segunda-feira, 6 de abril de 2020

MOCORONGA VÍRUS - Parte 1






1

Primeiro o prefeito mandou fechar as duas entradas da cidade. Depois o delegado ordenou que o contingente de três policiais fizesse uma ronda todos os dias ao anoitecer para quem estivesse na rua fosse devidamente posto dentro de casa. O motivo? O mocoronga vírus, uma peste que provocava uma sucessão de espirros e uma diarreia incontrolável.

Logo o pavor tomou conta da pequena Santa Luzia. As pessoas tinham medo de sair à rua. As missas foram suspensas e o comércio local começou a atender com as grades fechadas, evitando qualquer contato pessoal. Máscaras de proteção e luvas eram a nova moda entre os habitantes apavorados.

O remédio para diarreia esgotou rapidamente das duas farmácias no município. Ninguém queria ser pego desprevenido. Ainda que não houvesse sido registrado nenhum caso na comunidade e arredores, o medo de se cagar em público era maior que qualquer coisa.

Os namorados não se beijavam mais. Ninguém mais compartilhava o chimarrão. Os cumprimentos afáveis e apertos de mão deixaram de acontecer. Tudo era à distância. O pavor tomou conta daquele pequeno lugar. Tinha gente que até medo de peidar sentia. A situação era caótica.

E havia o Vanderlei, o bêbado de estimação da cidade. Ele vivia numa casinha um pouco afastada do centro de Santa Luzia com seus cachorros. Vander era um bêbado quieto e não se sabia se ele estava a par do que estava ocorrendo. O fato é que o homem circulava, despreocupado, pelas ruas da cidade com sua garrafa de cachaça, feliz na sua bebedeira, sempre com um par de cachorro nos seus calcanhares. De fato, Vanderlei era o cara mais sereno de Santa Luzia. Não estava nem aí para nada. Um vírus? Deixa pra lá.

Mas teve uma vez que Vander burlou o toque de recolher da polícia. Foi em uma noite em que ele estava mais bêbado do que nunca. Aos berros, o homem deu uma volta ao redor do chafariz da praça bebendo cachaça. As pessoas chegaram à janela e algumas pediram que ele fosse para casa. Ninguém queria sair para acalmá-lo com medo do vírus e da polícia (o delegado esbravejou que prenderia quem ousasse estar fora de casa depois que o sol baixasse). Vanderlei ignorou a todos. Quando avistou um dos policiais se aproximando juntamente com o delegado, Vanderlei tirou as calças e defecou bem no meio da praça.

 — Eu peguei o mocoronga vírus! – berrou ele. — Estou pesteado!

E ria. Algumas janelas foram batidas violentamente. O policial e o delegado, que vinham em passo firme, pararam subitamente ao assistirem aquela cena. Não tanto pela nojeira, mas pelo medo do infeliz estar infectado. O policial deu um cutucão no delegado e comentou:

— Ele não está doente coisa nenhuma. É só para afrontar mesmo.

Mas o delegado suava em profusão.

— Eu só não mando prender este vagabundo porque ele pode contaminar toda a delegacia. Vou falar com o prefeito para mandar desinfetar a praça.

No outro dia quando os moradores saíram para seus afazeres encontraram a praça cercada por um cordão de isolamento. De Vander, nem sinal.

2

A Maricota saiu cedo de casa, por volta das oito horas da manhã, para ir até o cemitério levar algumas rosas para pôr no túmulo do finado. Não era por um vírus mixuruca que ela iria ficar em casa confinada como algumas amigas estavam fazendo. Ela precisava sair, respirar ar puro (ou não tão puro assim), cumprimentar as pessoas. Bem, as pessoas não estavam saindo muito para a rua. O prefeito recomendara que era para sair só em caso de necessidade. Bem, o finado estava de aniversário e ele merecia flores. E lá foi Maricota agarrada no seu buquê de rosas. Não tinha medo do mocoronga vírus, muito menos de ficar doente. O bicho não tinha nem chegado perto de Santa Luzia ainda! Que gente medrosa!

Enquanto caminhava segurava de si até o cemitério no ponto mais alto da cidade, Maricota pôde perceber os olhares tortos que recebia dos vizinhos recolhidos nas suas casas e que estavam na janela cuidando da vida alheia. Quase fez uma banana pra aquela gentinha. No cemitério não ficou mais que meia hora. Rezou, deu uma chorada, conversou um pouco com o finado e foi embora. Lembrou que precisava comprar pão e passou na padaria do seu Joca. Havia em torno de cinco pessoas que se mantinham afastadas uma das outras esperando do lado de fora para serem atendidas. Seu Joca, de máscara, atendia pela grade, entregando os produtos por ali, dentro de uma sacola pendurada na ponta de uma taquara. Maricota ficou por ali admirando a bela praça (agora já limpa depois da cagança do Vanderlei), os passarinhos, o céu azul. Ninguém conversava. Pareciam ter medo de abrir a boca e acabar engolindo o mocoronga. A primavera era linda, Maricota pensou ao mesmo tempo que sentiu vontade de espirrar. Maldita rinite, praguejou ela antes de ser sacudida por uma sequência de uns dez espirros. Quando voltou ao normal se surpreendeu ao reparar que os vizinhos estavam a metros de distância dela, todos a observando com ares de espanto e terror. Paralisados. Seu Joca a encarava de olhos arregalados. Aliás, com a máscara, a única coisa que aparecia no rosto do homem eram os óculos de aros grossos. Todo ele era pânico. Maricota levou cinco segundos para se dar conta do que acontecera.

