sexta-feira, 5 de outubro de 2018

ELE





  
Ele me olha
Ele sabe
Espero um movimento dele
Um gesto
Um indicativo
Então ele segue seu caminho
Observo seus movimentos
Mal respiro
Tremo
Me recomponho
Ele ainda não percebe
Mas já me pertence

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

O NOME DELA É VAL (erótico)









Meu negócio sempre foram os homens e poucas vezes na minha vida fiquei sem namorado. Mas quando vi a Val me apaixonei na hora. Não me pergunte o que aconteceu comigo. Tudo começou numa festa. Eu estava com meu grupo de amigos em um bar quando de repente ela apareceu. Levei um choque assim que a vi. Me fascinei por aqueles cabelos vermelhos e os olhos verdes que volta e meia pousavam sobre os meus. Tínhamos amigos em comum e Val já estava um pouco alta. Mas não me importei. Ela era linda, divertida, louca. A risada era uma delícia e eu não conseguia desviar o olhar da Val. Me apaixonei tão rápido que não tive muito tempo para me questionar sobre aquilo. Enquanto Val ria, contava piadas e jogava charme para quem quisesse, eu me mantive quieta, absorvida pelo seu encanto. Estávamos em lados opostos e tudo que eu queria era me aproximar e tocar naquele cabelo brilhante, no rosto, no corpo. Eu tinha concorrência, contudo. Alguns rapazes que estavam conosco também a cobiçavam, bastava ver pelos olhares que lançavam a ela. Achei que jamais teria chance com Val até que ela se levantou para ir ao banheiro. Eu fui atrás.

Encontrei-a frente à pia borrifando água no rosto com a pontinha dos dedos. Estávamos sozinhas, pelo menos naquele momento. Val pressentiu minha presença e virou a cabeça para o meu lado, devagarzinho. Com uma mecha do cabelo vermelho caindo sobre um dos olhos, ela perguntou com a voz um pouco arrastada por causa da bebida:

— O que você quer?
— Um beijo seu – respondi um pouco ofegante.

Val soltou aquela risada que me fascinava.

— Deixa de ser doida, mulher.

Avancei com passos decididos na direção dela sem pensar em nada para não perder a coragem. Mais alta que Val, eu a empurrei de encontro à parede e fiquei frente a ela bloqueando a passagem. Eu não iria deixar que ela fugisse de mim. Seria aquela noite ou nunca mais.

Não sei se por estar ligeiramente bêbada ou por estar afim mesmo, Val não ofereceu a menor resistência. Colei minha boca na dela; até então eu nunca tinha beijado nenhuma garota na vida. Val correspondeu e senti as mãos dela percorrendo minhas costas. Me excitei mais e apertei com força um dos seios dela ao mesmo tempo que a puxava para mais junto de mim. Quando Val gemeu de prazer dentro da minha boca em meio a um beijo pegado, fiquei mais louca do que já estava.

As mãos de Val se grudaram na minha bunda e me apertaram. Eu estava de saia e a guiei direto para minha calcinha. Os dedos dela me exploraram e minhas pernas amoleceram. Da boca da Val eu desci meus lábios pelo pescoço até os seios onde a chupei com tanta força que ela gemeu mais forte ainda. Os dedos de Val continuavam na minha buceta, no meu grelo, massageando, apertando, sabendo exatamente onde tinha que tocar. Neste meio tempo a porta do banheiro se abria e fechava. Acho que as mulheres davam meia volta quando viam nós duas nos pegando feito duas loucas, grudadas na parede.

Então a Val se agachou na minha frente, levantou minha saia e quase arrancou a calcinha que eu vestia. Senti a língua dela dentro da minha xoxota, indo e vindo, me chupando e gemendo tanto quanto eu. Forcei a cabeça da Val para mais dentro de mim ainda. Minhas pernas já nem tinham muita sustentação e quando ela enterrou dois dedos dentro do meu cuzinho soltei um grito alto, vi estrelas e desabei no chão, nos pés dela. Ali fiquei inerte, acabada e apaixonada. Enquanto me recuperava, Val foi até a pia, lavou a boca, as mãos, se recompôs e saiu do banheiro. Fiquei no chão frio por mais alguns minutos, de joelhos, respirando fundo, com a calcinha fora do lugar e a minissaia na cintura. O banheiro começou a ser utilizado novamente, um entra e sai de mulheres enquanto eu estava ali, tentando sair do meu torpor, um tanto envergonhada por estar naquela posição. Outra coisa me incomodava também. Eu havia sido abandonada.

Finalmente consegui me levantar. Ajeitei minha roupa e o cabelo, ignorando alguns olhares curiosos. Eu não devia estar chateada. Afinal, conhecera Val há menos de uma hora. Mas... nossa, ela havia balançado comigo. Transar com ela fora maravilhoso, mas ser largada no fundo de um banheiro de bar não era nada romântico. Me achei uma besta ter me apaixonado daquele jeito. E toda vez que eu fechava os olhos enxergava o corpo da Val e tremia de excitação.

Antes de voltar até onde estavam meus amigos precisei retocar minha aparência. Penteei meus cabelos com os dedos e uma boa alma me emprestou um batom. Saí do banho como se nada tivesse acontecido, procurando Val desesperadamente. Demorei um pouco para me juntar à turma. Com os olhos catei Val por todo o bar. Subi ao andar de cima, mas nem sinal. Por fim, deduzi que ela havia ido embora e voltei para a mesa, desconsolada. Talvez meus amigos desconfiassem o que havia acontecido, mas todos foram discretos o suficiente para não falarem nada naquele sentido. Como desculpa para minha fossa, acabei exagerando na bebida, coisa rara de acontecer. Saí do bar uma hora depois de braço dado com um dos meus amigos e a única coisa que eu queria era ir para minha casa, tomar um banho e dormir. E então, quando eu me sentisse normal outra vez e pudesse reassentar meus pensamentos, talvez pudesse refletir sobre aqueles acontecimentos que me tiraram completamente a razão.

domingo, 5 de agosto de 2018

EVELINE



Olá, Leitorinhos!

