clarissa fez as compras em menos de quinze minutos e guardou o troco dentro da bolsa. A feira começava a encher e a moça foi levando a bicicleta à pé quase até a saída. Antes, no entanto, decidiu parar em uma tenda de pastéis. Enquanto aguardava ficar pronto, Clarissa olhou casualmente para o lado.

Quem era aquele cara?

Ela chegou a piscar. Há alguns metros de distância havia um jovem parado em meio às pessoas, olhando para frente, as mãos dentro do bolso da calça jeans.

Clarissa esqueceu o resto. A atitude despojada dele a perturbou. O vento balançava os seus cabelos louros. Ele parecia alheio à movimentação. A moça calculou que o rapaz bonito teria uns 19 anos, três a mais que ela.

Os olhos dele se voltaram para Clarissa e, com o coração feito um tambor, a jovem se viu observada atentamente por ele.

— Moça, está aqui o seu pastel. Moça?

Ela foi despertada pela voz forte do feirante. Clarissa voltou a cabeça para o homem que lhe estendia, impaciente, o pastel de goiabada e esperava o pagamento.

— Ah, desculpe. Quanto custa mesmo?

Estonteada, Clarissa pegou o pastel. Ansiosa, olhou para o lado novamente. O rapaz não estava mais lá.

 — Droga – praguejou baixinho. Sem pensar duas vezes, Clarissa decidiu voltar para o meio da feira e tentar encontrá-lo.

Estava mais difícil caminhar agora. A todo o momento Clarissa tinha que diminuir os passos ou desviar de alguém. A bicicleta dificultava mais ainda seus movimentos. Por fim, sem ter a menor ideia de onde ele tinha ido parar, Clarissa desistiu. Não havia sinal dele em lugar algum. Além do mais, a avó já deveria estar preocupada com a demora. Um pouco decepcionada, ela voltou para casa empurrando a bicicleta e segurando o pastel na mão. Tinha perdido completamente a vontade de comer.

Como era de se esperar, Dona Iara estava no portão aguardando a neta. Mal Clarissa despontou, a senhora abanou uma das mãos, parecendo aliviada. Pouco depois ambas estavam frente a frente.

— Você demorou, Clarinha! Por que não levou o celular?
— Porque estou de férias dele também – resmungou ela entrando com a bicicleta no jardim da casa. — Parei para comprar um pastel.
— E pelo visto não está bom. Voltou inteirinho – comentou Dona Iara pegando as compras de dentro do cestinho.

Clarissa cheirou o pastel.

— Acho que está gostoso, sim. Mas é que aconteceu outra coisa.
— Que outra coisa? – Dona Iara se mostrou curiosa.

A moça acomodou a bicicleta na varanda e seguiu a avó até a cozinha.

— Eu vi um rapaz – confessou Clarissa um pouco envergonhada.
— Rapaz? Quem? Tem nome?
— Aí que está o problema. Não sei. Será que ele é daqui?

Dona Iara riu.
  Cinquenta por cento de chances de ele ser turista. Me conte. Como ele é?
 — Loirinho, alto, magro... Ah, ele é tão bonito! – Clarissa se encostou-se à geladeira. — Ele me encarou por alguns instantes e depois sumiu na feira – ela não quis contar que foi atrás do rapaz. — E evaporou-se!

 Ora, que desagradável. Acho que você terá que dar mais voltas de bicicleta pelas redondezas para tentar encontrá-lo.

— Sim, pensei nisto.

Durante aquela manhã, enquanto ajudava a avó preparar suas encomendas, bem que Clarissa tentou afastar o garoto louro dos seus pensamentos. Mas era difícil esquecer aqueles olhos tão expressivos pousados nela. Clarissa nunca namorara sério até então. Os garotos que se aproximaram dela eram jovens comuns, sem grande conteúdo, nada que a cativasse. Tão diferente daquele desconhecido, o jovem sem nome, parado no meio da feira, em uma atitude de quem não iria comprar coisa alguma. Ele estaria fazendo o quê, então? Esperando alguém? Clarissa decidiu chamá-lo de Daniel, ou simplesmente Dani.

Será que Dani tinha alguma namorada? Bem possível que sim. Dani era bonito demais para ficar sozinho.

 — Ai, meu Deus... – gemeu ela enquanto mexia com uma colher de pau um dos doces saborosos da avó. — Quando eu vou vê-lo de novo?