— Gente... – ela teve vontade de rir. — É só uma crise de rinite.    
        
Uma mulher apontou um dedo trêmulo e nervoso para ela, dizendo com uma voz cavernosa:

 — Ela está com a coisa!

— Não, não estou, não – Maricota ainda riu sem se dar conta da gravidade. — É rinite, eu tenho surtos sempre que começa a primavera. Gente, nem me caguei ainda!

Só quem riu foi ela. Ninguém mais. Seu Joca fechou a porta do estabelecimento com um estrondo e se refugiou lá dentro. Do lado de fora alguém sacou o celular e ligou para a polícia. Quem então arregalou os olhos foi Maricota. Oi? Polícia? Então iriam prendê-la? Ou levá-la para algum tipo de confinamento?

 Socorro.

Maricota deu meia volta e saiu correndo do jeito que podia. Ela não tinha mais idade para correr, mas de alguma forma conseguiu se afastar da cidade o bastante para escapar das garras da polícia. No meio do caminho, numa estradinha de terra, suada e com as pernas bambas, deu de cara com o Vanderlei.

 — Vander! – berrou ela se aproximando. Lembrou que o finado dava dinheiro para ele sempre que o bebum pedia. — Me ajuda, por favor! A polícia quer me prender!

 — Por quê? – naquele momento ele não estava tão bêbado assim. — Você cagou na praça também?

 — Não! – Maricota se horrorizou com a pergunta de Vanderlei. — Eu só espirrei.

 — Ah, minha filha – retrucou Vanderlei balançando a cabeça de um lado para o outro. — Você já devia saber que lá na cidade não se pode nem cagar e nem espirrar.

 — Pois é, mas a rinite me atacou. E chamaram a polícia.

 — Olha – Vanderlei cruzou os braços e olhou para ela. — O que você pode fazer é se esconder lá em casa.

— Na sua casa? – Maricota torceu a cara. — Mas lá vai ter lugar para mim? Naquele muquifo?

— Quer ou não quer?

Não que tivesse medo de Vanderlei. Ele sempre fora um pobre diabo inofensivo. Só não sabia o que esperar de um local habitado por um bêbado.

 — Tudo bem – ela decidiu arriscar. Não tinha alternativa. Lembrou da sua prima, a Dalva. Ela morava há cinquenta quilômetros de Santa Luzia e sempre haviam sido amigas. Era claro que Dalvinha iria ajudá-la naquele momento crítico. — Eu vou aceitar sua hospitalidade. Mas não será por muito tempo. Vou ligar para minha prima Dalva vir me salvar.

— Só se ela chegar de helicóptero – devolveu Vanderlei. — O prefeito mandou fechar as entradas, esqueceu, minha filha?

3

Ainda com o coração aos saltos, Maricota seguiu Vanderlei pela estradinha de terra, dobrou à direita e seguiu por mais alguns metros. Havia mato por todos os lados e, no fundo do caminho, a casinha do Vanderlei. Era de madeira e bem pintada. Quando chegaram frente à casa, Vanderlei fez uma mesura e apontou para a porta.

 — Pode entrar. A casa é sua.

— Muito obrigada – desconfortável, Maricota empurrou a porta, ressabiada. Se surpreendeu. O local era limpinho e bem arrumado. — Nossa, Vander. Você sabe cuidar bem da sua casinha.

 — Fique à vontade – disse ele entrando e fechando a porta. — Pode sentar. – Ele indicou um sofá velho, feito com uma colcha de retalhos. — Está com fome? Eu tenho comida na geladeira.

 — Você tem geladeira?

— Claro. Onde você acha que eu guardo o trago?

Maricota pegou o celular da bolsa.

— Primeiro preciso falar com a Dalva. Não pretendo passar minha noite aqui.

— Não se preocupe, eu tenho uma cama extra – ele parou frente à Maricota. — Ei, eu posso ajudar você a fugir daqui. Eu tenho um plano.

Maricota desligou o celular e o encarou, interessada.

— Um plano para me salvar das garras do louco do delegado? Me conte, por favor.

— Nós vamos de madrugada até sua casa, você junta suas roupas e pede para sua prima a esperar do lado de fora da cidade, antes das barricadas. Eu ajudo você a carregar suas coisas até lá.

Vanderlei acendeu um cigarro fedido e arrematou:

— Nunca vou me esquecer do seu Geraldo. Ele sempre financiou meu trago.

Maricota bateu palmas subitamente animada com aquela perspectiva.

— Grande plano. Vou ligar para a Dalva.

Ligação feita, Maricota e Vander se sentaram frente a frente para traçar o plano. Ambos chegaram à conclusão que não haveria como dar errado e, para comemorar, Maricota chegou a dividir uma garrafa de cachaça com seu novo amigo. Resultado: os dois dormiram o resto do dia e Vander acordou logo depois da meia noite, assustado.

— Acorda, mulher! Está na hora de irmos até a cidade!

