segunda-feira, 3 de outubro de 2022

LIVRE AO VENTO





Eu tinha tanta coisa para dizer a ele

As palavras quase transbordavam dos meus lábios

Mas ele era surdo a cada intenção minha

Enquanto eu dançava no jardim das flores, triste, livre e sozinha 

quarta-feira, 18 de maio de 2022

TALVEZ EU NÃO VÁ PARA O CÉU


Fui presenteada com o cara mais bonito da rua. O nome dele era Jesus, mas de santo não tinha nada. Mas eu gostei dele do mesmo jeito, desde a primeira vez que pus meus olhos naquele corpo gostoso. Durante o flerte, toda vez que o cara se aproximava, minhas amigas berravam para todo mundo ouvir (inclusive o próprio):

- Tatiana, Jesus está chegando!

Nada mais clichê. Mas pior que deu certo. Jesus achava engraçado, começou a prestar atenção em mim e quando me dei conta estávamos ficando. Sim, me tornei a ficante do Jesus.

Atraí admiração e inveja. Da minha parte, fiquei entusiasmada e perplexa. Nunca imaginei que Jesus fosse dar bola pra mim. Em contrapartida, entreguei meu corpinho para Jesus usufruir como bem ele quisesse. Eu merecia depois de uns dois anos na seca, na merda total. 

Salve Jesus.

A questão é que eu nunca tinha namorado um cara bonito. Eu só pegava os feinhos (que tinham o seu valor, é claro) e outros tipos exóticos. De repente. Jesus surgiu em minha vida e eu me vi sem saber como fazer para aquele relacionamento dar certo. Quanta insegurança, Jesus (Cristo).

Antigas ficantes e namoradas (eram muitas) não demoraram a mostrar toda a inveja e desdém. Mandei a todas se foderem. Agora Jesus era meu. Eu fazia de tudo para agradar meu salvador. Comprei um e-book com muitas dicas para fazer sexo gostoso. Aprendi a fazer acrobacias sexuais, tipo transar pendurada no lustre, de pé em cima da rede, algemada e de olhos vendados. Era uma loucura. Descobri que as trepadas com meus ex nada mais eram que um entra e sai desgovernado.

Jesus era louco por sexo e fodia muito bem. Ah, o pica das galáxias master.

Todas as noites eu agradecia a Jesus (o Cristo) pela incrível sorte que eu tinha tido. Quando dei conta eu já havia me tornado a namorada dele. Éramos um casal oficial. Jesus viera ao mundo para me salvar do tédio, das frustrações amorosas e de uma vidinha sem graça. Tempos felizes aqueles.

Tão felizes que passaram rápido demais da conta.

Meu namoro com ele durou exatos um ano e dois meses. Foi quando descobri que Jesus tinha outro relacionamento com meu primo, o Jurandir. A quem, carinhosamente, comecei a chamar de Judas. De orgulho ferido, coração em frangalhos e com a família em polvorosa, dei uma surra no Jesus e uma voadora no Jurandir.

Talvez eu não vá pro céu. 


sexta-feira, 13 de maio de 2022

O GAROTO QUE TINHA DEMAIS

 



Ele era o cara mais popular da escola.

E também o mais gato.

O mais gostoso.

O melhor jogador de futebol.

Namorava a guria mais bonita da turma (eu morria de inveja dela).

Tirava as melhores notas.

O seu grupo de amigos era o mais descolado.

Os pais eram bem sucedidos e com excelentes empregos. Ou seja, a faculdade dele estava garantida. Nunca precisaria se preocupar com os valores da mensalidade. Certo que ele iria se formar na melhor universidade.

Nossa. Que sorte ele tinha. Eu queria ser a namorada dele. Talvez sua sorte respingasse um pouco em mim. Porém, eu era tão patinho feio que o André nunca se deu ao trabalho de olhar para minha cara. Até acho que ele nunca soube, sequer, que eu existia.

Um dia acordei com a notícia que o André tinha morrido.

Oi? Como assim?

Se atirou do 10º andar do prédio em que morava.

Choquei. Todo mundo chorou. Ninguém compreendeu.

Anos depois, eu já mais velha e adulta, acho que consegui entender o motivo daquela morte tão estúpida.

André possuía demais.

Para ele tudo era fácil demais.

Ele, André, nunca precisou lutar por nada.

Sempre lhe deram tudo.

Mas, para ele, o "tudo" nunca fora o bastante.



domingo, 1 de maio de 2022

PARA SEMPRE TODO MEU


 

Primeiro que não aceitei quando tudo aconteceu. Fiquei louca, surtada, psicótica. Nosso relacionamento era incrível. Muito amor, paixão e sexo. Sexo todos os dias. Nossos amigos morriam de inveja. Como assim trepar todos os dias?

Pois é, queridos. Eu e o Daniel transávamos todos os dias.

Até aquela maldita madrugada.

No meio de uma trepada quente, muito quente, o Dani teve um AVC. Sério. O cara passou mal durante o ato. Achei que fosse brincadeira. Uma brincadeira muito sem graça. O socorro levou vinte minutos para chegar. Levaram o Dani pelado para o hospital, inconsciente, meio morto.

O amor da minha vida nunca mais recobrou a consciência.

