quarta-feira, 21 de abril de 2021

MELHORES AMIGAS

 


Não que eu me importasse muito.

Ok, eu me importava sim. Na verdade, aquilo estava me consumindo por dentro. Ela era amiga de todo mundo. Menos de mim.

Quando Giovana entrou na escola quase na metade do ano letivo, ela logo chamou atenção dos meus colegas. Pudera. Giovana era linda. Pele bronzeada, cabelos muito louros. Simpática, comunicativa. No início, algumas meninas ficaram com inveja. Não demorou muito. Logo Gio conquistou a todos com seu carisma. Eu fiquei de fora. Eu, a excluída. Giovana não se dava nem ao trabalho de olhar para a minha cara. Credo, eu nem era tão feia assim. Só um pouco... estranha.

Mas, logo que ela entrou para a escola, eu, muito tolinha, achei que ela seria minha amiga. Minha melhor amiga. Havia um lugar vago ao meu lado (ninguém queria sentar comigo) e Giovana sentou ali. Tentei puxar conversa com ela, ansiosa em agradar. Naquele primeiro dia, meio perdida ainda, Giovana até me deu atenção. Me senti o máximo quando fomos à cantina juntas, no intervalo. Bem, não me importei muito quando percebi que tudo o que eu falava Giovana parecia não escutar. Tudo bem. Ela estava comigo e meus outros colegas estavam vendo que Giovana era minha amiga. Apesar de ela não parecer tão à vontade andando ao meu lado, pensei que fosse por ser seu primeiro dia. Voltei para casa contente. Fiz até um bolo de cenoura com cobertura de chocolate para presenteá-la no dia seguinte.

O dia seguinte chegou e com ele todas as decepções possíveis. Giovana rapidamente fez novas amizades e foi sentar do outro lado da sala. Comi a fatia do bolo no intervalo, sentada num canto do pátio. Engoli o bolo e minha frustração. Eu já devia esperar que aquilo fosse acontecer.

Os dias e as semanas passaram. Giovana nunca mais olhou para minha cara. Nem para me cumprimentar. Da mágoa, eu passei para a raiva e o rancor. Por que ela não podia ser minha amiga? O que ela tinha a mais que eu? Beleza? Simpatia? A vontade que eu tinha era de atirar uma pedra bem no meio daquele rosto de boneca e deixá-la tão feia quanto uma bruxa. Nossa, se minha mãe soubesse nas maldades que me vinham à mente, certo que iria me levar a um psiquiatra.

A gota d’água aconteceu durante a aula de Educação Física. Sempre odiei. A professora inventou um jogo de vôlei e cheguei a sentir um frio na barriga. Eu era péssima em esportes. Não queria jogar. Os times começaram a ser escolhidos e... adivinhem. Ninguém me queria. A professora me colocou, na marra, no time da Giovana. Ela era a capitã e fez cara feia quando me viu na sua equipe. Aquilo me doeu. Depois da dor, veio a raiva. Tentei me controlar. Ia ficar chato se eu perdesse a razão.

Só sei que dei azar e errei três bolas seguidas. Que fiasco. Na quarta vez quando me preparei, desajeitada, para receber a bola com uma manchete, levei um empurrão da Giovana e caí sentada na quadra, ralando as mãos no chão. O jogo continuou. Ninguém se importou comigo e nem devem ter se dado conta quando levantei, possuída pelo capeta.

Toda a fúria que eu acumulei durante aqueles meses subiu pelo meu peito, incontrolável. Bem, talvez eu não estivesse a fim de me controlar. Me aproximei a passos firmes da Giovana. Alguém a alertou e quando a cretina se voltou encontrou minha mão cerrada bem no meio daquele nariz perfeito.

Peguei sete dias de suspensão e um convite para procurar outra escola. Meus pais ficaram loucos. Eu vibrei. Soube, mais tarde, que o nariz de Giovana ficou levemente torto. Parece que um ou dois dentes ficaram prejudicados também.

Eu só queria que ela fosse minha amiga.




segunda-feira, 19 de abril de 2021

MELÂNIA NÃO ERA DO TIPO QUE DESISTIA


Ele sempre passava no mesmo horário. Cinco horas da tarde. Todos os dias, Melânia colocava seu melhor vestido, prendia o cabelo vermelho de um jeito diferente, passava perfume. Quinze minutos antes de ele apontar na esquina, a jovem de 16 anos se postava na janela, esperançosa, sorridente, altiva. 