... CONTINUA...

domingo, 7 de janeiro de 2018

ME ESQUEÇA





As lágrimas desciam pelo rosto misturadas à chuva. Clara conhecia bem o local. Quando era feliz – sim, a vida lhe fizera feliz em algumas ocasiões – ela subira várias vezes até o alto, iluminada pelo sol ou pelas estrelas, de mãos dadas com o seu amor. Fora tão feliz naquele lugar que achou justo ser ali o ponto final de tudo. E, quando seu corpo fosse levado pelas ondas, Clara flutuaria nelas por algum tempo lembrando dos doces momentos que passara. E depois... bem, que viesse a escuridão eterna.

O que importava agora?

Clara levou algum tempo para chegar até o alto e quando conseguiu o dia já tinha amanhecido, embora cinzento. Mas seu destino estava logo ali adiante, onde o morro de forma abrupta terminava. O temporal havia diminuído um pouco. Bastava caminhar até o chão subitamente desaparecer. Então o sofrimento que despedaçava seu coração finalmente teria um fim.

Ela titubeou. Alguns segundos de hesitação debaixo da chuva fizeram com que Clara piscasse e se perguntasse se era aquilo mesmo que queria. Planejara aquele momento por semanas. A roupa, o cabelo, o horário. Só não contara com a tempestade, mas, no final das contas, não era problema. Daria apenas mais dramaticidade para o seu ato. Nos instantes que ficou ali próximo ao seu último salto, imaginou, com alguma perversidade, o lamento dos parentes, amigos e conhecidos.

O que ele diria? Ah, esperava que ele ficasse com o coração tão dilacerado quanto o dela e levasse para o resto da vida a culpa pela sua morte.

Faltava pouco agora, disse Clara para si mesma, respirando fundo. Fechou os olhos e abriu os braços, absorvendo toda a chuva. As mãos ardiam, os joelhos estavam esfolados. O vestido comprado para aquela ocasião estava sujo e com lama na barra.

— Adeus – sussurrou ela desejando ardentemente que sua voz chegasse até os pensamentos dele e que, depois daquele dia, o cretino nunca mais tivesse qualquer tipo de paz.

Clara deu um passo à frente, decidida, agora de olhos abertos. Queria se ver caindo no mar, espreitar as ondas vindo ao seu encontro, saber o exato momento em que o seu corpo machucado afundaria na água. Talvez fosse rápido. Ela queria que fosse rápido. Não sabia nadar e se ainda tinha o direito de pedir alguma coisa aos céus era que sofresse menos do que estava sofrendo naquele momento.

Ela deu mais um passo para frente e se equilibrou perigosamente na beira do penhasco. Os braços ainda estavam abertos como se fosse alçar voo. Lá embaixo as ondas batiam mais fortes nas pedras. A tempestade aumentara de um segundo para outro.

— Ninguém se importou com meu sofrimento – murmurou ela com um soluço. — Pouco me importa todos vocês agora.

Clara se precipitou para frente no exato momento que alguém lhe agarrou com força pela cintura. Ela soltou um grito e ouviu outro também, mais forte, ao mesmo tempo que caía rolando pelo chão. As pernas ficaram balançando soltas no ar para o lado de fora do morro e Clara quase não conseguia respirar. Um homem estava atravessado sobre seu corpo, impedindo-a de se mexer, deliberadamente.

 Era inacreditável. A chuva castigava seu rosto. As costas doíam pela queda. Uma névoa cobriu o alto do morro e Clara quase não conseguia distinguir quem a salvara da morte.

— Você está maluca?

A voz dele saiu em um sussurro assustado, mas Clara não pôde responder por estar mais apavorada ainda. Lentamente e com cuidado, o homem saiu de cima dela e ficou ao seu lado, ajoelhado, observando-a. O vento revolvia os cabelos dele enquanto a encarava, pasmo.

— Acho que estraguei os seus planos.

Clara pôs a mão no rosto e começou a chorar. De onde ele surgira? Quem era aquele cara que dera fim ao seu longo planejamento? Graças a ele ainda estava viva. Viva e sofrendo. Viva, sofrendo e machucada, tanto fisicamente como psicologicamente. Clara se sentia a mulher mais azarada do mundo.

— Espero que você esteja chorando de agradecimento.

Ela continuou chorando. A névoa ia e vinha e os dois estavam ensopados.

— Vamos sair daqui antes que a gente pegue uma pneumonia.
— Não me importo – Clara sussurrou aos prantos.
— Você não se importa com o quê?
— Vá embora você – ela cobriu o rosto e soluçou mais. — Me deixe sozinha.
— Não – o homem balançou a cabeça e os cabelos loiros respingaram água para todos os lados. — Vou levar você daqui.