Em estado vegetativo Daniel voltou para casa um mês depois. Não havia o que fazer com ele. Minha vida, então, se resumiu a cuidá-lo. Tudo o que eu fazia era pelo Dani. Esqueci-me de mim. Algumas pessoas me diziam que aquilo não era vida. Que o Dani jamais iria querer viver daquele jeito. Mas eu me empenhava em deixá-lo vivo. Mesmo a consciência dele estando em um mundo distante, pelo menos o corpo estava ali, limpo, perfumado e todinho meu. Talvez nunca o Dani tenha sido tão meu em todo nosso relacionamento.

À medida que o tempo passava, minha vida foi se ajustando em torno da vidinha dele. Comecei a trabalhar online, cuidava dele, participava de reuniões via zoom, cuidava dele, ia pra feira, cuidava dele, recebi até amigos para churrascadas enquanto o Dani dormia no quarto, cheiroso e penteado. Todo meu.

Em um domingo acordei como se fosse mais um dia normal. Preparei uma bandeja de café, pão e bolos (minhas refeições eram no quarto com ele onde eu contava tudo o que estava acontecendo na minha vida e no mundo lá fora) e abri a porta com um sonoro bom dia.

Dani estava morto.

Minhas mãos afrouxaram, a bandeja espatifou no chão, gritei. Não. Eu não podia aceitar aquilo. Não queria perdê-lo uma segunda vez. Queria aquele corpo pra mim para todo o sempre, já que a mente do meu amor estava vagando pelo espaço há tanto tempo.

Então tive uma ideia. Uma grande ideia.

*

Para todos os efeitos o Dani continuava vivo. Desde o AVC eu nunca deixei ninguém mais vê-lo. Dani não tinha mais parentes vivos ou próximos, então foi muito fácil fazer isto.

Ninguém sabe que ele morreu. Ninguém sabe que o Dani está empalhado no nosso quarto, sentado na poltrona favorita dele.

Ninguém precisa saber que despachei a cama hospitalar de madrugada e queimei toda a medicação que ele tomava. Até o ar ficou mais respirável lá em casa. Não havia ninguém mais doente.

Bem, Dani ficou meio estranho empalhado. Mas é ele. Dani continua comigo. E ninguém tem nada que ver com minhas escolhas. É crime? Não. 

Vivo feliz com ele. Conversamos, conto minhas histórias, rimos. Eu não estou louca.

Tenho culpa por amar tanto assim?


quarta-feira, 23 de março de 2022

LOUCA E VINGATIVA





Ele era o cara mais bonito que eu já tinha visto. Meu colega de trabalho. De repente, ele apareceu no meu setor para resolver um problema no sistema. Aí que eu me apaixonei. Na hora. Foi uma espécie de soco que me sacudiu e me acordou para o amor. Ou tesão. 

Seja lá o que for. Só sei que paralisei e disse para mim mesma que acabara de encontrar o amor de toda uma vida. Discreta, observei o cara arrumar a pane no computador de outro colega. Ele não olhou para meu lado. Tipo, eu era uma pessoa invisível. Depois que ele foi embora, aproximei-me do meu colega tentando catar alguma coisa.

- E então? Tudo resolvido?

- 100%. O Matheus é a fera da informática aqui na empresa.

- Ah é? Bom que tudo se resolveu.

Dei meia volta e retornei para minha mesa. Bingo. Matheus. Da área da informática. Minha caçada estava só começando.

                                                                                    *

- Dai, me apaixonei.

Daiane, minha colega e amiga íntima. Trocávamos confidências picantes. Eu adorava os conselhos dela. Alguns surreais, mas que sempre haviam dado certo.

- Opa, criatura. Por quem?

- Pelo Matheus.

- Quem é este ser?

Estávamos na copa, horário do cafezinho. Geralmente o lugar que falávamos só putaria.

- O cara da informática. Acredita que eu nunca tinha visto o gostoso aqui dentro?

- Para aí. Matheus? Ah, sim. Sei quem é. Um gato. E casado.

Meu mundo caiu. Cheguei a me engasgar. Fazia duas horas que eu conhecera o Matheus e já tinha casado e formado uma família com ele. Sim, eu era boa em criar expectativas altas e depois me ferrar bonito.

- Puta que pariu. Nem acredito.

- Deixa de ser besta, Nanda. Vai que ele não é feliz no casamento? Se houver uma brecha você entra.

- Dai, você está louca? Não vou destruir relacionamento nenhum. Não é do meu feitio.

Um movimento na porta chamou nossa atenção. Matheus nos olhava sorrindo com uma caneca vazia na mão. 

                                                                                  *

- Bom dia, garotas.

Pensei que fosse me mijar. Ai, o Matheus. Olhei o cara mais de perto. Músculos salientes, barba por fazer, olhos negros e misteriosos. Ou nem tão misteriosos assim. E simpático. Lindo e gostoso também.

Eu não consegui responder. Dai, mais descontraída, disse:

- Olá, Matheus. Vocês por estes lados? A quem devo a honra?

- Ah, é que faltou café lá em cima. Então vim pedir um pouco emprestado. Se vocês não se importarem...

- De forma alguma. Já conhece a Fernanda? Do Financeiro.

