terça-feira, 7 de abril de 2020

MOCORONGA VÍRUS - Parte 2 final





                                                                                4



Dalva não era propriamente uma mulher bonita, mas sabia ainda como conquistar um homem. Já havia passado dos cinquenta anos, contudo o corpo se mantinha em forma à base de muita ginastica. Quando a prima Maricota telefonou pedindo ajuda para sair do cativeiro ela não pensou duas vezes em libertá-la. E se o policial estivesse fazendo campana não teria problema algum. Ela poderia dar um jeitinho de fazer com que ele relaxasse na guarda.

Sem medo pulou as barricadas que o prefeito pusera na entrada da cidade e caminhou, resoluta, para o centro da cidade. Dalva conhecia Santa Luzia, já visitara a prima algumas vezes e sabia muito bem onde ficava a delegacia. Esgueirando-se pelas sombras, ela não custou muito a avistar um policial jovem e bonito frente ao prédio do lugar. Dalva se escondeu atrás de uma árvore para observá-lo melhor. O homem estava com sono e, com certeza, seus reflexos, mais lentos. Uma pena que Maricota estivesse naquela situação, pois seria um prazer conhecer mais de perto o belo agente da lei. Bem, isto teria que ficar para outro dia, para depois da pandemia do mocoronga vírus passar. Primeiro precisava tirar a prima e o amigo dela do confinamento e fugir dali antes que restasse presa também.

Foi depois de um bocejo prolongado que Josias percebeu que a árvore se mexia. Ele piscou algumas vezes até cair em si e ver que, na verdade, uma mulher de cabelo oxigenado, de calça justa e tênis cor-de-rosa se escondia atrás de uma árvore. Ele suspirou. O que mais faltava acontecer em Santa Luzia naquela noite? Ele pegou a espingarda e apontou para a figura caminhando firme na sua direção.

— Levante as mãos!

Josias falou em tom baixo e firme. Não era sua intenção acordar a cidade inteira naquela longa madrugada que não terminava nunca.

A mulher saiu detrás da árvore com um sorriso estampado no rosto e se movendo como se fosse uma serpente. Em um primeiro momento, Josias pensou que Dalva fosse um travesti. Realmente, aquela noite estava bem esquisita.

— Não atire, meu amor. Não sou uma assassina.

Josias nunca havia visto a mulher na sua vida. Sim, era uma mulher. Mas o que ela fazia circulando por Santa Luzia em alta madrugada?

— De onde você é?

— Estou de passagem – respondeu ela se aproximando devagar.

— Passagem? De que jeito? As entradas da cidade estão bloqueadas.

Dalva parou frente a ele guardando uma certa distância. A espingarda ainda estava apontada para ela sem muita convicção agora.

— Sou uma fada – Dalva fez uma pose graciosa. — Posso qualquer coisa.

— Meu Deus – murmurou Josias. Não sabia dizer se a mulher estava bêbada ou era maluca. — De onde você saiu?

— Já disse, sou uma fada. E vim aqui alegrar sua noite solitária.

Josias baixou a espingarda. Sim, a mulher era doida.

— Olha, só para esclarecer. Não estou triste e tampouco me sentindo sozinho. Volte para onde você veio. Ou vou ter que lhe prender.

— Uau, que loucura! Eu adoraria ser algemada por você.
Dalva sorriu com todos seus dentes branquinhos. Senão fosse a prima presa, ela bem que gostaria de ficar de assunto com o bonito.

— Senhora – Josias apontou para a direção da entrada da cidade. — Não sei como entrou, mas recomendo que se ponha daqui para fora.

— Já que é assim irei embora mesmo – Dalva sacudiu os ombros fingindo-se conformada. — Um dia voltarei para conversarmos mais de perto. Eu sei que é por causa do mocoronga vírus que você não quer falar comigo.

Dalva atirou um beijinho para ele e se virou para ir embora. Deu três passos e desabou no chão.

— Ai!

Josias soltou outro suspiro. Era demais. A mulher massageava o pé que, supostamente, estava torcido. Seu rosto era uma expressão de dor. Josias não podia deixá-la ali.

— Vou ajudar você.

Ele se aproximou de Dalva e se agachou ao lado dela. Esperava, de todo o coração, que a criatura não estivesse contaminada pelo mocoronga.

— Tudo bem. Se apoie em mim – ele ofereceu o braço. — Vou levar você até a delegacia.