Abaixo segue o primeiro capítulo de uma novela que estou escrevendo. Do que eu posso adiantar a sinopse, é sobre uma jovem de 20 anos cujo maior sonho é namorar e casar com um rapaz do seu bairro. Como todos seus planos em conquistá-lo dão errado, Eveline apela para um conhecido programa de televisão, o campeão de audiência Namora Comigo.


        

1
        – Bom dia, mundo!
         Eveline escancarou as venezianas da janela do quarto. Eram sete horas da manhã e as ruas do bairro recém começavam a ter algum movimento de pessoas indo para o trabalho. Lá da cozinha vinham os ruídos da mãe começando seus afazeres. O domingo havia sido longo com uma encomenda grande de bolo para uma festa de 15 anos. Eveline ajudara a mãe e com isto perdera um belo dia de sol. Mas não se importou muito. A mãe precisava daquele dinheirinho para pagar algumas contas pendentes.
         Ela desceu as escadas já pronta e maquiada. Cândida, com um lenço na cabeça, analisava os pedidos de encomendas para aquele dia.
     – Bom dia, mãe – Eveline deu um beijo na bochecha de Cândida e pegou um pedaço e pão. – Muita coisa para hoje?
         – Sim, mas eu vou dar conta – Cândida respondeu sem tirar os olhos do papel onde anotara tudo. – Seria muito melhor se você largasse o emprego na loja para me ajudar. Já pensou o quanto podíamos faturar? Nós duas juntas?
      – Ah, mãe... Não venha com este papo de novo – Eveline abriu a geladeira. – Não tem suco de laranja?
         – A Oscarina tomou tudo ontem.
Eveline se limitou a sacudir os ombros e terminou por pegar um copo de água. – A tia já saiu?
         – Claro – Cândida deu uma risada debochada. – Ela faz tudo por aquele emprego. Até darem um belo chute na sua bunda. Aí eu quero ver – Cândida olhou para a filha. – Você é como ela. Dá a vida pela loja até lhe mandarem embora com uma mão na frente e outra atrás.
         Eveline se encostou na bancada da pia ainda mastigando o pedaço de pão.
         – Mãe, hoje é recém segunda–feira. Não comece, por favor. Quero uma semana tranquila para nós. Além do mais, o Douglas não teria coragem de fazer isto comigo. Sou a melhor vendedora da loja.
         A jovem fez uma pirueta em frente à mãe.
         – Como estou?
         Cândida, concentrada nas suas tarefas, mal olhou para ela.
         – Hein?
         – Mãe! – Eveline pôs as mãos na cintura. – Estou bem? A minissaia é nova. Percebeu?
         Cândida observou a filha dar uma volta em torno de si mesma.
         – Por mim você está como sempre. Ah, legal a minissaia.
         – Puxa... mas eu não engordei nenhum pouquinho?
         – Não. Embora coma igual a um cavalo você está do mesmo jeito. E se dê por feliz, Eveline, com tanta mulher querendo emagrecer por aí. Posso trabalhar agora?
         Eveline fez um muxoxo. Fazia quase um ano que poupava dinheiro para implantar silicone no peito e na bunda. Mas ainda não conseguira juntar nem a metade para realizar o procedimento. Isto explicava o fato de ser a melhor vendedora da loja onde trabalhava. Precisava, desesperadamente, de um corpo novo.
         – Queria muito ter o bundão da Soraia – divagou ela.
         – Como é?
  – A Soraia. Namorada do Alexsander – Eveline não conseguiu disfarçar o despeito ao mencionar o nome da rival. – Eu podia ter aquele corpo.
         – Olha aqui, Eveline – Cândida perdeu a paciência de vez. – Se você cursasse uma faculdade não pensaria em tanta inutilidade. Me deixa trabalhar. Olha o mundo de coisa que eu tenho para fazer hoje.
         Eveline revirou os olhos. Uma hora depois a jovem pegou a bolsa, borrifou uma dose generosa de perfume no corpo e renovou o batom vermelho. Sabia estar longe de ser a mais mulher mais desejada, mas quando abriu a porta de casa para ir ao trabalho estava pronta para ganhar o mundo.


quinta-feira, 28 de junho de 2018

MEU AMOR MISTERIOSO - ONDE ESTOU?





