segunda-feira, 1 de julho de 2013

A LOIRA





Aquela cena já se repetia há algumas noites no edifício ao lado. Por volta das oito horas da noite o show começava.

Ela devia ter menos de 20 anos. Loira, magra, mas com curvas. O cabelo descia até o meio das costas e os seios eram naturalmente cheios. Não parecia ser silicone. A barriga lisinha e as pernas com músculos na medida certa. A moça nunca tinha ficado nua totalmente. Porém, a calcinha era tão pequena que parecia estar quase como veio ao mundo.

Se sabia que estava sendo observada ainda era uma incógnita. O certo, no entanto, é que a beldade já havia conquistado uma boa audiência da vizinhança. Antes de a novela começar, a loira acendia a luz do seu quarto e sem desinibição nenhuma, começava lentamente a tirar peça por peça, em uma dança sensual. Só restava a calcinha. O espetáculo não terminava. As poses e os trejeitos continuavam. Fotos e mais fotos no celular, com direito a caras e bocas. E de repente, tudo terminava. Lentamente a moça ia embora, deixando uma série de admiradores excitados se masturbando na janela.

Quem primeiro reparou foi o Zé, o marido da Natália. Gordo, fora de forma, ele estava de saco cheio da esposa, precisando algo novo para se motivar. Natália detestava sexo, a infeliz. Foi quando ele reparou na vizinha gostosa. Primeiro ficou surpreso. Ato contínuo, excitado. Desde então seu programa noturno era ir para a área de serviço, binóculo em punho, observar a performance da loira. Ah, se pegasse aquela gostosa...

Também o Solano se surpreendeu com a moça. Gay, 30 anos, achou interessante o show protagonizado pela garota. Não que tivesse algum interesse por ela. Mas na noite seguinte trouxe o namorado alguns anos mais jovem para assistir ao espetáculo e pedir que a partir dali ele fizesse igual.

Dona Catarina teve um chilique. Viúva há 20 anos, já não fazia sexo há 10 quando o marido morreu. Nem sabia mais o que era um pau. Nos seus 65 anos de vida, se deparar com uma putinha fazendo poses vulgares na janela para o mundo ver era uma afronta. E as crianças? E a moral e os bons costumes? Ah, mas aquilo não iria ficar daquele jeito.

O Tiago largou suas revistas de putarias. Não precisava mais delas. Toda noite ele tinha hora marcada para bater punheta na janela. Quando a vadia chegava, ele já estava de pau duro. Aos 18 anos, Tiago, aliás, vivia ereto. Um fenômeno. De toda a vizinhança, o garoto era quem tinha a melhor visão. Ele morava apenas um andar acima e nem precisava de binóculo nenhum. Houve uma vez – e o pau pareceu que iria explodir quando ele se lembrou disso – Tiago teve certeza que a putinha o tinha visto. Ela olhou para cima, piscou, virou de costas e deu uma reboladinha. Infelizmente o show terminou ali, já que Tiago passou mais tempo limpando a porra que explodiu no vidro do que assistindo a loira se galinhar.

E havia a Cássia. Lésbica assumida, no momento estava solteira. Carente e ansiosa para conhecer um novo amor, sua paixão pela jovem loira foi fulminante. Cássia instalou um banquinho na frente da janela e todas as noites, no escuro, se masturbava observando aquela gata. Assim que tivesse uma chance, investiria naquele corpinho tudo de bom.

Renatinha descobriu que era gostosa quando passou por uma construção e a peonada lhe desferiu diversos elogios a sua bunda. Até então ela se achava simplesmente o “uó”. Ninguém jamais fora capaz de dizer que Renatinha era uma beleza. Foi naquela noite que a garota resolveu se observar. Não quis apagar a luz. Afinal, o vidro era daqueles que não deixava que os vizinhos vissem o interior do apartamento.
Foi isso que o irmão garantiu.

Ao se ver no espelho, vestida, Renata decidiu tirar a roupa. Ficou de calcinha, virou-se de bunda, de lado, só faltou plantar bananeira. Gostou do que viu. Sim, era gostosa. Mas também tímida. Seu sonho era ser funkeira, todas as funkeiras são sexies, bundudas e cheias de namorados. Renatinha queria ser assim, só lhe faltava coragem.

Então começou a treinar. Praticamente nua – as funkeiras não andam com muita roupa mesmo – ela colocou um cd pirata da MC Gatosa e pôs-se a praticar. Aprendeu coreografias, fez carão para as fotos. Um dia seria famosa, seria “a” gostosa do pedaço.