Amparada por Josias, Dalva foi pulando num pé só, gemendo de dor, mas adorando o contato físico entre os dois. O homem abriu a porta pesada da delegacia, acendeu a luz e indicou uma cadeira para Dalva.

— Você pode sentar ali mesmo.

— Oh, muito obrigada – ela o encarou com seu sorriso radiante. — Você é tão gentil.

— Não faço mais que minha obrigação.

Foi tão rápido que Josias não teve tempo de se defender. Dalva acertou a cabeça do policial com um cassetete e usou de tanta força que o homem desabou no chão. Chocada com sua própria atitude, ela o observou por alguns segundos. Sabia que quando ele voltasse a si estaria muito encrencada. Afobada, revistou seu bolso até encontrar uma chave que supôs ser a do galpão onde a prima estava. Dalva saiu pelos fundos da delegacia e não demorou muito a encontrar o local onde Maricota e Vanderlei estavam.

— Mari! Mari, sou eu! Você está aí?

Maricota deu um pulo ao ouvir a voz da prima.

— Dalva! Sim, estamos aqui!

Com as mãos trêmulas, Dalva conseguiu abrir a porta. Maricota surgiu branca e aliviada abraçando a prima. Mas não havia tempo para demonstrações de afeto.

— Eu acertei uma cacetada no policial – Dalva pegou a mão da prima puxando-a para fora do galpão. — Se ele acordar estou mais ferrada que vocês dois juntos!

Maricota olhou para Vanderlei que vinha logo atrás dela.

— Não podemos perder tempo, Vanderlei!

Os três saíram da delegacia em silêncio nervoso, caminhando fininho. Josias continuava no chão, gemendo e parecendo prestes a acordar. Assim que ganharam a rua Vanderlei anunciou:

— Vocês vão para um lado e eu vou para outro. Até qualquer dia, Maricota.

Dalva deu um puxão na prima enquanto Vanderlei desaparecia aos pinotes pelas ruas desertas de Santa Luzia.

— Vem, Mari! O policial já vai acordar!

De mãos dadas, as duas primas atravessaram a praça correndo, tensas e rindo de nervosas. Tinham a impressão que a qualquer momento o delegado e os outros policiais iriam brotar do nada para levarem as duas para o xilindró.

— Atchim!

Dalva soltou a mão de Maricota para espirrar.

— Nossa, estou em péssima forma – gemeu Maricota apoiando as duas mãos nos joelhos, arfante.

Foram mais dois espirros na sequência enquanto Maricota aproveitava para recuperar o fôlego. Dalva explicou, fungando:

— O pólen das flores me causa alergia.

Outra vez, mais descansadas, elas se puseram a correr rumo às barricadas. Dalva deixou mais alguns espirros no ar de Santa Luzia ao mesmo tempo que a prima escalava os obstáculos que o prefeito mandara colocar no portal de entrada da cidade. Só ficou aliviada quando se viu dentro do carro da prima.

— Tão cedo eu não volto para cá – suspirou ela meio entristecida.

— Muito menos eu – Dalva acionou a partida do motor. — Pobre do bonitão. Eu gostaria tanto de conhecê-lo melhor...

O carro partiu em disparada. Santa Luzia ficou para trás jogada a sua própria sorte.

O mais forte sobreviveria.

Ou não.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

MOCORONGA VÍRUS - Parte 1






1

Primeiro o prefeito mandou fechar as duas entradas da cidade. Depois o delegado ordenou que o contingente de três policiais fizesse uma ronda todos os dias ao anoitecer para quem estivesse na rua fosse devidamente posto dentro de casa. O motivo? O mocoronga vírus, uma peste que provocava uma sucessão de espirros e uma diarreia incontrolável.

Logo o pavor tomou conta da pequena Santa Luzia. As pessoas tinham medo de sair à rua. As missas foram suspensas e o comércio local começou a atender com as grades fechadas, evitando qualquer contato pessoal. Máscaras de proteção e luvas eram a nova moda entre os habitantes apavorados.

O remédio para diarreia esgotou rapidamente das duas farmácias no município. Ninguém queria ser pego desprevenido. Ainda que não houvesse sido registrado nenhum caso na comunidade e arredores, o medo de se cagar em público era maior que qualquer coisa.