Clarissa se encontrou com Mariana novamente no dia seguinte perto do meio dia. Estava entrando no mercadinho e por pouco não esbarrou nela. Mariana ficou ligeiramente desconcertada.
— Oh, Clarissa! Tudo bem com você?
— Oi, tudo ótimo.
As duas ficaram paradas frente a frente, uma bloqueando a passagem da outra.
— Suas mãos... como estão?
— Ah, estão melhores – Clarissa mostrou as palmas das mãos para ela. — Só ardem um pouquinho. Você… você dormiu bem depois de ontem?
Mariana não demonstrava estar disposta a falar sobre o ocorrido. Estava bem nítida na sua expressão o quanto o assunto a incomodava.
— Dormi muito bem – garantiu ela, mas Clarissa não acreditou. — Feito uma pedra.
— Que ótimo.
— Bem, eu preciso ir. Meus gatos estão com fome.
A mulher forçou a passagem, ansiosa para ir embora. Antes, porém, que ela fugisse, Clarissa tratou logo de perguntar:
— Você não o conhece mesmo? Tem certeza que nunca o viu?
Clarissa percebeu uma leve mudança no semblante de Mariana. Ela respirou fundo, disfarçadamente, e piscou os olhos duas vezes. Não adiantava dizer que não sabia do que Clarissa estava falando.
— Já respondi isto ontem para você – Mariana retrucou com muita calma. — Ele é um total desconhecido para mim.
As duas se encararam por mais um instante e Mariana se despediu, alegando mais uma vez que os gatinhos estavam famintos.
Clarissa voltou para casa mais intrigada que nunca. E animada também. Tinha dois mistérios para desvendar: a hospedaria e o coração atormentado de Mariana.
Não sabia nem por onde começar.
*
Toda vez que Clarissa ia para a hospedaria, o tempo ficava feio e ameaçava chuva. Por isto, naquela tarde, antes de pegar a bicicleta para ir novamente até lá, ela olhou para o céu atentamente. O dia estava lindo e sem sinal de nuvens. A previsão do tempo também era favorável. Nada de chuva ou vendaval. Portanto, se despencasse uma chuvarada de repente era por que realmente havia algo de muito errado com aquele local.
Foi com o coração transbordando pela boca que Clarissa tomou o rumo da hospedaria. Durante o trajeto sentiu as pernas amolecerem várias vezes e a garganta ficar seca. Não sabia mais o que esperar daquele lugar. Tudo o que acontecia lá era estranho e Clarissa não sabia mais o que era verdade ou não. Não eram nem três horas da tarde. Decidira ir cedo para não ter que voltar à noite, caso se demorasse por algum motivo. No entanto, sabia que não teria coragem de subir até a casa. Se deparar com as ruínas ou com Dani no meio do salão abandonado era demais para seu coração.
A avó estava desconfiada que alguma coisa estranha estava acontecendo em razão do pouco apetite da neta durante o almoço. A ansiedade a atormentavam e lhe tirava a fome. Para Dona Iara não aumentar seu grau de desconfiança e para que ela própria não ficasse fraca, Clarissa comeu arroz, feijão e carne, em porções pequenas. Não podia se dar ao luxo de ficar doente justo naquele momento. Aliás, suas férias não poderiam acabar antes que desvendasse todo aquele mistério.
Mariana não perdia por esperar.
Quando chegou ao bairro o céu continuava azul. O dia estava quente e bonito, muito convidativo para dar uma volta de bicicleta. As pernas estavam cansadas das pedaladas e do nervosismo, mas Clarissa não pensava em desistir quando avançou pelas ruas calmas. Naquela tarde havia um pouco mais de movimento. Algumas pessoas nos jardins, cachorros passeando soltos nas ruas. Muitas casas permaneciam fechadas conferindo um ar de abandono maior ao local. Aquilo deixava Clarissa nervosa e ela passou praticamente reto pelas casas sem olhar para nenhuma delas. Ela só parou frente à hospedaria.
Clarissa apoiou os pés no chão sem desmontar da bike. Respirou fundo e depois soltou todo o ar pela boca. Para sua investigação ser completa ela sabia que teria que subir até a hospedaria. Mas cadê a coragem? A garota olhou para cima, sem conseguir enxergar nada além das árvores. Ao fechar os olhos visualizou o rapaz sentado em um dos bancos do jardim como se estivesse esperando-a. Clarissa engoliu em seco. Não havia nada lá em cima. Nem hóspedes, nem Dani, somente uma edificação em ruínas.
Ainda de olhos fechados Clarissa percebeu algo estranho no ar. Primeiro foram algumas notas suaves trazidas pelo vento. Ela quase suspendeu a respiração. Não podia ser verdade! Depois a música se tornou mais forte, mais nítida. Não era a mesma que Clarissa havia escutado naquela tarde em que presenciara Dani ao piano.
Clarissa não tinha coragem sequer de se mexer. Olhos cerrados, pés firmes no chão e as mãos segurando com força a bicicleta. Qualquer movimento iria dissolver a mágica do momento. Lá em cima Dani estava tocando para ela e duas lágrimas escorreram pelo seu rosto. Será que ele estava lhe chamando? Ela deixou o ar escapar devagarzinho. Talvez a hospedaria estivesse funcionando em toda sua glória.
Poderia subir. Por que não?
Um deslocamento de ar ao seu lado em meio a passos suaves fez com que Clarissa abrisse os olhos, surpresa. Por meio segundo achou que veria Dani parado ao seu lado. Mas não era ele. Uma senhora de cabelos brancos, aparentando ser da idade da sua avó, encarava-a atentamente. Clarissa deixou escapar um gritinho de susto.
— Oh, me desculpe – disse a mulher, sorridente. — Não tinha intenção de assustá-la.
Clarissa sabia estar branca de medo, mas pelo menos o coração já batia mais devagar.
— Tudo bem – ela deixou o ar sair aos poucos. — Eu estava concentrada na música.
A garota se calou bruscamente. Música. Que mico. Na certa a senhora não deveria estar ouvindo música nenhuma.
— Eu escuto sempre.
— Como assim? – Clarissa chegou a piscar. — Você... você consegue escutar o som do piano?
Ela balançou a cabeça fazendo que sim.
— Quase sempre. Os acordes do piano são trazidos pelo vento para os poucos que restaram no bairro. Algumas vezes ouvimos sem vento algum também. É como se fosse um encantamento. Alguém – ela apontou para o alto, para a hospedaria — gosta de nós.