Matheus me olhou enquanto eu esboçava um sorriso. Rezei para não ficar vermelha e me trair feito uma adolescente de quinze anos. Aliás, as adolescentes de quinze anos são muito mais desinibidas que eu.

- Muito prazer.

Ele esticou a mão grande e morena na minha direção. Nem acreditei. Eu iria tocar nele. E toquei. Uma mão áspera, de macho. Gente, adorei aquela mão.

- Er... o prazer é meu.

- Colegas - Dai pegou o celular. - Alguém está me ligando. Matheus fique à vontade. A copa é sua.

Óbvio que era uma ligação imaginária. De repente me vi sozinha na copa com o Matheus. Sem assunto nenhum e com as pernas bambas. Observei-o se servir de café enquanto eu permanecia muda.

- Que café delicioso.

- Fui que fiz.

Mentira. Eu só sabia beber o café que os outros faziam. Nunca fiz café na minha vida. 

- Parabéns. Nunca bebi um café tão gostoso.

- Pode vir aqui sempre que quiser - tentei me desinibir sem parecer que estava me oferecendo. - Só me avisa e eu preparo um café para você. Especial. Meu ramal é o 233.

Falei tudo de uma vez só. Me senti a louca carente desesperada por homens. Me arrependi na hora. Que vergonha, Meu Deus.

Matheus bebeu um gole do café e me encarou. Acho que nem ele acreditou no que tinha ouvido.

- Claro, com certeza. 233? Eu ligo.

Ele se serviu de mais café  e eu não conseguia afastar meus olhos daquele corpo lindo. Imaginei-o pelado em cima de mim e me subiu um calorão. Eu precisava me controlar. Fazia 5 meses que eu não transava. Talvez isto explicasse a carência e a vontade de transar ali naquela copa mesmo.

- Bem, muito obrigado. Preciso voltar para meu setor.

- Claro. Quer meu contato no Whats? - ofereci, desesperada.

                                                                               *

Cinco minutos depois eu estava sentada ao lado de Dai. 

- Você nem sabe o que eu fiz.

- Um boquete no Matheus lá na copa?

- Passei meu Whats pra ele.

Dai se virou bruscamente na cadeira giratória e ficou de frente para mim.

- Hein? Repete.

- Trocamos nossos celulares - cochichei, exultante.

- Puxa vida, você é rápida! Mas vamos ser práticas. Qual é o próximo passo agora?

- Ora. Vou esperar ele entrar em contato comigo. Já que ele é casado fica ruim ligar para ele. Vai que a mulher esteja por perto...

- Certo. Só não crie grandes expectativas. Boa sorte, Nanda. Porque talvez você vá precisar.

Bem, eu já me sentia a pessoa mais sortuda do mundo. O cara que eu estava afim me dava bola. Que dia glorioso aquele.

                                                                           *

Esperei, em vão, por uma semana para que Matheus me ligasse. Nada. Nem tive coragem de contar para Dai o silêncio por parte dele. Cheguei a subir no setor de Informática para ver se ele estava por lá. Estava. De papo com a Priscila, a secretária gostosa do chefão. Ambos tomavam café e comiam biscoitinhos. Havia uma intimidade, um clima, sorrisos e olhares. Me senti os 3 "F": furiosa, frustrada e fudida. Não podia ser verdade. A Dai também percebeu e comentou o assunto. Tentei fazer que não me importei. Porém, em menos de uma semana, a empresa toda comentava, pelos cantos, do caso de amor entre os dois. Era demais para que eu pudesse suportar sem reagir. E então resolvi me vingar.

Certa manhã passei na farmácia e comprei um laxante. Quando cheguei na empresa esperei que a tia da copa fizesse o café e colocasse nas garrafas térmicas. Não demorou muito liguei para o ramal dele. O próprio atendeu.

- Informática, bom dia.

- Oi, Matheus. É a Fernanda, Financeiro.

- Ah, oi, Fernanda. Algum problema com seu computador?

- Não, meu computador está ótimo. É que eu fiz um cafezinho delícia e gostaria de saber se você está a fim de tomar uma caneca comigo.

A Dai escutou a conversa e se virou para mim com os olhos arregalados. Ela me conhecia muito bem e sabia que eu estava aprontando.

- Bem... pode ser. Eu... vou descer agora.

- Faça isto.

Desliguei o telefone me sentindo diabólica. 

- O que é isto, Nanda? - Dai não aguentava de tanta curiosidade.

- Nada, amiga. É só um café.

Levantei e fui para a copa. Naquele dia eu tinha colocado uma saia mais curta e um decote mais generoso. Sim, estava um pouco piranha mesmo e já tinha ganho alguns olhares a mais. Inclusive do Pedro, o gato do Marketing e que eu já descobrira que estava solteiro. Não demorou muito o Matheus apareceu. Achei ele um pouco constrangido. Já chegou com a caneca na mão, contudo eu já o havia servido de café. Café com laxante.

- Muito obrigado - ele agradeceu quando eu estendi a xícara descartável para ele. Tomou um gole, lambeu os beiços e comentou. - Ótimo. Você quem fez?

- Claro.

- Está gostoso.

- Só faço coisas gostosas.

Matheus me encarou meio sem jeito e terminou o café quase de um gole só. Eu não esperava muita coisa daquele encontro na copa. Queria apenas que ele me olhasse e talvez dissesse o quanto eu estava bonita com aquela roupa. Mas ele não disse porra nenhuma. Atirou a xícara no lixo e fez um gesto com a cabeça.