Os namorados não se beijavam mais. Ninguém mais compartilhava o chimarrão. Os cumprimentos afáveis e apertos de mão deixaram de acontecer. Tudo era à distância. O pavor tomou conta daquele pequeno lugar. Tinha gente que até medo de peidar sentia. A situação era caótica.

E havia o Vanderlei, o bêbado de estimação da cidade. Ele vivia numa casinha um pouco afastada do centro de Santa Luzia com seus cachorros. Vander era um bêbado quieto e não se sabia se ele estava a par do que estava ocorrendo. O fato é que o homem circulava, despreocupado, pelas ruas da cidade com sua garrafa de cachaça, feliz na sua bebedeira, sempre com um par de cachorro nos seus calcanhares. De fato, Vanderlei era o cara mais sereno de Santa Luzia. Não estava nem aí para nada. Um vírus? Deixa pra lá.

Mas teve uma vez que Vander burlou o toque de recolher da polícia. Foi em uma noite em que ele estava mais bêbado do que nunca. Aos berros, o homem deu uma volta ao redor do chafariz da praça bebendo cachaça. As pessoas chegaram à janela e algumas pediram que ele fosse para casa. Ninguém queria sair para acalmá-lo com medo do vírus e da polícia (o delegado esbravejou que prenderia quem ousasse estar fora de casa depois que o sol baixasse). Vanderlei ignorou a todos. Quando avistou um dos policiais se aproximando juntamente com o delegado, Vanderlei tirou as calças e defecou bem no meio da praça.

 — Eu peguei o mocoronga vírus! – berrou ele. — Estou pesteado!

E ria. Algumas janelas foram batidas violentamente. O policial e o delegado, que vinham em passo firme, pararam subitamente ao assistirem aquela cena. Não tanto pela nojeira, mas pelo medo do infeliz estar infectado. O policial deu um cutucão no delegado e comentou:

— Ele não está doente coisa nenhuma. É só para afrontar mesmo.

Mas o delegado suava em profusão.

— Eu só não mando prender este vagabundo porque ele pode contaminar toda a delegacia. Vou falar com o prefeito para mandar desinfetar a praça.

No outro dia quando os moradores saíram para seus afazeres encontraram a praça cercada por um cordão de isolamento. De Vander, nem sinal.

2

A Maricota saiu cedo de casa, por volta das oito horas da manhã, para ir até o cemitério levar algumas rosas para pôr no túmulo do finado. Não era por um vírus mixuruca que ela iria ficar em casa confinada como algumas amigas estavam fazendo. Ela precisava sair, respirar ar puro (ou não tão puro assim), cumprimentar as pessoas. Bem, as pessoas não estavam saindo muito para a rua. O prefeito recomendara que era para sair só em caso de necessidade. Bem, o finado estava de aniversário e ele merecia flores. E lá foi Maricota agarrada no seu buquê de rosas. Não tinha medo do mocoronga vírus, muito menos de ficar doente. O bicho não tinha nem chegado perto de Santa Luzia ainda! Que gente medrosa!

Enquanto caminhava segurava de si até o cemitério no ponto mais alto da cidade, Maricota pôde perceber os olhares tortos que recebia dos vizinhos recolhidos nas suas casas e que estavam na janela cuidando da vida alheia. Quase fez uma banana pra aquela gentinha. No cemitério não ficou mais que meia hora. Rezou, deu uma chorada, conversou um pouco com o finado e foi embora. Lembrou que precisava comprar pão e passou na padaria do seu Joca. Havia em torno de cinco pessoas que se mantinham afastadas uma das outras esperando do lado de fora para serem atendidas. Seu Joca, de máscara, atendia pela grade, entregando os produtos por ali, dentro de uma sacola pendurada na ponta de uma taquara. Maricota ficou por ali admirando a bela praça (agora já limpa depois da cagança do Vanderlei), os passarinhos, o céu azul. Ninguém conversava. Pareciam ter medo de abrir a boca e acabar engolindo o mocoronga. A primavera era linda, Maricota pensou ao mesmo tempo que sentiu vontade de espirrar. Maldita rinite, praguejou ela antes de ser sacudida por uma sequência de uns dez espirros. Quando voltou ao normal se surpreendeu ao reparar que os vizinhos estavam a metros de distância dela, todos a observando com ares de espanto e terror. Paralisados. Seu Joca a encarava de olhos arregalados. Aliás, com a máscara, a única coisa que aparecia no rosto do homem eram os óculos de aros grossos. Todo ele era pânico. Maricota levou cinco segundos para se dar conta do que acontecera.

