domingo, 3 de novembro de 2024

BONECA MALDITA - Capítulo 1

 





Quando o carro estacionou na frente da casa da fazenda, Fernanda engoliu em seco. Deixou o pai tirar suas coisas do porta-malas e segurou a mochila que ele lhe estendia. Gilberto demonstrava estar bem feliz por sua filha mais velha vir passar um mês com ele e a nova família na fazenda. Já fazia dois anos que Fernanda não aparecia por lá. E só fora desta vez porque a mãe a obrigara. O lugar era lindo, com muito verde e um rio que passava nos limites da propriedade. A casa era muito confortável, com amplos espaços. E Fernanda ainda tinha a facilidade de ter um quarto somente para ela. O que era muito bom, já que não suportava sua irmã mais nova. 

Catarina tinha 10 anos, sete anos a menos que Fernanda. Era uma garotinha linda, loura e lindos olhos verdes. Cristina, a madrasta, dedicava-se inteiramente à única filha. Gilberto, devido à profissão, pouco parava em casa. Fernanda não sabia como iria fazer para suportar ambas. Da última vez que passara alguns dias na fazenda, saíra sem se despedir devido a uma enorme briga. E jurara que nunca mais voltaria àquele lugar. Agora, em pé ao lado do pai na frente da casa, Fernanda torcia para que as coisas fossem mais calmas desta vez.

Ainda não havia escutado a voz estridente da irmã. Aliás, este era o som mais escutado por lá. Catarina falava pelos cotovelos, sem parar. Cristina achava lindo e não se cansava nunca de ouvi-la. A madrasta, contudo, era cega para todo e qualquer defeito da filha. Tudo o que Catarina fazia e falava era lindo e inteligentíssimo. Era incapaz de enxergar o quanto uma criança daquele tamanho era perversa. 

− Estou muito feliz por você estar aqui conosco, minha filha.

Fernanda o encarou e tentou sorrir. Gostaria de estar em qualquer lugar, menos lá. Chegara até a sugerir que ela e o pai fizessem uma viagem juntos, somente os dois. Mas ele recusou, dizendo que seria importante ela conviver mais tempo com a irmã. Por fim, depois de alguma insistência, lá estava Fernanda. Sem conseguir disfarçar sua expressão de contrariedade.

− Espero que saia tudo bem por aqui, pai.

Ele sorriu e beijou sua testa.

− Tenha só um pouco de paciência. Ela é apenas uma criança.

− Criança, aff... 

Naquele momento a porta se abriu e Cristina apareceu. Ela estava com alguns quilos a mais e com a mesma cara de sonsa. Fernanda sabia que a madrasta morria de ciúmes dela e quando viu pai e filha juntos, o sorriso falso que trazia no rosto pouco a pouco se apagou.

− Ora, como a Fernanda cresceu. 

Agora ambas já estavam praticamente do mesmo tamanho e Fernanda descobriu que não a temia mais. As duas trocaram beijos e a garota ficou enjoada com o perfume enjoativo usado pela madrasta. Infelizmente o seu mau gosto permanecia. Não entendia como o pai um dia fora se apaixonar por aquela mulher.

− E você está muito bonita também – disse Cristina olhando a enteada de alto a baixo. 

− Obrigada, Cris. É, o tempo passou.

− Você precisa ver a Cat. Ela está lindíssima. Cada vez mais esperta e espirituosa.

Fernanda deu um sorrisinho sem graça e resolveu seguir o pai que entrava na casa. Quanto menos visse Catarina, melhor. Não se sentia com a menor disposição para enfrentar os prováveis embates que viriam pela frente.

− O quarto está prontinho para você, querida – disse o pai feliz. Ele seguia na frente, subindo as escadas e levando as duas malas. – Não se preocupe com nada. Se lhe faltar alguma coisa, pode me chamar. 

Era admirável o esforço do pai em fazer com que Fernanda se sentisse à vontade. 

− Eu sei, papai, muito obrigada. 

O quarto era bem espaçoso. Gilberto deixou as duas malas no meio do quarto e encarou a filha. 

− Acho que você quer descansar um pouco...

Fernanda consultou o relógio. Passava um pouco das seis horas da tarde.

− Acho que vou tomar um banho. Que horas é o jantar?

Na fazenda todas as refeições eram feitas juntas, o que contrariava Fernanda, que gostava de comer sozinha no quarto.

− Às vinte horas, Fê. Você sabe como Cristina faz questão que estejamos todos juntos.

− Eu estarei lá, pai.

Gilberto afagou a bochecha da filha e saiu do quarto. Quando a garota se viu sozinha, sentou na cama, exausta. Aquela ainda era a primeira noite. Teria ainda quatro semanas pela frente. Havia combinado com a mãe, caso as coisas estivessem muito insuportáveis, retornaria antes. Lentamente, Fernanda separou uma blusinha e uma saia para vestir depois do banho, deixando as peças em cima da cama. O banho foi um pouco demorado e bem gostoso. Quando ela retornou para o quarto enrolada em uma toalha, percebeu que a blusa estava dispersa de uma forma diferente da que havia deixado. Achando aquilo estranho, Fernanda se aproximou da cama e foi conferir de perto.

Ela sufocou um grito. O tecido havia sido perfurado em várias partes.


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domingo, 13 de outubro de 2024

UM AMOR DE PLUS SIZE - DEGUSTAÇÃO




DEGUSTAÇÃO DO CAPÍTULO 4 DE UM AMOR DE PLUS SIZE.