Ele ficou em pé e estendeu a mão para Clara. Furiosa, ela olhou para o outro lado, acintosamente.

— Já disse que vou ficar.

A névoa aumentou bem como a ventania. O homem não esperou por mais nenhum lamento de Clara. Sem fazer muita força, ele a pôs de pé, apoiando-a pelas costas. Clara deu um gritinho assustado. Ele não estava sendo bruto, mas toda a sua determinação a surpreendia.

— Você está machucada – constatou ele reparando nos arranhões de Clara. — Que mal o mundo lhe fez para você vir até aqui tentar fazer uma besteira destas?

Clara não se sentia em condições de responder. Aliás, se sentia ridícula também. Pela primeira vez, em semanas, todas as resoluções em pôr fim a sua vida estavam agora estremecidas. Olhou para cima e conseguiu encarar o seu salvador. Não queria responder. Tudo aquilo já era um constrangimento sem fim.

— Talvez um dia eu conte a você – respondeu Clara com a voz tremendo, sabendo que aquilo nunca iria acontecer.
— Tudo bem, fique à vontade. Me diga seu nome pelo menos.

Ela não respondeu. Assim que pudesse iria desaparecer daquele lugar para sempre. Esperava também nunca mais ver o desconhecido que a conduzia devagar morro abaixo, segurando-a com firmeza para que não resvalasse e saísse rolando pelas pedras.

— Meu nome é Eduardo. Certo, eu respeito que você não queira se identificar.

Clara optou pelo silêncio mais uma vez. Durante a descida, Eduardo falou sozinho. Comentou sobre o tempo ruim, as ondas violentas e perguntou se os machucados lhe doíam muito. Clara se acostumou a ficar calada, apenas admirando a voz musical dele, a conversa leve de quem era de bem com a vida, o sorriso fácil mesmo no meio daquela confusão. Teve vontade de lhe contar a verdade, que chegara de madrugada em meio ao temporal e deixara o carro em uma ruazinha próxima. Não havia trazido bagagem, pois para onde pretendia ir não precisaria disso. Mas achou melhor não dizer nada. Para quê? Provavelmente ele, em uma roda de amigos, diria que salvara uma doida de se atirar do morro, o nome dela era Clara e havia tentado se matar por ter levado um pé na bunda do noivo. Não. Era demais para quem já andava com o amor próprio tão abalado.

Quando eles chegaram ao pé do morro, Eduardo propôs:

— Eu moro aqui perto. Você precisa se secar, tomar um chá quente. Descansar.
— Eu… eu preciso ir.
— Para onde? – Eduardo parecia preocupado. — Se eu deixar você aqui, quem garante que não voltará para terminar o que tinha começado?

A chuva havia amainado e de repente aquela ideia do suicídio lhe pareceu a maior idiotice do mundo.

— Não vou mais fazer isto – garantiu ela olhando firme nos olhos negros dele e percebendo toda sua enorme desconfiança. — Eu juro.

“Mas... se eu for embora... sei que não te verei nunca mais.”

— Não confio em você. Afinal, mal nos conhecemos, não é mesmo? – ele sorriu outra vez e Clara se deu conta que seu coração acelerava. — Você sequer me diz seu nome!

Ela sorriu levemente, envergonhada. Era bom estar junto a ele, aconchegada nos seus braços. Era bom também se sentir viva quando por algum tempo se sentiu tão morta.

— Ah, você está aí.

A voz aguda e um pouco irritada de uma mulher quebrou o clima de quase encantamento que Clara estava começando a experimentar. Uma moça mais jovem que Clara e portando uma sombrinha amarela enorme encarava os dois querendo explicações. Seu olhar furioso encarava o casal.

Eduardo demonstrou não se abalar pela presença dela.

— Bom dia, amor – respondeu ele sem soltar Clara. — Carol, esta é a… Bem, esta moça estava correndo perigo no alto do morro. E eu... eu a salvei.

A expressão da moça suavizou um pouco, mas mesmo assim Clara não escapou do olhar analítico dela. A jovem era linda, com longos cabelos loiros caindo cacheados pelas costas. O contraste com a aparência de Clara era gritante e sem querer, ela estremeceu. Eduardo percebeu e achou que fosse frio.

— Vamos levá-la para casa. Ela está com frio.

Os olhos da outra se estreitaram.

— Você nem sabe quem ela é.