— Gente... – ela teve vontade de rir. — É só uma crise de rinite.    
        
Uma mulher apontou um dedo trêmulo e nervoso para ela, dizendo com uma voz cavernosa:

 — Ela está com a coisa!

— Não, não estou, não – Maricota ainda riu sem se dar conta da gravidade. — É rinite, eu tenho surtos sempre que começa a primavera. Gente, nem me caguei ainda!

Só quem riu foi ela. Ninguém mais. Seu Joca fechou a porta do estabelecimento com um estrondo e se refugiou lá dentro. Do lado de fora alguém sacou o celular e ligou para a polícia. Quem então arregalou os olhos foi Maricota. Oi? Polícia? Então iriam prendê-la? Ou levá-la para algum tipo de confinamento?

 Socorro.

Maricota deu meia volta e saiu correndo do jeito que podia. Ela não tinha mais idade para correr, mas de alguma forma conseguiu se afastar da cidade o bastante para escapar das garras da polícia. No meio do caminho, numa estradinha de terra, suada e com as pernas bambas, deu de cara com o Vanderlei.

 — Vander! – berrou ela se aproximando. Lembrou que o finado dava dinheiro para ele sempre que o bebum pedia. — Me ajuda, por favor! A polícia quer me prender!

 — Por quê? – naquele momento ele não estava tão bêbado assim. — Você cagou na praça também?

 — Não! – Maricota se horrorizou com a pergunta de Vanderlei. — Eu só espirrei.

 — Ah, minha filha – retrucou Vanderlei balançando a cabeça de um lado para o outro. — Você já devia saber que lá na cidade não se pode nem cagar e nem espirrar.

 — Pois é, mas a rinite me atacou. E chamaram a polícia.

 — Olha – Vanderlei cruzou os braços e olhou para ela. — O que você pode fazer é se esconder lá em casa.

— Na sua casa? – Maricota torceu a cara. — Mas lá vai ter lugar para mim? Naquele muquifo?

— Quer ou não quer?

Não que tivesse medo de Vanderlei. Ele sempre fora um pobre diabo inofensivo. Só não sabia o que esperar de um local habitado por um bêbado.

 — Tudo bem – ela decidiu arriscar. Não tinha alternativa. Lembrou da sua prima, a Dalva. Ela morava há cinquenta quilômetros de Santa Luzia e sempre haviam sido amigas. Era claro que Dalvinha iria ajudá-la naquele momento crítico. — Eu vou aceitar sua hospitalidade. Mas não será por muito tempo. Vou ligar para minha prima Dalva vir me salvar.

— Só se ela chegar de helicóptero – devolveu Vanderlei. — O prefeito mandou fechar as entradas, esqueceu, minha filha?

3

Ainda com o coração aos saltos, Maricota seguiu Vanderlei pela estradinha de terra, dobrou à direita e seguiu por mais alguns metros. Havia mato por todos os lados e, no fundo do caminho, a casinha do Vanderlei. Era de madeira e bem pintada. Quando chegaram frente à casa, Vanderlei fez uma mesura e apontou para a porta.

 — Pode entrar. A casa é sua.

— Muito obrigada – desconfortável, Maricota empurrou a porta, ressabiada. Se surpreendeu. O local era limpinho e bem arrumado. — Nossa, Vander. Você sabe cuidar bem da sua casinha.

 — Fique à vontade – disse ele entrando e fechando a porta. — Pode sentar. – Ele indicou um sofá velho, feito com uma colcha de retalhos. — Está com fome? Eu tenho comida na geladeira.

 — Você tem geladeira?

— Claro. Onde você acha que eu guardo o trago?

Maricota pegou o celular da bolsa.

— Primeiro preciso falar com a Dalva. Não pretendo passar minha noite aqui.

— Não se preocupe, eu tenho uma cama extra – ele parou frente à Maricota. — Ei, eu posso ajudar você a fugir daqui. Eu tenho um plano.

Maricota desligou o celular e o encarou, interessada.

— Um plano para me salvar das garras do louco do delegado? Me conte, por favor.

— Nós vamos de madrugada até sua casa, você junta suas roupas e pede para sua prima a esperar do lado de fora da cidade, antes das barricadas. Eu ajudo você a carregar suas coisas até lá.