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 Não me perguntem onde o Aírton e o Doutor André se enfiaram durante toda aquela manhã. Enquanto fiquei com a bunda quadrada sentada na minha cadeira, os dois bonitos não retornaram da apresentação. Só imaginei qual seria a cara das minhas colegas quando descobrissem que o Aírton não somente era apetitoso, mas também um enorme de um antipático pedante. Rá! Iriam cair duras!

Minha alegria foi barranco abaixo quando encontrei com Cássia e Bárbara para almoçar. Ambas me esperavam na frente do prédio da agência. O frenesi estava instalado entre as duas. O motivo tinha nome.

Aírton.

— Ele é demais ─ Cássia vinha caminhando ao meu lado, os olhos brilhantes perdidos no espaço. — Um fofo simpático e sexy.

Bárbara gemeu.

— Aírton... Um doce de pessoa. Um cara fino, educado. Meus parabéns à mãe dele. Você não achou, Gisele?

— Achei o quê? ─ rosnei.

— Seu novo colega! Um gentleman, não? Super querido!

— Ah, claro ─ seria possível que ele só tivesse sido metido comigo? Resolvi me vangloriar. — Nós vamos trabalhar juntos. Segundo o Doutor André, algumas vezes vou me reportar a ele.

Já nem sabia se aquilo me traria alguma espécie de vantagem em relação às outras mulheres da agência. O cara por quem eu me apaixonara em uma velocidade meteórica era hierarquicamente meu superior e não me dava a mínima.

— Não! ─ as duas quase gritaram no meio da rua. Eu continuei andando altiva e disfarçando o constrangimento pelo comportamento histérico delas. — Sério?

— Foi o que o Doutor André disse. Mas estou tranquila. Não achei o Aírton isto tudo. Sou mais o Osvaldo.

Osvaldo. Meu ex-noivo. Eu preferia um encontro com o capeta a ter que ficar com ele outra vez.

— O Osvaldo? Convenhamos né, Gi? Com aquela barriguinha de cerveja... Tenha dó. Não serve nem como comparação.

Estávamos as três chegando ao nosso restaurante preferido e barato (nós o apelidamos de Baratex), e só não acertei uma bolsada na Cássia porque senti o cheirinho da comida vindo do bufê. Minha raiva se extinguiu na mesma hora.

Nos sentamos no fundão. Meu prato parecia o Corcovado. Arroz, feijão, bife à milanesa, batata-frita e um ovo frito por cima para coroar aquela segunda-feira fora do normal. Eu adoro comer. E ainda tinha o bufê da sobremesa me chamando.

— Ué? Vocês não vão mandar ver?

O prato das minhas duas colegas se resumia a um peixe grelhado e montanhas de salada. Bárbara balançou a cabeça, mastigando uma folha de alface. Qualquer semelhança com a vaca mimosa não era mera coincidência.

— É melhor eu começar a entrar em forma, né? ─ Bárbara me olhou, convicta. — Sabe como é... O Aírton...

— O que tem o Aírton? ─ eu não estava entendendo lhufas.

Cássia então resolveu esclarecer: — O Aírton não vai querer uma gorda ao lado dele.

Aquilo me atingiu. Pela primeira vez em muitos anos me senti acima do peso. Claro que eu tinha noção das minhas gordurinhas, mas até então nunca me incomodara com aquilo. Aírton. Cretino. Talvez tenha sido por isto que ele fizera pouco caso de mim. Ele não gostava de cheiinhas?

Comi com raiva todo meu almoço e só não lambi o prato porque eu estava em público. Repeti duas vezes a sobremesa e voltei para o escritório explodindo e ansiando por um chá de boldo.

Bem capaz. Mas capaz mesmo que eu deixaria de comer as coisas que eu gosto por causa das preferências do Aírton! 

Não, não e não!

Não?


quarta-feira, 11 de setembro de 2024

A PRINCESINHA (Conto Erótico)






O tropel de cavalos se fez ouvir ao longe. Alerta, Arwen correu até a amurada do castelo. Era início de uma noite fria. As aias que a seguiram deram risadinhas e se cutucaram, olhando para a princesa, tentando todas elas decifrar alguma espécie de tensão no seu rosto. Arwen, contudo, se manteve em silêncio olhando para frente. O primeiro cavaleiro trazia um estandarte com o brasão da família. Mais atrás, vinha o rei e, logo depois, o príncipe, seu futuro marido. De longe, era impossível ver o rosto dele.


一 Ansiosa, princesa? 


一 Nem um pouco. ー era a mais pura mentira. Ela passou a mão pelos longos cabelos louros, cacheados. 一 Quem deve estar nervoso é ele.


A jovem respirou fundo disfarçando o quanto seu coração batia acelerado. Um homem que nunca vira antes e com quem iria se casar em breve, estava chegando para conhecê-la. Não fazia a menor ideia de como ele era. O Rei, pai de Arwen, somente lhe dissera que o rapaz era um pouco mais velho que ela. E nada mais.


一 É melhor eu descer e recebê-lo. Podem ficar por aí. Não preciso de companhia.


A princesa deu meia volta e caminhou, a passos calmos. Mas sua vontade era sair correndo, atravessar os longos corredores, descer a escadaria e se postar no portão do castelo. Sonhara com o príncipe na noite passada. Ele era alto, cabelos louros e tinha um rosto forte. Acordara excitada e molhada. E esperançosa que seu príncipe fosse tão formoso como o do sonho.


