Pobre da mocinha, tão iludida.
Só porque o cara visualizava todos os seus stories, ela achava que o bonito estava apaixonado.
A bobinha já sonhava com um encontro, namoro, Natal em família e casamento.
Tudo tão bonito.
Ah tá, a iludida era eu mesma.
Pobre da mocinha, tão iludida.
Só porque o cara visualizava todos os seus stories, ela achava que o bonito estava apaixonado.
A bobinha já sonhava com um encontro, namoro, Natal em família e casamento.
Tudo tão bonito.
Ah tá, a iludida era eu mesma.
CONECTE-SE COM O UNIVERSO TODOS OS DIAS
DIGA PARA SI MESMO QUE TUDO É POSSÍVEL
E QUE AS AMARRAS QUE LHE TRAVAM SÓ EXISTEM NA SUA MENTE
MELHORE SUA POSTURA E OLHE SEMPRE PARA FRENTE
O HORIZONTE É O CAMINHO A SER SEGUIDO
E ELE PODE ESTAR MAIS PERTO DO QUE VOCÊ IMAGINA
O CÉU É O LIMITE?
MAS VOCÊ PODE MUITO MAIS
VOE COM AS ÁGUIAS
MANTENHA-SE FOCADO
A VIDA PASSA RÁPIDO
E O MEDO É APENAS UMA SENSAÇÃO
Não que eu me
importasse muito.
Ok, eu me importava
sim. Na verdade, aquilo estava me consumindo por dentro. Ela era amiga de todo
mundo. Menos de mim.
Quando Giovana
entrou na escola quase na metade do ano letivo, ela logo chamou atenção dos meus
colegas. Pudera. Giovana era linda. Pele bronzeada, cabelos muito louros.
Simpática, comunicativa. No início, algumas meninas ficaram com inveja. Não
demorou muito. Logo Gio conquistou a todos com seu carisma. Eu fiquei de fora.
Eu, a excluída. Giovana não se dava nem ao trabalho de olhar para a minha cara.
Credo, eu nem era tão feia assim. Só um pouco... estranha.
Mas, logo que ela entrou
para a escola, eu, muito tolinha, achei que ela seria minha amiga. Minha melhor
amiga. Havia um lugar vago ao meu lado (ninguém queria sentar comigo) e Giovana
sentou ali. Tentei puxar conversa com ela, ansiosa em agradar. Naquele primeiro
dia, meio perdida ainda, Giovana até me deu atenção. Me senti o máximo quando
fomos à cantina juntas, no intervalo. Bem, não me importei muito quando percebi
que tudo o que eu falava Giovana parecia não escutar. Tudo bem. Ela estava
comigo e meus outros colegas estavam vendo que Giovana era minha amiga. Apesar
de ela não parecer tão à vontade andando ao meu lado, pensei que fosse por ser
seu primeiro dia. Voltei para casa contente. Fiz até um bolo de cenoura com
cobertura de chocolate para presenteá-la no dia seguinte.
O dia seguinte chegou
e com ele todas as decepções possíveis. Giovana rapidamente fez novas amizades
e foi sentar do outro lado da sala. Comi a fatia do bolo no intervalo, sentada
num canto do pátio. Engoli o bolo e minha frustração. Eu já devia esperar que
aquilo fosse acontecer.
Os dias e as semanas
passaram. Giovana nunca mais olhou para minha cara. Nem para me cumprimentar.
Da mágoa, eu passei para a raiva e o rancor. Por que ela não podia ser minha
amiga? O que ela tinha a mais que eu? Beleza? Simpatia? A vontade que eu tinha
era de atirar uma pedra bem no meio daquele rosto de boneca e deixá-la tão feia
quanto uma bruxa. Nossa, se minha mãe soubesse nas maldades que me vinham à
mente, certo que iria me levar a um psiquiatra.
A gota d’água
aconteceu durante a aula de Educação Física. Sempre odiei. A professora
inventou um jogo de vôlei e cheguei a sentir um frio na barriga. Eu era péssima
em esportes. Não queria jogar. Os times começaram a ser escolhidos e...
adivinhem. Ninguém me queria. A professora me colocou, na marra, no time da Giovana.