Vanderlei acendeu um cigarro fedido e arrematou:

— Nunca vou me esquecer do seu Geraldo. Ele sempre financiou meu trago.

Maricota bateu palmas subitamente animada com aquela perspectiva.

— Grande plano. Vou ligar para a Dalva.

Ligação feita, Maricota e Vander se sentaram frente a frente para traçar o plano. Ambos chegaram à conclusão que não haveria como dar errado e, para comemorar, Maricota chegou a dividir uma garrafa de cachaça com seu novo amigo. Resultado: os dois dormiram o resto do dia e Vander acordou logo depois da meia noite, assustado.

— Acorda, mulher! Está na hora de irmos até a cidade!

O lugar era escuro e Vanderlei acionou sua lanterna. Com as pernas bambas, tensa, Maricota seguiu-o pelos caminhos escondidos da área rural de Santa Luzia. Antes de chegar à cidade recebeu uma mensagem da prima. Dalva já estava a postos na entrada da cidade aguardando novas instruções.

Era uma hora da manhã quando os dois chegaram ao centro da pequena Santa Luzia. Alguns postes de luz davam a iluminação necessária ao local. Vanderlei puxou Maricota pela manga da blusa e ambos se esgueiraram pelas sombras das ruas e andaram alguns pontos agachados para se confundirem com a escuridão. Estava indo tudo bem até aquele momento. Maricota enviou uma mensagem para Dalva para dizer que em breve se encontraria com ela e, precavida, guardou o celular dentro da calcinha. A casa branca e com um gracioso jardim na frente já era possível de ser avistada por sua dona que, alvoroçada, cutucou Vanderlei:

— Olha, estamos perto. Vou pegar o mínimo necessário e...

— Psh... – ralhou Vanderlei. — Todo silêncio é ouro.

Ele mal havia pronunciado aquelas palavras quando algo como uma teia cobriu o casal. De repente, Maricota se viu envolvida por uma rede e pensou, em um primeiro momento, ser uma brincadeira sem graça de Vanderlei. Porém, quando se virou para ele, se deu conta que o parceiro de fuga estava enredado também. E furioso.

— Mas que merda é esta? – perguntou ele em voz alta.

— Calem a boca vocês dois.

Uma voz vinda da escuridão fez com que Vander e Maricota se voltassem, assustados, para a direita. Um dos policiais segurava uma espingarda apontada diretamente para eles. Maricota ficou mais apavorada. Nunca, na vida, estivera na mira de uma arma. Vander, contudo, logo se recuperou do susto. Com as mãos na cintura olhou o policial e bradou, furioso:

— Pode explicar o que é isto aqui? Estamos sendo presos?

A voz aguda de Vander varou a noite de Santa Luzia. No entanto, nenhum vizinho abriu a janela para conferir que barraco era aquele. O policial sacudiu a arma frente aos dois em uma distância segura. Com a voz ainda em tom baixo, o homem ordenou:

— Sim, por estarem contaminados pelo mocoronga. Andem! Andem!

Maricota e Vanderlei não tiveram outra alternativa a não ser seguirem pelo caminho indicado pelo policial. Sempre na mira da espingarda, Maricota com as pernas trêmulas e Vanderlei, resmungando sozinho, caminharam pelas ruas escuras de Santa Luzia e foram parar atrás da delegacia. Nos fundos do terreno havia um pequeno galpão. O policial destrancou uma porta e disse:

— É aqui que vocês vão ficar até se livrarem da peste.

— Para começo de história, eu não estou com a peste – informou Maricota. — Estou com rinite.

— E naquele dia eu estava com dor de barriga – arrematou Vander com o dedo em riste – depois que o delegado me deu um cachorro quente estragado para eu comer.

— Calem-se! – ainda distante o policial fez um sinal com a espingarda. — Entrem aí.

Maricota na frente e Vander logo após, entraram na cela úmida e escura. O policial veio por trás, arrancou a rede e fechou o galpão. Em seguida se afastou apressado como se a peste pudesse envolvê-lo com um abraço. Maricota, furiosa, bateu o pé no chão diversas vezes.

 O que este delegado tem na cabeça? Como ele pode manter duas pessoas em cárcere privado sem ter feito nenhum exame para saber se estamos com a peste?

— Você está com o celular ainda?

— Sim.

