domingo, 15 de dezembro de 2024

NOITES ENCANTADAS - CAPITULO 2

 



一 Ah, não acredito!

Toda a sua frustração se resumiu naquela frase proferida com irritação. Envergonhada por turistas e clientes testemunharem o destempero e a falta de profissionalismo de Serena, Keila deu-lhe um cutucão.

一 Vamos voltar à realidade? Serena, o que está se passando?

Sem falar nada, Serena abandonou o estande e os trabalhos. Ignorou os chamados frenéticos de Keila e correu para a calçada. Entre aquele mar de gente que tomava conta do lugar, Serena não conseguiu mais visualizar o desconhecido. O falatório e as risadas dos turistas a irritaram. Os altos-falantes instalados nos postes da avenida brindavam as pessoas com doces canções natalinas. Mas ela nada ouvia. Caminhou alguns passos, mas dele nem sinal. Sua tensão foi aumentando à medida que abria caminho sem muita educação, empurrando as pessoas, agoniada. Por duas quadras Serena seguiu, ora caminhando, ora correndo, e chegou mesmo a subir em um banco na afobada tentativa de encontrá-lo.

Mas o homem, simplesmente, desaparecera.


*


Toda aquela busca frenética durou em torno de trinta minutos. Quando finalmente caiu em si, que não o veria mais pelo menos naquela noite, Serena decidiu voltar ao estande. Se dirigiu para lá, sem pressa e desolada, sabendo que Keila era capaz de dar conta do trabalho. Porém, sua tensão aumentou de forma considerável quando, ao chegar mais perto, se deparou com a dona da loja de artesanato auxiliando no atendimento. Naquele exato momento, Serena percebeu que estava bem encrencada.

一 Boa noite.

Foi a única coisa que Serena foi capaz de balbuciar ao ver a expressão séria da sua chefe.

一 Senta aí ー ordenou ela com a voz gélida, apontando com a cabeça um banquinho de madeira. 一 Já vamos conversar.

Serena sentou, ereta. Keila também a encarou, mal-humorada, mas sem dizer nada. O movimento continuava intenso. Serena respirou fundo.

一 Precisam de ajuda?

一 Não.

Cruzes, pensou Serena, se encolhendo no banco e esperando o pior. Talvez tivesse exagerado. Dali onde estava, voltou sua cabeça para trás e depois para os lados. Ele podia estar ali por perto, nas imediações. 

Nada.

一 Você está demitida, Serena.

Com a atenção voltada para quem circulava pela feira, a jovem se voltou para  a chefe, perplexa. Keila observava a cena com o canto dos olhos.

一 Eu posso explicar tudo 一 Serena tentou argumentar, sentindo um bolo de agonia subir-lhe pela garganta, quase a sufocando.

一 Que explicação, Serena? ー a mulher bufava. 一 Você deixou Keila na mão numa das noites mais movimentadas da temporada.

一 Dor de barriga. Sabe o que é isso? ー Serena mentiu, descaradamente. 一 Tive que procurar um banheiro.

一 Não minta de novo para mim. Não é a primeira vez que você apronta. Sua vida aqui se resume a atrasos, desculpas para sair mais cedo, e uma eterna falta de disposição. Enfim, para mim basta. Meu contador irá procurar você amanhã. Todos os seus direitos serão pagos. Está dispensada.

Serena levantou do banquinho, as pernas fracas.

一 Des… desculpe, chefe. Desculpe, Keila.

A mulher fez um gesto para que Serena fosse embora de uma vez.

一 Não se joga um emprego fora. No próximo seja responsável. Você não é mais nenhuma adolescente. Já tem 23 anos. Boa sorte.

