sexta-feira, 27 de abril de 2018

MEU AMOR MISTERIOSO - A GRANDE SURPRESA




Era sábado e dia de missa. O sol voltara e por volta das três horas da tarde Dona Iara e vô Ricardo começaram a se aprontar para irem até a igreja.
— Não quer vir conosco, Clarinha? – perguntou a avó prendendo os brincos frente ao espelho.
— Não, vó. Não gosto muito de missas.
— Tem certeza? Nossa igreja está tão bonita...
— Trouxe um livro de casa. Vou ficar lendo, se você não se importar.
— Claro que não me importo.
Não demorou muito o casal partiu. Clarissa ficou na janela até vê-los dobrar a esquina, mal segurando sua ansiedade. Assim que os perdeu de vista, correu até o quintal, pegou a bicicleta, a chave de casa e abriu a porta. Quando montou a bicicleta teve que respirar fundo para se acalmar. Era tão tímida que o coração parecia explodir no peito. Mas não podia deixar aquela chance passar. Se conseguisse ver Dani faria das tripas coração para tentar falar com ele. Somente esperava que o rapaz estivesse sozinho.
O caminho para o bairro isolado não foi difícil de encontrar, embora tivesse errado o trajeto atrasando sua chegada. Porém, assim que se viu na rua ladeada de árvores sentiu um misto de alívio e pressão no peito. Agora não havia mais retorno. E nem se perdoaria caso o medo fosse maior e a empurrasse de volta para casa. Pedalando o mais rápido que podia, Clarissa conduziu a bicicleta até a hospedaria. Tal qual o dia anterior, o caminho de pedras estava vazio atrás dos portões escancarados.
Por alguns instantes Clarissa ficou parada olhando para o lugar. Tudo parecia tão deserto. Será que havia realmente uma casa lá em cima? As árvores não a deixavam ver nada. Bem, não podia ficar parada ali para sempre. As horas voavam e a avó ficaria preocupada se chegasse em casa e não encontrasse a neta.
A subida íngreme Clarissa fez à pé conduzindo a bicicleta ao seu lado. À medida que avançava, ela pôde visualizar uma construção de dois andares, de tijolos, surgindo entre as árvores. Era espetacular. A casa era sólida e tinha um lindo jardim na frente que era possível ser visto ainda na subida. Um pouco antes de chegar lá em cima escutou vozes.
Clarissa parou de repente quase no topo. O coração acelerou outra vez. Não estava sozinha. Havia pessoas hospedadas por lá. Mais lentamente Clarissa terminou de subir, ansiosa pelo que encontraria. O som de vozes aumentou. Parecia ser de crianças.
Duas lindas menininhas louras brincavam no jardim. Os balanços voavam altos e os cabelos de ambas se misturavam ao vento. A visão era tão bonita que Clarissa se deixou ficar parada, admirando-as. Elas riam e gritavam e não havia ninguém por perto cuidando delas. Se havia crianças era sinal que também em algum lugar deveria haver adultos. Os raios de sol passavam entre as árvores iluminando o jardim. Uma brisa sacudiu o ar e fez cair uma chuva de folhas secas de uma árvore.
Ela deixou a bicicleta encostada em uma árvore e deu alguns passos em direção às meninas. Só então foi vista por elas. Os balanços foram parando serenamente até que as crianças ficaram com os pés totalmente no chão. Ambas as meninas encararam Clarissa como se ela fosse uma intrusa.
— Boa tarde, meninas! – ela tentou ser simpática para não as assustar. — Onde estão os pais de vocês?
As duas permaneceram em silêncio e se entreolharam. Clarissa se sentiu incomodada com a situação.
— Vocês vivem aqui?
De repente, uma delas saltou do balanço e correu na direção contrária seguida da outra garotinha. Clarissa chegou a dar alguns passos para frente como se quisesse ir atrás das meninas fujonas. Depois desistiu. Se algum adulto visse a cena poderia acusá-la de estar ameaçando as pequenas.
Novamente Clarissa se viu sozinha naquele lugar tão bonito, solitário e porque não dizer, estranho. Não pretendia ir embora ainda, mas faltava coragem para ver o que mais havia por lá. Ela respirou fundo. Ora, não estava fazendo nada de mal. Se alguém aparecesse iria dizer que estava conhecendo o lugar. Afinal, os portões estavam abertos e não havia placa dizendo que era proibida a visitação.
Clarissa seguiu pelo jardim passando pelos balanços. Mais adiante havia um chafariz e alguns bancos. Todos estavam vazios, exceto um. Havia alguém sentado de costas para ela. A pessoa mantinha a cabeça branca baixa, como se estivesse lendo um livro ou olhando para as próprias mãos. Clarissa decidiu ir até lá se apresentar.
Clarissa percebeu que era uma senhora. Ainda não podia ver-lhe o rosto e a última coisa que a jovem queria era pregar um susto nela. Por isto ela caminhou, cuidadosamente, fazendo barulho com os tênis de propósito sobre as folhas secas para chamar a atenção. Mesmo assim, a velha senhora continuou na mesma posição. Talvez fosse surda, pensou Clarissa.