- Muito obrigada, Fernanda.

- Nanda para os íntimos.

- Valeu, Fernanda.

Ele deu meia volta e foi embora. Me senti rejeitada, apesar da minha vingança até ali estar dando certo. Dai apareceu quase em seguida com a pulga atrás da orelha.

- Alguma coisa deu errado? Nanda, você sabe que ele está de rolo com a Priscila. Pra que insistir?

- Tudo bem, Dai. Meus planos são outros.

Dai deve ter reparado na minha cara de louca vingativa.

- Eu sei que você está maquinando alguma coisa.

- Aguarde.

Voltamos ao trabalho. E eu sentei, ansiosa, esperando a comédia começar.

                                                                      *

A notícia percorreu cada canto da empresa. O Matheus teve uma dor de barriga violenta e não chegou a tempo no banheiro. Se cagou ali mesmo no posto de trabalho na frente da Priscila que vomitou no cestinho de lixo. Dizem os colegas que o fedor se espraiou pelos corredores do quarto andar e todas as janelas foram abertas para dar conta.

Dai passou a tarde toda me encarando esperando que eu confessasse o crime. Me calei. Mais tarde o Pedro, do Marketing, me convidou para dar uma volta. 

E eu fui.

sábado, 25 de dezembro de 2021

FESTA DE CONFRATERNIZAÇÃO DA FIRMA

 


Festa de confraternização da firma. Odeio.

Amigo oculto. Alguém me ajude.

Eu trabalhava no Departamento Financeiro de uma grande empresa. Nós éramos cerca de vinte pessoas coabitando o mesmo local. Gente chata, metida e arrogante. Só me dava bem com a tia da limpeza.

Por mim podiam todos se explodir os 365 dias do ano.

Aí, a imbecil da secretária do Diretor inventou uma festa de confraternização de final do ano. Pensei seriamente em mandar todo mundo à puta que pariu e não participar. Para piorar a situação, a infeliz inventou de fazer um “amigo oculto” para incentivar a interação entre os colegas.

Sério. Eu não estava nem um pouco disposta a interagir com aquele povo. Mas não teve jeito. Sucumbi. Não fui forte o suficiente para bater pé e dizer que não queria participar daquela palhaçada. De repente, meu nome foi parar dentro de um saquinho cor-de-rosa junto com os nomes dos outros colegas. Cada um de nós enfiou a mão dentro do saquinho cheio de micróbios e pegou um papelzinho. Rezei para que eu pegasse meu próprio nome. Mas minhas preces não foram suficientes. Quando abri o papel, cheio de vírus e micróbios, me deparei com o nome do estagiário. Nada contra os estagiários, com exceção dos de lá que são completamente do mal.

A merda é que o estagiário em questão era o filho do Diretor.

Antônio, mais conhecido como Toninho. Um idiota. No seu primeiro dia de estágio colocaram o cara pra trabalhar comigo. Eu seria a supervisora dele. Não durou dois dias nossa convivência profissional. Vadio, debochado e burro, avisei para quem quisesse ouvir que era eu ou ele naquele Departamento. Achei que seria a grande chance de eu ir embora para outra área da empresa. Mas a solução que encontraram foi deslocá-lo para trabalhar com outro colega, igualmente vadio, debochado e burro. Se deram bem.

E então, em pleno final de ano, descobri que o Universo estava contra mim. O Toninho era o meu “amigo oculto”. Pensei em dar a ele uma coroa de flores e um plano com dez parcelas pagas no Jardim da Paz. Mas achei, também, que poderia ser presa por pensarem que eu estivesse planejando um possível homicídio. Desisti. Mas se ele caísse daquela moto trocentas cilindradas e se quebrasse inteiro eu até aplaudiria sentada na minha cadeira tomando meu chá de hortelã.

O presente que ele pediu até que não era nada demais. Uma agenda de uma marca famosa cheia de frescura. Mas, quando eu fui na loja comprar, descobri que a porra da agenda custava mais de R$ 300. Tive um surto psicótico, briguei com o vendedor (pedi desculpas depois roxa de vergonha) e comprei outra da mesma marca por R$ 50. E era isso. Não era do meu feitio gastar dinheiro com homem. E muito menos com um inútil de 20 anos que nem bater uma sabia fazer direito.

E chegou o grande dia. O dia da confraternização, da falsidade, dos sorrisos congelados e dos tapinhas nas costas. Menos eu porque não sou hipócrita. Permaneci com a mesma cara de bunda habitual. Mal provei os salgadinhos e os docinhos. Depois de fazer dieta o ano inteiro, não seria uma confraternização dos infernos que poria abaixo todo meu esforço. Meus colegas que engordassem. E implodissem de tanto comer.

Começou a entrega dos presentes. Cada um tinha que subir em um palco improvisado e falar sobre seu amigo oculto. Só falsidades. E o Toninho eu não via em lugar nenhum, o que era ótimo, pois isto dispensava o abraço fingido que eu teria que dar nele.