Clarissa olhou para onde a mulher apontava e depois se voltou para ela.
— Você já morava aqui quando este lugar funcionava?
Ela balançou a cabeça fazendo que sim.
— Nunca participei de festa nenhuma, mas eu via os carros chegando. As festas eram lindas. Eu escutava o som das vozes e das músicas aqui de baixo. Muita gente famosa vinha até aqui, mas eu não via ninguém. Eles chegavam em seus carros poderosos e de vidros escuros e subiam o caminho de pedras dispostos a passar horas maravilhosas – ela deu uma risadinha. — Confesso que morria de inveja, mas não podia sequer parar aqui na frente. Havia uma legião de seguranças que não deixava os pobres mortais passar dos limites estipulados por eles.
— Então me diga uma coisa – pediu Clarissa com a garganta seca. — Quem é o pianista? Quem é a pessoa que toca piano tão lindamente?
Ela balançou a cabeça com ar pesaroso.
— Eu nunca soube, minha menina. Enfim... mas ele nunca nos abandonou. Ou ela. Mesmo com a hospedaria virada em escombros, há dias e noites que o escutamos por várias horas seguidas. Como agora.
— Mas… você tem certeza que vem lá de cima?
A senhora riu.
— Você acha que vem de onde?
A história causava mais espanto ainda em Clarissa. O relato da mulher deixara sua pele toda arrepiada.
— Então há alguém lá em cima – insistiu a garota.
— Não há ninguém lá – a mulher afirmou, categórica. — Ninguém vivo.
Clarissa sentiu que ficava mais pálida ainda.
— Não precisa se preocupar. Os fantasmas que habitam a hospedaria até hoje são inofensivos. É a música, a risada deles, o som das taças de champanhe que alegram este bairro tão abandonado.
— Meu Deus! Vocês escutam as vozes dos hóspedes também?
— Quando assim é permitido.
A jovem olhou para a mulher. Os cabelos brancos lhe davam um ar simpático e sua voz inspirava grande sensação de paz, apesar do pavor de Clarissa.
— Você é de verdade?
Clarissa se surpreendeu com sua própria pergunta. A mulher olhou para ela e sorriu:
— Depende do plano em que você está.
— Bem, eu preciso ir – disse Clarissa com a voz incerta. Ela segurou firme o guidom da bicicleta. Lá em cima a música se tornou mais alta.
— Volte sempre que quiser – a mulher falou quando Clarissa começou a dar meia volta para sair o mais rápido possível dali. — Não são todos que conseguem ouvir o pianista.
*
Clarissa chegou abalada em casa. A avó cozinhava seus doces na cozinha e pediu seu auxílio. Afobada, não percebeu a inquietação da neta. Enquanto misturava os ingredientes, a garota se perguntava aonde iria parar com toda aquela investigação. Cada vez que ia até a hospedaria voltava com uma novidade incompreensível. Não sabia mais o que pensar. Tivera contato com pessoas que não sabia sequer se estavam vivas. Isto era terrível, quase um pesadelo. Desistira de procurar Dani pelas ruas. Sabia que ele agora estava na hospedaria, tocando seu piano para quem tivesse a sorte de ouvir. Pensou em convidar o avô Ricardo para ir até lá. Confiava nele. Certamente o homem não sofreria nenhuma alucinação como ela vinha tendo desde que pusera os pés na hospedaria.
— Ai!
Dona Iara espichou os olhos para a neta.
— O que houve, Clarinha?
— Nada demais, vó – disse ela lambendo o dedo. — Me queimei com o creme.
— Ih… − fez Dona Iara. — Você anda bem esquisita ultimamente.
— Eu, vó? Impressão sua.
Alguém bateu na campainha e Clarissa deu graças a Deus pela conversa ter sido interrompida. Dona Iara largou as coisas sobre a mesa e foi até a porta. Clarissa respirou fundo. Esperava que a avó não tornasse a vir com aquele assunto chato.
— Mariana! Tudo bem?
Clarissa levou um susto ao escutar o nome de Mariana e foi atrás da avó. Deparou-se com ela parada no meio da sala com uma expressão preocupada. Os olhos das duas se encontraram por alguns instantes.
— Preciso de uma ajuda sua, Dona Iara.
Mariana trazia urgência na voz. Ela estava inquieta, esfregando as mãos nervosamente.
— O que houve, criatura? Você está tensa.
— Recebi agora uma ligação da minha irmã, Solange – ela explicou. — Ela sofreu uma queda e está machucada. Pediu que eu fosse ajudá-la. – Mariana respirou fundo para buscar ar. — Minha irmã mora há trezentos quilômetros daqui.
Clarissa não perdia nada da conversa.
— Em que eu posso lhe ajudar, querida? – Dona Iara segurou as mãos geladas de Mariana.
— Meus gatos. Vou ficar um tempo fora e não tenho ninguém de confiança para cuidar deles. Preciso que alguém passe na minha casa todos os dias para dar comida aos bichinhos. A senhora pode fazer isto por mim?
Havia um brilho de ansiedade nos olhos de Mariana que cortou o coração de Dona Iara. Ela logo se prontificou:
— Claro, claro que sim. Pode contar comigo sempre.
— Dona Iara, eu não sei quanto tempo irá levar para eu voltar. Minha irmã tem filhos pequenos e ninguém para cuidar da casa. Vou fazer o possível para não demorar por lá.
— Mariana, não se preocupe. Eu vou cuidar bem dos gatinhos. Vá tranquila cuidar da sua irmã.
— Ela é a única pessoa que tenho neste mundo, Dona Iara – confessou Mariana para surpresa da senhora e também de Clarissa. A mulher remexeu dentro da bolsa e pegou várias notas de dinheiro. — Tome, Dona Iara. Isto dará para comprar ração para os gatos e cobrir mais alguma despesa.
Dona Iara pegou o dinheiro e o guardou cuidadosamente dentro de uma gaveta. Depois se voltou novamente para Mariana que continuava retorcendo as mãos sem parar.
— Fique tranquila e viaje sossegada, querida. Ligue para meu celular se precisar de alguma coisa.
— Muito obrigada – agradeceu Mariana. — Minhas coisas já estão no carro. Já coloquei comida para eles hoje. Bem, eu preciso ir.
As duas mulheres se despediram na porta e Mariana saiu sem olhar para Clarissa. Dona Iara observou a amiga partir e murmurou:
— Coitadinha da Mariana. Espero que tudo se resolva por lá.
A mente de Clarissa fervilhava.
— Vó, eu posso cuidar dos gatos da Mariana. Você não precisa ir na casa dela todos os dias.
— Veremos isto depois, Clarinha. O importante é não falharmos com Mariana neste momento em que ela precisa tanto de nós.