Clara se sentiu mal com aquela discussão. Nossa. A única coisa que queria há quinze minutos atrás era se matar. Agora o que mais desejava no mundo era estar a quilômetros de distância. A vergonha era grande, mas a pressão das mãos fortes de Eduardo nas suas costas era maior. A verdade é que não queria se soltar dele. Porém, não podia ficar mais ali também.

— Carol, pare com isto. A moça está passando por dificuldades.

A muito custo, Clara se desprendeu de Eduardo. Deu dois passos para o lado e quando tentou falar, a voz ainda saiu tremida.

— Obrigada... obrigada por tudo. Eu realmente preciso ir embora.

Carol a olhou, aliviada. Depois tornou a encarar Eduardo.

— Ela está bem. Você está legal, não é mesmo, moça?

Clara balançou a cabeça, fazendo que sim. A chuva parara finalmente e ela sabia que o carro estava a apenas dois quarteirões de distância. Bastava apenas caminhar até lá e desaparecer daquele lugar para não voltar nunca mais. Quando chegasse em casa, já seca e talvez com algum resfriado, a primeira coisa que iria fazer era agendar um horário com um especialista. E nunca mais falar sobre o seu quase suicídio com ninguém.

Eduardo voltou seus olhos para Clara, mas quando iria falar alguma coisa, soltou um espirro. De cara amarrada, Carol se aproximou dele, ralhando:

— Vamos para casa – ela pôs a mão sobre o braço dele. — Você vai pegar um gripão. Venha, você precisa de um banho quente e de um chá queimando.

       — Espere – Eduardo se virou para Clara que continuava no mesmo lugar observando o casal. — Você também está molhada. Olhe suas mãos, elas estão machucadas! Vamos até nossa casa pelo menos para tirar este barro do seu corpo.

            Carol suspirou, aborrecida.

            — Edu, para quê insistir? Ela quer voltar para casa. Não é isto que você quer?

            Clara não respondeu. Deu meia volta, segurando a barra do vestido para não arrastar no chão. Ele já estava sujo o suficiente. Sentindo o olhar quente de Eduardo nas suas costas, Clara seguiu pela rua deserta, dobrou a primeira esquina e caminhou lentamente para onde havia deixado seu carro, abalada com seu comportamento e sua fraqueza. Envergonhada, jurou para si mesma que nunca contaria sobre aquilo com ninguém. E mesmo que seu coração batesse mais quando lembrava dos olhos doces de Eduardo, pediu aos céus para que nunca mais seus caminhos se cruzassem outra vez.



quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

TSUNAMI




Sinopse de Tsunami, romance em revisão da autora Patrícia da Fonseca.








Tahire chegou ao alto da Pedra do Mar à luz dos últimos raios de sol. Em Cidade de Baixo reinava o caos. As fortes ondas do mar de Padora cobriam a areia e as pequenas casas na orla já não conseguiam mais resistir. Com os braços ao lado do corpo, angustiada, Tahire respirou fundo diversas vezes para manter o auto controle. A culpa era sua. A Profecia estava sendo cumprida. Se houvesse seguido as determinações dos deuses, nada daquilo estaria acontecendo.

Os ventos haviam destruído boa parte das casas de Padora de Cima. Kara, a irmã mais nova, juntamente com os irmãozinhos gêmeos, havia desaparecido. O pai, sacerdote Ulysse, havia se oferecido em sacrifício quando soube da recusa da primogênita Tahire em abrir mão do seu amor para salvar a ilha. Len, a mãe, morrera pouco depois devastada pela tristeza.

Agora só restava ela, Tahire. A traidora.

Lágrimas vieram aos seus olhos, mas Tahire sequer se deu ao trabalho de enxugá-las. O vento fez isto por ela. A jovem sabia o motivo de as condições climáticas terem se modificado tão repentinamente. Além de não ter obedecido aos deuses, Tahire trazia dentro de si o fruto do seu amor por Erich.

As ondas avançavam cada vez mais e o coração de Tahire apertou. Desde a separação ela não vira mais Erich. Com o fim do relacionamento o rapaz descera as pedras que levavam à Cidade de Baixo e nunca mais retornara. Talvez tivesse voltado para os braços da bela Yáskara.

Tahire manteve o equilíbrio enquanto lutava contra a ventania e desviava dos obstáculos encontrados pelo caminho, restos das edificações de Padora de Cima. Precisava falar com Erich, ansiava em saber se ele estava bem, com saúde, em paz.


Vivo.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

O ÚLTIMO ACORDE

                Bom dia, leitorinhos! Este é o primeiro capítulo de uma história que pode, um dia, se transformar em um romance. Espero que curtam! Estejam todos convidados a darem sua opinião. Vou adorar!