Mas quem era "ele"? Domênico. Alto, magro, barba bem feita, elegante. Advogado recém formado, 25 anos. Um bom partido, como já dissera o pai de Melânia. As menininhas da cidade ficavam faceiras e se cutucando quando Domênico surgia na calçada. Com Melânia não era diferente. Sonhava com ele todas as noites e de dia também. Não contara a nenhuma das suas amigas o quanto desejava Domênico. Afinal, parecia que Domênico habitava o coração de todas elas. E mais: o bonitão também chamava atenção das mulheres mais velhas.

E naquela tarde de sol, Domênico dobrou a esquina com seu passo firme, a expressão do rosto suave e tranquila. Cumprimentou os passantes que faziam questão de lhe dar uma palavrinha. Melânia se aprumou na janela, ensaiou o melhor sorriso, Domênico já vinha chegando. Ah, se ele a olhasse nem que fosse uma vez... Não que se contentasse com pouco, mas poderia ser o início de um grande amor, uma linda história.

Melânia ficou com o sorriso congelado no rosto bonito quando Domênico passou sob sua janela sem sequer se dar ao trabalho de olhar para o lado. O coração da moça se quebrou, mas ela não podia se dar ao luxo de mostrar sua decepção. Na calçada da frente, Dona Chica, a florista, observava-a com atenção. Ah, não, pensou Melânia, preocupada. Esta velha fofoqueira não pode perceber o tamanho do meu desencanto. 

Então, Melânia forçou mais ainda o sorriso e abanou freneticamente para Dona Chica. Sim, tudo estava bem naquela tarde ensolarada de outono. Domênico já ia longe, despreocupado, sem jamais saber que para trás deixara uma menina apaixonada com lágrimas aprisionadas. 

Mas Melânia não era do tipo que desistia. 

Um dia de cada vez.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

A SUICIDA


                Larissa pegou a mão de Mel e saíram escondidas da aula de Educação Física. Faltava pouco para terminar o turno e já anoitecia. As duas odiavam fazer qualquer tipo de exercício.

                Mel quase caiu no corredor deserto da escola quando ambas fizeram a curva correndo. Lá no fundo ficavam os banheiros.

                — Preciso retocar o batom – Larissa riu do tombo que Mel quase levou. — O Rodriguinho já deve estar lá na frente.

                — Não era mais fácil você arrumar um namorado da mesma escola?

                — Tenho culpa se o cara mais gato do Brasil gosta de mim e estuda do outro lado da cidade? Ah, amiga, ele é um amor...

                Mel olhou para frente. Já estavam perto dos banheiros, mas, aparentemente, não havia mais ninguém por ali.

                — Nossa – comentou Larissa. — Cadê todo mundo?

                — Estão matando aula. Tipo nós.

                — Estranho.

                O banheiro feminino estava vazio. Mel empurrou a porta com um pé e as duas amigas entraram rindo, despreocupadas. Uma menina de cabelos loiros estava agachada em um dos cantos. Vestia uma roupa branca, solta no corpo e escondia o rosto entre os joelhos. Larissa puxou Mel para trás assim que se deparou com a moça.

                — Mel, olha...

                Mel estacou no mesmo instante, assustada. Nenhuma das três garotas falou qualquer coisa, contudo era palpável a tensão que pairava no ar. Larissa olhou para Mel e perguntou, baixinho:

                — Quem é?

                — Sei lá – a resposta foi no mesmo tom.

                A garota desconhecida se mexeu. Primeiro os pés, depois as mãos. Lari e Mel sequer respiravam. Assombradas, viram quando a garota levantou a cabeça, devagar, e as encarou. O rosto pálido ao extremo, os olhos fundos, uma expressão de tristeza imensa.

                Mel foi a primeira a dar o berro:

                — É a Clau! A suicida do banheiro.

                Na desesperada tentativa de sair do lugar o mais rápido possível, as duas amigas se embolaram e caíram no chão. Mel torceu o pé e Larissa, em pânico, tentou levantar a amiga.

                — Depressa, Mel!

                Clau ficou em pé sem nunca tirar os olhos das duas. Mel berrou, desesperada, se agarrando nas pernas de Larissa. As luzes do banheiro começaram a piscar.

                — Ai, meu Deus! – Larissa gemeu. — É a Clau mesmo! Aquela que se matou enforcada por causa do Leandro!

                Clau deu dois passos para frente. Uma porta bateu ao longe. Larissa envolveu Mel pela cintura e a arrastou para o lado de fora do banheiro. As luzes do corredor piscavam sem parar. Um vento soprou vindo do nada.

                — Ela vai nos matar, Lari!

                Mel pulava em um pé só agarrada na amiga, ambas já no corredor. Nenhuma tinha coragem de olhar para trás.

                — Será que era a Clau? – a voz de Larissa tremeu.

                — Claro que era. Eu me lembro dela antes de...