Um dia. Mas, por enquanto, Renatinha era simplesmente uma anônima, sem fama nenhuma.



sábado, 15 de junho de 2013

quinta-feira, 6 de junho de 2013

A FÃ

O nome dele, ou melhor, apelido, era Cacau. Ou Claudiomiro, conforme a certidão de nascimento. O RG apontava 18 anos quando ele estourou no mundo futebolístico. A sequência de gols que empilhou no juvenil do time sem expressão que atuava logo chamou a atenção dos dirigentes. Em pouco tempo já jogava na equipe principal. E, no ano seguinte, seus passes, dribles e jogadas geniais levaram Cacau a ser contratado por um dos maiores times do Rio de Janeiro. Não é preciso dizer que a fama chegou rápido.

Não somente a fama. As meninas afoitas vieram junto. Algumas mais velhas, quase tias, também queriam chegar perto do Cacau, aquele menino que agora ganhava corpo, encheu o corpo de tatuagem, fez um penteado imitado por 10 entre 10 garotos e que simplesmente se achava o tal.

Por onde ele passava, gritos histéricos. Capas de revistas, casinhos amorosos sem compromisso. Era a loucura das meninas adolescentes. Cacau, o gato. Foi por ele que Suelen se apaixonou perdidamente. Suelen, vinda da periferia, corpo bem feito, loira de farmácia, ensandecida de amor (?) pelo Cacau.

Suelen trocou de time de coração para torcer por seu ídolo. Aliás, o futebol quase ficava de lado. Quando a garota se sentava vestida com as cores do clube do Cacau, ela assistia a tudo, menos futebol. Impedimento? Como assim? Seus olhos não desgrudavam da camisa suada dele, das penas compridas e musculosas, do abdômen tanquinho. Era um homem e tanto, e com apenas 19 anos! A parede do quarto da Suelen não tinha mais espaço para tanto pôster do Cacau. Na semana anterior havia rolado no chão com uma garota da escola depois que essa afirmou em alto e bom som que Suelen era muito chinelona para namorar Cacau. Depois do barraco, Suelen voltou para casa orgulhosa de ter quebrado dois dentes da rival e certa de que se ele soubesse da sua valentia, a pediria em casamento na hora. Isso só não acontecera ainda porque Cacau jogava em um time longe da sua cidade, distante muitos quilômetros de onde Suelen vivia. Ela tinha uma certeza, porém. No dia que Cacau pusesse os olhos nela, se apaixonaria no mesmo instante. E a partir daí Suelen viveria um conto de fadas.

Quando o time do Cacau veio jogar na cidade da Suelen, ela simplesmente enlouqueceu. Foi no primeiro tatuador que encontrou e pediu que ele tatuasse “Forever Cacau” no antebraço, grande, em letras pretas. Depois arregimentou algumas amigas também fãs do moço e foram todas para a frente do hotel onde o time estava concentrado, com cartazes, faixas e muita gritaria. Tanto esforço valeu uma entrevista em rede nacional, onde Suelen apareceu se debulhando em lágrimas, mostrando a tatuagem feita em homenagem ao ídolo e declarando que o amava mais que a si mesma. Ao contrário do que pensava, aquilo não foi o bastante para que alguém a pusesse frente a frente com Cacau. A única coisa que restou foi Suelen ir ao jogo e ficar se esgoelando na geral, durante os 90 minutos, pelo nome do astro. O time dele perdeu, mas naquele dia Suelen voltou para casa com mais de 200 fotos na câmera fotográfica, muito emocionada. Havia visto seu futuro marido de perto. E então, a partir desse momento, começou a planejar uma viagem para se encontrar com ele. Ninguém poderia saber. Era segredo. Suelen simplesmente faria uma trouxa de roupas e pegaria um ônibus. Depois que conseguisse conhecê-lo, Cacau nunca mais a deixaria partir. Louco de amor.

Um anúncio mal feito colado em um poste dizia que Madame Anunciação traz seu amor de volta em 3 três dias. Suelen não se fez de rogada ao descobrir aquilo. Com o pouco que lhe sobrou da sua bolsa de estágio, marcou uma hora com Madame Anunciação para que ela apenas lhe confirmasse o que já sabia: Cacau estava prestes a se tornar todo seu.