Lentamente e respirando fundo com medo de ser mal interpretada, Clarissa deu a volta no banco e parou bem perto da mulher. Uma senhora fazendo croché, hábil com suas agulhas, não tirava os olhos do seu trabalho. Ela trajava um belo vestido azul com algumas rendas. As mangas quase cobriam as mãos. Estava muito concentrada no que fazia.
— Boa tarde...
Clarissa esperou que a senhora olhasse para cima. No entanto, ela apenas continuou fazendo seu crochê.
— Senhora... posso sentar aqui?
Não houve resposta e Clarissa sentou assim mesmo. Pela posição do sol ela se deu conta que o tempo estava passando muito rápido e era preciso resolver o assunto de uma vez. Ou sua avó ficaria muito brava.
— A senhora está hospedada aqui?
Um perfume de lavanda tomou conta do ar e contribuiu para que Clarissa se acalmasse um pouco. A mulher não respondeu. Sequer levantou os olhos para ela.
— Eu… estou procurando um rapaz. Acho que ele está parando aqui. É loiro, sabe? E muito bonito.
As agulhas continuavam a fazer rapidamente seu trabalho. A velha senhora não levantou a cabeça, não suspirou, não tomou conhecimento de Clarissa. Em compensação, o crochê se desenvolvia bem.
— As meninas são suas netas? A senhora está fazendo para elas? Está muito bonito, viu?
Silêncio. Clarissa, desconfortável, olhou para os lados. Não havia mais ninguém por perto. As vozes das crianças não eram mais ouvidas. No ar, somente o aroma agradável da lavanda.
Ela fechou os olhos procurando inspiração. Será que não era melhor ir mesmo embora?
Uma música suave. Foi assim que tudo começou. Clarissa ainda estava de olhos fechados quando os acordes de um piano tomaram conta do ar. No início ela achou que fosse sua imaginação, pois sua impressão é que estava em um lugar no mundo dos sonhos. Mas, aos poucos, as notas do piano foram se fazendo mais nítidas e Clarissa abriu os olhos. A brisa levava a música diretamente a ela. Clarissa ficou em pé. Precisava saber de onde vinha.
Ela olhou para os lados. A poucos metros se erguia a casa. Uma das janelas estava aberta e o som parecia vir dali. Clarissa se dirigiu até lá, curiosa. Alguém tocava piano no meio da tarde. Que lugar era aquele, tão mágico?
Clarissa, em silêncio, chegou até a janela e espiou para dentro. A primeira coisa que viu foi um piano de cauda ao fundo de um salão quase vazio. Os acordes ficaram mais altos no exato momento que ela se posicionou melhor no parapeito. Um homem tocava o piano, suavemente, concentrado, de olhos fechados.
Ela deixou escapar um gemido baixo, de susto e admiração ao mesmo tempo. Dani era o pianista. Era das suas mãos que vinha a música que a encantava. O rapaz não se voltou nenhuma vez para o lado da janela onde Clarissa estava. Era como se para ele nada mais no mundo existisse.
Para Clarissa o sentimento era o mesmo. O mundo desapareceu. A música que Dani tocava a deixara maravilhada. O impacto foi tão grande que Clarissa perdeu a noção do tempo. Ela não queria que Dani parasse de tocar, mas desejava que ele tomasse conhecimento da sua existência. Não podia interrompê-lo. Isto quebraria toda a magia. Aos poucos, as luzes no salão começaram a acender. Clarissa piscou, surpresa. Foi então que se deu conta que a primeira estrela no céu já havia surgido.
O susto foi tão grande que Clarissa deu dois passos para trás, tropeçou numa pedra e caiu sentada. A noite estava chegando e junto com ela veio o pavor de estar em um lugar completamente desconhecido. Ela olhou ao redor, atarantada. A velha senhora não estava mais sentada no banco, as crianças haviam desaparecido. Os balanços iam para cima e para baixo, sozinhos, sem quem ninguém estivesse sentado neles.
Clarissa se levantou limpando as mãos sujas de terra na calça. Lá dentro a música tocava como antes, mas a garota não tinha mais tempo a perder. Tensa com a perspectiva de a noite cair e se ver sozinha naquele lugar distante, Clarissa pegou a bicicleta. Desceu praticamente correndo o caminho das pedras ainda escutando o som da música que Dani tocava.
Já fora da hospedaria, Clarissa olhou para frente e percebeu que a rua contava com poucos postes de iluminação. O terror a atingiu em cheio. Não conhecia bem o lugar. Se dobrasse na esquina errada o risco de se perder era grande.
Por alguns instantes as pernas lhe faltaram e todo o encantamento que antes a envolvera ao escutar Dani tocando piano se dissolveu. Ela olhou para os lados. Não podia ficar ali parada, segurando a bicicleta, deixando o medo a dominar. A música ainda ressoava nos seus ouvidos quando Clarissa enfim começou a pedalar para sair de lá. Ela só não sabia se as notas que ainda escutava eram do piano de Dani ou apenas existiam na sua cabeça.