Quando chegou ao salão nobre do castelo, os visitantes já estavam por lá. Havia um burburinho, conversas altas e risadas. Os reis já se conheciam e haviam acertado o casamento entre Arwen e o príncipe há um bom tempo, o que não parecia justo para ela. Mas, enfim… era assim que as coisas deveriam ser.


Ela reparou que havia um homem jovem, de costas, vestindo um manto dourado que quase arrastava pelo chão. Arwen se arrepiou. Assim, de longe, o príncipe parecia belo.


一 Arwen, minha filha. ー o Rei Cork fez um gesto para que a princesa se aproximasse. 一 Venha conhecer seu futuro marido. 


Todos os olhares, menos o do príncipe, se voltaram para ela. De cabeça erguida, Arwen atravessou o salão mostrando uma segurança que não sentia. Percebeu os olhos do outro rei, seu quase sogro, a lhe fitar, intensamente. Gostaria de observá-lo melhor. Ele era alto, possuía uma barba grisalha e um porte altivo. Mas depois se concentraria nele. Arwen não suportava mais a curiosidade em saber quem era seu noivo. O homem com quem dividiria uma vida e o reino vizinho. Arwen se aproximou mais. O salão estava em silêncio, na expectativa do encontro.


A ansiedade que sentia em olhar para o rosto do príncipe (e nem sabia seu nome ainda), não parecia ser a mesma dele. Quando estava há uns cinco passos, ele resolveu olhar para trás e encará-la. A princesa estacou, de repente. Os olhos de ambos se fixaram um no outro.


Arwen teve vontade de sair correndo do salão e fugir do castelo para nunca mais voltar.


Como seu pai tivera a coragem

 

              *


一 Filha, quero lhe apresentar o príncipe Elinor.


O rapaz fez uma mesura com a cabeça, enquanto Arwen permanecia estática e em choque, sem sequer piscar.


Elinor era, simplesmente, o homem mais feio que já havia visto na vida. Muito mais feio que Affonso, o louco, que circulava pela cidade pedindo comida e dizendo impropérios. Elinor era magro, talvez por isto usasse o manto para disfarçar os ossos aparentes. As maçãs do rosto eram saltadas. Havia uma espinha explodindo bem na ponta do nariz. Entradas na cabeça já anunciavam que estaria calvo em breve. Os lábios eram finos. A roupa lhe caía mal. Ele estendeu a mão. 


一 Prazer em conhecê-la, Arwen.


Seu hálito era fétido. Ela se viu obrigada a apertar a mão de Elinor, que era fria e seca. Imaginou aqueles dedos lhe tocando o corpo inteiro e teve vontade de vomitar. Retirou a mão logo, furiosa. O pai de Elinor, rei Vanius, então, se manifestou:


一 Estamos muito felizes por Vossa Alteza fazer parte da nossa família. Em breve.


Arwen se virou para ele. Ao contrário do filho, o futuro sogro era um homem bonito. Com um meio sorriso, encarava a princesa com seus olhos negros. Por alguns instantes, Arwen ficou perdida naquele olhar. E se pegou dizendo preferir casar com o pai e não com o filho.


一 Obrigada.


Estonteada, Arwen deu meia volta e saiu correndo. Não fugiu do castelo, como era sua vontade. Subiu novamente as escadarias de pedra e se refugiu no seu quarto. Deitada na cama imensa, chorou. De raiva do pai, da tristeza por estar prometida a um príncipe que lhe enojava e, principalmente, por estar morrendo de desejo por um homem que vira por somente cinco segundos.


                                                                     *


A aia não demorou a aparecer. Encontrou a princesa com a cabeça afundada no travesseiro e o rosto inchado de tanto chorar.


一 Princesa, vim lhe arrumar para o jantar com seu futuro noivo.

一 Diga para meu pai que estou indisposta.


Ao mesmo tempo em que dizia isto, sabia que seria impossível não descer até o salão real. O príncipe percorrera longa distância somente para conhecê-la. Não podia fazer esta desfeita. E… havia o rei, o pai do seu futuro esposo.


Desejava vê-lo outra vez. Queria tocá-lo. Aquilo que era um homem de verdade e não aquele arremedo de macho que o pai lhe arrumara para ser seu marido.


一 Rei Cork lhe virá buscar, pessoalmente, se continuar aqui. Venha, vamos escolher seu melhor vestido.


A aia encheu uma tina com água fresca e passou compressas no rosto de Arwen, melhorando sua expressão. Depois a princesa escolheu um vestido rosado, apertado no busto e com algum decote. 


一 Não sei se é apropriado este traje, princesa.

一 Mas é com ele que vou ao jantar, aia! ー Arwen decidira não se importar mais com nada. 一 Quero que meu noivo veja como sou linda.

一 Ele deve estar encantado.


A princesa colocou uma pequena tiara nos cabelos louros.


一 Pois eu não.



                                                                 *

Havia mais gente no jantar em que Arwen foi, oficialmente, apresentada ao seu noivo, o príncipe Elinor. Arwen recebeu os cumprimentos de pessoas próximas ao Rei sem conseguir disfarçar sua expressão de desagrado. Não conseguira mais olhar para o rosto do príncipe nem mesmo quando sentaram, frente a frente, na grande mesa onde a comida foi servida.