O lugar era escuro e Vanderlei acionou sua lanterna. Com as pernas bambas, tensa, Maricota seguiu-o pelos caminhos escondidos da área rural de Santa Luzia. Antes de chegar à cidade recebeu uma mensagem da prima. Dalva já estava a postos na entrada da cidade aguardando novas instruções.

Era uma hora da manhã quando os dois chegaram ao centro da pequena Santa Luzia. Alguns postes de luz davam a iluminação necessária ao local. Vanderlei puxou Maricota pela manga da blusa e ambos se esgueiraram pelas sombras das ruas e andaram alguns pontos agachados para se confundirem com a escuridão. Estava indo tudo bem até aquele momento. Maricota enviou uma mensagem para Dalva para dizer que em breve se encontraria com ela e, precavida, guardou o celular dentro da calcinha. A casa branca e com um gracioso jardim na frente já era possível de ser avistada por sua dona que, alvoroçada, cutucou Vanderlei:

— Olha, estamos perto. Vou pegar o mínimo necessário e...

— Psh... – ralhou Vanderlei. — Todo silêncio é ouro.

Ele mal havia pronunciado aquelas palavras quando algo como uma teia cobriu o casal. De repente, Maricota se viu envolvida por uma rede e pensou, em um primeiro momento, ser uma brincadeira sem graça de Vanderlei. Porém, quando se virou para ele, se deu conta que o parceiro de fuga estava enredado também. E furioso.

— Mas que merda é esta? – perguntou ele em voz alta.

— Calem a boca vocês dois.

Uma voz vinda da escuridão fez com que Vander e Maricota se voltassem, assustados, para a direita. Um dos policiais segurava uma espingarda apontada diretamente para eles. Maricota ficou mais apavorada. Nunca, na vida, estivera na mira de uma arma. Vander, contudo, logo se recuperou do susto. Com as mãos na cintura olhou o policial e bradou, furioso:

— Pode explicar o que é isto aqui? Estamos sendo presos?

A voz aguda de Vander varou a noite de Santa Luzia. No entanto, nenhum vizinho abriu a janela para conferir que barraco era aquele. O policial sacudiu a arma frente aos dois em uma distância segura. Com a voz ainda em tom baixo, o homem ordenou:

— Sim, por estarem contaminados pelo mocoronga. Andem! Andem!

Maricota e Vanderlei não tiveram outra alternativa a não ser seguirem pelo caminho indicado pelo policial. Sempre na mira da espingarda, Maricota com as pernas trêmulas e Vanderlei, resmungando sozinho, caminharam pelas ruas escuras de Santa Luzia e foram parar atrás da delegacia. Nos fundos do terreno havia um pequeno galpão. O policial destrancou uma porta e disse:

— É aqui que vocês vão ficar até se livrarem da peste.

— Para começo de história, eu não estou com a peste – informou Maricota. — Estou com rinite.

— E naquele dia eu estava com dor de barriga – arrematou Vander com o dedo em riste – depois que o delegado me deu um cachorro quente estragado para eu comer.

— Calem-se! – ainda distante o policial fez um sinal com a espingarda. — Entrem aí.

Maricota na frente e Vander logo após, entraram na cela úmida e escura. O policial veio por trás, arrancou a rede e fechou o galpão. Em seguida se afastou apressado como se a peste pudesse envolvê-lo com um abraço. Maricota, furiosa, bateu o pé no chão diversas vezes.

 O que este delegado tem na cabeça? Como ele pode manter duas pessoas em cárcere privado sem ter feito nenhum exame para saber se estamos com a peste?

— Você está com o celular ainda?

— Sim.

— Então avise sua prima. Conte o que houve e descubra se ela pode dar um jeito de nos tirar desta enrascada.

Maricota pegou o celular de dentro da calcinha e telefonou na mesma hora para Dalva:

— Dalva! Você não vai adivinhar o que aconteceu...