Porém... não chegava minha vez nunca. Cada amigo oculto revelado chamava o outro e assim por diante. Até que sobrei. Eu e o Toninho. Na ausência do imbecil, subi até o palco onde sem me estender, confirmei o que aquela altura todo mundo sabia. Quem recebeu o presente por ele foi o pai, meu Diretor. E foi o próprio quem fez o favor de me dar o presente que o Toninho havia comprado pra mim.

Bem, eu não pedi grandes coisas. Só um estojinho de maquiagem para disfarçar minha cara de cu toda vez que eu colocava os pés naquele lugar. E nem era caro. Só pelo formato da embalagem já vi que eu não ganhara o que pedira. Rasguei sem muito cuidado o papel que embrulhava e me deparei com cinco caixinhas de incenso.

Escutei um “oh” na sala. Não sei se era um “oh” de pena ou um “oh” tipo, “bah que presente original.”. Só sei que me possuí. Olhei em volta com os incensos na mão e perguntei em alto e bom som:

— Alguém interessado em defumar sua casa? Isto aqui não me serve nem para sentar em cima.

Silêncio. Meu chefe, pai do Toninho, pigarreou. Eu continuava possuída. Peguei de volta a agenda do Toninho que estava nas mãos do seu progenitor e devolvi os incensos.

— Diga para o Toninho enfiar onde ele achar mais gostoso.

Dei as costas, peguei minha bolsa e fui embora. No outro dia amanheci no RH da firma para pedir demissão antes que meu Diretor fosse mais rápido.

E fui feliz para sempre.


sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

A VIDA SABE SER CRUEL


Ele puxou o cabelo para trás e eu tremi. De tesão, paixão, amor. Era algum destes sentimentos ou todos misturados num bolo só. Fazia nem 10 minutos que eu o conhecera e já estava apaixonada. Será que era normal uma coisa destas? Se eu ainda fizesse terapia minha psicóloga diria que eu estava sofrendo de um surto de carência. Mais um.

Eu nem sabia o nome dele. Mas não precisava. Me perdi naqueles olhos negros e naquela pose autoconfiante. O jeito de ele andar me fascinou. Onde ele estaria durante todo aquele tempo? Por que a vida não o trouxe antes para mim.

Por que, meu Deus?

Sei lá, ele parecia ter uns 25 anos, 30 anos. Eu, quase 70. Resolvi ir embora. Levantei do banco da praça, me firmei na bengala e desapareci.

A vida sabe ser cruel.


domingo, 14 de novembro de 2021

A COISA

 



— Amor... Que barulho é este?

Álvaro levantou a cabeça perdido debaixo da camisola sexy da esposa. Não, ele não queria perder a concentração. Talvez fosse só o vento lá fora ao redor daquele chalé escondido na serra.

— Não é nada, benzinho. Relaxa.

Tatiane bem que tentou. Sentiu a língua do marido entre suas pernas e fechou os olhos. Ah, estava tão gostoso... Mas havia algo do lado de fora do chalé que não a deixava desfrutar daqueles momentos com Álvaro.

De repente, o ruído esquisito aumentou e cessou quase no mesmo instante. Tatiane sentou na cama, se desvencilhou do marido e apontou um dedo trêmulo para o lado de fora do chalé.

— Amor, tem alguma coisa rondando a casa.

Álvaro suspirou. Aquela viagem havia sido planejada há um mês. A vida atribulada dos dois, cheia de compromissos profissionais havia esfriado um pouco a relação. O final de semana na serra era muito esperado por ambos. E agora... um ruído qualquer, muito provável que fosse o vento, perturbava a esposa.

Será que Tati não queria transar e inventara uma desculpa ridícula daquelas?

— Tudo bem – Álvaro levantou de um salto. Iria resolver o problema, se é que havia algum, e voltaria para terminar o que tinha começado. — Eu não demoro.

O homem deu um rápido beijo em Tati e desapareceu porta afora. Ela se aconchegou no cobertor e esperou o marido, tensa. O coração, acelerado, não era por causa do sexo quente interrompido pelo meio.

Um grito, praticamente um urro, menos de um minuto depois, fez Tati se encolher. Ela olhou atarantada em direção à porta esperando que Álvaro voltasse.

Mas... o grito era dele!

— Álvaro!

Tatiane jogou o cobertor quentinho para o lado e saiu da cama sem se lembrar de pegar um agasalho. De camisola, sentiu o vento rodopiar ao seu redor enquanto atravessava a sala. O silêncio dominava o lugar.

— Álvaro – gritou ela de novo. Não houve resposta.

O coração de Tati apertou. Talvez fosse uma brincadeira dele. O marido era de pregar peças, dar sustos, coisinhas que a irritavam muito. Por alguns instantes ela se convenceu que era aquilo mesmo. Mais uma brincadeira infeliz de Álvaro.

Tati abriu a porta do chalé. O vento a atingiu em cheio, frio, porém ela não deu muita importância.

— Amor! Onde você está?

Nenhuma resposta. Tati, apesar do frio que congelava sua pele, atravessou a varanda. O chalé ficava no meio do nada, alugado para justamente o casal passar momentos íntimos e privados. Agora, contudo, Tatiane se sentia arrependida de não haver nenhum vizinho por perto. Com as pernas trêmulas, de frio e medo, ela deu a volta na casa, sentindo a relva úmida lhe gelar os pés. O vento fazia barulho e aquilo a irritava. Os nervos começavam a ficar a flor da pele. Um barulho no bosque ao redor lhe arrepiou os cabelos. O mesmo som. Passos. Um uivo. Não era... humano.