— Então avise sua prima. Conte o que houve e descubra se ela pode dar um jeito de nos tirar desta enrascada.

Maricota pegou o celular de dentro da calcinha e telefonou na mesma hora para Dalva:

— Dalva! Você não vai adivinhar o que aconteceu...

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

ERA UMA VEZ... HELENA




         Recebi aquela ligação tarde da noite. Eu ainda estava acordada, me enrolando para ir para a cama. Então meu celular tocou. Pensei seriamente em não atender até que vi no visor que era a Fabi, minha melhor amiga. Para ela me ligar naquele horário alguma coisa estranha, no mínimo, grave, tinha acontecido.
         — Oi, Fabi. Que susto você ligar agora.
         Ela parecia excitada do outro lado da linha.
         — Tenho uma bomba para te contar. É melhor que você sente em algum lugar.
         Opa. Fiz o que ela sugeriu. Sentei na cama e esperei a novidade.
         — Está certo, pode contar agora.
         — A Helena morreu.
         Foi um soco no meu peito. Helena, aquela desgraçada.
         — Morreu? De que jeito? – eu não sabia bem como processar aquela informação.
         — Teve um enfarte fulminante.
         Dava para perceber que a Fabi estava realmente enlouquecida com aquela notícia. Nós duas odiávamos a Helena.
         — Nossa! Mas ela só tem... tinha 35 anos!
         — Pra você ver – o tom de voz de Fabi assumiu um tom de triunfo. — Aqui se faz, aqui se paga.
         Conversamos mais algumas coisas, eu totalmente em choque. Depois, quando desliguei o telefone, deitei lentamente na cama. Pasma.
         Helena. Eu namorava o Rodrigo fazia dois anos e já tínhamos planos de casamento, casa própria e filhos. Tudo parecia se conduzir para uma vida feliz e estável. Então a Helena cruzou nosso caminho. Era amiga de um primo do meu amor e o infeliz apresentou-a para mim e Rodrigo numa churrascada. Na hora eu vi que iria dar problema. Os olhos do Rodrigo brilharam e eu senti o perigo. Durante toda aquela maldita churrascada flagrei os dois flertando. Fiz que não vi. Disse para mim mesma que não iria dar em nada. Era coisa de momento.
         Dois meses depois o Rodrigo disse para mim que não me amava mais. Em seis meses estava casado com a Helena vivendo a vida que eu queria. Surtei, mas nunca deixei que ele soubesse o quanto eu estava sofrendo. Em pouco tempo ela engravidou. Ganhou bebê e em menos de dois anos eles tiveram outro filho. Era demais para mim. Sei que devia ter me afastado daqueles dois, mas eu passava o tempo todo me torturando, espionando as suas redes sociais. Pareciam tão felizes. Morria de inveja.
         Aí a Helena tem um piripaque e morre. Mas não era ela que levava uma vida de atleta, mostrando seu físico malhado na internet? E aquela vidinha saudável? Pelo visto era tudo mentira. Talvez eles fossem uma mentira mesmo.
         Bem, o que eu poderia fazer? Ir no velório e demonstrar meus sentimentos (falsos) para o Rodrigo? Ou dar um tempo e partir para cima dele e tentar uma reaproximação? Ah, eu podia muito bem pegar a família perfeita da Helena pra mim. Adoraria fazer isto. E talvez não fosse tão difícil. Rodrigo vai precisar de muito apoio para criar os filhos pequenos.
         Eu sorri sozinha no meu quarto enquanto planos mirabolantes passavam pela minha mente.
         Minha vez tinha chegado.
         Tchauzinho, Helena.



sexta-feira, 15 de novembro de 2019

POR VOCÊ






Não que me importasse.

Bem, falando a verdade, eu me importo muito, sim.

Faço de conta que não.

Mulheres empoderadas não amam. Quer dizer, em primeiro lugar amamos a nós mesmas e isto é fundamental.

Então fiz de conta que não tava nem aí.

Tudo bem ele não flertar comigo todas as vezes que cruzava por mim.

Tudo bem ele fugir de mim. Não ligo.

(Deus sabe que meu coração grita)

Nunca aceitei migalhas, nunca aceitei nada menos do que eu sempre mereci.

Mas desta vez...

Expectativas foram criadas.

Ainda que fossem expectativas rasas, elas estão ali me encarando e perguntando:

“Você não vem?”

Eu tentei ir até me dar conta que no final das contas eu iria sozinha. Assim não tem muita graça, né?