Madame Anunciação lhe atendeu em um ambiente perfumado, com um lenço na cabeça e com uma bela bola de cristal na frente. Suelen tentava disfarçar o tamanho do seu nervosismo e um pouco de constrangimento. Porém, quando começou a falar, falou até demais. Contou que era apaixonada pelo Cacau desde que ele despontara na carreira e que acompanhava cada passo seu desde então. Descreveu que o seu quarto era tomado de fotos e posters pendurados por todos os cantos e que nem a tinta da parede se via mais. Mostrou a tatuagem e a intenção de fazer outra por dentro do lábio. Revelou que sua vida era a dele e que seu próximo passo era ir até o Rio de Janeiro, invadir a concentração e declarar todo seu amor. Suelen estava lá apenas para confirmar que tudo daria certo.

Olhando para a bola de cristal feita de vidro, atentamente, Madame Anunciação segurou o riso com força. Tentou se concentrar, pensar em como daria a notícia para aquela deslumbrada infantil. Não fazia meia hora todos os sites de notícias veicularam a foto de Cacau com sua nova namorada, uma dançarina peituda e bunduda, loira e bonitona, ambos abraçados, jurando amor eterno. E ali estava aquela moça, sentada a sua frente, sonhando em casar com outro deslumbrado pela fama, possivelmente um ignorante que tivera a sorte de se dar bem no futebol. E que Deus lhe desse juízo o suficiente para que conseguisse aprender algo com a fama, logo ela, tão efêmera e tão cruel.

A vidente – que nunca foi vidente – fechou os olhos procurando as melhores palavras. E quando encarou novamente a mocinha, disparou de uma vez só: você nunca ficará com ele. Não está escrito em lugar nenhum do universo que vocês se encontrarão um dia.

Suelen tomou um susto. Empalideceu, balbuciou, tentou argumentar alguma coisa. Madame Anunciação sabia que não era preciso ser vidente para saber uma verdade daquelas. Com lágrimas nos olhos, Suelen pagou o que devia e saiu atordoada dali. Não era possível, dizia ela para si mesma, pensando no seu dinheiro guardado dentro da caixinha para a viagem que pretendia empreender tão breve. Cacau não será meu, ele não será meu...

Cega pelas lágrimas, Suelen atravessou a avenida sem olhar para os lados. Não deu tempo de o ônibus frear.


sábado, 25 de maio de 2013

VIC, A CACHORRA


O Sanguinários F.C. tinha conquistado o sétimo lugar no Citadino, campeonato entre os times da zona leste da cidade, com sete concorrentes. Nenhum dos atletas conseguiu explicar direito o péssimo rendimento no certame. Mas os torcedores conheciam muito bem o motivo... Festas. Noitadas. Muita cerveja. Zero de futebol.

David Beckam.

O craque do time era o David Beckam, um negro forte de quase 1,90 cm de altura. O apelido tinha relação com sua noiva, a Victória, mais conhecida como Vic. Única, assistia a todos os jogos de salto alto, chapinha e roupas de grife. Sua figura chamava tanto a atenção que muitos torcedores preferiam ficar olhando para a arquibancada a conferir onze pernas de pau destruindo a bola. Não é preciso salientar que as mulheres dos outros jogadores do Sanguinários tinham verdadeiro ódio da Vic.

A situação piorou quando o presidente do clube a escolheu como madrinha da equipe. O Beckam ficou todo orgulhoso e os outros arrumaram problema em casa. Então o Sanguinários Futebol Clube começar a chafurdar na lama das últimas posições. À medida que as bolas não entravam, que o goleiro se engasgava com frangos e o Beckam tinha esquecido o caminho do gol, a Vic foi se desgostando. Uma mulher do seu porte não podia suportar uma coisa daquelas. Imagine, madrinha de um time perdedor, noiva de um boleiro que tinha perdido a intimidade com a bola, colega de arquibancada de uma porção de histéricas invejosas. Não, não e não. E a sua dignidade, onde que ficava? E antes que alguma daquelas mentecaptas a chamasse de pé frio, Vic desapareceu das arquibancadas e da vida do Beckam.

O mundo caiu para David Beckam. Naquela tarde ventosa de outono, quando ele entrou em campo e não enxergou a Vic, sentiu que algo estava estranho. Aliás, já tinha notado que a noiva andava meio esquisita, quieta, arisca. Achou que fosse TPM e nem deu bola. Já bastava o mau rendimento dos Sanguinários para lhe atormentar. A solidão que sentiu foi imensa. Vic não apareceu. Vic, aquela cachorra, tinha saído da sua vida logo quando ele mais precisava de um cafuné. Naquele jogo Beckam não acertou um passe que fosse e saiu antes do primeiro tempo terminar, vaiado até pelos quero-queros.