Ela pensou seriamente em voltar para casa, pegar o celular e tentar chamar a polícia. Depois lembrou que não havia sinal naquele maldito lugar e, se Álvaro não aparecesse, significava que ela estava completamente sozinha. Mesmo assim, Tati foi parar na piscina, atrás da casa.

E deu um grito que ecoou pelo espaço.

 

*

 

O corpo de Álvaro boiava na piscina. A água, escura pelo sangue. O pescoço do homem estava aberto e seus olhos, arregalados, fitavam o céu estrelado. As pernas de Tati dobraram e ela quase caiu. Contudo, não teve tempo de sequer de desmaiar ou chorar sua dor. O som dos passos e galhos quebrando aumentou de forma considerável.

A única alternativa possível era fugir. E foi o que ela fez. Tati deu meia volta e correu até o portão. Dali eram cinco quilômetros por uma estradinha de terra até chegar a uma rodovia. Depois mais quinze minutos de carro até a cidade mais próxima. Ou seja, Tati sabia estar em maus lençóis. Abriu o portão com um puxão e machucou as mãos. Nem se deu conta que os dedos sangravam. A estradinha estava mal iluminada pelas estrelas, agora encobertas por uma nuvem infeliz. Não tinha coragem de olhar para trás. Passos pesados a alguma distância eram possíveis ouvir. Tati corria o mais que podia, contudo sabia ser um alvo fácil. A coisa que assassinara seu marido parecia estar prestes a terminar o serviço com ela própria. Restou entrar bosque adentro, se embrenhar pelo meio da mata para, quem sabe, despistar a coisa.

Sim, porque não era humano quem quase decapitou Álvaro. Só podia ser um monstro que já tinha escolhido quem seria sua próxima vítima.

Porém, entrar no bosque para se esconder da coisa logo não se mostrou uma ideia tão boa assim. Aliás, para aquele caso não existiam boas soluções. Enquanto corria, atarantada, com galhos batendo no rosto e tropeçando nas raízes das árvores imensas, Tatiane se deu conta que a coisa deveria muito bem conhecer todos aqueles caminhos, trilhas e esconderijos dali. Portanto, não adiantaria de nada se embrenhar pela mata escura. A coisa logo a encontraria. Tati continuou correndo, caindo e se levantando. Decidiu que lutaria até o fim pela sua sobrevivência. Era isso que Álvaro esperava dela.

Os passos atrás de Tati aumentaram de intensidade. Um ronco, uma coisa bufando, não parecia estar tão distante assim. Cada passo seu era um castigo para os pés nus. Galhos quebravam próximo dela, a respiração era forte daquilo que a perseguia. Tati já não tinha força para gritar (não adiantaria nada, ela sabia), e o ar lhe faltava. Cada vez que se enfiava mata adentro sabia que suas chances de sair viva diminuíam. Mas qual a alternativa? Parar? Esperar a coisa lhe comer viva?

Não. Apesar das dores nos pés, do rosto arranhado pelos galhos e do peito arfante, Tati seguiu correndo como se tivesse asas nos pés. Até que tropeçou numa raiz grossa e caiu no chão, rolando duas vezes.

Não teve tempo de sentir mais dor. Mas, sem conseguir ficar de pé, ligeiramente estonteada, Tati andou de quatro por alguns metros. Não tinha forças para levantar. A coisa se aproximou a ponto de ela sentir um hálito quente bem perto da sua orelha.

O pânico se instalou de vez. Tati se voltou bruscamente e com os olhos e o punho da mão fechados, acertou alguma coisa, algo duro que, em seguida, tombou. Tati abriu os olhos, já recuando, sentada no chão. Um homem de cabelos louros, aparência simples e jovem, a encarava com os olhos arregalados, massageando a testa machucada.

— Quem é você? – finalmente Tati conseguiu articular as palavras. — Foi você quem matou meu marido?

O cara ficou de pé. Era franzino e com ar perdido. Não teria força para dar um empurrão em Álvaro, que havia sido um homem forte. Não. Definitivamente, aquele rapaz não era a coisa.

Ou era?

— Venha, moça – ele estendeu uma das mãos calejada pelo trabalho duro. O som dos passos trepidantes havia passado. O bosque, então, mergulhara num estranho silêncio. — Venha comigo. Prometo que estará a salvo a partir de agora.

... CONTINUA...


sábado, 6 de novembro de 2021

JUVENAL, O GATO






Dia de sol, brisa fresca. Preguiça. Tédio. Bocejos. Juvenal me olhou com cara de enfado quando peguei a coleirinha azul e balancei na frente dele.

— Chega de palhaçada, Juve. Vamos passear, você precisa emagrecer.

O olhar do meu gato fez com que eu me sentisse um humano inferior. Não que isto me chocasse. Na verdade, eu já estava bem acostumado com aquele ar de superioridade do Juvenal. Típico.

Coloquei, meio que à força, a coleira no pescoço do meu gato preto e rebelde, e abri a porta de casa. Seria só um passeiozinho. Não entendi porque o Juvenal mordeu minha canela quando eu o coloquei no chão do jardim. 