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

ERA UMA VEZ... HELENA




         Recebi aquela ligação tarde da noite. Eu ainda estava acordada, me enrolando para ir para a cama. Então meu celular tocou. Pensei seriamente em não atender até que vi no visor que era a Fabi, minha melhor amiga. Para ela me ligar naquele horário alguma coisa estranha, no mínimo, grave, tinha acontecido.
         — Oi, Fabi. Que susto você ligar agora.
         Ela parecia excitada do outro lado da linha.
         — Tenho uma bomba para te contar. É melhor que você sente em algum lugar.
         Opa. Fiz o que ela sugeriu. Sentei na cama e esperei a novidade.
         — Está certo, pode contar agora.
         — A Helena morreu.
         Foi um soco no meu peito. Helena, aquela desgraçada.
         — Morreu? De que jeito? – eu não sabia bem como processar aquela informação.
         — Teve um enfarte fulminante.
         Dava para perceber que a Fabi estava realmente enlouquecida com aquela notícia. Nós duas odiávamos a Helena.
         — Nossa! Mas ela só tem... tinha 35 anos!
         — Pra você ver – o tom de voz de Fabi assumiu um tom de triunfo. — Aqui se faz, aqui se paga.
         Conversamos mais algumas coisas, eu totalmente em choque. Depois, quando desliguei o telefone, deitei lentamente na cama. Pasma.
         Helena. Eu namorava o Rodrigo fazia dois anos e já tínhamos planos de casamento, casa própria e filhos. Tudo parecia se conduzir para uma vida feliz e estável. Então a Helena cruzou nosso caminho. Era amiga de um primo do meu amor e o infeliz apresentou-a para mim e Rodrigo numa churrascada. Na hora eu vi que iria dar problema. Os olhos do Rodrigo brilharam e eu senti o perigo. Durante toda aquela maldita churrascada flagrei os dois flertando. Fiz que não vi. Disse para mim mesma que não iria dar em nada. Era coisa de momento.
         Dois meses depois o Rodrigo disse para mim que não me amava mais. Em seis meses estava casado com a Helena vivendo a vida que eu queria. Surtei, mas nunca deixei que ele soubesse o quanto eu estava sofrendo. Em pouco tempo ela engravidou. Ganhou bebê e em menos de dois anos eles tiveram outro filho. Era demais para mim. Sei que devia ter me afastado daqueles dois, mas eu passava o tempo todo me torturando, espionando as suas redes sociais. Pareciam tão felizes. Morria de inveja.
         Aí a Helena tem um piripaque e morre. Mas não era ela que levava uma vida de atleta, mostrando seu físico malhado na internet? E aquela vidinha saudável? Pelo visto era tudo mentira. Talvez eles fossem uma mentira mesmo.
         Bem, o que eu poderia fazer? Ir no velório e demonstrar meus sentimentos (falsos) para o Rodrigo? Ou dar um tempo e partir para cima dele e tentar uma reaproximação? Ah, eu podia muito bem pegar a família perfeita da Helena pra mim. Adoraria fazer isto. E talvez não fosse tão difícil. Rodrigo vai precisar de muito apoio para criar os filhos pequenos.
         Eu sorri sozinha no meu quarto enquanto planos mirabolantes passavam pela minha mente.
         Minha vez tinha chegado.
         Tchauzinho, Helena.



sexta-feira, 15 de novembro de 2019

POR VOCÊ






Não que me importasse.

Bem, falando a verdade, eu me importo muito, sim.

Faço de conta que não.

Mulheres empoderadas não amam. Quer dizer, em primeiro lugar amamos a nós mesmas e isto é fundamental.

Então fiz de conta que não tava nem aí.

Tudo bem ele não flertar comigo todas as vezes que cruzava por mim.

Tudo bem ele fugir de mim. Não ligo.

(Deus sabe que meu coração grita)

Nunca aceitei migalhas, nunca aceitei nada menos do que eu sempre mereci.

Mas desta vez...

Expectativas foram criadas.

Ainda que fossem expectativas rasas, elas estão ali me encarando e perguntando:

“Você não vem?”

Eu tentei ir até me dar conta que no final das contas eu iria sozinha. Assim não tem muita graça, né?

Ah, mas eu sou empoderada, sigo em frente numa boa.

Sigo mesmo e ainda bato no peito. Mas... seguir numa boa? Não.

Às vezes acho que meu coraçãozinho não é tão moderninho assim.

Ele bate mais rápido às vezes.

Por você.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

LOVE NA ACADEMIA






Fofo. Essa foi a primeira impressão que tive do Lucas quando pus meus olhos nele pela primeira vez. Meu colega de academia, sarado na medida, risonho e carismático. Se dava bem com todo mundo. Estava sempre numa rodinha de gente batendo papo e dando risada. Aliás, eu adorava o jeito de rir dele. Era como música. Cheguei a sonhar com Lucas rindo no meu ouvido uma vez. E vocês já devem saber como eu acordei...

Só tinha um detalhe.

Ele não me dava a mínima. Nunca olhou na minha direção. Resumindo, nem devia saber que eu existia.

Mas a coisa, da minha parte, é claro, foi aumentando. Tesão, paixão, sei lá o que eu sentia por ele. Só sei que eu ia para a academia não para fazer exercícios, mas para ficar de olho nele. Se alguém mais havia percebido meu surto de loucura por Lucas, não sei. E tampouco me importava.

Eu nunca fui a mais bonita, porém sempre consegui ficar com quase todos os caras que estive afim. Lucas era o próximo da minha lista e eu já estava tão surtada por ele que imaginava como seriam os móveis da nossa casa, qual bairro iríamos morar, nome dos filhos e colégio em que estudariam. Lógico que nunca contei esta loucura toda nem para minha psicóloga. Era viagem demais. Mas eu não conseguia deixar de pensar nele nem por um minuto. E se eu não fizesse alguma coisa para chamar a sua atenção, iria implodir de tesão.

Uma noite cheguei na academia inspirada e confiante. Eu havia comprado uma calça legging colorida e que ficava bem coladinha no meu corpo. Para cima ousei colocar somente um top pink que tinha o objetivo de me fazer ser vista de longe. Eu não sou uma mulher de se jogar fora. Eu tenho o meu valor, meu corpo é legal. Por que inferno o Lucas não olhava para mim?

Abusei um pouco do perfume e fui para a esteira. Lucas estava quase ao meu lado, correndo, suado e lindo, duas esteiras depois da minha. Eu não sei correr sobre uma esteira, mas achei que teríamos assunto se fizéssemos o mesmo tipo de exercício. E lá fui eu. Aumentei a velocidade do equipamento e das minhas passadas. Fui tomada por um espírito competitivo que agora eu considero besta. A Pâmela, uma das gostosonas da academia (odeio ela), se posicionou ao lado do Lucas e ambos começaram a correr de conversinha e risada. Me irritei, fiquei furiosa. Resolvi que deveria correr mais veloz que a Pâmela para mostrar ao Lucas que eu era a melhor. Foi o que fiz. Pirei sobre uma esteira.