Dali para frente tudo foi de mal a pior. Quando o motivo não eram as saídas noturnas para explicar o mau rendimento do time, era o Beckam que, sofrendo de amor por sua Vic, não repetia o seu ótimo desempenho da temporada anterior, onde a equipe tinha conquistado o bi-campeonato do Citadino. Alegres mesmo estavam as mulheres dos jogadores, já que a Vic tinha tomado um chá de sumiço e nunca mais havia dado as caras –  os peitos e a bunda - por lá.

Na festa de entrega dos prêmios aos melhores do Citadino, no CTG Gauchão de Ouro, o Sanguinários Futebol Clube estava lá para defender sua honra. Haviam sido convidados e para não ficar feio, resolveram todos irem, os jogadores e suas mulheres. O David Beckam também foi, acompanhado da Carol, cujo conhecimento de futebol não ía além de que o referido esporte é jogado com os pés. O par até que formava um casal bonito, cochichando no ouvido um do outro, dando risadinhas e trocando olhares cheios de promessas.

Então, de repente, cessou o burburinho no Gauchão de Ouro e todos olharam para a porta. David Beckam – que pedia sempre para ser chamado pelo seu verdadeiro nome, Roberval – também fez o mesmo. O fenômeno do Citadino estava chegando. Ele, o artilheiro da competição, o Naldo, garoto talentoso, marrento, cheio de estilo, chegou ao CTG. Em seguida, atrás dele, vinha uma mulher. Morena, microssaia, um decote profundo e sandálias de salto agulha. Beckam soube quem era assim que reparou no tamanho do salto.

Era ela. Vic, a cachorra.

Vic, a cachorra, entrou no CTG de mãos dadas com o Naldo, sentindo-se a rainha. E de fato, era isso que ela era. A Rainha. Todas as mulheres do salão ficaram mudas e boquiabertas, cada uma desejando o fígado da vadia. Beckam sentiu a boca seca. Carol não entendeu porque seu novo namorado de repente ficou tão esquisito. Com os punhos fechados, o traído contou até dez para não se avançar no pescoço da desgraçada e daquele guri imbecil.

Beckam ainda não havia chegado ao cinquenta quando, de repente, Vic passou pela mesa dos Sanguinários, olhou para ele e parou bem no meio do salão. Ela o fuzilou com os olhos e depois abriu a boca para soltar uma sonora gargalhada. O Naldo olhou espantado para Vic e resolveu rir junto, até porque tudo o que a sua namorada fazia era engraçado e inteligente. E logo, com exceção da mesa onde eles estavam todos os presentes também se puseram a rir do David Beckam. A maioria nem sabia o motivo.

Era muita humilhação, pensou ele, lívido. Mudo, tenso e devastado, Beckam levantou e saiu salão afora, atordoado, ouvindo as gargalhadas atrás de si. Desapareceu na noite e nunca mais foi visto por aquelas bandas. O Sanguinários F. C., no ano seguinte, acabou sendo novamente campeão do Citadino, graças ao investimento do Motel Love Hole, que ajudou a adquirir o passe do Naldo para defender as cores do clube. Vic, a cachorra, passou a frequentar as arquibancadas ao lado das outras despeitadas. Mas agora ela não era mais madrinha de time nenhum. Na sua mão esquerda brilhava uma linda aliança, presente do Naldo. Vic, a cachorra, era uma mulher casada. E de respeito.

terça-feira, 21 de maio de 2013

ELE DISSE QUE ME AMAVA...


ELE ERA TÃO BONITO… E EU ME APAIXONEI
ELE DISSE QUE ME AMAVA… E EU ACREDITEI
ELE QUIS MEU CORPO… E EU ENTREGUEI
AÍ ELE ME TRAIU… E EU FIZ QUE PERDOEI
ONTEM À NOITE ELE DORMIU

E EU O CASTREI.

domingo, 19 de maio de 2013

SOZINHA EM CASA





Desliguei a televisão antes da meia noite. Fechei as cortinas, atirei as revistas que inutilmente tentei ler para me distrair em cima da mesa e preparei-me para ir dormir.

Aliás, dormir não era bem o termo certo. Rolar na cama seria mais apropriado. Há alguns dias meu sono impiedosamente havia me abandonado. Quando eventualmente eu conseguia cerrar os olhos, os sonhos mais tenebrosos invadiam minha mente.

Eu tinha perdido meu bebê há dez dias.

