Festa de confraternização da firma. Odeio.
Amigo oculto. Alguém
me ajude.
Eu trabalhava no
Departamento Financeiro de uma grande empresa. Nós éramos cerca de vinte
pessoas coabitando o mesmo local. Gente chata, metida e arrogante. Só me dava
bem com a tia da limpeza.
Por mim podiam todos
se explodir os 365 dias do ano.
Aí, a imbecil da
secretária do Diretor inventou uma festa de confraternização de final do ano.
Pensei seriamente em mandar todo mundo à puta que pariu e não participar. Para
piorar a situação, a infeliz inventou de fazer um “amigo oculto” para
incentivar a interação entre os colegas.
Sério. Eu não estava
nem um pouco disposta a interagir com aquele povo. Mas não teve jeito. Sucumbi.
Não fui forte o suficiente para bater pé e dizer que não queria participar
daquela palhaçada. De repente, meu nome foi parar dentro de um saquinho
cor-de-rosa junto com os nomes dos outros colegas. Cada um de nós enfiou a mão
dentro do saquinho cheio de micróbios e pegou um papelzinho. Rezei para que eu
pegasse meu próprio nome. Mas minhas preces não foram suficientes. Quando abri
o papel, cheio de vírus e micróbios, me deparei com o nome do estagiário. Nada
contra os estagiários, com exceção dos de lá que são completamente do mal.
A merda é que o
estagiário em questão era o filho do Diretor.
Antônio, mais
conhecido como Toninho. Um idiota. No seu primeiro dia de estágio colocaram o
cara pra trabalhar comigo. Eu seria a supervisora dele. Não durou dois dias
nossa convivência profissional. Vadio, debochado e burro, avisei para quem
quisesse ouvir que era eu ou ele naquele Departamento. Achei que seria a grande
chance de eu ir embora para outra área da empresa. Mas a solução que
encontraram foi deslocá-lo para trabalhar com outro colega, igualmente vadio,
debochado e burro. Se deram bem.
E então, em pleno
final de ano, descobri que o Universo estava contra mim. O Toninho era o meu
“amigo oculto”. Pensei em dar a ele uma coroa de flores e um plano com dez
parcelas pagas no Jardim da Paz. Mas achei, também, que poderia ser presa por
pensarem que eu estivesse planejando um possível homicídio. Desisti. Mas se ele
caísse daquela moto trocentas cilindradas e se quebrasse inteiro eu até
aplaudiria sentada na minha cadeira tomando meu chá de hortelã.
O presente que ele
pediu até que não era nada demais. Uma agenda de uma marca famosa cheia de
frescura. Mas, quando eu fui na loja comprar, descobri que a porra da agenda
custava mais de R$ 300. Tive um surto psicótico, briguei com o vendedor (pedi
desculpas depois roxa de vergonha) e comprei outra da mesma marca por R$ 50. E
era isso. Não era do meu feitio gastar dinheiro com homem. E muito menos com um
inútil de 20 anos que nem bater uma sabia fazer direito.
E chegou o grande
dia. O dia da confraternização, da falsidade, dos sorrisos congelados e dos
tapinhas nas costas. Menos eu porque não sou hipócrita. Permaneci com a mesma
cara de bunda habitual. Mal provei os salgadinhos e os docinhos. Depois de
fazer dieta o ano inteiro, não seria uma confraternização dos infernos que
poria abaixo todo meu esforço. Meus colegas que engordassem. E implodissem de
tanto comer.
Começou a entrega
dos presentes. Cada um tinha que subir em um palco improvisado e falar sobre
seu amigo oculto. Só falsidades. E o Toninho eu não via em lugar nenhum, o que
era ótimo, pois isto dispensava o abraço fingido que eu teria que dar nele.
Porém... não chegava
minha vez nunca. Cada amigo oculto revelado chamava o outro e assim por diante.
Até que sobrei. Eu e o Toninho. Na ausência do imbecil, subi até o palco onde
sem me estender, confirmei o que aquela altura todo mundo sabia. Quem recebeu o
presente por ele foi o pai, meu Diretor. E foi o próprio quem fez o favor de me
dar o presente que o Toninho havia comprado pra mim.
Bem, eu não pedi
grandes coisas. Só um estojinho de maquiagem para disfarçar minha cara de cu
toda vez que eu colocava os pés naquele lugar. E nem era caro. Só pelo formato
da embalagem já vi que eu não ganhara o que pedira. Rasguei sem muito cuidado o
papel que embrulhava e me deparei com cinco caixinhas de incenso.
Escutei um “oh” na
sala. Não sei se era um “oh” de pena ou um “oh” tipo, “bah que presente
original.”. Só sei que me possuí. Olhei em volta com os incensos na mão e
perguntei em alto e bom som:
— Alguém interessado
em defumar sua casa? Isto aqui não me serve nem para sentar em cima.
Silêncio. Meu chefe,
pai do Toninho, pigarreou. Eu continuava possuída. Peguei de volta a agenda do
Toninho que estava nas mãos do seu progenitor e devolvi os incensos.
— Diga para o
Toninho enfiar onde ele achar mais gostoso.
Dei as costas,
peguei minha bolsa e fui embora. No outro dia amanheci no RH da firma para
pedir demissão antes que meu Diretor fosse mais rápido.
E fui feliz para
sempre.
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