Juvenal sempre foi temperamental.

Começamos nossa lenta caminhada a lugar nenhum. Não havia ninguém na rua ou algum cachorro que pudesse desafiar o Juve. Quer dizer, se algum cachorro ousasse avançar no meu gato, o resultado seriam arranhões e rosnados. Muito corajoso o Juvenal. Eu, nem tanto.

Eis que lá na esquina dobrou ela. A Grazi. A garota mais bonita da rua. A mina que eu era apaixonado platonicamente desde a minha adolescência. Óbvio que a Grazi nunca olhou para a minha cara. Bem, isso nunca me impediu de flertar com minha musa, ainda que o flerte fosse unilateral. De qualquer forma, o sangue correu mais rápido pelas minhas veias quando me deparei com a Grazi vindo pela rua com aquela microssaia jeans e blusinha de alcinha. O cabelo loiro descia ondulado pelas costas e, puxa... Grazi estava linda.

Ela não me viu. Pousou os olhos no felino e soltou uma exclamação de prazer. Um gato! Se havia algum humano por ali, juro que Grazi sequer reparou. Ela se aproximou, quase saltitante, e se agachou praticamente aos meus pés. Soltou um "boa tarde, coisinha mimosa" ainda sem olhar para mim, encantada com o Juvenal.

Meu gato tinha bom gosto. Puxou ao papai. Quando sentiu as mãos macias dela percorrendo o seu pelo negro, se atirou no chão de barriga pra cima e soltou um miado. Morri de inveja do Juve. Eu queria falar alguma coisa mas, simplesmente, não tinha assunto. Mas o Juvenal tinha, miando para Grazi, aparentemente, encantado.

— Quanta carência! - exclamou ela.

— Ah, estou carente mesmo - concluí, feliz por, enfim, conseguir entabular um papo.

Grazi voltou seus lindos olhos verdes para mim. 

— Estou falando do gatinho.

Devo ter ficado vermelho.

— Exatamente. Ele é muito carente. 

— Ah... - fez Grazi e voltou seus olhos e sua atenção para o Juvenal.

— Você tem gatos? - perguntei, desesperado para falar alguma coisa útil. 

— Aham - a resposta saiu solta. O Juvenal era o centro das atenções. Eu era um mero humano sem graça, quase invisível.

— Qual seu nome? - ela perguntou.

Finalmente.

— Eduardo.

Ela olhou de novo para mim e ficou em pé.

— O nome do gato é Eduardo?

Talvez ainda eu estivesse vermelho do mico anterior.

— Você também pode chamá-lo de Dudu.

— Certo. Belo nome. 

Ela olhou para baixo, se agachou e fez mais um carinho na cabecinha feliz do... Eduardo.

— Até outra hora, gatinho lindo - Grazi então me olhou, fez um sinal com a cabeça e foi embora.

Eu fiquei no mesmo lugar pensando se deveria chegar em casa e anunciar para minha família que a partir daquele meu momento meu nome passava a ser Juvenal.

Mas podem me chamar de Ju. Fica mais carinhoso.


 

domingo, 31 de outubro de 2021

A ILUDIDA

 



Pobre da mocinha, tão iludida.

Só porque o cara visualizava todos os seus stories, ela achava que o bonito estava apaixonado.

A bobinha já sonhava com um encontro, namoro, Natal em família e casamento.

Tudo tão bonito.

Ah tá, a iludida era eu mesma.

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

PARA O DIA NASCER FELIZ



SEJA SEU MELHOR AMIGO

CONECTE-SE COM O UNIVERSO TODOS OS DIAS

DIGA PARA SI MESMO QUE TUDO É POSSÍVEL

E QUE AS AMARRAS QUE LHE TRAVAM SÓ EXISTEM NA SUA MENTE

MELHORE SUA POSTURA E OLHE SEMPRE PARA FRENTE

O HORIZONTE É O CAMINHO A SER SEGUIDO

E ELE PODE ESTAR MAIS PERTO DO QUE VOCÊ IMAGINA

O CÉU É O LIMITE?

MAS VOCÊ PODE MUITO MAIS

VOE COM AS ÁGUIAS

MANTENHA-SE FOCADO

A VIDA PASSA RÁPIDO

E O MEDO É APENAS UMA SENSAÇÃO

quarta-feira, 21 de abril de 2021

MELHORES AMIGAS

 


Não que eu me importasse muito.

Ok, eu me importava sim. Na verdade, aquilo estava me consumindo por dentro. Ela era amiga de todo mundo. Menos de mim.

Quando Giovana entrou na escola quase na metade do ano letivo, ela logo chamou atenção dos meus colegas. Pudera. Giovana era linda. Pele bronzeada, cabelos muito louros. Simpática, comunicativa. No início, algumas meninas ficaram com inveja. Não demorou muito. Logo Gio conquistou a todos com seu carisma. Eu fiquei de fora. Eu, a excluída. Giovana não se dava nem ao trabalho de olhar para a minha cara. Credo, eu nem era tão feia assim. Só um pouco... estranha.