Do lado direito de Elinor, sentara Vanius, pai dele. Elegante e com voz sedutora, Vanius atraiu para si todos os olhares. Era um homem magnético. Sua risada era bonita de ouvir, contagiando a todos que estavam no salão. Não apenas Arwen se mostrava encantada por ele. As outras mulheres também. Contudo, era para a princesa que o rei endereçava seu olhar mais ardente.


O vinho era servido sem moderação. Quando criou coragem, Arwen levantou os olhos para Elinor. Ele estava quase bêbado, falando algumas besteiras. Talvez por ser príncipe e próximo rei de um reino importante, as pessoas riam do que ele dizia. Vanius, no entanto, não parecia muito satisfeito com aquele comportamento. Depois de um tempo chamou um dos seus cavaleiros e Elinor saiu amparado do salão por dois homens. Arwen respirou aliviada. Sentiu-se mais livre para admirar o sogro, e pouco estava se importando se havia outras pessoas, inclusive o pai, que percebiam seu jogo. As risadas da princesa a cada coisa que Vanius dizia ecoavam pelo salão. Parecia uma prostituta, ela sabia. E tinha por quem puxar. A Rainha Magenta, sua mãe, era conhecida por ter um homem a cada noite até que Cork, certa ocasião, decidiu acabar com aquela libertinagem e a degolou juntamente com o amante da ocasião.


一 Filha, está na hora de você se recolher.


A voz fria do pai interrompeu uma troca pulsante de olhares entre ela e Vanius. Formou-se um silêncio constrangedor. Vanius bebeu um gole do seu vinho como se aquilo não o atingisse. Arwen, no entanto, sentiu uma certa mágoa. Como assim? Depois de passar mais de duas horas em quentes contatos visuais, o rei Vanius parecia não importar que ela se ausentasse. A princesa tomou um último gole de vinho e se levantou. Sentiu um pouco o salão rodar, mas logo se recompôs. Fez uma breve mesura sem olhar para ninguém e foi em direção à saída do salão. Duas aias se aproximaram, talvez temerosas que Arwen estivesse bêbada o bastante para não conseguir caminhar sozinha. Com um gesto, ela as afastou. O coração batia forte. Como desejava aquele homem. E seu pai, o cruel Rei Cork, eliminara a possibilidade, tal qual fizera com a fogosa Rainha Magenta.


                                                                       *


As aias acomodaram Arwen na cama, envolta em cobertas para atravessar a noite fria. Depois, foram para o quarto ao lado onde dormiram em seguida. A princesa não relaxou. O calor a consumia. Jogou as cobertas para o chão. Quase não conseguia respirar. Escutava as vozes alegres vindas do salão e gostaria de estar lá, ao lado dele. Sentia como se o espírito de Magenta fizesse parte dela também. Agora compreendia as razões da mãe para se comportar daquele jeito que ela mesma, Arwen, desprezara por anos a fio. O desejo era mais forte que seus princípios. Apenas desejava sentir Vanius dentro de si. 


E, até aquela noite, nunca a princesa deitara com homem algum.


                                                                     *


Ela dormiu, apesar da febre que lhe queimava por inteiro. Acordou, de repente, sentindo o colchão afundar. O luar entrava através das cortinas quando Arwen abriu os olhos, surpresa com a movimentação. Foi entre a penumbra que ela pôde enxergar a sombra de Vanius.


Arwen sentou na mesma hora, nua. Devia ter tirado a roupa enquanto dormia. O rei esticou a mão calosa e firme, e segurou um dos seios. Sussurrou:


一 Por eles e por muito mais estou aqui.

一 Então venha ー implorou ela. Detestou seu próprio tom de voz. Não devia mostrar o quando necessitava do corpo daquele homem. 一 Não posso mais esperar.


Vanius deitou por cima de Arwen. O peso, aquele tipo de peso, era uma novidade. Não sabia que um homem podia ser tão pesado… O cabelo solto foi puxado para trás e o pescoço da princesa ficou exposto. A boca de Vanius começou a agir por ali.


Foi instintivo. O Rei não precisou sequer forçar. Arwen abriu as pernas para recebê-lo. E não se importava que doesse. Ouvira relatos de primeiras noites. Dolorosas e cruéis primeiras noites. Estava disposta a sentir todas as sensações possíveis.


Vanius lambeu, beijou e mordeu a pele alva do pescoço da princesa para, em seguida, descer para os seios onde se demorou por um tempo. Os gemidos de Arwen era algo que ela não podia controlar. Ele murmurava palavras pesadas que a excitavam mais. Alguém havia dito que a primeira vez de uma mulher era ruim? Aquilo estava longe de ser. 


Então, Vanius levantou finalmente o rosto e encarou Arwen. Extasiado. Em segundos, ele atirou seu manto negro no chão e se desfez de todas as suas roupas o mais rápido que podia. A princesa posicionou-se sobre seus cotovelos para poder admirá-lo em toda sua nudez.


E, quando o viu inteiramente nu, se deu conta que a diversão sequer tinha iniciado.


                                                                          *


A primeira coisa que pensou foi que não o suportaria todo dentro dela. Aquilo não podia ser de verdade. Arwen temeu e tremeu. De desejo e medo. Não podia recuar e sequer Vanius permitiria que ela fugisse naquele momento. Suas pernas foram afastadas ainda mais e Arwen ficou totalmente exposta. O membro estava duro e parecia uma tora. Ele vai me rasgar todinha, pensou a princesa. Com uma das mãos, ele colocou seu membro junto ao corpo dela.