Ela era a capitã e fez cara feia quando me viu na sua equipe. Aquilo me doeu.
Depois da dor, veio a raiva. Tentei me controlar. Ia ficar chato se eu perdesse
a razão.
Só sei que dei azar
e errei três bolas seguidas. Que fiasco. Na quarta vez quando me preparei,
desajeitada, para receber a bola com uma manchete, levei um empurrão da Giovana
e caí sentada na quadra, ralando as mãos no chão. O jogo continuou. Ninguém se
importou comigo e nem devem ter se dado conta quando levantei, possuída pelo
capeta.
Toda a fúria que eu
acumulei durante aqueles meses subiu pelo meu peito, incontrolável. Bem, talvez
eu não estivesse a fim de me controlar. Me aproximei a passos firmes da
Giovana. Alguém a alertou e quando a cretina se voltou encontrou minha mão
cerrada bem no meio daquele nariz perfeito.
Peguei sete dias de
suspensão e um convite para procurar outra escola. Meus pais ficaram loucos. Eu
vibrei. Soube, mais tarde, que o nariz de Giovana ficou levemente torto. Parece
que um ou dois dentes ficaram prejudicados também.
Eu só queria que ela
fosse minha amiga.
Ele sempre passava no mesmo horário. Cinco horas da tarde. Todos os dias, Melânia colocava seu melhor vestido, prendia o cabelo vermelho de um jeito diferente, passava perfume. Quinze minutos antes de ele apontar na esquina, a jovem de 16 anos se postava na janela, esperançosa, sorridente, altiva.
Mas quem era "ele"? Domênico. Alto, magro, barba bem feita, elegante. Advogado recém formado, 25 anos. Um bom partido, como já dissera o pai de Melânia. As menininhas da cidade ficavam faceiras e se cutucando quando Domênico surgia na calçada. Com Melânia não era diferente. Sonhava com ele todas as noites e de dia também. Não contara a nenhuma das suas amigas o quanto desejava Domênico. Afinal, parecia que Domênico habitava o coração de todas elas. E mais: o bonitão também chamava atenção das mulheres mais velhas.
E naquela tarde de sol, Domênico dobrou a esquina com seu passo firme, a expressão do rosto suave e tranquila. Cumprimentou os passantes que faziam questão de lhe dar uma palavrinha. Melânia se aprumou na janela, ensaiou o melhor sorriso, Domênico já vinha chegando. Ah, se ele a olhasse nem que fosse uma vez... Não que se contentasse com pouco, mas poderia ser o início de um grande amor, uma linda história.
Melânia ficou com o sorriso congelado no rosto bonito quando Domênico passou sob sua janela sem sequer se dar ao trabalho de olhar para o lado. O coração da moça se quebrou, mas ela não podia se dar ao luxo de mostrar sua decepção. Na calçada da frente, Dona Chica, a florista, observava-a com atenção. Ah, não, pensou Melânia, preocupada. Esta velha fofoqueira não pode perceber o tamanho do meu desencanto.
Então, Melânia forçou mais ainda o sorriso e abanou freneticamente para Dona Chica. Sim, tudo estava bem naquela tarde ensolarada de outono. Domênico já ia longe, despreocupado, sem jamais saber que para trás deixara uma menina apaixonada com lágrimas aprisionadas.
Mas Melânia não era do tipo que desistia.
Um dia de cada vez.
Larissa pegou a mão de Mel e saíram escondidas da
aula de Educação Física. Faltava pouco para terminar o turno e já anoitecia. As
duas odiavam fazer qualquer tipo de exercício.
Mel quase caiu no corredor deserto da escola quando
ambas fizeram a curva correndo. Lá no fundo ficavam os banheiros.
— Preciso retocar o batom – Larissa riu do tombo que Mel quase
levou. — O Rodriguinho já deve estar lá na frente.
— Não era mais
fácil você arrumar um namorado da mesma escola?
— Tenho culpa
se o cara mais gato do Brasil gosta de mim e estuda do outro lado da cidade?
Ah, amiga, ele é um amor...