E caí.

De repente, me perdi nos passos, tropecei nos meus próprios pés e deslizei pela esteira até chegar no chão. Fiquei meio atordoada pois, de repente, me vi deitada no piso frio com um círculo de pessoas me olhando. Eu deveria fingir algum desmaio para me sair bem daquele mico? Um dos professores se ajoelhou ao meu lado e bateu de leve nas minhas bochechas.

— Verônica! Ei, Verônica? Você está bem? Fala comigo!

Na verdade, a única coisa que doía em mim era minha dignidade. Lucas era um dos que me observava, cara de assustado, o que muito me comoveu. Fiz um sinal de positivo. A única coisa que eu queria era desaparecer daquela academia. Consegui me sentar e aí sim, senti uma dor aguda na lombar. A única coisa que eu queria era ser abduzida.

— Você está bem? – o professor perguntou de novo. Ele estava mais apavorado que eu.
— Sim, estou – levei a mão às costas. Era provável que eu ficasse com algum hematoma. Pouco me importava com isso naquele momento.
— Eu levo você para casa – ofereceu-se ele colocando o braço sobre meus ombros.

Nunca vi um professor tão solícito. Lucas voltou para a esteira acompanhado da Pâmela. Ou seja, estava pouco se importando comigo. Voltei para casa acompanhada e lutando contra minha frustração.

Cretino.

Cachorro.

O braço protetor do professor sobre meus ombros era, de certa forma, bem agradável. Me percebi curtindo aquele braço musculoso sobre mim. E, sei lá... quando cheguei em casa eu já estava apaixonada por ele.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

A FÃ






Me chamavam de louca. Mas todo fã é meio doido mesmo. Eu já era apaixonada pela Brenda, pelo jeito dela, a voz rouca, a maneira de vestir e se mover. Quando eu a via no palco, nossa, eu pirava. Dançava junto no meio da sala, no pátio, qualquer lugar e sem vergonha nenhuma. Aquela voz maravilhosa era meu sonho de consumo. Só que de tanto forçar a voz rouca da Brenda, eu fiquei com dor de garganta e tive que desistir. 

E o corpo? Morria de inveja daquelas curvas, da bunda, da barriga sequinha. Foi por causa da Brenda que entrei para uma academia e comecei a fazer musculação pesada. Como sempre fui gordinha, resolvi fazer uma dieta por conta minha mesmo para ficar mais parecida com a Brenda. Resumindo: passei a viver em função da vida dela. Meu sonho era ir a um show seu, mas como moro numa cidade do interior onde nada acontece, é lógico que a Brenda nunca vai vir pra cá.

Minha tia é costureira e aí tive mais uma das minhas ideias mirabolantes. Pedi que ela fizesse para mim roupas parecidas com as que a Brenda usava. Titia não curtiu muito a ideia. Brenda era pura ousadia. No fim, ela cedeu aos meus pedidos e, com muito orgulho, eu desfilava por aí bem parecida com minha diva. Ah, alisei o cabelo também. Minhas selfies e poses eram iguais as dela.

Mas não pensem que eu era apaixonada pela Brenda. Não é isso. A Brenda é tudo para mim, porém não tem nada a ver com sexo. Tudo que eu queria era ser amiga da Brenda, daquele tipo que troca confidências e uma sabe tudo da outra. Duvido que neste mundinho louco das celebridades Brenda tivesse alguém tão próximo. Duvido mesmo.

Então um dia abri o Instagram logo de manhã cedo. Aliás, era a primeira coisa que eu fazia assim que acordava. A Brenda tinha o hábito de fazer postagens na madrugada e assim sempre tinha novidades para os fãs assim que eu abria os olhos. Havia uma postagem dela feita lá pelas três horas da manhã e que me deixou chocada: a foto dela com outra garota (linda, por sinal) em cima da cama king size, ambas entrelaçadas no maior love. Já havia milhares de curtidas e comentários. Todo mundo dando parabéns, elogiando a beleza da duas, acho que alcançou recorde de views. Gente do céu, eu caí para trás literalmente. Como assim? Como assim? A Brenda, aquela por quem eu faria tudo, qualquer coisa mesmo, tinha arranjado uma amiga... íntima? E que não era eu?

Meu mundo caiu. A Brenda tinha uma namorada. Mas eu não queria ser namorada da Brenda, queria ser uma amiga, amiga quase irmã, alguém tão próximo que pelo olhar se adivinharia tudo o que passava no coração da outra. Contudo, a Brenda escolhera outra pessoa, uma tal de Jéssica. Eu chorei. Quer dizer então que eu nunca seria amiga íntima dela? Nunca teria espaço na vida da Brenda? Que cruel.

Durante aquele dia eu não me concentrei em mais nada. Não desgrudei o olho do celular. Não consegui me focar em outras coisas. A Brenda caprichou nas postagens com a namorada. Só naquele dia foram cinco, todas sensuais, cada uma mais linda. Meus sentimentos eram muitos. Inveja, ciúme, raiva. Perdi a fome e tive dor de barriga. Meu sonho de ser alguém próximo a Brenda morreu naquele dia.