domingo, 22 de abril de 2018

MEU AMOR MISTERIOSO - A DESCOBERTA





Uma vez por mês Dona Iara reunia as amigas para um chá animado. Ela abria a casa e oferecia quitutes doces e salgados. Estas reuniões já eram famosas, mas para Clarissa era a primeira vez. Ela ajudou a avó a preparar as gostosuras e, quando já estavam todas as senhoras reunidas, Mariana chegou.
Clarissa passou a observar seus movimentos, não tão discreta como deveria. Apesar de toda a descontração presente, Mariana sentava ereta, agarrada à bolsa, só falando alguma coisa quando era perguntada. Os cabelos estavam presos em um coque horroroso conforme a opinião de Clarissa, deixando-a com aparência de mulher mais velha. Quem teria sido o homem que partira o coração de Mariana para deixá-la tão retraída? Que coisa, disse a moça para si mesma enquanto bebericava o chá. Naquele momento o olhar de ambas se encontrara e Clarissa ficou tão constrangida em ser pega no flagra que engoliu o chá direto, queimando a garganta. Ela tossiu, quase engasgada e Mariana lançou mais um dos seus sorrisinhos tímidos, parecendo querer falar alguma coisa. Clarissa pegou um pedaço de bolo e tentou disfarçar, olhando para outro lado.
As duas só foram ficar frente a frente na hora das despedidas quando Mariana resolveu quebrar o gelo e perguntar:
— Não soube mais do moço bonito?
Clarissa não teve coragem de dizer que da última vez que o vira aterrissara sobre vários sacos de lixo. Era melhor não falar sobre aquilo, ainda mais que Mariana presenciara o vexame.
— Nunca mais – mentiu Clarissa tentando não ficar vermelha. — Acho que foi tudo uma miragem minha.
Mariana riu de forma contida.
— Quando menos esperar quem sabe você topa com ele em alguma esquina?
A jovem torceu para que Mariana fosse uma espécie de vidente.
— Espero que você esteja certa e que isto não aconteça quando eu estiver para ir embora.
Em voz baixa, Mariana disse quase para si mesma:
— Espero que você tenha mais sorte do que eu tive.
— Hein?
Mariana se calou subitamente e caminhou apressada para porta. Clarissa ficou parada no mesmo lugar, olhando para aquela figura misteriosa que era amiga da sua avó. Seria tão interessante se tivesse a oportunidade de entrar escondida na casa dela e tentar desvendar os seus segredos... Talvez Mariana fosse uma bruxa e ninguém soubesse. Com suas roupas escuras, dava bem para desconfiar que Mariana mexesse com ciências ocultas.
Clarissa se arrepiou todinha.
*
O dia estava particularmente tedioso. Clarissa havia saído de bicicleta pela manhã, mas não encontrara ninguém. Estava bem desconfiada que Dani já nem estivesse mais na cidade. Será que sua procura havia sido inútil todo aquele tempo? Para piorar, tivera um sonho romântico com ele e nem isto deu certo. Acordou justo na hora do beijo com a avó fazendo barulho com as panelas na cozinha.
Por volta das cinco horas da tarde Dona Iara pediu que ela fosse até o armazém comprar mais farinha para preparar os doces. Clarissa deu graças a Deus. Assim poderia dar uma voltinha, ainda que o dia estivesse feio, ameaçando chuva. Com o dinheiro dentro do bolso da calça jeans, ela se dirigiu sem muita pressa até o estabelecimento do seu Joca. Não era muito longe da casa da avó.
Clarissa comprou o que pretendia e saiu de lá comendo um picolé de chocolate. Vinha distraidamente saboreando o picolé quando viu, na calçada contrária, Dani caminhando calmamente. Era ele, sem dúvida nenhuma. E mais bonito que nunca.
Ele vestia a mesma roupa e desta vez Clarissa pôde observar melhor os traços do seu rosto, ainda que estivesse do outro lado da rua. Era uma pena que não estivesse com o celular para tirar uma foto e mostrá-lo para sua avó. Com certeza, Dona Iara também iria se apaixonar por ele.
O rapaz seguia na direção contrária e não reparou Clarissa parada, sem ação, a encará-lo fixamente. O picolé desabou no chão, quase aos pés dela. Por alguns instantes, Clarissa não soube o que fazer. A avó esperava a farinha. Dani já estava tirando uma boa distância dela. A chuva ameaçava cair e nem de bicicleta ela estava. E agora? O que fazer?
Clarissa deu meia volta e foi atrás dele. A coragem para falar com Dani sumira por completo, mas pelo menos tentaria ver para onde ele iria. Com sorte, descobriria onde o rapaz morava ou pelo menos o hotel que se hospedava. As pernas tremiam quando teve que apressar o passo para não o perder. Somente esperava que Dani não se afastasse tanto da casa da avó Iara.
Por mais que tentasse ser rápida, era muito difícil acompanhar os passos de Dani. Quando ele dobrou a primeira esquina, Clarissa o perdeu de vista completamente. Foi preciso que a garota corresse para alcançá-lo. Não podia deixar que ele se distanciasse de vez. Algo lhe dizia que não teria outra chance como aquela.