Mel olhou para
frente. Já estavam perto dos banheiros, mas, aparentemente, não havia mais
ninguém por ali.
— Nossa –
comentou Larissa. — Cadê todo mundo?
— Estão matando
aula. Tipo nós.
— Estranho.
O banheiro
feminino estava vazio. Mel empurrou a porta com um pé e as duas amigas entraram
rindo, despreocupadas. Uma menina de cabelos loiros estava agachada em um dos
cantos. Vestia uma roupa branca, solta no corpo e escondia o rosto entre os
joelhos. Larissa puxou Mel para trás assim que se deparou com a moça.
— Mel, olha...
Mel estacou no
mesmo instante, assustada. Nenhuma das três garotas falou qualquer coisa,
contudo era palpável a tensão que pairava no ar. Larissa olhou para Mel e
perguntou, baixinho:
— Quem é?
— Sei lá – a
resposta foi no mesmo tom.
A garota
desconhecida se mexeu. Primeiro os pés, depois as mãos. Lari e Mel sequer
respiravam. Assombradas, viram quando a garota levantou a cabeça, devagar, e as
encarou. O rosto pálido ao extremo, os olhos fundos, uma expressão de tristeza
imensa.
Mel foi a
primeira a dar o berro:
— É a Clau! A
suicida do banheiro.
Na desesperada
tentativa de sair do lugar o mais rápido possível, as duas amigas se embolaram
e caíram no chão. Mel torceu o pé e Larissa, em pânico, tentou levantar a
amiga.
— Depressa,
Mel!
Clau ficou em
pé sem nunca tirar os olhos das duas. Mel berrou, desesperada, se agarrando nas
pernas de Larissa. As luzes do banheiro começaram a piscar.
— Ai, meu
Deus! – Larissa gemeu. — É a Clau mesmo! Aquela que se matou enforcada por
causa do Leandro!
Clau deu dois
passos para frente. Uma porta bateu ao longe. Larissa envolveu Mel pela cintura
e a arrastou para o lado de fora do banheiro. As luzes do corredor piscavam sem
parar. Um vento soprou vindo do nada.
— Ela vai nos
matar, Lari!
Mel pulava em
um pé só agarrada na amiga, ambas já no corredor. Nenhuma tinha coragem de
olhar para trás.
— Será que era
a Clau? – a voz de Larissa tremeu.
— Claro que
era. Eu me lembro dela antes de...
Mel preferiu
não completar a frase.
— Que droga –
Larissa praguejou. — Não tem ninguém nas salas. Ninguém para nos salvar. Parece
que não vamos nunca alcançar o pátio.
— E se ela
matou todo mundo?
Larissa se
perturbou com a pergunta de Mel e tropeçou. Desequilibrada, caiu no chão
levando junto a amiga. Lá no fundo do corredor, na porta do banheiro, Clau as
observava. Mel se moveu sentada no chão recuando alguns centímetros.
— Ela vai nos
alcançar. Nunca mais vou conseguir me levantar daqui.
Larissa ficou
em pé e toda ela tremia. Esticou a mão para a amiga.
— Isto não
pode estar acontecendo. Vem, Mel, fica em pé de uma vez.
— O que vocês
duas estão fazendo aqui?
A diretora da
escola estava parada a poucos metros dela. Mel e Larissa estremeceram. Seria
possível que a mulher não estivesse enxergando Clau no fundo do corredor?
— Diretora, só
fomos ao banheiro – Mel tentou se desculpar.
— E o que você
está fazendo no chão?
Mel balbuciou:
— Torci o pé
fugindo da Clau.
— De quem?
A diretora
colocou as mãos na cintura. Sua expressão ficou ainda pior.
— Da Clau –
Larissa suspirou. Sem olhar para trás, com medo, apontou na direção dos
banheiros.
Com os olhos,
a diretora seguiu o dedo de Larissa e olhou para o fundo do corredor.
— Você pensa
que sou alguma idiota?
Mel segurou o
ar. Não sabia o que era pior. Enfrentar a diretora ou o fantasma de uma menina
suicida.
— Não, por
favor!