                Mel preferiu não completar a frase.

                — Que droga – Larissa praguejou. — Não tem ninguém nas salas. Ninguém para nos salvar. Parece que não vamos nunca alcançar o pátio.

                — E se ela matou todo mundo?

                Larissa se perturbou com a pergunta de Mel e tropeçou. Desequilibrada, caiu no chão levando junto a amiga. Lá no fundo do corredor, na porta do banheiro, Clau as observava. Mel se moveu sentada no chão recuando alguns centímetros.

                — Ela vai nos alcançar. Nunca mais vou conseguir me levantar daqui.

                Larissa ficou em pé e toda ela tremia. Esticou a mão para a amiga.

                — Isto não pode estar acontecendo. Vem, Mel, fica em pé de uma vez.

                — O que vocês duas estão fazendo aqui?

                A diretora da escola estava parada a poucos metros dela. Mel e Larissa estremeceram. Seria possível que a mulher não estivesse enxergando Clau no fundo do corredor?

                — Diretora, só fomos ao banheiro – Mel tentou se desculpar.

                — E o que você está fazendo no chão?

                Mel balbuciou:

                — Torci o pé fugindo da Clau.

                — De quem?

                A diretora colocou as mãos na cintura. Sua expressão ficou ainda pior.

                — Da Clau – Larissa suspirou. Sem olhar para trás, com medo, apontou na direção dos banheiros.

                Com os olhos, a diretora seguiu o dedo de Larissa e olhou para o fundo do corredor.

                — Você pensa que sou alguma idiota?

                Mel segurou o ar. Não sabia o que era pior. Enfrentar a diretora ou o fantasma de uma menina suicida.

                — Não, por favor!

                — Vocês falaram... Clau?

                Larissa respirou fundo e olhou para trás. Não havia ninguém defronte a porta dos banheiros. Tudo parecia muito normal.

                — Eu posso explicar...

                —Vocês não deviam estar na aula de Educação Física?

                — Eu torci o pé – argumentou Mel com um fiapo de voz.

                — Vou chamar o monitor para me ajudar com vocês duas. Já faz três anos que esta menina morreu. Esqueçam.

                A mulher se afastou. Lari e Mel permaneceram no mesmo lugar, quase sem se mexerem.

                — Lari, olha pra trás.

                — Eu? Não tenho coragem.

                — E se nós estivermos imaginando coisas?

                Devagar, as duas garotas voltaram o pescoço na direção do banheiro. Clau continuava lá.

*

                — E por que vocês acham que o Leandro vai dar a mínima para isto? Eles nem estavam mais juntos.

                Mel olhou de canto para Larissa. Ambas estavam na praça de alimentação de um shopping sentadas frente à Fabi, irmã do ex-namorado da Clau.

                — Ora, amiga – Mel controlou a vontade de acertar um soco naquela garota pedante. — Todo mundo sabe que a Clau fez o que fez por ter visto seu irmão se agarrando com a Verônica.

                — A culpa nunca foi dele – Fabi foi dura. — A Clau não teve estrutura para suportar vê-lo com outra e resolveu se matar. Bem, acho que ele deveria ter sido mais discreto.

                — Mas não foi – Larissa devolveu no mesmo tom. — Agora Clau fica vagando pela escola. Uma alma perdida.

                — Para não dizer penada – arrematou Mel.

                Fabi tomou um gole do suco de maracujá e encarou as duas amigas, curiosa.

                — Então é sério que a Clau vagueia pela escola? Quando eu saí de lá já ouvia essa história. Mas nunca acreditei que fosse real.

                — Nem nós – Mel se arrepiou só de lembrar a cena pavorosa. — O fato é que nós a vimos.

                — Vocês não estão delirando? Vocês disseram que a Diretora não viu nada.

                — Na verdade a Clau só aparece para quem quer – Larissa olhou para Fabi espantada com tão pouca empatia. — Talvez pense que nós podemos ajudar.

                — Não sabia que vocês eram íntimas da louca da Clau.

                — E não somos – Mel suspirou sem paciência.

                — Então por que ela surgiu para vocês? Meninas, vocês não tinham cheirado nada, não é?

                Larissa segurou firme o braço cheio de pulseiras da Fabi.

                — O que estamos contando é a mais pura verdade.

                Fabi puxou o pulso com alguma brusquidão.

                — Vocês querem que eu faça exatamente o quê?

                — Peça para seu irmão vir falar conosco – Mel encarou Fabi. — Ele poderá nos entender melhor do que você.

*

                Apesar de as meninas duvidarem que Leandro fosse dar alguma importância a elas, o rapaz ligou naquela mesma noite para Mel. Rápida, ela colocou o telefone no viva-voz para que Lari pudesse escutar também.