A corrida deu resultado. Ele estava um pouco longe, é verdade, mas ao alcance da sua visão. Seu objetivo era saber onde Dani iria entrar. Clarissa tinha a impressão que a qualquer momento Dani sumiria, pois ele caminhava muito depressa. Tinha alguma noção que estava se afastando demais de casa e somente esperava que soubesse fazer o caminho de volta. Coitada da avó. Ela já deveria estar bem preocupada com a sua demora.
“Desculpe, vó”, pediu a jovem, mentalmente, tentando diminuir a culpa que sentia. Clarissa se sentia ofegante, mas não pensou por nenhuma vez em desistir. A perseguição durou em torno de vinte minutos. De repente, Clarissa se viu em um bairro mais afastado, arborizado e tranquilo. Dani caminhou até o fim da rua e, de repente, olhou para trás.
Clarissa diminuiu os passos, segurando com força o pacote de farinha. Dani havia parado frente a algum lugar e havia voltado a cabeça na sua direção. A garota não tinha certeza, mas a impressão era que o rapaz olhava diretamente para ela.
— Ai, meu Deus... – gemeu, as pernas fracas. — E se ele voltar? O que eu vou dizer?
Dani ficou mais alguns instantes olhando para o lado de Clarissa. Depois, lentamente, o rapaz entrou em algum lugar que ela não soube precisar o que era. Uma casa?
Por uns cinco minutos, Clarissa ficou parada, tentando se recuperar. A emoção era grande. Consultou o relógio. Já fazia mais de quarenta minutos que saíra de casa. O correto era dar meia volta e retornar. Mas ela sabia que não faria aquilo. Estava perto demais de descobrir onde Dani morava. Bastava caminhar mais um pouquinho e desvendar de vez aquele mistério. E no outro dia, quando estivesse mais calma e com mais tempo, pegaria a bicicleta e voltaria naquele bairro. Estava fora de cogitação de sair daquele lugar sem saber onde Dani tinha entrado.
As pernas ainda estavam moles quando Clarissa tomou a direção que Dani havia seguido. Cada passo dado, o coração acelerava mais. Era uma emoção esquisita, aliada a um friozinho na barriga. Clarissa não sabia o que fazer se ele estivesse na frente da casa. Talvez Dani estivesse lhe esperando.
— Acho que não vou suportar... – disse Clarissa para si mesma rindo de nervosa.
À medida que prosseguia, a bonita rua ficava mais arborizada. As casas possuíam lindos e grandes jardins na frente. Não havia muitas pessoas por ali. Nenhum carro passava. Era tudo calmo demais.
Depois de passados cinco minutos, Clarissa chegou a uma casa com um muro feito de pedras grossas. Na verdade, a casa não era vista da rua. Um caminho de pedras serpenteava terreno acima e desaparecia entre as árvores lá em cima. Tinha quase certeza que havia sido ali que Dani havia entrado. Havia uma placa de madeira entalhada, um tanto malcuidada, pregada em uma árvore à vista de quem passava.
— Hospedaria Castelo de Pedra – leu Clarissa, lentamente. — Hospedaria?
Um relâmpago riscou o céu e Clarissa deu um pulo. Nuvens grossas de chuva pairavam sobre o céu e a moça soltou um pequeno grito. Foi quando realmente sentiu medo. Estava em um bairro estranho, praticamente deserto e longe de casa. Fora atrás de um cara com quem que nunca trocara uma palavra na vida e não sabia sequer se ele era do bem ou do mal. Além disso, uma chuvarada iria cair a qualquer momento e Clarissa morria de medo de temporais. Era melhor voltar de uma vez.
O temporal caiu quando ela estava a cinco minutos de casa. Dona Iara a esperava no portão, protegida por uma sombrinha. Quando viu a neta toda molhada correndo debaixo da chuva, deixou escapar um suspiro de alívio.
— Por onde você andou, menina? – Dona Iara a puxou para dentro de casa.
Clarissa entregou o pacote de farinha, bem embrulhado em uma sacola plástica. Pelo menos aquilo estava seco.
— Fui dar uma volta. Mas acho que estiquei demais o caminho.
Dona Iara pegou a farinha e colocou sobre a mesa. Depois se voltou para a neta com as mãos na cintura.
— Foi só isto mesmo? Não foi se encontrar com ninguém?
— Não, vó! – ela negou imediatamente. Precisava convencer Dona Iara. — Estava tudo tão monótono que decidi aumentar a volta. Mas acho que exagerei...
— Nunca mais faça isto sem me avisar. Fiquei muito preocupada. E ainda havia o temporal que estava por cair.
— Desculpe. Não tive a intenção. Perdi a noção do tempo. Pelo menos a farinha voltou seca.
— Vá se secar de uma vez antes que pegue uma gripe que estrague suas férias.
Quando mais tarde Clarissa se deitou na cama para dormir, o sono não veio logo. A angústia havia sido sua companhia desde que descobrira que Dani havia entrado em uma hospedaria. Ora, então ele estava somente de passagem pela cidade. Isto era ruim demais. A qualquer momento Dani poderia partir e então Clarissa nunca mais o veria. Precisava fazer alguma coisa urgente.
Precisava voltar mais uma vez àquele lugar.