— Vocês
falaram... Clau?
Larissa
respirou fundo e olhou para trás. Não havia ninguém defronte a porta dos
banheiros. Tudo parecia muito normal.
— Eu posso
explicar...
—Vocês não
deviam estar na aula de Educação Física?
— Eu torci o
pé – argumentou Mel com um fiapo de voz.
— Vou chamar o
monitor para me ajudar com vocês duas. Já faz três anos que esta menina morreu.
Esqueçam.
A mulher se
afastou. Lari e Mel permaneceram no mesmo lugar, quase sem se mexerem.
— Lari, olha
pra trás.
— Eu? Não
tenho coragem.
— E se nós
estivermos imaginando coisas?
Devagar, as
duas garotas voltaram o pescoço na direção do banheiro. Clau continuava lá.
*
— E por que
vocês acham que o Leandro vai dar a mínima para isto? Eles nem estavam mais
juntos.
Mel olhou de
canto para Larissa. Ambas estavam na praça de alimentação de um shopping
sentadas frente à Fabi, irmã do ex-namorado da Clau.
— Ora, amiga –
Mel controlou a vontade de acertar um soco naquela garota pedante. — Todo mundo
sabe que a Clau fez o que fez por ter visto seu irmão se agarrando com a
Verônica.
— A culpa
nunca foi dele – Fabi foi dura. — A Clau não teve estrutura para suportar vê-lo
com outra e resolveu se matar. Bem, acho que ele deveria ter sido mais
discreto.
— Mas não foi
– Larissa devolveu no mesmo tom. — Agora Clau fica vagando pela escola. Uma
alma perdida.
— Para não
dizer penada – arrematou Mel.
Fabi tomou um
gole do suco de maracujá e encarou as duas amigas, curiosa.
— Então é
sério que a Clau vagueia pela escola? Quando eu saí de lá já ouvia essa
história. Mas nunca acreditei que fosse real.
— Nem nós –
Mel se arrepiou só de lembrar a cena pavorosa. — O fato é que nós a vimos.
— Vocês não
estão delirando? Vocês disseram que a Diretora não viu nada.
— Na verdade a
Clau só aparece para quem quer – Larissa olhou para Fabi espantada com tão
pouca empatia. — Talvez pense que nós podemos ajudar.
— Não sabia
que vocês eram íntimas da louca da Clau.
— E não somos
– Mel suspirou sem paciência.
— Então por
que ela surgiu para vocês? Meninas, vocês não tinham cheirado nada, não é?
Larissa
segurou firme o braço cheio de pulseiras da Fabi.
— O que
estamos contando é a mais pura verdade.
Fabi puxou o
pulso com alguma brusquidão.
— Vocês querem
que eu faça exatamente o quê?
— Peça para
seu irmão vir falar conosco – Mel encarou Fabi. — Ele poderá nos entender
melhor do que você.
*
Apesar de as
meninas duvidarem que Leandro fosse dar alguma importância a elas, o rapaz
ligou naquela mesma noite para Mel. Rápida, ela colocou o telefone no viva-voz
para que Lari pudesse escutar também.
— Oi, Mel – a
voz dele não estava das melhores. — Minha irmã disse que vocês precisam falar
comigo.
— Olá,
Leandro. Maravilha você ter ligado. Achei que você não gostaria de tocar no...
assunto.
— Certo. Qual
é o problema?
Mel e Larissa
se entreolharam. Era nítido que Leandro não estava disposto a se prolongar.
— Nós, eu e a
Lari, vimos a Clau anteontem.
Silêncio do
outro lado da linha. Depois de alguns segundos ele perguntou:
— Viram quem?
— A Clau.
— Ela morreu.
— Sim. Nós
sabemos disso. Mas… como eu disse, ela apareceu para nós.
Foi ouvido um
suspiro de impaciência e Mel achou que ele fosse desligar.
— Vai começar
esta história de novo? Já estou farto disso. Cansei de ouvir relatos que Clau
anda circulando por aí.
— Mais
precisamente no banheiro feminino da escola, Leandro. Foi assustador o que eu e
a Lari presenciamos.