                — Oi, Mel – a voz dele não estava das melhores. — Minha irmã disse que vocês precisam falar comigo.

                — Olá, Leandro. Maravilha você ter ligado. Achei que você não gostaria de tocar no... assunto.

                — Certo. Qual é o problema?

                Mel e Larissa se entreolharam. Era nítido que Leandro não estava disposto a se prolongar.

                — Nós, eu e a Lari, vimos a Clau anteontem.

                Silêncio do outro lado da linha. Depois de alguns segundos ele perguntou:

                — Viram quem?

                — A Clau.

                — Ela morreu.

                — Sim. Nós sabemos disso. Mas… como eu disse, ela apareceu para nós.

                Foi ouvido um suspiro de impaciência e Mel achou que ele fosse desligar.

                — Vai começar esta história de novo? Já estou farto disso. Cansei de ouvir relatos que Clau anda circulando por aí.

                — Mais precisamente no banheiro feminino da escola, Leandro. Foi assustador o que eu e a Lari presenciamos.

                — Muito bem. E vocês querem que eu faça o quê? Acenda uma vela para Clau?

                Larissa abriu a boca, espantada. Não podia acreditar que Leandro fosse tão grosso.

                — Escute aqui, Leandro… – começou Mel.

                — Eu não sei se a Clau está vagando por aí. Não acredito nesse tipo de coisa. Sinto muito que tudo tenha acontecido daquela forma, mas não tenho culpa – novamente ele perguntou. — O que vocês querem que eu faça?

                — Achamos que seria interessante você ir até a escola. Talvez ela precise falar com você.

                Leandro riu um pouco irritado.

                — Não acredito. Vocês acham mesmo que eu vou conseguir algum contato sobrenatural com ela?

                — Ora, se nós conseguimos...

                — Tudo bem. Eu vou até a escola para acabar com esta palhaçada de uma vez. Quando posso ir?

*

                Uma semana depois, durante a mesma aula de educação física. As garotas escapuliram durante alguns exercícios e foram ao encontro de Leandro. Ele estava frente à biblioteca. Acompanhado.

                De longe, Mel avistou os cabelos ruivos de Verônica. E declarou:

                — Precisava ele trazer o motivo da Clau não descansar em paz?

                Verônica era uma jovem alta e bonita. Formavam um belo casal. Quando pararam em frente aos dois, Mel se sentiu uma idiota. E se a Clau não aparecesse?

                — Então, meninas – Leandro parecia constrangido. — Vamos brincar de caça-fantasmas?

                Nenhuma das duas riu. Verônica tentou emendar:

                — Leandro me contou que a Clau apareceu para vocês... É sério isto?

                — Muito sério – Mel foi firme. — Estamos preocupadas porque o fato da Clau estar vagando por aqui é sinal que sua alma não descansou até hoje.

                — Bem, a culpa não é minha – declarou Verônica. — Aliás, sinto muito por ela. Eu nem sabia que a Clau e Leandro tinham namorado quando ficamos juntos pela primeira vez.

                — Certo. Mas vamos ao que interessa – Larissa interrompeu a ladainha. — Temos que aproveitar que as turmas estão na aula de Educação Física no pátio.

                O corredor estava vazio. Ao longe, a porta dos banheiros se destacava. Leandro perguntou:

                — Foi lá que vocês a viram? – ele fez um sinal com a cabeça.

                — Exatamente – Mel deu um cutucão nele. — Vamos logo antes que a Diretora apareça e estrague tudo.

                Os quatro foram em direção ao banheiro, em silêncio. Verônica apertou firme a mão do namorado. Aquela era uma situação tão esquisita. Desde que começaram a namorar ela era bombardeada com indiretas, mensagens cifradas e pessoas falando abertamente sobre o suicídio de Clau. Era duro de aguentar. E agora as duas garotas vinham com uma história bizarra da Clau no banheiro. Os boatos de que a jovem circulava pela escola eram inúmeros, mas nunca haviam ido tão longe.

                À medida que se aproximavam, contudo, Verônica começou a sentir um mal-estar. As mãos gelaram e um suor frio escorreu pelo meio das costas. O estômago doeu e Verônica sentiu vontade de parar onde estava.

                Leandro não percebeu o desconforto da namorada e seguiu em frente, os olhos fixos na porta. Não havia acreditado nem um pouco nas meninas, mas elas foram tão insistentes que ele resolveu topar a parada para encerrar o assunto. Mas... por que à medida que se aproximava sentia os pelos da nuca ficarem em pé? A porta do banheiro estava cada vez mais perto. As luzes estavam apagadas. Olhou de soslaio para Lari e Mel. Pálidas, e de mãos dadas, pareciam à beira de um surto. Não se ouvia barulho nenhum, nem mesmo as vozes dos alunos fazendo educação física lá fora.