quarta-feira, 11 de abril de 2018

MEU AMOR MISTERIOSO - A PERSEGUIÇÃO





Ela o viu assim que dobrou a esquina. Cansada, cada pedalada era um esforço extra quando subitamente ela enxergou Dani do outro lado da rua, um pouco distante. As pernas faltaram de vez e apesar de não poder enxergar o rosto de Dani, os cabelos louros inconfundíveis enchiam Clarissa de certeza que sim, era ele. Se acelerasse, era bem possível que pudesse alcançá–lo.

Clarissa esqueceu o cansaço e tentou pedalar o mais rápido que podia, ansiosa. Um friozinho na barriga tornava aquela perseguição muito mais empolgante. O que dizer quando finalmente estivessem frente a frente? Deveria ter ensaiado alguma coisa antes.

Quanto mais pedalava, mais distante Dani ficava. Não era possível, pensou ela, já outra vez cansada e ofegante. Se ao menos soubesse o nome verdadeiro dele, poderia chamá–lo ainda que fosse muito ousado da sua parte. Mas o que importava? Não havia tempo para se sentir envergonhada.

Foi tão rápido que Clarissa nem se deu conta. Em meio a sua afobada perseguição, a bicicleta passou por cima de uma pedra e ela se desequilibrou totalmente. Sem controle, Clarissa foi parar sobre vários sacos de lixo que se acumulavam na calçada esperando o caminhão que os recolheria.

– Ui, que nojo – gemeu ela olhando imediatamente na direção que Dani seguia. Implorou aos céus que ele não tivesse visto o tombo idiota que acabara de levar. As mãos estavam sujas e pegajosas de algo gosmento. O saco sobre o qual caíra em cima se rasgara exalando um cheiro de comida passada. – Não acredito que isto tenha acontecido comigo... – a única boa notícia é que Dani novamente havia tomado chá de sumiço e saído completamente do campo de visão de Clarissa.

– Puxa, Clarissa. Que lugar horrível para cair.

A garota olhou para cima. Mariana lhe estendia a mão, penalizada. Clarissa recusou a ajuda disfarçando o constrangimento.

– Obrigada, Mariana, mas... – ela mostrou as mãos sujas. – Não acho que seja uma boa ideia você chegar muito perto de mim.

Prontamente Mariana pegou a bicicleta do monte de lixo enquanto Clarissa se levantava com alguma dificuldade. Fora o vexame e a sujeira, não estava machucada.

– Como você foi parar em cima do lixo?
– Não sei – respondeu Clarissa afastando uma casca de banana alojada sobre o tênis. – Passei por cima de alguma coisa, uma pedra, acho...
– Está machucada? Posso acompanhar você.
Clarissa não esperava que Mariana fosse tão solícita. Porém, a última coisa que queria naquele momento era companhia.

– Não precisa, obrigada, Mariana. Eu consigo chegar em casa.

Mariana apertou a bolsa contra o corpo.

– Se você diz que está tudo bem...
– Ah, estou ótima. Na verdade, só preciso de um banho de duas horas de duração para tirar este fedor de cima de mim. Obrigada de novo – disse Clarissa dando meia volta, ansiosa em sair dali.

Clarissa voltou para casa à pé, conduzindo a bicicleta. Naquele momento desejou não encontrar Dani. Se ele a visse naquele estado, todas suas chances iriam por água abaixo.
                                                                               *
Dona Iara estendeu a toalha rosa e felpuda para a neta se enxugar. Depois de um banho de 45 minutos Clarissa se sentia mais limpa. Pelo menos o fedor de azedo tinha dado lugar ao do sabonete floral da avó.

– Você não deve andar correndo, Clarinha. Senão fossem as latas de lixo você poderia ter quebrado algum osso.

Clarissa também não contara a avó o motivo da queda e tratou de desviar o assunto.

– Mariana foi bem legal em me oferecer ajuda. Porém, se eu aceitasse, ela ficaria tão imunda quanto eu.
– A Mari é uma ótima pessoa. Um pouco estranha, é verdade, mas eu gosto muito dela.

Depois de alguns segundos de silêncio, Clarissa perguntou:

– Por que Mariana é assim?
– Assim como?
– Estranha como você disse. Triste. Ela é uma mulher triste.

Dona Iara pensou um pouco antes de dizer:

– Acho que ela teve alguma desilusão na vida. Amorosa, por assim dizer.

Clarissa se interessou.

– Sério? O que você sabe?
– Não sei nada. Mas é o que dizem. Eu a conheço faz uns dez anos e ela sempre foi assim. Então eu presumo que se alguma coisa aconteceu na vida dela já faz um bom tempo.
– Então ela é solteira?
– Sim – Dona Iara pegou uma segunda toalha e começou a enxugar os cabelos da neta. – Ela mora sozinha em uma casa próxima daqui com os gatos. Devem ser uns seis.
– Nossa, mas para que tanto gato?
– Ah, ela é uma mulher muito sozinha. São para fazer companhia, coitada.
– E… bem, a senhora já a visitou alguma vez? – Clarissa estava muito curiosa.
– Duas ou três vezes. A casa é toda ajeitadinha, sabe? Até os bichanos são obedientes.
– Talvez ela tenha perdido o namorado para a melhor amiga e nunca mais se recuperou depois disso.