sexta-feira, 15 de junho de 2018

MEU AMOR MISTERIOSO - ASSOMBRAÇÃO







Dona Iara e Ricardo acharam a ideia excelente. O evento terminou por volta das 15 horas e dali Mariana e Clarissa saíram juntas.
Assim que Mariana deu a partida no motor a garota perguntou, curiosa:
– Você já foi à hospedaria alguma vez?
Mariana respondeu enquanto manobrava o carro:
– Sim, há muitos anos, quando ela estava no auge – suspirou. – Era um lugar muito bonito, cheio de gente sofisticada e alto astral. Não acreditamos quando fechou. Ninguém esperava por aquilo.
– Meu vô disse a mesma coisa. E eu quase não acreditei. Ontem… bem, ontem parecia tudo normal lá em cima. Quase normal, com exceção dos hóspedes que me ignoraram ou fugiram.
A outra ficou silêncio quase todo o caminho. Clarissa a observava com o canto do olho, tentando adivinhar o que se passava na cabeça dela. Mariana não estava sendo apenas “legal”. Havia alguma coisa por trás daquele convite. Clarissa tinha quase certeza que Mariana conhecia Dani. Só não conseguia imaginar qual a relação que ambos poderiam ter.
O bairro estava deserto quando o carro cruzou as ruas pouco arborizadas. Sacos de lixo se acumulavam nas calçadas. Nem todas as casas estavam abandonadas. Havia alguns carros nas garagens, mas não se via vivalma caminhando pelos passeios. Clarissa murmurou:
– Onde está todo mundo?
Mariana conduziu o carro ainda imersa em silêncio. Ela parecia tensa, apertando com força o volante. A hospedaria se aproximava e Clarissa se deu conta que segurava o ar.
A placa com os dizeres “hospedaria” estava pendurada, presa por somente um prego, sem charme nenhum. Mariana perguntou:
– Quer mesmo subir?
Os olhos de Clarissa estavam arregalados. As coisas estavam bem diferentes. O calçamento desmoronava. Havia partes da calçada que estavam esburacadas e havia menos árvores. Nada parecia ter vida naquele lugar.
– Sim, eu quero.
Mariana começou a subir a lomba ignorando os solavancos causados pelos buracos.
– A ganância deixou este local magnífico ficar deste jeito – suspirou ela com as mãos firmes na direção. – Você não tem ideia de como esta propriedade era incrível.
Clarissa tinha ideia, sim. Pudera ver com seus próprios olhos todo o glamour de Castelo de Pedra. Há apenas 24 horas a hospedaria parecia emitir luz própria, pulsando vida e beleza. Porém, ao chegar lá em cima tudo o que Clarissa via era o mato tomando conta, o telhado faltando em algumas partes e a madeira sendo consumida pelo cupim.
– Vamos descer – disse Mariana abrindo a porta do carro.
Clarissa, em choque, levou alguns segundos para sair do seu torpor. Lentamente, ela saiu do carro com os olhos arregalados. O primeiro passo dado quase a levou ao chão quando, distraída, enfiou o pé em um dos tantos buracos. Mariana alertou, preocupada:
– Olhe onde você pisa, Clarissa. O terreno não é de confiança.
As duas caminharam lado a lado pelo jardim devastado. Os balanços estavam pendurados pelas correntes de um lado só ou quebrados. Não havia flores em lugar nenhum. Do banco onde sentara ao lado da velha senhora só restara o assento. A garota olhou ao redor. A hospedaria nada mais era que um esqueleto, uma montanha de ossos abandonada.
– Onde você viu o rapaz? – a voz de Mariana rompeu o silêncio. Ela também não se sentia bem naquele lugar. Apesar de saber o estado precário da hospedaria, não imaginava que tudo estivesse tão arrasado. O interior deveria estar pior ainda devido ao telhado em péssimas condições e a chuva que caía dentro. O cenário era desolador.
– Lá – Clarissa apontou para a edificação que, no dia anterior, se erguia imponente. Ela não sentia a menor vontade de seguir naquela direção.
Mariana tomou a frente e Clarissa terminou por segui–la. Quando se aproximaram Clarissa se deparou com a enorme janela totalmente fechada por pedaços de madeira.
– Não estava assim ontem – ela murmurou, chocada.
– O rapaz tocava piano dentro do salão? – indagou Mariana com a voz sumida.
– Sim. E era o salão mais lindo que eu já vi na minha vida.
Mas agora não havia nada. Clarissa e Mariana ficaram paradas, lado a lado, sem saber ao certo o que fazer.
– Não é perigoso?
– O quê?
Clarissa sacudiu os ombros.
– Ficarmos neste lugar, sozinhas.
– Nada acontece aqui.
Ambas falavam em tom baixo como se tivessem medo de serem ouvidas. Clarissa, então, decidiu caminhar até a grande janela do salão. Queria tocar na madeira para ter certeza que ela era de verdade.
Mariana ficou parada no mesmo lugar enquanto Clarissa se dirigia até o janelão. Ela se posicionou em frente, respirou fundo e encostou a ponta do dedo.
A madeira estava ali. Úmida pelas condições climáticas e alertando que ela existia de verdade. Mesmo assim Clarissa não se deu por vencida. Precisava se certificar. Bateu com o nó dos dedos na madeira, suavemente. Depois usou de mais força dobrando o peso da mão. A madeira cedeu um pouco.
– Não convém forçar muito, Clarissa – advertiu Mariana sem entender direito o que a garota pretendia.
Mas foi exatamente o que Clarissa fez. Sem pensar ela deu um empurrão na madeira para testar sua resistência. A madeira não suportou a pressão. Com um estrondo ela desabou para dentro do salão, revelando um lugar escuro, fedendo a mofo e à podridão.
Mariana deu um pequeno grito, enquanto a própria Clarissa colocava a mão no coração, de susto. Ela aproximou–se um pouco mais. Precisava saber se realmente havia um piano lá dentro.
Um clarão iluminou o céu e o interior do salão. Clarissa enxergou nitidamente Dani, em pé, no meio do vasto aposento, encarando–a com um olhar triste.