                Leandro parou frente à porta e as três meninas logo atrás dele. Ninguém falou e, como não queria passar por medroso, comentou:

                — No meu tempo as luzes do banheiro ficavam acesas.

                Respirando fundo, deu um passo à frente e achou o interruptor sem entrar no banheiro. Iluminada a peça, Leandro se encorajou. Deu um passo para o interior e fez uma rápida inspeção com o olhar.

                Vazio e inofensivo. Ele sentiu vontade de rir e se virou para as meninas.

                — Então, garotas. Não tem nada aqui.

                Verônica, Lari e Mel arregalaram os olhos e, sem perceber, se juntaram umas às outras. Leandro prosseguiu:

                — Não tem fantasma nenhum.

                Verônica recuou um passo, tão pálida que Leandro achou que ela fosse morrer. Caiu sentada no chão com a boca aberta querendo gritar, mas sem sair um único som. Larissa se grudou mais ainda em Mel e ambas deram um grito que reverberou na escola inteira. Leandro, então, se voltou, brusco para trás. Clau, com sua expressão fantasmagórica, encarava-o de muito perto. Leandro pensou em gritar, mas aí já era tarde demais. As três meninas testemunharam quando a porta do banheiro se fechou com um estrondo. Larissa se voltou e tentou puxar Verônica pela manga da blusa.

                — Levanta, Verônica! Temos que sair daqui!

                — Leandro – gemeu ela ao mesmo tempo em que uma vidraça do corredor explodiu. — Alguém tem que tirá-lo do banheiro!

                Lari, Mel e Verônica saíram em disparada, tropeçando e se batendo umas nas outras. A barulheira atraiu dois monitores no início do corredor. A gritaria era grande. Verônica caiu de novo.

                — Vocês precisam ajudar o Leandro! – berrou Mel. — A Clau o prendeu lá dentro!

                — Clau? – um deles perguntou. — A suicida do banheiro?

                Os homens se precipitaram em direção ao local enquanto as meninas se amontoaram em uma das paredes. Aos poucos gente começou a chegar. Professores, alunos, diretora. Todos parados no meio do corredor assistindo os monitores tentar arrombar a porta. O único som que se ouvia era das batidas violentas. A diretora estava pálida e Verônica prestes a desmaiar. De repente, lá pela décima pedalada, a porta voou para trás. Alguém gritou.

                Dentro do banheiro somente a escuridão. A diretora caminhou, em silêncio, até os monitores. Eles pareciam consternados. Tensa, a mulher olhou para dentro. Leandro, deitado no chão frio, fitava o espaço com os olhos arregalados.

*

                Um dia depois o laudo do médico legista atestou enfarte fulminante. E Clau nunca mais apareceu na escola.

 

 

sábado, 14 de novembro de 2020

A BONEQUINHA DE VODU

 



     Eu descobri que a Carol tinha morrido somente uma semana depois. E foi por acaso. Sem acreditar, fui catar no Facebook do Artur se era verdade.

     E era. Artur, meu ex-noivo, amor da minha vida, estava viúvo.

     Meu primeiro sentimento foi ficar em choque. Nossa, a Carol... aquela mulher linda e de sucesso, que com seu jeito meigo e doce tirara o Artur de mim, foi atravessar a rua de bike e não enxergou que vinha um carro pra cima dela.

     Ah, que pena.

     Sua trouxa.

     Artur, claro, fez uma postagem repleta de declarações de amor, tipo que a vaca sempre seria seu amor eterno e blá, blá, blá. Depois que o choque passou e eu me recompus, queimei a bonequinho de vodu. Ninguém podia ver aquilo. Ela tinha fios de lã amarelo iguais aos cabelos da Carol. Pintei uns olhinhos verdes e fiz uma boquinha em forma de coração para ficar mais semelhante à puta. Escolhi uma roupinha parecida com as que ela vestia. Depois de pronta pisoteei a bonequinha. Sapateei em cima com toda minha raiva. Cravei uma tesoura bem no meio da barriga dela. Atirei em um canto e até me esqueci disso.

     Agora está todo mundo pasmo com a morte da Carol. Fiquei também, é claro. Fui eu que causei. Misturei o meu vodu com o lixaredo daqui de casa e tudo virou cinzas. Feito ela. Meu próximo passo é fazer um bonequinho do Artur. E ele vai se apaixonar por mim outra vez.


sexta-feira, 4 de setembro de 2020

ELIENE E O REI

 


Quando Eliene abriu a janela do seu quarto ficou surpresa com a quantidade de brumas que cercavam a casa e o bosque inteiro. Não era uma visão que gostasse. A jovem adorava admirar o verde das árvores e o colorido das flores. Mas as brumas estavam densas aquela manhã e até o sol firmar seria por volta do meio dia.