— Muito bem. E
vocês querem que eu faça o quê? Acenda uma vela para Clau?
Larissa abriu
a boca, espantada. Não podia acreditar que Leandro fosse tão grosso.
— Escute aqui,
Leandro… – começou Mel.
— Eu não sei
se a Clau está vagando por aí. Não acredito nesse tipo de coisa. Sinto muito
que tudo tenha acontecido daquela forma, mas não tenho culpa – novamente ele
perguntou. — O que vocês querem que eu faça?
— Achamos que
seria interessante você ir até a escola. Talvez ela precise falar com você.
Leandro riu um
pouco irritado.
— Não
acredito. Vocês acham mesmo que eu vou conseguir algum contato sobrenatural com
ela?
— Ora, se nós
conseguimos...
— Tudo bem. Eu
vou até a escola para acabar com esta palhaçada de uma vez. Quando posso ir?
*
Uma semana
depois, durante a mesma aula de educação física. As garotas escapuliram durante
alguns exercícios e foram ao encontro de Leandro. Ele estava frente à
biblioteca. Acompanhado.
De longe, Mel
avistou os cabelos ruivos de Verônica. E declarou:
— Precisava
ele trazer o motivo da Clau não descansar em paz?
Verônica era
uma jovem alta e bonita. Formavam um belo casal. Quando pararam em frente aos
dois, Mel se sentiu uma idiota. E se a Clau não aparecesse?
— Então,
meninas – Leandro parecia constrangido. — Vamos brincar de caça-fantasmas?
Nenhuma das
duas riu. Verônica tentou emendar:
— Leandro me
contou que a Clau apareceu para vocês... É sério isto?
— Muito sério
– Mel foi firme. — Estamos preocupadas porque o fato da Clau estar vagando por
aqui é sinal que sua alma não descansou até hoje.
— Bem, a culpa
não é minha – declarou Verônica. — Aliás, sinto muito por ela. Eu nem sabia que
a Clau e Leandro tinham namorado quando ficamos juntos pela primeira vez.
— Certo. Mas
vamos ao que interessa – Larissa interrompeu a ladainha. — Temos que aproveitar
que as turmas estão na aula de Educação Física no pátio.
O corredor
estava vazio. Ao longe, a porta dos banheiros se destacava. Leandro perguntou:
— Foi lá que
vocês a viram? – ele fez um sinal com a cabeça.
— Exatamente –
Mel deu um cutucão nele. — Vamos logo antes que a Diretora apareça e estrague
tudo.
Os quatro
foram em direção ao banheiro, em silêncio. Verônica apertou firme a mão do
namorado. Aquela era uma situação tão esquisita. Desde que começaram a namorar
ela era bombardeada com indiretas, mensagens cifradas e pessoas falando
abertamente sobre o suicídio de Clau. Era duro de aguentar. E agora as duas
garotas vinham com uma história bizarra da Clau no banheiro. Os boatos de que a
jovem circulava pela escola eram inúmeros, mas nunca haviam ido tão longe.
À medida que
se aproximavam, contudo, Verônica começou a sentir um mal-estar. As mãos
gelaram e um suor frio escorreu pelo meio das costas. O estômago doeu e
Verônica sentiu vontade de parar onde estava.
Leandro não
percebeu o desconforto da namorada e seguiu em frente, os olhos fixos na porta.
Não havia acreditado nem um pouco nas meninas, mas elas foram tão insistentes
que ele resolveu topar a parada para encerrar o assunto. Mas... por que à
medida que se aproximava sentia os pelos da nuca ficarem em pé? A porta do
banheiro estava cada vez mais perto. As luzes estavam apagadas. Olhou de
soslaio para Lari e Mel. Pálidas, e de mãos dadas, pareciam à beira de um surto.
Não se ouvia barulho nenhum, nem mesmo as vozes dos alunos fazendo educação
física lá fora.
Leandro parou
frente à porta e as três meninas logo atrás dele. Ninguém falou e, como não
queria passar por medroso, comentou:
— No meu tempo
as luzes do banheiro ficavam acesas.
Respirando
fundo, deu um passo à frente e achou o interruptor sem entrar no banheiro.