Depois uma gravidez muito esperada, na décima segunda semana tudo chegara ao fim e nenhum médico soubera me dizer o motivo. Voltei para casa com minha alma aos pedaços e escondi todas as roupinhas que já tinha comprado dentro de um baú. E nunca mais o abri novamente.

Meu marido não sabia do tamanho da minha dor e eu não pretendia me fazer de vítima para ninguém. Precisava manter minha aura de mulher forte e sofri em público durante dois dias. Depois, me fechei em mim mesma. Só eu poderia viver aquele tipo de sofrimento.

Eu estava sozinha em casa. Uma viagem a negócios de última hora fez com que meu marido pegasse um voo às sete horas da noite. Controlei o ímpeto de pedir para que ele ficasse, porém calei-me. De repente vi-me abandonada em um apartamento grande e subitamente vazio. Liguei a televisão no mais alto volume, acendi todas as luzes da casa. Minha mãe me ligou antes das dez horas da noite e perguntou como eu estava.

Tudo estava ótimo. Omiti que o vento lá fora me perturbava e que precisava tão somente de algumas horas de sono. Desliguei o telefone e assisti a quase duas horas de programas sem graça nenhuma. Troquei de canal a cada vez que aparecia um bebê na tela.

Por fim, cansei de tudo. Lentamente fui apagando todas as luzes do apartamento. Lá fora ainda ventava. A lua cheia iluminava meu quarto quando me escondi debaixo das cobertas pesadas. Senti um pouco de sono. Talvez conseguisse dormir algumas horas seguidas e acordar outra pessoa na manhã seguinte.

Foi aquele chorinho de bebê que me despertou exatamente às três horas da manhã. Até então eu dormia bem, sem sobressaltos e sem sonhos. Vi-me de olhos arregalados olhando para o teto. O luar ainda clareava meu quarto.

Silêncio.

Fiquei atenta para qualquer som diferente. Talvez alguma vizinha tivesse algum bebezinho novo ou fosse até mesmo um filhote de gato. O certo é que tudo estava silencioso. Lá de cima eu não escutava sequer o barulho de uma buzina. Não era nada. Acomodei-me novamente e fechei os olhos.

Aquele som.

Desta vez sentei-me na cama imediatamente. Havia alguém um bebê! – dentro da minha casa. Escutei de novo. Meus cabelos na nuca se arrepiaram todos. O choro parecia ser de alguma criança com poucos dias de vida. Estava próximo demais. Era pouco mais de três horas da madrugada e um bebê chorava na minha sala.

Joguei as cobertas para o lado e saí do meu quarto. Eu precisava atravessar o corredor para chegar até a sala e procurei o interruptor de luz. A princípio não acreditei que eu estava sem luz em casa. A única luminosidade vinha da lua e mesmo assim não resolvia muito. Fiquei tensa e meu coração disparou. Aquele corredor escuro não parecia muito convidativo para atravessar.

E o chorinho continuava.

Respirei fundo. Alguma coisa estava acontecendo naquele apartamento. Alguém estava brincando comigo. Senti medo, mas raiva também. Tateando as paredes caminhei de pés descalços e sem fazer qualquer ruído até a sala. Quando parei na entrada, o som cessou novamente.

Na semi-escuridão eu conseguia enxergar algumas coisas. O sofá, a mesa de jantar, as estantes, o lustre. A sala era grande. Alguém podia estar tentando se esconder atrás dos móveis ou das cortinas. Mas como alguém conseguiu escalar dez andares sem ser visto?

Tentei novamente o interruptor de luz e nada. A cortina se mexeu. Havia uma circulação de vento que entrava pela casa e fazia balançar meus cabelos. Será que era isso que sacudia a cortina também? Lembrei que eu guardava as velas dentro do balcão. Ajoelhei-me, procurando afobadamente por elas dentro do móvel. Quando as encontrei, acendi a maior de todas. Algo passou por trás de mim naquele momento. Dei um pulo e fiquei em pé, sufocando um grito.

Pus a vela a minha frente, tentando me defender de algum ataque. Contudo não havia ninguém. Ninguém que eu estivesse vendo. Ninguém desse mundo, pelo menos. Pois junto à janela havia um vulto. Uma mulher. E ela trazia algo nos braços.

Engoli em seco. Eu mal podia enxergá-la direito. Os cabelos compridos também se balançavam ao sabor do vento. O vestido longo não disfarçava a barriga de gravidez. No colo dela havia uma trouxinha. A mulher parecia estar segurando um boneco.