Aborrecida, Eliene foi para a cozinha. Tinha apenas 18 anos, porém vivia sozinha há algum tempo desde que o pai morrera daquela gripe terrível que levara boa parte dos idosos da aldeia. Não era tão ruim viver assim, ela se deu conta pouco tempo depois. Eliene fazia alguns trabalhos nas casas da vizinhança para manter-se. E, algumas vezes, recebia na sua casa viajantes que passavam pela aldeia e precisavam de um pouco de descanso antes de seguirem adiante. Além de hospedá-los, Eliene recebia um dinheiro extra por servicinhos também extras. A vizinhança, era sabido, não via aquilo com bons olhos, principalmente as mulheres. Contudo, Eliene não se envolvia com os homens delas. A jovem não queria complicações na vida sem pretensões que levava.

A bruma estava forte quando pancadas fortes na porta a despertaram do seu trabalho manual. Eliene correu até a porta e assim que a abriu se deparou com um homem alto, de barba e de expressão cansada.

- Preciso de um lugar para ficar - murmurou ele entrando sem convite e cambaleando.

Ela se apressou a pegar um tapete de pele e mantas grossas. Estendeu sobre o chão e o homem caiu duro, exausto, pegando no sono no mesmo instante. Eliene ficou por um tempo observando-o. Ele era belo, o cabelo negro descia pelo pescoço até o ombro. Quem seria? De onde vinha? Será que tinha alguma mulher o esperando em outro lugar?

Eliene se agachou e tirou-lhe as botas pesadas. Os pés estavam gelados e úmidos. Com cuidado, colocou toalhas quentes para aquecê-los. Ele pareceu relaxar. Sabendo que o desconhecido acordaria esfomeado, Eliene preparou uma sopa grossa. Depois sentou, paciente, na cadeira de balanço que era do pai e continuou seu bordado.

Ele acordou por volta das três horas da tarde. No início parecia não saber onde estava. Então focou seus olhos em Eliene que parou ao lado dele com uma tigela cheia de sopa fumegante.

- Fiz para você.

Com um olhar desconfiado, ele pegou a tigela e devorou a sopa. Eliene precisou servi-lo mais duas vezes.

- Quem é você? - ela teve coragem de perguntar depois de algum tempo.

- Valentim. Desculpe chegar desse jeito. Me perdi no meio da bruma. Ela desceu de repente.

Valentim olhou em volta para a casa vazia.

- Onde está sua família?

- Não tenho ninguém - Eliene respondeu pegando a tigela vazia das mãos dele. - Moro sozinha desde que meu pai morreu.

Ela levou a tigela até a tina de água sabendo ser observada pelo homem. Sem olhá-lo disse:

- O senhor pode passar o tempo que precisar nesta casa - ela fez uma pausa. - Costumo hospedar viajantes. É assim que me sustento.

- Qual seu nome? - Valentim perguntou.

- Eliene - ela se voltou e fez o seu olhar mais doce. - Há um quarto nos fundos onde o senhor pode ficar mais bem acomodado.

Eliene o levou até o quarto onde os hóspedes dormiam. Era de bom tamanho, tinha uma cama confortável e um baú para guardar roupas. No canto uma mesa e uma jarra. Eliene a pegou e se virou para Valentim.

- Vou encher de água.

Quando retornou trouxe também um pote de biscoitos.

- Para caso o senhor sentir fome. Servirei o jantar às sete horas da noite.

Ele apenas balançou a cabeça fazendo que sim. Eliene voltou para a cozinha e começou a preparar o jantar. Até quando ele resistiria a ela?

Valentim ficou fechado no quarto até Eliene bater à porta com o jantar servido em uma bandeja. O homem agradeceu e a jovem se retirou, frustrada.

- Que droga... - murmurou.

Ela foi para a cama uma hora depois. O dia ficara frio e um vento soprava lá fora. Ela deitou sob as cobertas e não tardou a pegar no sono. Eliene não soube em que momento da noite tudo aconteceu. De repente, sentiu um peso sobre seu corpo e abriu os olhos, surpresa. A luz da lua entrava pela janela e iluminava Valentim.

- O que o senhor...

- Cale-se - disse ele. - Bem, tanto faz. Ninguém vai escutar você mesmo.