Ah, mas eu sou empoderada, sigo em frente numa boa.

Sigo mesmo e ainda bato no peito. Mas... seguir numa boa? Não.

Às vezes acho que meu coraçãozinho não é tão moderninho assim.

Ele bate mais rápido às vezes.

Por você.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

LOVE NA ACADEMIA






Fofo. Essa foi a primeira impressão que tive do Lucas quando pus meus olhos nele pela primeira vez. Meu colega de academia, sarado na medida, risonho e carismático. Se dava bem com todo mundo. Estava sempre numa rodinha de gente batendo papo e dando risada. Aliás, eu adorava o jeito de rir dele. Era como música. Cheguei a sonhar com Lucas rindo no meu ouvido uma vez. E vocês já devem saber como eu acordei...

Só tinha um detalhe.

Ele não me dava a mínima. Nunca olhou na minha direção. Resumindo, nem devia saber que eu existia.

Mas a coisa, da minha parte, é claro, foi aumentando. Tesão, paixão, sei lá o que eu sentia por ele. Só sei que eu ia para a academia não para fazer exercícios, mas para ficar de olho nele. Se alguém mais havia percebido meu surto de loucura por Lucas, não sei. E tampouco me importava.

Eu nunca fui a mais bonita, porém sempre consegui ficar com quase todos os caras que estive afim. Lucas era o próximo da minha lista e eu já estava tão surtada por ele que imaginava como seriam os móveis da nossa casa, qual bairro iríamos morar, nome dos filhos e colégio em que estudariam. Lógico que nunca contei esta loucura toda nem para minha psicóloga. Era viagem demais. Mas eu não conseguia deixar de pensar nele nem por um minuto. E se eu não fizesse alguma coisa para chamar a sua atenção, iria implodir de tesão.

Uma noite cheguei na academia inspirada e confiante. Eu havia comprado uma calça legging colorida e que ficava bem coladinha no meu corpo. Para cima ousei colocar somente um top pink que tinha o objetivo de me fazer ser vista de longe. Eu não sou uma mulher de se jogar fora. Eu tenho o meu valor, meu corpo é legal. Por que inferno o Lucas não olhava para mim?

Abusei um pouco do perfume e fui para a esteira. Lucas estava quase ao meu lado, correndo, suado e lindo, duas esteiras depois da minha. Eu não sei correr sobre uma esteira, mas achei que teríamos assunto se fizéssemos o mesmo tipo de exercício. E lá fui eu. Aumentei a velocidade do equipamento e das minhas passadas. Fui tomada por um espírito competitivo que agora eu considero besta. A Pâmela, uma das gostosonas da academia (odeio ela), se posicionou ao lado do Lucas e ambos começaram a correr de conversinha e risada. Me irritei, fiquei furiosa. Resolvi que deveria correr mais veloz que a Pâmela para mostrar ao Lucas que eu era a melhor. Foi o que fiz. Pirei sobre uma esteira.

E caí.

De repente, me perdi nos passos, tropecei nos meus próprios pés e deslizei pela esteira até chegar no chão. Fiquei meio atordoada pois, de repente, me vi deitada no piso frio com um círculo de pessoas me olhando. Eu deveria fingir algum desmaio para me sair bem daquele mico? Um dos professores se ajoelhou ao meu lado e bateu de leve nas minhas bochechas.

— Verônica! Ei, Verônica? Você está bem? Fala comigo!

Na verdade, a única coisa que doía em mim era minha dignidade. Lucas era um dos que me observava, cara de assustado, o que muito me comoveu. Fiz um sinal de positivo. A única coisa que eu queria era desaparecer daquela academia. Consegui me sentar e aí sim, senti uma dor aguda na lombar. A única coisa que eu queria era ser abduzida.

— Você está bem? – o professor perguntou de novo. Ele estava mais apavorado que eu.
— Sim, estou – levei a mão às costas. Era provável que eu ficasse com algum hematoma. Pouco me importava com isso naquele momento.
— Eu levo você para casa – ofereceu-se ele colocando o braço sobre meus ombros.

Nunca vi um professor tão solícito. Lucas voltou para a esteira acompanhado da Pâmela. Ou seja, estava pouco se importando comigo. Voltei para casa acompanhada e lutando contra minha frustração.

Cretino.

Cachorro.