Engoli em seco. O bebê chorou.

– Quem é você? – perguntei em pânico.

Minha voz, no entanto, mal saiu. Eu sentia minhas pernas bambas, sem forças para dar um passo em direção à porta da frente. Queria pedir por socorro, mas certamente ninguém iria acreditar que eu estava vendo uma mulher na minha sala, grávida e segurando um bebê.

Mas e se fosse meu filho? Aquela mulher estava segurando meu filho nos braços. Sim, havia sido ela que roubara o bebê de mim e agora estava ali, na minha sala, zombando da minha cara.

– Devolva meu bebê.

Nada. Fui tomada de uma imensa raiva. Eu queria meu bebê de volta. A mulher o roubara de mim. Agora eu estava entendendo tudo. Uma alma de outro mundo levara meu filho e isso a medicina jamais conseguiria explicar.

– Eu quero meu bebê agora! – vociferei.

Sem saber como, avancei como uma leoa em direção à mulher, segurando a vela com força. À medida que me aproximava, a raiva também me consumia e era possível enxergar os traços da mulher que trazia meu bebê nos braços. Apenas poucos passos nos separavam agora. A criança começou a chorar mais alto e um forte vento entrou vindo de alguma janela escancarada. Coloquei a vela na mesa e estiquei meus braços para alcançar meu filho.

O grito que eu dei atravessou os mundos. A luz voltou de repente e vi-me frente a frente com uma mulher muito parecida comigo. Ela vestia um longo vestido branco até os pés, sujo de sangue. A dor que trazia nos seus olhos era muito parecida com aquela refletida pelo meu espelho todos os dias. Tentei pegar a criança dela, mas a mulher a segurou fortemente. Eu não podia enxergar o rostinho do bebê, uma fralda o encobria. Fiquei furiosa e atemorizada. Mas o bebê era meu e não iria deixá-lo fugir de mim novamente.

Entramos em luta corporal. Grudei-me nos cabelos dela, ao mesmo tempo em que ela parecia fazer o mesmo comigo. Apesar da luta, nem por um momento a mulher soltou a criança. Eu sentia o hálito fétido dela no meu rosto e um cheiro de queimado também. Meus gritos deveriam estar sendo ouvidos por toda a vizinhança. No prédio ao lado as luzes começaram a ser acesas.

Gritos que já não eram mais os meus se faziam ouvir no corredor do meu prédio, na porta do meu apartamento. Comecei a sentir calor e uma sensação de queimação. Mesmo assim não interrompi a luta. A mulher cravou as unhas podres no meu rosto e eu fiz o mesmo. Alguém meteu o pé na porta no exato momento que ela se voltou para a janela, sorriu diabolicamente e jogou o bebê dez andares para baixo. Fui salva um centésimo de segundo antes de me jogar atrás do meu filho.

*

Acordei-me dois dias depois deitada em uma cama de hospital. Estava com os braços enfaixados devido às queimaduras. Meu couro cabeludo doía. Um vizinho havia me agarrado pelos cabelos evitando que eu saltasse atrás do meu filho.

Meu filho?

Algumas cenas daquela noite pavorosa vieram a minha mente. E tudo começou a ficar claro. Eu surtara. Enxerguei um vulto que era eu mesma. Lutei contra mim na ânsia de trazer o bebê de volta. Nada daquilo havia acontecido. Minha mente produzira imagens. Eu havia enlouquecido por poucos minutos e quase havia me matado.

Meu marido se aproximou, abatido, da minha cama. Parecia que ele não dormia há muito tempo.
– Como você está? – ele perguntou, passando a mão nos meus cabelos.
– Bem – e era verdade. Desde que tinha perdido a criança, era a primeira vez que me sentia perto do meu normal.
– Bem mesmo?
– Claro, não estou mentindo.
– Por que você não contou que estava passando por problemas? – cobrou ele. – Eu não teria viajado aquela noite.
– Desculpe, meu amor... Não pensei que eu estivesse tão mal. Acho… que o estresse foi grande demais.
– O que aconteceu, afinal?

Contei toda a história sem omitir nenhum detalhe. Meu marido suspirou e pegou minhas mãos com força.

– Você quase botou fogo na casa. Em seguida quase se atirou pela janela. Se não fosse pelo vizinho do lado, você teria se jogado de dez andares. Isso não deve ficar assim. Você vai começar um tratamento psiquiátrico assim que sair do hospital.