Eliene sentiu os pelos do homem roçando sobre sua roupa. Roupa que logo foi arrancada. Ela gostou daquilo. Na maioria das vezes os homens que passavam pela sua casa eram rápidos. Mas aquele era diferente. Valentim segurou os seios de Eliene e chupou um de cada vez. Ela gemeu um pouco alto e um tapa vibrou no seu traseiro.

- Prostituta - Valentim sussurrou no ouvido dela. - Já me contaram do que você é capaz.

- Quem? Quem foi? - Eliene levantou a cabeça surpreendida com a revelação.

- Cale-se.

A língua de Valentim desceu devagar pelo corpo dela dos seios ao meio das pernas. Ali ele se demorou um pouco mais. Eliene sentia a barba roçando entre as coxas e a cada sugada ela se retorcia. Ah, se pudesse gritar. Uma das mãos de Valentim pousara, firme, sobre a boca de Eliene. Dor e prazer se misturavam nela.

O luar revelou o membro grosso do homem e Eliene deixou escapar um gemido. Oh, não, pensou ela. Não sabia se iria suportar. Não daquele tamanho. E, puxa, Valentim não era nenhum pouco carinhoso.

A primeira estocada fez Eliene lembrar da sua primeira vez. O grito escapou entre os dedos dele que agora mal tapavam sua boca.

- Você não aguenta, vadia? - ele falou ao ouvido dela.

- Por favor... - gemeu a jovem. - Eu não...

Mas Eliene queria mais. Desejava aquele bruto todinho dentro dela. Valentim enterrou seu membro com mais força ainda e Eliene achou que algo dentro dela se partiria.

Eliene cravou as unhas nas costas dele e Valentim gemeu também. Ele mexia cada vez mais forte, alucinado, quase louco. A jovem sentiu os cabelos sendo puxados para trás e sim, ela ia gozar a qualquer momento.

Ambos chegaram ao clímax quase juntos. Eliene sentiu o corpo vibrar e ficar inerte pouco depois. Quem era Valentim? Mal sabia o que era um orgasmo com os outros homens que por lá passaram. 

Ele ficou deitado ao lado dela por um tempo se recuperando do ato. Eliene reprimiu a vontade de encostar a cabeça no peito dele. Valentim não era homem disso. O corpo dela doía, mas nada do que fizera se arrependia. Quando será que ele iria partir? Não podia deixar aquele homem sair da sua vida assim tão fácil. E se escondesse suas roupas? Cansada, ela dormiu e quando despertou na manhã seguinte, Valentim não estava mais ao seu lado.

                                                                              *

Seguiram-se dias solitários para Eliene. Alguns viajantes passaram por sua casa, mas ela se trancou lá dentro recusando-se a atender a porta. Contudo, aquela situação não podia durar para sempre ou ela morrera de fome. Ao mesmo tempo seu coração sofria por aquele desconhecido. Boba! Apaixonar-se por um homem que ficara com ela por poucas horas! Talvez nunca mais o visse. O melhor a fazer era seguir a sua vida e isso significava recomeçar a receber os viajantes que passavam por lá.

Um dia, porém, surgiu um convite. E ele veio bem a calhar. Lourie precisava ir até a cidade adquirir as ervas e essências para a fabricação dos seus perfumes e queria que Eliene a acompanhasse. Àquela altura a despensa da garota estava à míngua e ela aceitou. Além de ganhar um dinheirinho, Eliene desejava respirar novos ares. As pessoas da aldeia a sufocavam com aquelas mentes tacanhas. Ver gente diferente na capital do reino era tudo pelo que ansiava.

A viagem durou um dia inteiro. Cada mulher foi montada em um burro e um terceiro animal levava cestas para trazer de volta os produtos que seriam adquiridos. Lourie e Eliene chegaram à cidade somente à noite e dormiram em uma hospedaria simples. No outro dia pela manhã, enquanto comiam o desjejum, a dona do lugar comentou:

- Vocês chegaram no dia certo. Haverá uma grande festa na cidade. Hoje o Rei reconhecerá seu filho bastardo como o legítimo príncipe herdeiro.

- Que ótimo - Eliene olhou para Lourie. - Podemos ver alguma coisa, não?

- Primeiro a obrigação. Vamos à feira - sentenciou ela muito séria. - Depois teremos tempo para nos divertirmos.

Ambas passaram a manhã toda ocupadas. As horas passaram rápidas e no início da tarde almoçaram na hospedaria. Lourie não era jovem como Eliene e se sentia exausta.

- Pode ir às festividades se você quiser, Eliene. Meus pés parecem estar pegando fogo. Só iremos retornar amanhã para a aldeia.

- Está certo, irei mesmo. Não vou me demorar. Na verdade nem sei se irei conseguir ver alguma coisa. A cidade está cheia.