一 Já sentiu algo parecido na sua vida?


Ela balançou a cabeça fazendo que não. Mal respirava. Instintivamente, tentou fechar as pernas, contudo Vanius a escancarou ainda mais.


一 Não pense que vai fugir de mim, princesinha. Você é minha. Pelo menos, nesta noite.


Arwen teve vontade de dizer que seria dele por todas as noites possíveis. Mas quando ele forçou o membro dentro dela, a princesa deixou escapar um grito.


一 Pode gritar. Ninguém virá salvar você. Estão bêbados demais para isto.

一 Quem disse que quero ser salva?


Vanius puxou Arwen para junto de si e ela foi penetrada com força. A princesa gritou mais alto, pouco se importando se de fato alguém iria escutar.


一 Se a princesinha quiser, eu paro.


Arwen o encarou. Vanius sorria, lascivo. Ela entendia aquele olhar. Ele jamais iria parar mesmo que ela implorasse.


一 Eu quero mais…


Vanius se deitou por cima dela de novo, em vários movimentos de vai e vem. Arwen o envolveu com suas pernas e o abraçou com força, não querendo perdê-lo e nem que o tempo passasse. Sentia dor e uma espécie de prazer. As unhas dela riscaram as costas do rei e o seu pescoço estava marcado pela boca de Vanius. O peso daquele homem fazia com que se sentisse protegida. Em que outro reino encontraria um homem assim?


Um jorro quente dentro da sua vagina interrompeu os movimentos frenéticos. Ele rolou de cima dela e ficou estirado sobre a cama, de olhos fechados. Arwen se tocou entre as pernas. Sangue e uma gosma branca escorriam por ali. Finalmente, murmurou. Se a sua virgindade era um troféu para seu pai, então ele havia perdido o jogo.


A mão dele tocou na barriga lisa de Arwen. Ela o encarou, com carinho.


一 Gostaria que fosse você e não seu filho.

一 Eu sei. Ele sabe. Seu pai sabe. A esta altura, o reino inteiro deve saber.


Vanius voltou a sentar. Com um rápido movimento virou Arwen de bruços.


一 O que…

一 Fique quieta. Eu não acabei.


As nádegas de Arwen foram separadas de um modo bem pouco gentil. Assustada, sem saber o que estava por vir, ela agarrou firme o colchão. Será que ele seria capaz de…


A dor de ser penetrada por trás foi tão aguda que a princesa soltou um grito. Enterrou o rosto no meio de uma das cobertas, pois estava certa que seus berros seriam escutados do outro lado do rio.


Sem pausa, Vanius a penetrou por trás seguidas vezes, batendo-lhe nas nádegas com força. Os gritos abafados de Arwen o excitavam mais. Em algum momento, ele pegou os cabelos da princesa e ela sentiu que não passava de uma égua nas mãos dele. O rei a cavalgava. Poderia estar sendo ruim. Mas não era.


A porta que ligava o quarto da princesa ao das aias se abriu. Em meio ao seu desvario, Arwen virou o rosto para o lado. Duas das suas aias, uma ao lado da outra, paradas, em choque, assistiam à cena. Quando Vanius se deu conta que eram observados, desmontou de Arwen e foi em direção a elas. Uma tentou fugir, mas não foi longe. A outra logo foi pega pelo rei. Com cada aia debaixo do braço, Vanius as jogou na cama. Por algum tempo, fez o que quis com ambas, sob os olhares surpresos de Arwen. Mais tarde, quando as duas aias jaziam nuas e exaustas sobre a cama da princesa, o rei vestiu suas roupas, jogou o manto por cima do corpo e foi embora, sem dizer mais nada. E sem olhar para trás.


As três garotas se entreolharam. Envergonhadas umas das outras, mas satisfeitas.


                                                                         *


No outro dia, rei Vanius e príncipe Elinor partiram antes de Arwen levantar. O Rei Cork, constrangido, explicou para a filha que o príncipe não desejava casar. Ela agradeceu aos céus. O corpo estava dolorido, o pai a olhava desconfiado. Talvez a história não fosse bem aquela. Isso não importava. A questão é que nunca mais iria encontrar um homem como Vanius. Tanto seu coração como seu corpo ansiavam por ele.


O dia passou calmamente. Arwen e suas aias, que mal a encaravam, passaram aquelas horas preguiçosas no tear. Quase não conversaram nada, ainda impactadas pelos acontecimentos da madrugada. A hora de dormir chegou. Na cama de Arwen ainda restavam as marcas do sexo com Vanius. O pescoço fora envolvido com uma manta durante o dia para que o pai e mais ninguém percebesse os hematomas.


Não havia muito tempo a perder. Arwen despachou as aias e jogou algumas roupas mais simples em uma trouxa, soltou o cabelo e se despenteou. Vestiu também uma roupa velha que a fazia parecer uma das camponesas. Cobriu-se com um manto antigo, porém quente. Se conseguisse sair do castelo, era possível que ninguém se desse conta que a moça loira e magra andando pela cidade era a filha de Cork.


Quando a madrugada chegou, não foi difícil despistar os guardas do Rei, bêbados de tanta cerveja. A princesa passou pelos portões do castelo e ganhou a noite, desapareceu no meio do bosque, disposta a lutar pelo que acreditava que devia ser seu.