Concordei imediatamente. Aquele episódio me dava calafrios. Jamais poderia imaginar que minha mente pudesse chegar tão longe. Jurei a mim mesma que pediria ajuda caso algo semelhante acontecesse outra vez.

Passei o resto do dia bem. Alimentei-me normalmente e distrai-me com a visita de amigos. Tentei ignorar a cara de espanto e algumas perguntas mais inconvenientes. No outro dia eu daria alta e já estava planejando uma curta viagem com meu marido. Era tudo o que eu precisava, disposta a iniciar uma nova vida.

A noite chegou e com ela meu sono. Depois de conversar algum tempo com meu marido, preparamo-nos ambos para dormir. Eu me sentia calma e sem dor. Para minha felicidade dormi quase imediatamente. Acordei-me às três horas da manhã com um choro de criança.

Sentei na cama, tal qual a outra noite. Só que desta vez foi pior. O pânico parecia mais real. Meu parceiro dormia ferrado e não escutou meus chamados. Lembrei-me que o quarto poderia estar localizado perto da maternidade e fiquei mais aliviada. Porém, como o choro persistia, resolvi levantar-me para tirar a dúvida.

Abri a porta do quarto. O posto das enfermeiras ficava um pouco afastado. O choro cessou. Definitivamente a maternidade não era naquele andar. No fim do corredor algo se mexeu. Fiquei com os olhos vidrados ao deparar-me com aquele vulto vindo em minha direção.

Ele trajava um manto negro e trazia uma foice na mão.

sábado, 18 de maio de 2013

AVISO AOS NAVEGANTES

Um aviso para você que anda deslumbrado com a vida: 

continue deslumbrado (a). 

Mas não perca o foco.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

RÁPIDO DEMAIS


FOI TÃO RÁPIDO...
      TÃO FRIO...
      TÃO VAZIO...

QUE ATÉ TENTEI SOFRER POR AMOR E NÃO CONSEGUI.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

VEGETO, LOGO NÃO AMO

E aí fiz um acordo comigo mesma. 
NÃO PENSAR.
Não penso, logo não sofro.
Não sofro, logo vegeto.
Vegeto, logo não amo.

Melhor assim.

SALVAÇÃO


Minha salvação é a minha arte, pois isso é o que vale de verdade. Quando todos vocês tiverem partido, minhas palavras ainda estarão comigo. E então... então eu jamais estarei sozinha.

domingo, 5 de maio de 2013

AS ESTRELAS ESTÃO CAINDO




Quando escutei o primeiro estrondo, ao longe, eu estava sentada em frente à TV. Achei que fosse uma trovoada e não me importei. O segundo veio em seguida. Bem mais perto. Talvez fosse alguma tempestade.

Não era.

Corri até a janela de onde eu avistava parte da minha grande cidade. E o que eu vi foi assustador. O grande meteoro – aquele mesmo que todas as redes de televisão noticiaram que iria cruzar os céus do planeta – vinha se aproximando velozmente. Por onde ele passava deixava cair pedras incandescentes. Muitos prédios em diversos pontos da cidade queimavam. O fogo caía do céu.

Seria o fim do mundo?

Outro barulho, agora quase ensurdecedor, e uma pedra enorme caiu três ruas à frente de onde eu morava. Um prédio de aproximadamente 20 andares começou a incendiar em uma velocidade alucinante. Ouvi gritos e choros desesperados. Buzinas. Os cachorros latiam. Fiquei por cerca de 3 segundos, os mais longos da minha vida, agarrada na cortina, acreditando que a qualquer momento eu seria acordada pelo barulho irritante do meu despertador.

A batida de dois ônibus na esquina, seguida de mais gritaria me arrancou do meu torpor. Precisava sair dali, do meu prédio, salvar minha família. Entrei em todos os quartos, sala, cozinha. Onde estariam meus irmãos e meus pais? Não havia ninguém em casa. Eu estava sozinha em um lugar que estava prestes a ser consumido pelas chamas.

Abri a porta do meu apartamento e me lancei escadas abaixo. Seriam oito andares de descida a mil quilômetros por hora, senão fossem minhas pernas que se recusavam a me obedecer. Por mais que eu tentasse correr, eu me movia à marcha lenta. Fiquei desesperada. Esperava encontrar alguns vizinhos passando pelo mesmo terror que eu. Mas somente eu estava lá, tentando descer aquelas escadas a passos de tartaruga. Apoiei-me nas paredes quando uma grande explosão, talvez ao lado de onde eu morava fez tudo balançar.

A luz apagou.