O braço protetor do professor sobre meus ombros era, de certa forma, bem agradável. Me percebi curtindo aquele braço musculoso sobre mim. E, sei lá... quando cheguei em casa eu já estava apaixonada por ele.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

A FÃ






Me chamavam de louca. Mas todo fã é meio doido mesmo. Eu já era apaixonada pela Brenda, pelo jeito dela, a voz rouca, a maneira de vestir e se mover. Quando eu a via no palco, nossa, eu pirava. Dançava junto no meio da sala, no pátio, qualquer lugar e sem vergonha nenhuma. Aquela voz maravilhosa era meu sonho de consumo. Só que de tanto forçar a voz rouca da Brenda, eu fiquei com dor de garganta e tive que desistir. 

E o corpo? Morria de inveja daquelas curvas, da bunda, da barriga sequinha. Foi por causa da Brenda que entrei para uma academia e comecei a fazer musculação pesada. Como sempre fui gordinha, resolvi fazer uma dieta por conta minha mesmo para ficar mais parecida com a Brenda. Resumindo: passei a viver em função da vida dela. Meu sonho era ir a um show seu, mas como moro numa cidade do interior onde nada acontece, é lógico que a Brenda nunca vai vir pra cá.

Minha tia é costureira e aí tive mais uma das minhas ideias mirabolantes. Pedi que ela fizesse para mim roupas parecidas com as que a Brenda usava. Titia não curtiu muito a ideia. Brenda era pura ousadia. No fim, ela cedeu aos meus pedidos e, com muito orgulho, eu desfilava por aí bem parecida com minha diva. Ah, alisei o cabelo também. Minhas selfies e poses eram iguais as dela.

Mas não pensem que eu era apaixonada pela Brenda. Não é isso. A Brenda é tudo para mim, porém não tem nada a ver com sexo. Tudo que eu queria era ser amiga da Brenda, daquele tipo que troca confidências e uma sabe tudo da outra. Duvido que neste mundinho louco das celebridades Brenda tivesse alguém tão próximo. Duvido mesmo.

Então um dia abri o Instagram logo de manhã cedo. Aliás, era a primeira coisa que eu fazia assim que acordava. A Brenda tinha o hábito de fazer postagens na madrugada e assim sempre tinha novidades para os fãs assim que eu abria os olhos. Havia uma postagem dela feita lá pelas três horas da manhã e que me deixou chocada: a foto dela com outra garota (linda, por sinal) em cima da cama king size, ambas entrelaçadas no maior love. Já havia milhares de curtidas e comentários. Todo mundo dando parabéns, elogiando a beleza da duas, acho que alcançou recorde de views. Gente do céu, eu caí para trás literalmente. Como assim? Como assim? A Brenda, aquela por quem eu faria tudo, qualquer coisa mesmo, tinha arranjado uma amiga... íntima? E que não era eu?

Meu mundo caiu. A Brenda tinha uma namorada. Mas eu não queria ser namorada da Brenda, queria ser uma amiga, amiga quase irmã, alguém tão próximo que pelo olhar se adivinharia tudo o que passava no coração da outra. Contudo, a Brenda escolhera outra pessoa, uma tal de Jéssica. Eu chorei. Quer dizer então que eu nunca seria amiga íntima dela? Nunca teria espaço na vida da Brenda? Que cruel.

Durante aquele dia eu não me concentrei em mais nada. Não desgrudei o olho do celular. Não consegui me focar em outras coisas. A Brenda caprichou nas postagens com a namorada. Só naquele dia foram cinco, todas sensuais, cada uma mais linda. Meus sentimentos eram muitos. Inveja, ciúme, raiva. Perdi a fome e tive dor de barriga. Meu sonho de ser alguém próximo a Brenda morreu naquele dia.

Minha confusão emocional não levou dois dias. Comecei a olhar para a Jéssica de uma maneira diferente. Ora, para a Brenda tê-la escolhido era porque a garota devia ser muito especial, querida, doce, além de muito linda. Me encantei com ela também. Comecei a segui-la no Instagram e postei várias coisas elogiando as duas, shippando mesmo as meninas. Fui ao céu e voltei dez vezes quando a Jéssica curtiu um comentário meu. Minha vida adquiriu novo sentindo. Brenda e Jéssica passaram a ser minhas duas melhores amigas. Não importa a distância. Elas são tudo para mim.

Eu quero ser como elas.