Vanius.


segunda-feira, 25 de março de 2024

NOITES SOMBRIAS


 

Nem sei como tudo começou. Aliás, sei sim. Foi na pandemia, bem no início, naqueles primeiros meses que não havia vacina, a gente se sufocava com as máscaras e o fim do mundo parecia estar logo ali.

Quem primeiro pegou a peste foi meu irmão mais velho, Leandro. Além de irmão, também era meu ídolo, protetor, corajoso, invencível. Por isso não acreditei quando ele começou a sentir falta de ar e todos aqueles outros sintomas pavorosos. Juro, dentre todas as pessoas do mundo, achei que o Leandrinho nunca pegaria a doença.

Mas ele pegou.

Minha mãe foi logo em seguida. De repente, na nossa casa havia duas pessoas bem doentes, isoladas cada uma no seu quarto. Meu pai, vivo, saudável e apavorado, me mandou para a peça dos fundos, no nosso terreno mesmo, mas afastada da casa, onde minha querida avó materna viveu feliz seus últimos anos de vida. Lembro que quando entrei na casinha senti o perfume que ela usava, uma água de colônia antiga. Lá tinha cheiro de talco, da comidinha cadeira que vovó tanto adorava fazer pra mim e as flores que ela cultivava e que nunca deixei  morrer. Os aromas estavam lá e me acalentavam nos meus momentos de angústia e desespero. Lá fiquei sem pôr o nariz para a rua durante um mês. Nestes trinta dias meu pai trazia comida, água, refrigerantes, docinhos, tudo o que fosse para me distrair. Com meu notebook, eu tinha acesso ao mundo e as notícias horríveis que não paravam de chegar. Isolada do mundo, eu não via nem Leandro e nem minha mãe. Aliás, nunca mais os vi. Morreram com diferença de dois dias após algum tempo passado num hospital. Desesperei-me sozinha, não tinha um ombro para chorar a perda. Meu pai me informou pelo aplicativo de mensagens, nervoso, tenso, me proibindo de ir no enterro deles. Com ele, felizmente, nada aconteceu. Voltei para a casa da frente uma semana depois da partida da mamãe, a última a falecer, depois que meu pai fez uma limpeza pesada por tudo.  

Havia um imenso buraco em cada peça daquela casa. Temendo que eu pegasse a peste, papai despachou tudo o que havia no quarto do Leandro. Chorei de raiva. Fiquei sem nenhuma lembrança dele, palpável. Com minha mãe foi igual. Era estranho dizer que eu estava em casa, sendo que aquela casa não era mais meu lar tão amado.

Eu tinha recém feito 16 anos. Fiz aniversário sozinha na peça dos fundos um pouco antes dos dois partirem. A única companhia que tive foi da minha vó. Esta mesma, a que tinha morrido poucos anos antes. Juro que a vi em uma das sombras da sala, sorrindo para mim.

Tentei voltar à vida normal, recusando-me a morrer junto com eles. Minhas aulas eram remotas, o contato com meus colegas era virtual. Até um namoradinho virtual, de outro estado eu arrumei neste meio tempo. As saídas ao supermercado eram controladas. Meu pai vivia meio apavorado, no início. Porém, o luto dele passou bem rápido.

Reparei que ele saía de casa mais frequente do que antes. Papai era contador e conseguia fazer home office. Mas, à medida que as restrições iam diminuindo, ele passou a ficar mais tempo fora. Não dei muita importância. O dia em que voltei às aulas presenciais foi comemorado. Mesmo de máscara, fizemos algazarra e festa. Naquele dia resolvi ir almoçar no shopping com a Luíza. Foi ela que me deu um cutucão que quase quebrou minhas costelas enquanto passeávamos de braço dado pela praça de alimentação.

— Aquele cara se agarrando com a loira não é o tio Oscar?

Claro que não era. Despretensiosamente, olhei para o lado. Era meu pai. Como se fosse um garotão de vinte anos, ele acariciava as costas de uma vadia que estava praticamente sentada no colo dele e com uma saia tão curta que eu quase enxerguei seu útero.

Fiquei sem palavras, chocada. Luiza me deu um puxão.

— Faz de conta que não viu e vamos sair daqui.

— Mas como ele tem coragem, Lu? – eu estava muito inconformada. — Não tem oito meses que ele ficou viúvo.

Luiza saiu me arrastando pelos corredores do shopping.

— Você sabe como os homens são. O tempo de luto deles é diferente.

— Olha o tipo de mulher que ele pegou! Uma vadia, quase mostrando a calcinha.

— Menina, calma. Ele...

— Lu, ele não me disse nada. Agora eu estou entendendo muita coisa.

Não consegui sequer comer nada naquele dia. Minha ideia era bater de frente com papai quando ele chegasse em casa. Porém, não fiz nada. Ele retornou por volta das oito horas da noite muito bem-humorado e ainda me trouxe uma roupa nova. Mais tarde, deitada na cama e muito magoada, pensei que ele poderia pelo menos ter me contado que estava com uma namorada nova. Até quando ele pretendia me esconder seu novo status de relacionamento eu não fazia a menor ideia.