O relâmpago durou meio segundo, se tanto, mas foi o bastante para Clarissa recuar com um grito de horror, tropeçar e cair sobre as pedras. Ela se levantou em seguida, apavorada e com as palmas das mãos sangrando. Mariana, pálida, precipitou–se em sua direção tentando ajudá–la.
– Clarissa, o que houve?
– Vamos embora daqui!
Clarissa caiu de novo desta vez aos pés de Mariana. A imagem vista dentro do salão a assustara terrivelmente. Mariana tentou ajudá–la a se levantar preocupada com o estado da garota.
– O que você viu? – perguntou ela, ansiosa, reparando nas mãos ensanguentadas e trêmulas de Clarissa. – Clarissa, me conte o que foi!
A garota finalmente ficou em pé evitando olhar na direção do salão. Tinha medo de ver Dani na janela feito uma assombração.
– Vamos sair daqui! – repetiu Clarissa muito pálida.
As duas correram para o carro e, antes de dar a partida, Mariana insistiu:
– O que você viu lá dentro?
A voz de Clarissa custou a sair:
– Eu vi… Eu vi… Ele parado no meio do salão.
– O quê?
Mariana deixou o motor apagar e Clarissa ficou mais apavorada. Estava morrendo de medo que alguém aparecesse de repente na frente do carro e impedisse a saída delas de lá.
– Ele está lá! – Clarissa respirou fundo. – Meu Deus, eu acho que é ele sim!
– Não pode ser! – o carro apagou de novo nas mãos de Mariana. – Não tem ninguém lá dentro! A hospedaria está fechada há anos!
Clarissa não respondeu. E nem poderia. A respiração ofegante e entrecortada lhe impedia de articular as palavras.
Mariana finalmente conseguiu fazer o carro movimentar e, rapidamente, as duas saíram dali. Em silêncio cruzaram o bairro deserto. Ameaçava chover novamente em Santa Maria da Serra.
– Está doendo? – Mariana perguntou com a voz estrangulada.
– Hein?
– Suas mãos – ela apontou com a cabeça para as mãos feridas de Clarissa. – Estão machucadas.
– Oh, é mesmo.
Clarissa recém havia se dado conta que as mãos estavam arranhadas e sangrando. Isto não importava tanto. Estava chocada demais com o que vira na hospedaria.
– Estou bem.
– Tem uma caixa de lenços de papel no porta–luvas. Pode usar.
– Obrigada.
À medida que se afastavam, tanto o coração de Clarissa quanto o de Mariana pararam de bater com tanta força. Volta e meia Mariana respirava fundo, tamborilando os dedos no volante. Parecia querer falar alguma coisa. Por fim disse:
– O que você vai dizer para sua avó sobre as mãos esfoladas?
– Já tenho a mentira pronta – confessou Clarissa. – Vou contar que estivemos em uma das trilhas que levam às cachoeiras e acabei escorregando. Isto explica minha calça suja de terra.
– Vou entrar junto com você. Dona Iara pode se aborrecer por eu não ter lhe cuidado direito.
Quando chegaram em casa, mais calmas, Dona Iara não desconfiou dos machucados de Clarissa e ainda convidou Mariana para tomar um chá. Enquanto as duas conversavam na cozinha, Clarissa observou o modo que Mariana se comportava. Depois do que acontecera a mulher parecia ainda mais esquisita. Ela respondia aos monossílabos e bebeu um número maior de xícaras de chá a que estava acostumada. Era nítido o esforço que fazia para manter a serenidade. Dona Iara não percebeu nada.
Depois da quarta xícara de chá Mariana se levantou tão bruscamente para ir embora que a cadeira caiu para trás. Com o rosto em chamas ela tentou se desculpar:
– Oh, perdão, Dona Iara. Como sou desastrada!
Os olhos de Clarissa e Mariana se encontraram por um instante, mas a mulher logo tratou de desviar o olhar. Mariana se despediu de Dona Iara e deu um abano rápido para a menina. Ela saiu apressada e em seguida foi ouvido o barulho do carro indo embora.
Clarissa se aproximou da janela. As nuvens que antes ameaçavam cair com força haviam dado lugar às estrelas. Dona Iara parou ao lado da neta e perguntou:
– Estava bom o passeio?
A jovem evitou olhar para a avó.
– Ótimo. Pena que eu não olhei para onde pisava.
– Mariana é uma ótima pessoa, só muito reservada. Me surpreendi de ela ter convidado você para um passeio. É um bom sinal.
Clarissa também estava muito surpresa. Mariana havia mudado depois de ter visto o desenho de Dani. Tinha certeza que ela o conhecia. Ou alguém próximo a ele.
– Por que você acha que é um bom sinal, vó?
 – Mariana não se relaciona com muitas pessoas. Às vezes tenho a impressão que ela tem medo de conversar com gente diferente. Acho que ela não lhe encara como uma ameaça. Ou uma intrusa. Talvez minha amiga esteja mudando. Fará muito bem a ela.
A garota tentava não pensar na visão que tivera. Tinha sido horrível. Assustador. Dani, ou seja lá quem ele era, era dono de um semblante muito triste, de cortar o coração.
Havia alguma errada naquele lugar.
Ela precisava saber o que existia de verdade lá em cima. Uma hospedaria em ruínas ou um lugar em seu esplendor? A hospedaria estava em funcionamento ou seus hóspedes transitavam em outro mundo?
Mas... se eles transitavam em um plano diferente, isto significava que estavam mortos?
– Ai, meu Deus! – gemeu Clarissa sentindo um arrepio.
– O que houve? – Dona Iara estranhou. – As mãos estão doendo?
– Ardendo, mas não é nada – ela novamente evitou olhar para a vó. – Já vai passar.
Naquela noite Clarissa custou a dormir como já era o esperado. E, por precaução, deixou a luz do abajur acesa. Cada ruído da casa ou na rua era motivo para o coração acelerar. O desenho de Dani estava bem guardado na bolsa. Desde que voltara não tivera mais coragem de olhar para ele.
“Dani, quem é você?”
A dor dos olhos do rapaz doía também no peito de Clarissa. No fim das contas, por volta das duas horas da manhã, ela já não sabia mais o que havia visto na hospedaria. Sua mente estava lhe pregando peças. Mas, por via das dúvidas, era melhor mesmo deixar a luz acesa.