A capital do reino fervilhava. Muitas pessoas de fora haviam vindo para conhecer o príncipe herdeiro. Eliene ganhou as ruas da cidade e, no início, ficou assustada com a movimentação. A aldeia era pura paz e tranquilidade. Mas a cidade era um lugar onde as pessoas se esbarravam a todo instante, os odores a sufocavam, os homens a encaravam de um jeito rude e selvagem. Porém, Eliene logo se acostumou com a balbúrdia, falatório e risadas. Ora, não era tão ruim assim. Depois de caminhar por algumas ruas Eliene já estava gostando de tudo. A aldeia, de fato, era um lugar muito, muito monótono.

Ela perguntou para um homem onde seria a festa e, depois de saber o caminho, para lá se dirigiu cada vez mais animada. De repente, Eliene se viu em um descampado com muitas tendas coloridas e algazarra. As pessoas estavam instaladas em bancos de madeira ao redor e agitavam flâmulas coloridas para dois cavaleiros que simulavam uma luta com lanças. Extasiada, Eliene conseguiu achar um lugar onde tinha uma boa visão do espetáculo. Tudo era fascinante. Os dois homens, vestidos com armaduras que brilhavam sob o sol, protagonizaram uma batalha memorável. A tudo Eliene assistia boquiaberta, esquecida que estava lá para conhecer o futuro rei. Depois que a luta acabou, trombetas soaram. As pessoas silenciaram e Eliene se encolheu no lugar onde estava alojada. Do outro lado do campo, bem em frente à Eliene, um homem mais velho se ergueu. Levaram alguns segundos para que ela se desse conta que aquele era o Rei. Nunca o tinha visto na vida. O homem vestia uma túnica branca e sobre ela um manto dourado. Já tinha uma certa idade, mas era um homem ainda bonito, barba bem feita, boa altura. Ao lado de Eliene algumas mulheres suspiraram, extasiadas. Ela chegou a se emocionar. Nunca imaginou que algum dia teria oportunidade de conhecer o Rei. Diziam que era um homem muito bom. Viúvo, sem filhos, todos sabiam do seu drama na sucessão do reino. Pelo visto, esse problemão não existia mais.

O Rei começou a discursar, porém o vento levava suas palavras para longe. Eliene pouco escutava, mas ela não se importava com isso. Era um momento grandioso na vida do reino e Eliene segurava as lágrimas por fazer parte também.

Então ela escutou, em meio ao silêncio respeitoso dos súditos, um nome conhecido. Valentim.

Príncipe Valentim.

Eliene sentiu um soco no peito e cambaleou. Seus olhos se ajustaram mais na figura alta e morena que surgiu ao lado do Rei.

Era ele.

Valentim.

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Atormentada. Foi assim que Eliene se sentiu quando visualizou Valentim em pé ao lado do Rei. Em seguida ambos foram até o centro da arena para oficializar o ato do reconhecimento do príncipe herdeiro. Eliene teve vontade de agitar os braços, gritar, enfim, fazer qualquer coisa para chamar a atenção dele. Mas nada fez. Ele sequer a veria no meio daquela multidão. Talvez não a reconhecesse. Ou a ignorasse mesmo. Eliene assistiu - o coração martelava tanto dentro do peito que até se sentiu mal -, a cerimônia prosseguir. Depois que tudo acabou, Rei e Príncipe se retiraram da arena e as pessoas presentes começaram a festejar. Vinho e cerveja rolavam soltos. Havia uma mesa enorme com leitões assados para os súditos se servirem. A música alegre incentivava as pessoas a dançarem umas com as outras. Um homem fedido agarrou Eliene pela cintura e ela lhe desferiu um forte tapa no rosto.

- Não me toque - gritou, raivosa. - Eu pertenço ao Príncipe Valentim!

Era noite já. Eliene voltou para a hospedaria ainda pasma com tudo o que presenciara. Lourie reparou que a moça estava esquisita, mas Eliene alegou cansaço.

No outro dia, antes de o sol nascer, Lourie e Eliene voltaram para a aldeia carregadas com óleos, ervas e essências. Chegaram somente ao entardecer e Lourie entregou um saquinho de pano à moça.

- Aqui está sua recompensa. Obrigada por ter me acompanhado.

Eliene apertou com força o saquinho colorido entre os dedos.

- Muito obrigada. Eu estava precisando muito - ela fez uma pausa. - Muito mesmo.

- Faça bom proveito.

Eliene entrou em casa e fechou a porta à chave. Respirou fundo, os olhos cerrados. Os vizinhos só se deram conta que Eliene havia abandonado a aldeia no final da tarde do dia seguinte.