Não havia ninguém no salão do hotel quando Elisa chegou. O lugar era sofisticado, mas aconchegante e ela se sentiu um pouco melhor. De olhos fechados, respirou fundo. Em meio a sua dor, estar isolada do restante do mundo trazia um pouco de paz ao seu coração tão devastado.
                Elisa abriu os olhos outra vez. No fundo do salão, de tons azuis, havia um piano de cauda. Na noite anterior, por conta da festa de casamento de Guilherme, ela escutara os doces acordes do piano que flutuaram em ondas até seus ouvidos. Mesmo trancada no quarto, Elisa pôde ouvir os sons das vozes animadas e felizes, os risos, a música e, por fim, o som inconfundível do piano. O dia mais feliz da vida de algumas pessoas tinha sido o pior dia da vida de Elisa.
                Com passos um tanto incertos, Elisa encaminhou-se até o piano. Já o tocara algumas vezes, inclusive para Guilherme, em noites mágicas passadas. Agora, que nada mais restava, Elisa decidiu tocar a última música. E depois, então, partiria para sempre.
                Ela sentou no banquinho e respirou fundo de novo. A música que escolheu era de sua própria autoria. Tinha composto em uma noite de verão, no tempo em que Guilherme lhe jurara amor eterno. Ainda que tivesse tocado a mesma música várias vezes para ele, Guilherme nunca se interessara em perguntar quem era o autor da composição. Talvez o amor dele por Elisa já estivesse fraquejando e ele não fizesse questão de saber. Ou pior ainda: era provável que nem tivesse escutado nada, a mente já voltada para seus outros interesses.
                “Como fui boba”, murmurou Elisa para si mesma quando iniciou os primeiros acordes. “Ele nunca me amou de verdade. Eu, a filha da camareira.”. A música logo envolveu o ambiente com sua doçura e força. Elisa se isolou do mundo como desejava e de olhos fechados e lágrimas escorrendo pelo rosto, a jovem deixou-se levar pela música, ansiando esquecer um pouco da dor e da sua própria vida.
                Após algum tempo – Elisa não saberia dizer quanto – um movimento no ar desviou sua atenção. A jovem olhou rapidamente para o lado e percebeu um vulto nas sombras. Imediatamente ela parou de tocar e ficou em pé, num salto. Não imaginava que alguém estaria lhe observando, logo em um momento que considerava tão privado.
                Elisa fez menção de fugir, mas o vestido comprido e esvoaçante prendeu no pé do banquinho.
                — Por favor, moça – a voz de um homem surgiu no meio da penumbra do salão – Fique. Não quis lhe assustar.
                Mas, além de assustada, Elisa também se sentia envergonhada. As lágrimas banhavam seu rosto e ela sabia que sua expressão era marcada pela dor. Mal podia ver o rosto dele.
                O homem aproximou-se um pouco mais, com a palma da mão estendida, como se quisesse impedi-la de sair dali. Ele era alto, jovem e com os cabelos levemente compridos, alcançando os ombros. Elisa nunca o havia visto na vida e ela supôs que fosse algum hóspede do hotel.
                Ambos ficaram se encarando por alguns instantes, sem dizer nada. Elisa tentou conter o choro, mas um soluço escapou-lhe da garganta. Envergonhada, ela deu um passo para trás.
                — Parabéns – elogiou ele com um sorriso sincero no rosto moreno. — Peço desculpas por interromper seu concerto. Estava lindo.
                Por algum motivo o coração de Elisa bateu mais forte enquanto fitava os olhos muito negros dele. Quis dizer alguma coisa, porém a voz lhe faltou.
                Quem seria ele? Perguntou Elisa a si mesma, em uma mistura de sensações e emoções. Nunca o vira circulando pelo hotel. Talvez fosse um dos convidados do casamento, até mesmo um amigo de Guilherme.
                Elisa recuou um passo, enxugando as lágrimas com o dorso das mãos. Não podia ficar ali. Todo o encanto da música e do momento haviam se desvanecido pelo lindo rapaz que não parava de fitá-la.
                — Posso ajudar você? – perguntou ele, gentil. — Quer um copo d’água ou...

                Ela deu meia volta e saiu correndo, levantando o bonito vestido para não pisar na barra. Não olhou mais para trás. Quase sem poder enxergar devido às lágrimas, Elisa atravessou o salão e saiu pelo enorme janelão que dava para os belos jardins do hotel, perdendo-se em meio à noite estrelada.