Minha confusão emocional não levou dois dias. Comecei a olhar para a Jéssica de uma maneira diferente. Ora, para a Brenda tê-la escolhido era porque a garota devia ser muito especial, querida, doce, além de muito linda. Me encantei com ela também. Comecei a segui-la no Instagram e postei várias coisas elogiando as duas, shippando mesmo as meninas. Fui ao céu e voltei dez vezes quando a Jéssica curtiu um comentário meu. Minha vida adquiriu novo sentindo. Brenda e Jéssica passaram a ser minhas duas melhores amigas. Não importa a distância. Elas são tudo para mim.

Eu quero ser como elas.


quarta-feira, 17 de julho de 2019

A BRUXA (conteúdo erótico)








A mãe de Eyleen terminou de preparar uma cesta grande com várias frutas, pães e um pote de mel. Obediente, a garota aguardava ao lado da mesa a mãe colocar um pano por cima dos quitutes. Finalmente chegara a hora que ela mais esperava. O grande dia da visita à avó. Linette vivia no interior do bosque, cercada por seus gatos e cachorros e nem sempre elas podiam se ver. Mas o dia amanhecera esplendoroso e Eyleen se sentia muito bem e disposta.

— Pronto, minha filha. Aqui está o presente para sua avó. Se você seguir pelo caminho certo, não demora uma hora para chegar até lá. Mas não se desvie. Quero que você esteja aqui antes do pôr-do-sol.
— Está bem, mãe.

Eyleen pegou a cesta de vime e encaixou no braço. Estava acostumada a fazer aquelas caminhadas pelo bosque verdejante do vilarejo. Não havia perigo. Os animais se escondiam no interior da floresta e era só seguir a trilha. Mesmo quando um dia Eyleen se atrasou para voltar da casa de vó Linette, foi só seguir a trilha iluminada pela lua cheia para chegar em casa segura. Mas não podia se arriscar. No dia que chegou atrasada Eyleen foi dormir com o traseiro quente das palmadas que levou da mãe.

O sol ardente anunciava a chegada do verão e Eyleen se sentia bem no seu vestido cor-de-rosa. Assim que se viu em uma distância considerável de casa, a garota colocou o vestido acima dos joelhos e expôs as coxas brancas. Ah, era tão bom andar assim. Não haviam olhos para admirar seu corpo bem feito e Eyleen suspirou. Era uma garota bonita, cobiçada até pelos amigos do pai. Quando ia ao centro do vilarejo com a mãe percebia os olhares dos homens sobre si. No dia que o primo a agarrou e a levou para o celeiro foi memorável. Ninguém soube e depois foi só colocar fora o feno manchado com seu sangue de virgem. A partir dali algo se acendeu em Eyleen. Ela sempre queria mais e mais e mais. Porém, com os olhos vigilantes da mãe, não era fácil conseguir um homem para se divertir.

De propósito Eyleen desviou o caminho. Era cedo, tinha caminhado rápido e não faria mal se parasse no lago para tomar um pouco de água e molhar os pés. A mãe não precisava saber, seria rápido. Saltitando pelo caminho e arrancando algumas das flores coloridas para enfeitar a cesta, Eyleen logo chegou ao lago de águas azuis, cantarolando. Porém, se calou quando se deu conta que não estava sozinha. Do outro lado, pescando calmamente, estava Kelvin.

Eyleen deixou a cesta cair no chão. Ah, Kelvin... o garoto dos seus sonhos. Tímido, belo e de cabelos louros, poderia fazer um bom par com Eylenn caso ele já não estivesse namorando Brenda. Eyleen a odiava, principalmente quando ela desfilava pelo vilarejo se exibindo ao lado do namorado.

Kelvin levantou os olhos e se deparou com Eyleen lhe acenando. Um pouco perturbado, o rapaz abanou de volta. Sabia da fama de Eyleen. Os rapazes comentavam que seu comportamento não era dos mais recomendáveis. Mesmo assim era difícil tirar os olhos dela. Era linda demais, mais que Brenda e seus cabelos cacheados e escuros.

Não foi surpresa para ele quando Eyleen pegou a cesta de volta e rumou em direção a ele, dando a volta no lago. Não queria conversar com a jovem. Eyleen parecia ser uma chaleira de água fervente, pronta para explodir. Mas para Eyleen a chance se apresentou de uma forma inesperada e não podia perder a oportunidade.

— Boa tarde, Kelvin – cumprimentou ela sentando ao lado dele sem cerimônia. — Pescou bastante coisa já?

Ele respirou fundo. Apontou para um recipiente que estava ao seu lado.

— Alguns peixes.
— Ah, que bom. O jantar será uma delícia hoje.
— Acho que sim – respondeu ele, lacônico e perturbado com a presença exuberante da moça.

Eyleen tirou as sandálias e mergulhou os pés alvos dentro do lago dando chutes para cima e espirrando água. Ela riu, contente.

— Você vai espantar os peixes – advertiu Kelvin.
— Puxa, desculpe – Eyleen recolheu os pés. — Mas você já poderia parar de pescar e conversar comigo. Pelo que eu vejo, já tem bastantes peixes aí.
— Minha namorada irá jantar lá em casa hoje. Minha mãe convidou.
— Humm... – fez ela não muito contente com aquela informação. — Você gosta dela?
— Como?
— Você ama sua namorada?