Dona Iara riu.

– Teve uma época que a vida de Mariana me intrigava. Eu também tinha muita vontade de saber por que ela é assim tão... tão misteriosa. Quase não conta nada sobre a vida, do que gosta de fazer, nem sei se tem família. Depois me acostumei com o jeitinho dela. Mariana é uma ótima pessoa.
– Imagino que sim... – Clarissa deixou a mente divagar enquanto se secava. – Fico com pena dela. Ela parece ser tão triste, tão solitária...
– Foi a vida que Mariana escolheu, Clarinha. Talvez ela seja feliz assim.

Será? Clarissa tinha certeza que não.

... Continua...




sábado, 24 de março de 2018

MEU AMOR MISTERIOSO - A ESTRANHA MARIANA







Reunidas na varanda, Dona Iara, Clarissa e Mariana, uma amiga da avó. A mesinha com chá e biscoitos estava disposta frente a elas. Com o canto do olho, Clarissa observava a convidada de Dona Iara.

Mariana. Eita mulher esquisita. Ela tinha mais ou menos uns quarenta anos e o cabelo de tons avermelhados emolduravam um rosto que poderia até ser bonito senão fosse tão triste. Segurava a xícara de chá tomando o líquido aos golinhos por estar muito quente. Quem mais falava era Dona Iara. Mariana concordava com tudo e Clarissa não conseguia tirar Dani da cabeça.

— Você viu como minha neta cresceu, Mariana?

A mulher olhou para Clarissa e deu um sorrisinho meio tímido.

— Lembro dela bem garotinha. Agora está uma moça.

Clarissa devolveu o sorriso sem saber o que dizer. Mariana era delicada no falar e seus gestos eram suaves. Se fizesse um corte moderno nos cabelos e sorrisse com mais frequência para aliviar o semblante sisudo poderia se tornar uma mulher atraente.

— Clarissa já tem me ajudado bastante – disse Dona Iara bem orgulhosa. — Hoje ela foi à feira e ainda me auxiliou nas encomendas.
— Quanto tempo você vai ficar aqui, Clarissa? – Mariana estava tentando ser simpática.
— Um mês. Já fazia um tempão que eu não vinha para cá.
— Clarinha – Dona Iara olhou para a neta enquanto se servia de mais chá, — conte para Mariana sobre o que você viu na feira hoje de manhã. Pode ser que a Mari saiba quem ele é.

A jovem ficou totalmente desconfortável. Não queria expor seus sentimentos à Mariana. Mal lembrava dela. Era como se houvessem se conhecido naquela tarde. Era constrangedor abrir seu coração para uma desconhecida. Sim, pois Clarissa já se sentia quase apaixonada por Dani.

Mariana a encarou esperando que a moça falasse alguma coisa.

— Eu… eu… − Clarissa começou a gaguejar.

Dona Iara tentou ajudar.

— Minha neta viu um rapaz bem interessante hoje na feira. O problema é que ela não sabe quem é.
— Ah… − fez Mariana, colocando a xícara na bandeja, interessada. — Como ele é?

Clarissa tentava segurar o rubor nas bochechas.

— Ele é loiro.
— Sim? – Mariana aguardava o restante da descrição.
— Um metro e setenta de altura, mais ou menos. O cabelo é ondulado e… bem, ele estava parado no meio da feira, sem fazer nada. Dani... bem, ele não parecia com jeito que iria comprar alguma coisa, sabe? Aí ele me encarou. Mas justo neste momento tive que pagar o pastel. Quando o procurei novamente, o Da… ele já tinha sumido.
— Oh, que pena – lamentou Mariana. — Você não foi atrás dele?

Clarissa ficou mais vermelha.

— Tinha gente demais lá.

Mariana respirou fundo, os olhos parecendo mais tristes do que nunca.

— Não me lembro de nenhum vizinho com estas características. Acho que ele pode ser mesmo um turista.
— Não entendo o que um turista pode estar fazendo em uma feira – desabafou Clarissa. — Em uma cidade com tantas coisas bonitas para ver, por que ele estaria em uma feira?!
— Para vocês se conhecerem – falou Mariana.
— E ele sumir depois.

Mariana falou com a voz distante e olhando para lugar nenhum:

— As coisas acontecem quando são para acontecer.

Clarissa ficou sem saber ao certo onde ela queria chegar com aquela frase tão óbvia. Porém, Mariana parecia tão perdida nos seus pensamentos que a jovem achou melhor ficar calada.

Realmente Mariana era uma mulher bem esquisita.

*

O dia seguinte amanheceu com chuvarada desde manhã cedo. Agarrada à cortina da sala, Clarissa olhava desolada para as poças d’água que se acumulavam nas calçadas. O céu estava cinza, tão cinza que não havia qualquer esperança que o sol pudesse aparecer pelos próximos dias. Aquilo era péssimo. Se Dani fosse um turista, cada dia que passava as chances de encontrá-lo se reduziam.

Mas... e quando o encontrasse? O que iria dizer para ele?

— Eu vi na televisão que amanhã o tempo já vai estar bom. Aí você poderá dar suas voltinhas de bicicleta.