Aquela vida dupla levou dois meses. E eu aguentando tudo trancado na goela. Um domingo, aniversário dele, papai resolveu fazer uma festa familiar, com meus tios, primos e agregados. Era a primeira reunião da parentada depois da pandemia, depois das perdas e que seria na casa do meu padrinho. Achei que ele levaria a vaca e que me avisaria antes por consideração à única filha que lhe restara. Mas não. Foi surpresa. Papai apareceu com a loura pendurada nele. Surpresa geral. Tentei me manter neutra ante a cara de espanto e algum desagrado por parte de quase toda a família.

Marcia, este era o nome dela. Marcinha, para meu pai. De fato, Marcia não era uma pessoa ruim. Se esforçou para ser simpática, sorriu para mim algumas vezes, mas não tivemos nenhum assunto em comum. Naquela noite meu pai não dormiu em casa. No dia seguinte ele inventou de iniciar uma reforma na pecinha dos fundos. Não entendi o motivo, o lugar estava em perfeitas condições. Algumas semanas mais tarde caiu a ficha quando tudo ficou pronto. A casinha dos fundos era para mim. Meu pai a deixou fofa e clean (mais tarde descobri que Marcia era decoradora de interiores) para eu morar lá, já que Marcia estava de mudança para nossa casa, lugar onde fomos tão felizes. Certo, entendo que ele tem todo o direito de reconstruir sua vida. A questão é que, nesta reconstrução, eu sobrei.

E um plano mirabolante e aterrador até mesmo para mim começou a tomar forma nas noites sombrias que se seguiram.



... se você acha a história interessante, escreva nos comentários para eu postar a continuação.

 

sábado, 24 de fevereiro de 2024

UM CONTO DE MISTÉRIO - PARTE 15

 


Lourdes não soube dizer quanto tempo ficou encostada no balcão da pia olhando para Régis, na esperança que ele se mexesse. De repente, escutou o motor de um carro parando frente a sua casa e a voz feliz de Valentina. Logo em seguida a porta da frente se abriu. Valentina entrou, falando alto:

- Tia, você está em casa?

A luz da sala foi acesa. Lourdes, sem voz e atordoada, não respondeu. Escutou os passos da sobrinha se dirigindo até a cozinha. Precisava se acalmar para tomar controle da situação.

- Meu Deus, que merda é esta?

Valentina parou na porta, surpresa e pálida.

- Tia, o que você fez?

- Me defendi - Lourdes conseguiu falar à meia voz.

Para chegar até a tia, Valentina precisou saltar por cima do cadáver de Régis.

- Você está gelada.

Silêncio.

- Pode me contar o que houve, por favor? Estou meio que passando mal.

Em poucas palavras, Lourdes contou tudo, desde o convite para andar de bike até o quase estupro.

- Este filho da puta não me respeitou.

- Tia, tudo bem - Valentina se posicionou de costas para o defunto, evitando olhar para ele. - Tente respirar com mais calma.

Rápida, Valentina pegou o celular do bolso. - Vou chamar a polícia.

- Não!

O berro de Lourdes foi bem sonoro e Valentina deixou o celular cair sobre a barriga de Régis. Lourdes agarrou o aparelho e não o devolveu para a sobrinha.

- Não o quê? Tia, tem um cadáver na sua cozinha!

- Mais um.

Lourdes soltou uma gargalhada histérica e sinistra que assustou Valentina.

- Não vou chamar polícia porra nenhuma. Eu vou sair presa daqui.

- Alegue legítima defesa.

- Quem vai acreditar em mim? A cidade inteira vai começar a falar que coloquei um homem dentro de casa mal Juarez esfriou. Eu matei um homem, Valentina!

- Muito bem. - Valentina cruzou os braços. - E você pretende fazer o que com o corpo do cara?

- Enterrar o cara no meu quintal. Com a sua ajuda.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

UM CONTO DE MISTÉRIO - PARTE 14

 - Não chega perto de mim!

Era inacreditável o que estava acontecendo. O que começara com um romântico passeio de bicicleta, se transformara em algo bizarro. O vizinho galã se transformara numa besta pervertida pronto para atacá-la.


- Vamos, querida. Não adianta resistir.


Régis se encostou em Lourdes e ela pôde sentir o membro duro ficando sua barriga. Numa atitude desesperada, cuspiu nele. No mesmo instante ele se afastou com o rosto retorcido em uma máscara de raiva.


- Para o seu próprio bem, seja boazinha.


Novamente, Régis fez menção de partir para o ataque. Lourdes, sem pensar duas vezes, atirou o chá quente no rosto dele. Régis urrou, cego pelo líquido fervente. E ameaçou:


- Eu vou acabar com você


Mas antes que ele conseguisse esboçar qualquer outra reação, Lourdes quem investiu contra ele. Usando uma força que não sabia possuir, deu um empurrão no seu agressor. Foi o suficiente para ele tropeçar nas próprias pernas, se desequilibrar e cair para trás. Antes da queda, contudo, Régis bateu a nuca da mesa.


Lourdes ficou por um minuto inteiro observando o corpo daquele homem grande caído  no chão da sua cozinha, imóvel, exatamente no lugar onde Juarez tinha partido desta para melhor.


- Levanta, desgraçado - murmurou. - Abra este maldito olho.


Nada. Lourdes, em pânico, se agachou no chão e tentou procurar o pulso de Régis. Não encontrou. As xícaras, espatifadas no chão, davam um toque final naquela cena de terror.