Kelvin piscou. Achava Eyleen tão linda, uma lástima que ela fosse uma rameira.

— Amo.
— Duvido. É que você não me conhece.

A mão de Eyleen pousou na perna de Kelvin. Ele meio que se encolheu, surpreso.

— Eyleen, por favor.
— Não seja bobo. Ninguém vai saber. A não ser que você conte.

Eyleen subiu a mão quente e pegou o pau de Kelvin que, àquela altura, já começava a endurecer.

— Muito bom – ela murmurou quando sentiu o que queria.

Ele se remexeu, desconfortável. Tentou, sem muita convicção, afastar a mão dela.

— Sou comprometido.
— Não há problema – assegurou ela encarando fixamente Kelvin.

Ele baixou os olhos, tímido. Eyleen sabia que estava no controle. Sussurrou:

— Eu faço por nós dois.

Eyleen abocanhou o pau de Kelvin e o rapaz deu um suspiro profundo.

— Fique quieto – ela pediu. — Você é todinho meu.

Kelvin se jogou para trás largando a vara de pescar para o lado. Eyleen era uma bruxa, só podia. Ele escutara os rapazes do vilarejo falando sobre ela e do que era capaz de fazer. Ficara curioso, mas Kelvin era comprometido. No vilarejo Eyleen não desgrudava os olhos dele. Era difícil resistir, dizia Kelvin para si mesmo enquanto sentia o pau abocanhado por ela.

De repente ele não suportou mais ficar tão quieto, tão sem ação. Kelvin se sentou bruscamente fazendo com que a moça perdesse o equilíbrio e tivesse que se apoiar com os cotovelos na relva.

— Ei, o que foi?

Foi a vez dela se encolher. Kelvin a fitava com olhos de louco e Eyleen sentiu o perigo lhe rondar.

— O que há, Kelvin?

Eyleen tremeu no final da frase o que deu a Kelvin um prazer antecipado. Um tapa vibrou no rosto dela.

— Ai!!!

O garoto se jogou sobre ela forçando com as pernas que ela abrisse as dela. A princípio Eyleen tentou relaxar, mas a brutalidade do então tranquilo Kelvin começou a lhe assustar.

— Kel...
— Cale a boca e abra as pernas, sua bruxa.

Eyleen não queria mais. Aquilo deixara de ser uma brincadeira de sedução. Suas pernas foram abertas bruscamente e ela sentiu o pau dele entrar direto na sua buceta. O grito de dor que Eyleen deu foi alto, mas eles estavam sozinhos. Ninguém viria para lhe salvar.

— Bruxa – ele berrou no ouvido dela. — Agora você vai aprender a não provocar mais os homens do vilarejo.

Ela não tinha o que fazer. Sentia Kelvin entrar cada vez mais fundo no seu corpo e para não sofrer mais, Eyleen acompanhou o ritmo que ele impunha. Os seios eram alvos de mordidas e as manchas que certamente ficariam no pescoço teriam que ser bem disfarçadas com lenços. Eyleen parou de se debater e deixou Kelvin agir. Lembrou da doce avó Linette a esperando com seus quitutes. Mas aquilo não iria ficar assim. Se conseguisse pegar Kelvin desprotegido...

Quando Kelvin achou que a batalha estava ganha e Eyleen havia desistido de reagir, levou um potencial chute no meio das pernas. O rapaz urrou, ficou zonzo, viu estrelas. Ele se levantou, ficou em pé, cambaleante. Eyleen levantou também, nua e descomposta. Do meio das suas pernas escorria sangue. Hematomas se formavam no corpo. Kelvin rugiu, furioso, dobrado em si mesmo.

— Vagabunda. Vagabunda.

Ele fez menção de se jogar sobre a garota, mas Eyleen foi mais esperta. Era sempre a mais esperta, disse para si mesma quando Kelvin foi lançado para dentro do lago profundo. Primeiro ele afundou e a jovem foi para a beira para aguardar o que estava para ocorrer. Em seguida ele voltou à tona, já sem ar, com dor e pedindo socorro.

— Me tira daqui! Eu vou morrer!

Lentamente, Eyleen começou a se vestir ao mesmo tempo em que assistia seu algoz se debater dentro do lago. A pequena correnteza formou um redemoinho e não demorou muito para ele submergir totalmente, em agonia, praguejando contra Eyleen.

Já vestida e com a cesta na mão, Eyleen suspirou. O corpo estava dolorido e ela teve que limpar o sangue que escorria com a água do lago. Kelvin não voltou à superfície. Eyleen foi para a casa da vó Linette.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

MEU BEBÊ





Era uma criança linda com grandes olhos azuis expressivos. Os cabelos louros e cacheados desciam em cascata pelas costas. Por onde quer que passasse, Ravenna provocava murmúrios de admiração. Era o orgulho dos pais e quando a mãe, Susan, engravidou do seu segundo bebê, desejou que o próximo filho fosse tão angelical quanto sua primogênita.

Mas quando Rebecca nasceu, algo mudou no comportamento de Ravenna. Em seus quatro anos de vida, sempre fora o centro das atenções onde quer que estivesse. Contudo, ao ver aquele bebê rechonchudo, de pele alva e sorridente no bercinho cor-de-rosa, algo se acendeu dentro dela.