Clarissa sentiu um tom de malícia na voz de Dona Iara.

— Pode ser tarde demais, vó. Talvez ele até já tenha ido embora.
— Tenha calma. O fato de não sabermos quem ele é não significa que seja um turista. Ele pode muito bem morar por aqui.
— Ah, seria excelente – Clarissa suspirou. — Mas acho isto meio improvável.
— Deixe para se preocupar amanhã. Vamos fazer um bolinho de chuva?

O dia passou à base de muita comilança, jogos de cartas e dominó, mais os causos contados pelo avô Ricardo. A chuvarada só parou quando Clarissa foi dormir, às onze horas da noite. Sinal que o dia seguinte poderia lhe trazer boas novidades.

*

Era mais ou menos quatro horas da tarde e o sol brilhava forte. Clarissa recém havia ajudado a embalar alguns doces para a avó e não aguentava mais de vontade de sair de bicicleta.

— Vó, posso dar uma saída? Você ainda vai precisar de mim?
— Está tudo pronto aqui, Clarinha. Pode ir passear na sua bicicleta.

Vô Ricardo apareceu naquele instante. Ele era um homem grande, com quase setenta anos, sempre esbanjando boa saúde e disposição.

— Alguém falou em andar de bicicleta? Vamos lá, Clarinha. O dia está pedindo uma diversão.

Clarissa sorriu amarelo. Não estava nos seus planos sair acompanhada.

— Que ótimo, vô. Estou pronta.

Os dois partiram em seguida e Ricardo a levou por lugares que a garota ainda não conhecia. Ela estava atenta, olhando para todos os lados procurando Dani. Nem sinal e nem ninguém parecido para lhe dar algum tipo de esperança. E com o avô Ricardo ao seu lado, falante e brincalhão, o risco de dar algo errado era praticamente 100%. Depois de quase duas horas de pedaladas, Ricardo convidou Clarissa para ir tomar suco em uma lanchonete. Os dois estavam aproximadamente a dez minutos de casa.

Àquela altura Clarissa já estava cansada e desabou em uma cadeira ao lado do avô. Logo um amigo dele apareceu e ambos engataram um papo animado. Sedenta, Clarissa tomou todo seu suco de laranja bem rápido. Já o avô não dava mostras de que pretendia sair dali tão cedo.

— Vô – ela cutucou o braço dele. — Eu vou indo para casa. Encontro você por lá.

O homem fez um gesto liberando a neta, distraído na sua conversa. Louca por um banho, Clarissa montou a bicicleta e saiu pedalando devagar. Sem dúvida dormiria feito um anjo naquela noite. Quem sabe pelo menos nos seus sonhos Dani aparecesse?


segunda-feira, 19 de março de 2018

MEU AMOR MISTERIOSO - QUEM É AQUELE CARA?







Clarissa abriu a janela daquele que seria o seu quarto por pelo menos trinta dias. Lá fora as flores do canteiro da avó Iara estavam cada vez mais coloridas e deixavam um doce aroma no ar. Pelo visto as férias na serra seriam produtivas e felizes. A jovem consultou o relógio. Já passavam das oito horas da manhã e lembrou que prometera à avó ajudar na preparação dos doces. Dona Iara comentara, na véspera, que não estava dando conta de tantas encomendas. Clarissa se vestiu rapidinho, penteou os cabelos e abriu a porta do quarto. O cheirinho de café logo alcançou as suas narinas. Tudo na casa da avó lhe remetia a sua infância.

— Bom dia, vó!

Dona Iara estava na cozinha passando café. Ganhou um beijo estalado na bochecha enquanto colocava as gostosuras sobre a mesa.

— Acordou bem na hora. O café está quase pronto.

Clarissa olhou para a mesa farta e pegou um pedaço de pão.
— Acho que não vou dar conta de tudo.
— Coma à vontade. Você está muito magrinha.
— Onde está o vô Ricardo?
— Na varanda lendo jornal.

A senhora serviu a neta de café e a jovem ficou em silêncio por alguns instantes enquanto mastigava o pão. A casa não era grande, mas tudo lá dentro era aconchegante, desde os quadros antigos nas paredes às cortinas de florezinhas que enfeitavam as janelas. A temporada de férias de verão eram dias de tranquilidade, conversas amenas e passeios sem pressa pela cidade calma. Fazia uns bons cinco anos que Clarissa não visitava os avós e tinha esquecido que a vida podia correr serena. Sem atropelos. Sem celulares recebendo mensagens a todo instante. Sem seus irmãos falando em voz alta e perturbando o silêncio. Era bom demais ficar na companhia da vó Iara e do vô Ricardo, ainda que não tivesse feito nenhuma amizade com pessoas da sua idade.

Mas isto não lhe fazia falta. A companhia dos avós lhe bastava.

— Preciso que você vá à feira para mim, Clarissa.

O pensamento dela ia longe.

— Hein? Sim, vó?

Dona Iara repetiu:

— A feira. Preciso que você compre algumas coisas para mim.
— Ah, tudo bem. Posso ir de bicicleta? Assim já dou uma voltinha.
— Claro. Você lembra onde fica?