Precisava mandar, urgente, benzer aquela cozinha.







sábado, 10 de fevereiro de 2024

UM CONTO DE MISTÉRIO - PARTE 13



Lourdes dormiu sentada no sofá sem se dar conta. De repente, acordou por volta das oito horas da noite, assustada. A casa continuava silenciosa. Valentina não tinha chegado ainda. Devia estar namorando com Fabinho em algum lugar. Seu coração ficou ainda mais apertado. Por via das dúvidas, foi até a cozinha e engoliu mais uma piroquinha só para garantir. Naquele exato momento ouviu uma batida na porta. 

Valentina devia ter esquecido a chave.

Mais aliviada e ainda com um último pedaço de pão de piroca na boca, Lourdes atravessou a sala e abriu a porta. Régis lhe sorria, sedutor. 

- Boa noite - cumprimentou ele. - Estou atrapalhando?

O pão desceu direto goela abaixo. 

- Er... claro que não. Tudo bem com você?

- Tudo ótimo. Vim te fazer um convite.

Mil coisas passavam pela cabeça de Lourdes. Não era possível que a magia do pãozinho já estivesse fazendo efeito.

- Ah é? - ela chegou a sentir um calorão na periquita. - Agora fiquei curiosa.

- Quer dar uma volta de bike?

Régis apontou para o portão. Uma bicicleta de primeira linha estava encostada ali, reluzente como o dono. Lourdes sentiu um nó no estômago. Lembrou do seu último passeio de bicicleta. Foi quando Juarez caiu duro no chão da cozinha vitimado pelo enfarte fulminante.

Bem, Juarez estava morto e no inferno. Régis era diferente.

- Adoraria. Espere um instante que eu vou buscar a minha.

A noite estava agradável. Lourdes se esqueceu da existência de Valentina e da amiga. Provavelmente, deviam estar curtindo a companhia dos seus parceiros, tal qual ela fazia. Régis era um homem muito agradável. Além de bonito e gostoso, tinha um papo simples e fluído. Várias vezes Lourdes se pegou rindo feito uma adolescente abobada e apaixonada. Ah, Régis... e aquela bermuda de ciclista que marcava tudo, inclusive tudo mesmo? Era difícil para ela desviar o olhar daquela potência toda. Juarez dava pro gasto. Régis, contudo, estava em um patamar muito superior.

Não havia ninguém na rua. Naquela noite gostosa, as pessoas haviam se recolhido mais cedo. Melhor assim. Lourdes poderia desfrutar melhor da companhia de Régis, sem ninguém ficar enchendo o saco dizendo que ela recém havia enviuvado e já tinha achado um macho.

Uma hora e meia depois, Lourdes já estava com as pernas sem força de tanto pedalar. Gentil, vendo que ela estava cansada, Régis propôs que fossem voltando para casa. A volta foi ainda mais divertida. Risos, olhares trocados com mais intenções, calorão e arrepios. Lourdes se sentiu no paraíso.

Quando dobrou a rua em que morava, Lourdes percebeu que sua casa ainda estava às escuras, sinal que Valentina ainda não havia chegado do seu encontro com Fabinho. Ela teve vontade de rir. Enquanto Valentina se divertia com o filho, ela se divertia com pai. Nossa, parecia coisa de novela.

- Do que você está rindo?

Régis fez a pergunta, curioso. Lourdes tentou se controlar.

- Nada demais. Só estava pensando que seria bom você entrar e tomar um chá comigo.

- Será ótimo.

A intenção de Lourdes realmente não era ir além de um chá de hortelã. Até porque não queria passar a imagem de uma mulher fácil. Talvez trocar uns beijinhos e só. 

Régis deixou a bicicleta no jardim da casa e seguiu Lourdes para dentro da casa. Ele elogiou a decoração e o perfume que deixava um aroma de lavanda nos ambientes. Na cozinha, Lourdes tratou de cobrir com um pano o que sobrara das piroquinhas e passou a ferver a água para o chá, de costas para ele.

Régis sentou em um banquinho e o papo rolava solto. Lourdes esperava que Valentina demorasse BEM a chegar. Não via a hora de trocar uns beijos com aquele homem gentil e sensível. A água esquentou e Lourdes preparou os cházinhos. Se voltou para ele e quase deixou as xícaras se espatifarem no chão. Régis estava com seu membro para fora. Era uma coisa enorme, tão diferente do Juarez, coitado. Lourdes empalideceu.

- O que é isso, criatura?

Lourdes se surpreendeu com o olhar de Régis. De uma hora para outra, ele deixara de ser aquele cara gentil e aprazível. Agora parecia uma besta tarada, olhando-a como se Lourdes fosse um pedaço de carne a sua disposição. Todo o desejo dela foi embora. Nojo e medo eram seus sentimentos.

- O que acha? Dá conta?

"Não, não dou. Inclusive, socorro."

Mas não havia ninguém para lhe salvar.

- Acho que você confundiu as coisas.

- Eu confundi? - Régis ficou em pé com o negócio em riste. - Você me convida para entrar na sua casa para tomar chá. É isto mesmo que você pensa que eu quero?

Ele deu um passo para a frente, ameaçador. Lourdes ficou segurando as xícaras e as mãos já tremiam, quase derrubando o líquido quente. Paralisada.

- Melhor você nem chegar perto. - Lourdes tentou firmar a voz. Não deu certo.

- A única coisa que você tem que fazer é colaborar.

Cruzes. Lourdes percebeu que seria estuprada na cozinha de casa. E não fazia a menor ideia de como sair daquela enrascada.