segunda-feira, 4 de junho de 2018

MEU AMOR MISTERIOSO - O CONVITE






O salão onde se realizava o encontro estava cheio de gente simpática e ávida por uma conversa. Dona Iara fez questão de apresentar a neta para as pessoas, fato que não deixou Clarissa muito contente. Não naquele dia, pelo menos, quando seu humor não estava dos melhores. Ela não se desgrudava da bolsa de jeito nenhum. E não era por causa dos seus pertences. O desenho de Dani se tornara algo precioso demais. De jeito nenhum podia perdê-lo ou amassá-lo.
Meia hora depois de terem chegado ao salão Mariana surgiu com suas roupas sóbrias e o cabelo preso em um coque. Ela pareceu um pouco tímida enquanto vasculhava o ambiente procurando algum lugar para sentar. Todas as mesas já estavam ocupadas. Dona Iara, assim que a viu, fez um amplo gesto com a mão chamando-lhe para ficar com eles. Clarissa percebeu o sorriso aliviado insinuando-se entre os lábios dela quando se aproximou da mesa. Dona Iara já tinha providenciado uma cadeira extra e todo mundo se apertou um pouco para Mariana poder sentar.
— Muito obrigada, Dona Iara. Achei que não encontraria lugar para mim – agradeceu ela.
— Você sempre terá lugar conosco, Mari. Pensei que você não viria.
Clarissa prestava bastante atenção nas coisas que Mariana falava. Sentia certa curiosidade sobre a vida dela.
— Meus gatinhos sempre me prendem na hora de sair – respondeu, sorrindo, como se tivesse falando de algum filho. — Acho que eles não gostam de ficar sozinhos.
A jovem resolveu se intrometer na conversa.
— Adoro gatos. Se um dia eu morar sozinha também vou querer ter vários para me fazer companhia.
Assim que falou Clarissa se deu conta que havia sido um pouco inconveniente. Mariana disfarçou olhando as unhas e Dona Iara fuzilou a neta com os olhos. Ela tentou ajeitar:
— Gatos são excelentes companhias para qualquer pessoa.
— Tem razão – Mariana concordou disposta a quebrar o clima estranho que se formou. — Me divirto muito com eles.
Dona Iara elogiou:
— Está muito bonito o seu penteado, Mariana.
Clarissa quase engasgou com o refrigerante. Para variar, o coque de Mariana a envelhecia uns cinco anos. Além do mais, um batom vermelho teria dado mais vivacidade ao seu rosto. De qualquer forma Mariana gostou do elogio.
— Ah, muito obrigada, amiga. Hoje eu não estava com muito tempo para me arrumar. Então fiz um penteado básico.
As duas começaram uma conversa que não interessou nem um pouco Clarissa. Um garçom trouxe os galetos para a mesa e o almoço oficialmente teve início. A comida estava ótima, mas Clarissa mal sentia o gosto. Embora fosse improvável que Dani estivesse no salão, sempre havia alguma esperança de isto acontecer. Os olhos dela eram como um radar esmiuçando cada canto do lugar. Havia vários jovens, mas nenhum com as características de Dani para pelo menos ter alguma ilusão de que algo diferente estava para acontecer. Algumas pessoas se aproximavam da mesa para cumprimentar Dona Iara e o vô Ricardo e, algumas vezes, Clarissa percebeu que Mariana a encarava como se quisesse perguntar alguma coisa. Esta situação a deixava um pouco constrangida e intrigada. Afinal, se Mariana queria saber algo, que perguntasse de uma vez.
— Vó, preciso ir ao banheiro. Onde é?
Antes que Dona Iara respondesse, Mariana se adiantou:
— Eu também estou precisando usar, Clarissa. Posso lhe levar.
— Ah… que ótimo – murmurou ela levantando-se devagar. Quem sabe agora Mariana desembuchasse de vez?
As duas caminharam em silêncio até o banheiro do outro lado do salão. Clarissa simplesmente não sabia o que dizer e não tinha coragem de encará-la. O banheiro era grande e com um enorme espelho. Naquele exato momento estava vazio. Quando Clarissa saiu da sua cabina pensou seriamente na hipótese de voltar para o salão e deixar Mariana sozinha. Contudo, antes que tomasse qualquer atitude, a mulher saiu da sua própria cabina e deu mais um daqueles sorrisinhos estranhos.