Clarissa lembrava e estava ansiosa por percorrer as ruas calmas da cidade. Combinou com a avó de ajudar a fazer os doces na volta. Uma hora depois, com uma bolsa a tiracolo e com a cestinha da bicicleta pronta para receber as compras, Clarissa recebia as últimas instruções de Iara no portão:

— De bicicleta você vai levar mais ou menos dez minutos. Pegue a rua de trás e vá por mais três quadras. Não tem como errar.

Clarissa balançou a cabeça, pacientemente:

— Vó... eu lembro onde fica.
—Cuidado com esta bicicleta. Olha o trânsito.

A moça riu.

— Trânsito, vó? Onde?
— Você entendeu. Vá sem pressa.

Clarissa conduziu a bicicleta calmamente e não demorou muito até chegar à feira. Preocupada em comprar tudo certinho, Clarissa fez as compras em menos de quinze minutos e guardou o troco dentro da bolsa. A feira começava a encher e a moça foi levando a bicicleta à pé quase até a saída. Antes, no entanto, decidiu parar em uma tenda de pastéis. Enquanto aguardava ficar pronto, Clarissa olhou casualmente para o lado.

Quem era aquele cara?

Ela chegou a piscar. Há alguns metros de distância havia um jovem parado em meio às pessoas, olhando para frente, as mãos dentro do bolso da calça jeans.

Clarissa esqueceu o resto. A atitude despojada dele a perturbou. O vento balançava os seus cabelos louros. Ele parecia alheio à movimentação. A moça calculou que o rapaz bonito teria uns 19 anos, três a mais que ela.

Os olhos dele se voltaram para Clarissa e, com o coração feito um tambor, a jovem se viu observada atentamente por ele.

— Moça, está aqui o seu pastel. Moça?

Ela foi despertada pela voz forte do feirante. Clarissa voltou a cabeça para o homem que lhe estendia, impaciente, o pastel de goiabada e esperava o pagamento.

— Ah, desculpe. Quanto custa mesmo?

Estonteada, Clarissa pegou o pastel. Ansiosa, olhou para o lado novamente. O rapaz não estava mais lá.

 — Droga – praguejou baixinho. Sem pensar duas vezes, Clarissa decidiu voltar para o meio da feira e tentar encontrá-lo.

Estava mais difícil caminhar agora. A todo o momento Clarissa tinha que diminuir os passos ou desviar de alguém. A bicicleta dificultava mais ainda seus movimentos. Por fim, sem ter a menor ideia de onde ele tinha ido parar, Clarissa desistiu. Não havia sinal dele em lugar algum. Além do mais, a avó já deveria estar preocupada com a demora. Um pouco decepcionada, ela voltou para casa empurrando a bicicleta e segurando o pastel na mão. Tinha perdido completamente a vontade de comer.

Como era de se esperar, Dona Iara estava no portão aguardando a neta. Mal Clarissa despontou, a senhora abanou uma das mãos, parecendo aliviada. Pouco depois ambas estavam frente a frente.

— Você demorou, Clarinha! Por que não levou o celular?
— Porque estou de férias dele também – resmungou ela entrando com a bicicleta no jardim da casa. — Parei para comprar um pastel.
— E pelo visto não está bom. Voltou inteirinho – comentou Dona Iara pegando as compras de dentro do cestinho.

Clarissa cheirou o pastel.

— Acho que está gostoso, sim. Mas é que aconteceu outra coisa.
— Que outra coisa? – Dona Iara se mostrou curiosa.

A moça acomodou a bicicleta na varanda e seguiu a avó até a cozinha.

— Eu vi um rapaz – confessou Clarissa um pouco envergonhada.
— Rapaz? Quem? Tem nome?
— Aí que está o problema. Não sei. Será que ele é daqui?

Dona Iara riu.
  Cinquenta por cento de chances de ele ser turista. Me conte. Como ele é?
 — Loirinho, alto, magro... Ah, ele é tão bonito! – Clarissa se encostou-se à geladeira. — Ele me encarou por alguns instantes e depois sumiu na feira – ela não quis contar que foi atrás do rapaz. — E evaporou-se!

 Ora, que desagradável. Acho que você terá que dar mais voltas de bicicleta pelas redondezas para tentar encontrá-lo.

— Sim, pensei nisto.

Durante aquela manhã, enquanto ajudava a avó preparar suas encomendas, bem que Clarissa tentou afastar o garoto louro dos seus pensamentos. Mas era difícil esquecer aqueles olhos tão expressivos pousados nela. Clarissa nunca namorara sério até então. Os garotos que se aproximaram dela eram jovens comuns, sem grande conteúdo, nada que a cativasse. Tão diferente daquele desconhecido, o jovem sem nome, parado no meio da feira, em uma atitude de quem não iria comprar coisa alguma. Ele estaria fazendo o quê, então? Esperando alguém? Clarissa decidiu chamá-lo de Daniel, ou simplesmente Dani.

Será que Dani tinha alguma namorada? Bem possível que sim. Dani era bonito demais para ficar sozinho.

 — Ai, meu Deus... – gemeu ela enquanto mexia com uma colher de pau um dos doces saborosos da avó. — Quando eu vou vê-lo de novo?




... CONTINUA...