Iluminada a peça, Leandro se encorajou. Deu um passo para o interior e fez uma
rápida inspeção com o olhar.
Vazio e
inofensivo. Ele sentiu vontade de rir e se virou para as meninas.
— Então,
garotas. Não tem nada aqui.
Verônica, Lari
e Mel arregalaram os olhos e, sem perceber, se juntaram umas às outras. Leandro
prosseguiu:
— Não tem
fantasma nenhum.
Verônica
recuou um passo, tão pálida que Leandro achou que ela fosse morrer. Caiu
sentada no chão com a boca aberta querendo gritar, mas sem sair um único som.
Larissa se grudou mais ainda em Mel e ambas deram um grito que reverberou na
escola inteira. Leandro, então, se voltou, brusco para trás. Clau, com sua
expressão fantasmagórica, encarava-o de muito perto. Leandro pensou em gritar,
mas aí já era tarde demais. As três meninas testemunharam quando a porta do
banheiro se fechou com um estrondo. Larissa se voltou e tentou puxar Verônica
pela manga da blusa.
— Levanta,
Verônica! Temos que sair daqui!
— Leandro –
gemeu ela ao mesmo tempo em que uma vidraça do corredor explodiu. — Alguém tem
que tirá-lo do banheiro!
Lari, Mel e
Verônica saíram em disparada, tropeçando e se batendo umas nas outras. A barulheira
atraiu dois monitores no início do corredor. A gritaria era grande. Verônica
caiu de novo.
— Vocês precisam
ajudar o Leandro! – berrou Mel. — A Clau o prendeu lá dentro!
— Clau? – um
deles perguntou. — A suicida do banheiro?
Os homens se
precipitaram em direção ao local enquanto as meninas se amontoaram em uma das
paredes. Aos poucos gente começou a chegar. Professores, alunos, diretora.
Todos parados no meio do corredor assistindo os monitores tentar arrombar a
porta. O único som que se ouvia era das batidas violentas. A diretora estava
pálida e Verônica prestes a desmaiar. De repente, lá pela décima pedalada, a
porta voou para trás. Alguém gritou.
Dentro do
banheiro somente a escuridão. A diretora caminhou, em silêncio, até os
monitores. Eles pareciam consternados. Tensa, a mulher olhou para dentro.
Leandro, deitado no chão frio, fitava o espaço com os olhos arregalados.
*
Um dia depois
o laudo do médico legista atestou enfarte fulminante. E Clau nunca mais
apareceu na escola.
Eu descobri que a Carol tinha morrido somente uma semana depois. E foi por acaso. Sem acreditar, fui catar no Facebook do Artur se era verdade.
E era. Artur, meu ex-noivo, amor da minha
vida, estava viúvo.
Meu primeiro sentimento foi ficar em
choque. Nossa, a Carol... aquela mulher linda e de sucesso, que com seu jeito
meigo e doce tirara o Artur de mim, foi atravessar a rua de bike e não enxergou
que vinha um carro pra cima dela.
Ah, que pena.
Sua trouxa.
Artur, claro, fez uma postagem repleta de
declarações de amor, tipo que a vaca sempre seria seu amor eterno e blá, blá,
blá. Depois que o choque passou e eu me recompus, queimei a bonequinho de vodu.
Ninguém podia ver aquilo. Ela tinha fios de lã amarelo iguais aos cabelos da Carol.
Pintei uns olhinhos verdes e fiz uma boquinha em forma de coração para ficar
mais semelhante à puta. Escolhi uma roupinha parecida com as que ela vestia.
Depois de pronta pisoteei a bonequinha. Sapateei em cima com toda minha raiva.
Cravei uma tesoura bem no meio da barriga dela. Atirei em um canto e até me
esqueci disso.
Agora está todo mundo pasmo com a morte da
Carol. Fiquei também, é claro. Fui eu que causei. Misturei o meu vodu com o
lixaredo daqui de casa e tudo virou cinzas. Feito ela. Meu próximo passo é
fazer um bonequinho do Artur. E ele vai se apaixonar por mim outra vez.