Fiquei no escuro total e entrei em desespero na hora. Tentei gritar por socorro, mas minha voz não saiu. Eu podia escutar gritos e choro vindos de algum lugar. O fim do mundo acontecia lá fora e eu continuava presa dentro do prédio. Para onde quer que eu fosse o caos me esperava.

De alguma forma consegui chegar ao andar térreo. Quando empurrei a porta corta-fogo para sair para o hall do edifício, caí no chão, atordoada. Não apareceu ninguém para me ajudar. Não havia ninguém.

Ainda sem forças para caminhar com a velocidade que eu desejava, saí do prédio e ganhei a rua. No asfalto vários buracos e escutei gritos horrendos de quem havia despencado lá dentro. Rachaduras haviam engolido carros inteiros. Árvores repousavam sobre cadáveres e o céu continuava sendo riscado por luzes brilhantes.
Caminhei alguns passos em direção a lugar nenhum. A visão era atordoante. Construções simplesmente haviam desabado e virado pó. Era difícil caminhar quando os obstáculos eram corpos. O pior de tudo era não saber onde estava minha família. Teriam caídos todos dentro de um buraco sem fundo e agonizavam esperando minha ajuda? Ou também haviam se transformado em partículas de poeira, a mesma que ofuscava o brilho do sol?

Em pânico, sentei no meio fio da calçada ou do que havia restado dela. Sentia sede, desespero, frio. O fim do mundo começara com uma chuva de meteoros. Para meu azar, eu restara viva. Lembrei da profecia, a terrível profecia:

“As estrelas irão cair e dos escombros surgirá o Salvador, a quem caberá iniciar um Novo Mundo.”

Era mais ou menos isso. Havia lido alguma coisa há um tempo, contudo nem me importei na época. Mas agora, enquanto olhava em volta e somente encontrava corpos aos pedaços atirados por todos os lados, pensei na hipótese de que o Salvador pudesse ser eu.

Que honra. Por onde começar? Deus, e agora?

Um clarão vindo do céu me fez olhar para cima. A luminosidade era tamanha que nem mesmo as partículas de poeira foram o suficiente para afastá-las. Eu mesma mal podia fixar a visão. Tentei proteger meus olhos enquanto um disco voador lentamente aterrissava onde um prédio de 30 andares havia virado sucata, há poucos metros de mim. Luzes brilhantes e multicoloridas piscavam ao redor da nave, imensa e prateada. A visão era fascinante. Pensei em levantar e fugir, mas meus pés ficaram colados no chão.

Sem pressa, como nos filmes de ficção, a porta do disco voador foi se abrindo. Fiquei esperando que saíssem criaturas com três olhos e cabeças enormes, braços longos e pernas mais ainda. No entanto, nada aconteceu. Somente o silêncio imperava na minha cidade devastada.

Uma luz prateada com pontos dourados era a única coisa que saía da nave. Levantei-me. Mesmo sem ter forças, fui em direção ao disco, atraída por alguma força magnética. Tentei me segurar em alguma coisa, eu não queria ir para lá. Mas o magnetismo era maior. Minhas pernas se moviam por conta própria. Pela primeira vez eu consegui berrar, porém meus gritos não causaram efeito nenhum. Não havia sobreviventes na Terra. Eu era a Profecia. E a única coisa que eu queria era a minha vida de volta. Aquela mesma que eu reclamava todos os dias, o chefe chato, o colega fofoqueiro, o irmão pentelho.

A luz me puxava com força e eu me debatia. Subitamente me vi muito perto da entrada e mãos fortes me empurraram para o interior da nave. A porta se fechou com um estrondo terrível e eu percebi que o disco começou a se mover para cima, em linha reta.

Cobri minha cabeça com as mãos, com o rosto enterrado no piso frio. Uma campainha intermitente começou a tocar, ferindo meus ouvidos. Senti-me sacudida e virada para cima. Não queria abrir meus olhos. Eu não queria ficar frente a frente com os alienígenas.

De repente me vi encarando o irmão pentelho. O despertador tocava enlouquecido. Na sala, som de vozes. Na rua, lá embaixo, o barulho normal de trânsito. Nada de meteoros, fogo e disco voadores.

Um sonho de dimensões gigantescas.

− Tem algum prédio incendiando lá fora?
− Não.
− E nenhuma nave pousou aqui na frente?
− Até agora não – meu irmão me olhava como se eu tivesse bebido algo alucinógeno.

Suspirei aliviada. Meu sonho poderia render um filme, não é mesmo?