No início Susan não deu muita importância. Ravenna sentia ciúmes, o que era normal. Um dia Susan descobriu um hematoma na bochecha da pequena. Achou estranho, mas não teve tempo de ir atrás do que havia acontecido. Neste mesmo dia Ravenna sentiu dor de barriga e chorou tanto até deixar a mãe desnorteada. Rebecca também estava inquieta e Susan passou por momentos de verdadeiro inferno, sozinha cuidando das meninas.

Foi a mãe de Susan que percebeu que algo estava errado quando flagrou a neta mais velha dentro do berço com Rebecca. Pouco depois o bebê apareceu com uma mordida no bracinho gordo, sangue que chegou a manchar o lençol. Susan tentou contemporizar. Era coisa de criança, de irmãs. Susan passou um pito em Ravenna e depois se arrependeu. Os olhos da pequena se encheram de lágrimas e escorreram pelo rosto inocente. O coração de Susan ficou pesaroso. Era evidente que a filha não tinha noção de nada. Era só uma crise de ciúmes com data certa para passar.

Uma enxaqueca forte acometeu Susan em uma tarde. Por causa da chuva torrencial, ela achou por bem não mandar Ravenna para a escolinha e decidiu que ficaria o dia inteiro com as filhas. Contudo, depois do almoço a forte dor na cabeça fez com que Susan começasse a ver estrelinhas na frente dos olhos. Incomodada, ajeitou-se na cama de casal com as duas pequenas, ambas quietas e sonolentas. Não demorou muito para que Susan caísse em um sono profundo.

Despertou por volta das 16 horas. Esticou o braço para o lado e tocar nas filhas. Nenhuma delas estava ali. Susan sentou na cama, rápido, assustada, e já se culpando. Não devia ter dormido tanto. Tinha que ter sido mais cuidadosa. Ravenna deveria ter pego a pequena e levado para outro lugar. Às vezes tinha a impressão que a mais velha achava que Rebecca fosse somente uma boneca grande.

— Ravenna! Onde está você?

Susan estava pronta para dar um pulo da cama quando a porta do quarto se abriu lentamente. Por alguns instantes Susan ficou paralisada, algo tensa. Então Ravenna entrou no quarto com os olhos azuis faiscando de satisfação.

Nas suas mãozinhas uma faca afiada com a lâmina ensanguentada brilhava.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

TUDO QUE É DELE É MEU






Era um amor meio doido, sem muita normalidade. Gabriela era ciumenta ao extremo e entrava em surto quando o Mauro olhava para o lado. Gabi sabia que podia matar se alguma ordinária arrastasse asa para ele. Ah, mas Mauro não dava bola. Para raiva dela, Mauro até achava engraçado aquelas crises de ciúme, como se tudo não passasse de um chilique da Gabi, sem importância. Por isto ele não fez se esforçou em manter o casinho com a Cris em segredo. A tal da Cris também não se importava nem um pouco com a aliança no dedo da mão esquerda dele. Ela só queria se divertir.

Não demorou muito para a Gabi se dar conta que algo ia errado. Ele chegava tarde em casa alegando reuniões infindáveis no trabalho. De uma hora para outra churrascadas com a turma começaram a pipocar. A fatura do cartão mencionava lugares estranhos, codificados. Gabriela começou a enlouquecer.

Uma noite Gabi decidiu agir. Já era para ter feito alguma coisa, colocar um freio, mas esperou que Mauro entrasse nos eixos, o que não aconteceu. Então ela o seguiu. Mauro havia contado que ia para um churrasco com os parceiros, só homens. Muita cerveja e futebol, Gabi não iria gostar. Tudo bem, ela disse. Vá e divirta-se.

Gabi pegou o carro e seguiu o dele. Mauro foi direto para o clube onde os amigos jogavam bola semanalmente. Ela respirou aliviada. Não era mentira. Seu amorzinho realmente iria somente jogar futebol e desopilar. Porém, ela decidiu entrar, escondida, e conferir só para ter certeza.

Lá dentro a alegria rolava solta. Cerveja, churrasco. Mulheres. Atrás de um pilar Gabi percebeu quando Mauro deu uns beijos numa morena peituda, com muito mais bunda que um dia Gabriela poderia ter. Os outros rapazes também estavam com suas namoradas – ou amantes, vai saber. O ódio cegou Gabi. Uma onda vermelha cobriu seus olhos.
De dentro da bolsa ela pegou sua faca mais afiada, aquela que usava para cortar carne. Gabi avançou, decidida e louca, até onde Mauro estava calçando as chuteiras e ajeitando o calção. A Cris – Gabi já a conhecia de outros carnavais – estava de costas acariciando o cabelo dele.

Vaca. Afaste a mão dele. O cabelo, as pernas, o pau. Tudo que é do Mauro é meu.

Os pensamentos de Gabi passavam velozes por sua mente. Tão velozes que ela não conseguia raciocinar. Ninguém a viu. O punhal perfurou as costas de Cris que soltou um grito agudo e doloroso. Mauro só se deu conta quando a amante caiu para a frente estrebuchando sangue. Quando olhou para cima, Gabi o encarava com seus olhos frios. 

Serei o próximo. Que os anjos me salvem desta louca.

A faca jazia no corpo da Cris. Gabi pegou a mão gelada do marido.

Vamos para casa. Seu jantar está pronto.