Mas, logo que ela entrou para a escola, eu, muito tolinha, achei que ela seria minha amiga. Minha melhor amiga. Havia um lugar vago ao meu lado (ninguém queria sentar comigo) e Giovana sentou ali. Tentei puxar conversa com ela, ansiosa em agradar. Naquele primeiro dia, meio perdida ainda, Giovana até me deu atenção. Me senti o máximo quando fomos à cantina juntas, no intervalo. Bem, não me importei muito quando percebi que tudo o que eu falava Giovana parecia não escutar. Tudo bem. Ela estava comigo e meus outros colegas estavam vendo que Giovana era minha amiga. Apesar de ela não parecer tão à vontade andando ao meu lado, pensei que fosse por ser seu primeiro dia. Voltei para casa contente. Fiz até um bolo de cenoura com cobertura de chocolate para presenteá-la no dia seguinte.

O dia seguinte chegou e com ele todas as decepções possíveis. Giovana rapidamente fez novas amizades e foi sentar do outro lado da sala. Comi a fatia do bolo no intervalo, sentada num canto do pátio. Engoli o bolo e minha frustração. Eu já devia esperar que aquilo fosse acontecer.

Os dias e as semanas passaram. Giovana nunca mais olhou para minha cara. Nem para me cumprimentar. Da mágoa, eu passei para a raiva e o rancor. Por que ela não podia ser minha amiga? O que ela tinha a mais que eu? Beleza? Simpatia? A vontade que eu tinha era de atirar uma pedra bem no meio daquele rosto de boneca e deixá-la tão feia quanto uma bruxa. Nossa, se minha mãe soubesse nas maldades que me vinham à mente, certo que iria me levar a um psiquiatra.

A gota d’água aconteceu durante a aula de Educação Física. Sempre odiei. A professora inventou um jogo de vôlei e cheguei a sentir um frio na barriga. Eu era péssima em esportes. Não queria jogar. Os times começaram a ser escolhidos e... adivinhem. Ninguém me queria. A professora me colocou, na marra, no time da Giovana. Ela era a capitã e fez cara feia quando me viu na sua equipe. Aquilo me doeu. Depois da dor, veio a raiva. Tentei me controlar. Ia ficar chato se eu perdesse a razão.

Só sei que dei azar e errei três bolas seguidas. Que fiasco. Na quarta vez quando me preparei, desajeitada, para receber a bola com uma manchete, levei um empurrão da Giovana e caí sentada na quadra, ralando as mãos no chão. O jogo continuou. Ninguém se importou comigo e nem devem ter se dado conta quando levantei, possuída pelo capeta.

Toda a fúria que eu acumulei durante aqueles meses subiu pelo meu peito, incontrolável. Bem, talvez eu não estivesse a fim de me controlar. Me aproximei a passos firmes da Giovana. Alguém a alertou e quando a cretina se voltou encontrou minha mão cerrada bem no meio daquele nariz perfeito.

Peguei sete dias de suspensão e um convite para procurar outra escola. Meus pais ficaram loucos. Eu vibrei. Soube, mais tarde, que o nariz de Giovana ficou levemente torto. Parece que um ou dois dentes ficaram prejudicados também.

Eu só queria que ela fosse minha amiga.




segunda-feira, 19 de abril de 2021

MELÂNIA NÃO ERA DO TIPO QUE DESISTIA


Ele sempre passava no mesmo horário. Cinco horas da tarde. Todos os dias, Melânia colocava seu melhor vestido, prendia o cabelo vermelho de um jeito diferente, passava perfume. Quinze minutos antes de ele apontar na esquina, a jovem de 16 anos se postava na janela, esperançosa, sorridente, altiva. 

Mas quem era "ele"? Domênico. Alto, magro, barba bem feita, elegante. Advogado recém formado, 25 anos. Um bom partido, como já dissera o pai de Melânia. As menininhas da cidade ficavam faceiras e se cutucando quando Domênico surgia na calçada. Com Melânia não era diferente. Sonhava com ele todas as noites e de dia também. Não contara a nenhuma das suas amigas o quanto desejava Domênico. Afinal, parecia que Domênico habitava o coração de todas elas. E mais: o bonitão também chamava atenção das mulheres mais velhas.

E naquela tarde de sol, Domênico dobrou a esquina com seu passo firme, a expressão do rosto suave e tranquila. Cumprimentou os passantes que faziam questão de lhe dar uma palavrinha. Melânia se aprumou na janela, ensaiou o melhor sorriso, Domênico já vinha chegando. Ah, se ele a olhasse nem que fosse uma vez... Não que se contentasse com pouco, mas poderia ser o início de um grande amor, uma linda história.

Melânia ficou com o sorriso congelado no rosto bonito quando Domênico passou sob sua janela sem sequer se dar ao trabalho de olhar para o lado. O coração da moça se quebrou, mas ela não podia se dar ao luxo de mostrar sua decepção. Na calçada da frente, Dona Chica, a florista, observava-a com atenção. Ah, não, pensou Melânia, preocupada. Esta velha fofoqueira não pode perceber o tamanho do meu desencanto. 

Então, Melânia forçou mais ainda o sorriso e abanou freneticamente para Dona Chica. Sim, tudo estava bem naquela tarde ensolarada de outono. Domênico já ia longe, despreocupado, sem jamais saber que para trás deixara uma menina apaixonada com lágrimas aprisionadas. 

Mas Melânia não era do tipo que desistia. 

Um dia de cada vez.