— Como foi sua primeira semana na cidade, Clarissa?
Finalmente Mariana falara alguma coisa. Enquanto lavava as mãos, a jovem respondeu:
— Interessante. Passeei algumas vezes de bicicleta.
— Quando eu tinha sua idade adorava andar de bicicleta também.
— Ah…
— Não viu mais o menino bonito da feira?
Clarissa a encarou. Seria isto que desde o início ela queria saber? Qual o interesse nela por Dani?
— Eu… não exatamente. Bem, eu… eu o segui um dia destes.
Mariana se empertigou.
— Sério? Conseguiu falar com ele?
Por algum motivo Clarissa sentiu vontade de contar sua história estranha para Mariana. Ela não fazia o tipo que iria pegar um megafone e contar para a cidade inteira.
— Não. Mas eu descobri onde ele está hospedado.
— Onde?
O banheiro continuava vazio, propício para a grande revelação.
— Na hospedaria.
Mariana fez uma expressão de incompreensão.
— Que hospedaria?
— Castelo de Pedra.
Ela empalideceu e colocou a mão no coração.
— Como assim? Castelo de Pedra? Mas esta hospedaria não existe!
Um rubor subiu ao rosto de Clarissa. Ao contar a história percebia o quanto aquilo era ridículo.
— Mas eu o segui até lá. Atravessei o bairro arborizado, subi o caminho de pedras que leva até a hospedaria e encontrei duas meninas brincando no jardim bonito. Havia uma senhora sentada em um banco fazendo crochê, mas ninguém me deu bola. Então escutei o som de um piano.
— Piano?
Mariana se mostrava cada vez mais surpresa. Toda a cor desaparecera do seu rosto.
— Exatamente, um piano. Caminhei até um salão cujas janelas davam para o jardim. Ele tocava piano lá dentro.
— Ele… viu você? – a voz de Mariana saiu sombria.
— Que nada! Nem olhou para o lado!
— Então vocês não se falaram?
— Não. Quando me dei conta já estava anoitecendo e eu estava longe de casa. Tive que voltar.
— Que pena... vocês não terem se falado.
Clarissa olhou para Mariana.
— Você está se sentindo bem?
— Eu? Claro! Acho que minha pressão caiu um pouco.
— Eu desenhei o rapaz. Na verdade, eu o chamo de Dani para ficar mais fácil. Quer ver?
— O quê?
— Meu desenho. Acho que está bem fiel.
Mariana balançou a cabeça dizendo que sim. Clarissa abriu a bolsa e pegou o desenho guardado dentro de um envelope cor-de-rosa.
— Veja. Ele é assim.
Clarissa ficou surpresa ao ver a fisionomia de Mariana se alterar mais ainda.
— É este o rapaz que você… se apaixonou?
Mariana pegou o desenho das mãos de Clarissa para olhar mais de perto. Intrigada, a jovem perguntou:
— Você o conhece?
— Não – disse ela, rapidamente, devolvendo o pedaço de papel para Clarissa. — Ele é um rapaz muito bonito.
Mariana respirou fundo e se recompôs logo.
— E então? Você pretende voltar à hospedaria?
— Sim – Clarissa estava muito determinada. — Acho que hoje não poderei ir por causa deste encontro. Além do mais, é domingo e deve estar mais deserto por aquelas bandas. Mas amanhã é certo que eu vou. Mariana, não encontrei ruína nenhuma por lá. Preciso ver tudo outra vez.
— Eu posso levar você hoje, se quiser.
Clarissa pensou ter escutado mal.
— Onde? Na hospedaria?
— Por que não? – Mariana parecia ansiosa para que Clarissa aceitasse o convite. — Eu estou com a tarde livre. E você também, pelo visto. É melhor ir de carro do que de bicicleta.
— Eu acho ótimo! – a garota ficou empolgada. — Mas eu prefiro não comentar nada com meus avós. Eles vão achar estranho.
— Não há problema. Eu posso dizer que vou levar você para dar uma volta pela cidade para conhecer alguns pontos turísticos. O que você acha?
— Formidável.