Serena ficou sem saber o que fazer, parada e deslocada no estande, observando Keila atender aos turistas. Depois, lentamente, se virou, pegou a bolsa e foi embora. Pensou em ir para casa direto e afogar suas mágoas num cálice de vinho. Contudo, tomou o rumo da Ouro Negro, a chocolataria mais famosa da cidade e onde sua mãe trabalhava. Precisava desabafar com alguém seu consternamento.


sábado, 14 de dezembro de 2024

NOITES ENCANTADAS - CAPÍTULO 1




PRÓLOGO


Monte Noel é uma cidade encantadora encravada em meio a morros na serra gaúcha. É lá que acontecem, anualmente, na época do Natal, festas natalinas em que turistas e moradores participam e se encantam com os eventos.

É nesse lindo lugar que vive Serena, uma jovem de 23 anos que batalha

para encontrar seu lugar ao sol. De origem humilde, Serena vai levando sua vida com muitos sonhos ao lado da mãe, Sueli.

Mas tudo muda radicalmente no dia em que um desconhecido aparece em um evento de Natal em que ela está trabalhando. A partir disso, Serena se vê envolvida em encantos, paixões, frustrações e sonhos de viver um grande amor.

Quem será o homem que tocou o coração de Serena naquela noite encantada em Monte Noel?

Um Presente de Natal para Serena é uma história feita para todos que desejam viver um amor daqueles de cinema.

CAPÍTULO 1


Monte Noel - Final do mês de outubro.


A noite ia longe. Com a proximidade do Natal, turistas estavam por todos os cantos da cidade, ansiosos para desfrutar e viver a magia natalina, ávidos pelas apresentações, eventos e desfiles temáticos. A Feira de Natal, um dos pontos altos da época, se desenrolava na avenida principal por uma quadra inteira. O burburinho das pessoas e toda aquela movimentação garantia o sustento de muita gente. Inclusive para a jovem Serena, posicionada atrás de um balcão armado um pouco precariamente. O estande vendia artesanato natalino mais sofisticado, se diferenciando um pouco das demais bancas.

一 O movimento hoje está incrível ㅡ comentou Keila pegando uma garrafinha de água para beber. 

Serena consultou o relógio. Eram apenas oito horas da noite. Tinham pelo menos mais duas horas de trabalho pela frente

一 Estou cansada de sorrir. ㅡ A garota sentou num banquinho, aproveitando que naquele momento nenhum cliente deslumbrado precisava da sua atenção. 一 Hoje vou chegar em casa e cair dura na cama.

一 Calma, amiga. A função recém está começando. Temos quase dois meses pela frente.

一 Não sei se vou suportar e…

Os olhos de Serena foram atraídos para a calçada. Em meio a tanta gente desconhecida, um homem alto, vestindo calça jeans e camiseta branca, vinha caminhando lentamente, cabeça baixa, de olho no celular. Não parecia um turista, embora nunca o tivesse visto em Monte Noel.

一 Keila, olha ali ㅡ balbuciou Serena.

Preocupada em atender um cliente que chegara naquele momento, Keila não prestou atenção na amiga. Mas se tivesse feito isso, se surpreenderia ao ver Serena completamente hipnotizada, os olhos cravados em algo, esquecida do resto do mundo.

一 Serena, chegou mais gente aqui no estande. Serena?

No entanto, ela não escutava mais nada. Afinal de contas, quem era aquele cara? De repente, o homem parou de caminhar. Parecia distante e distraído, com os olhos no telefone, não percebendo a atenção que chamava não apenas de Serena, mas de outras mulheres que circulavam por ali. Repentinamente, ele levantou a cabeça e olhou na direção dela. Quase sem respirar ante o contato visual que se seguiu, Serena chegou a ensaiar um sorriso. Meu Deus, quem era ele? Qual o seu nome?, teve vontade de gritar. Um puxão na manga da camisa fez com que voltasse ao mundo real. Keila a observava sem entender coisa alguma.

一 Você pode atender a cliente que chegou, por gentileza?

一 Oi?

Uma senhora segurava um dos enfeites natalinos aguardando o atendimento, com certa impaciência.

一 Er… você vai levar? Cartão ou Pix?

一 Gostaria de saber o valor ー devolveu a mulher não muito simpática.

Ainda atordoada, Serena perguntou:

一 Valor?

Keila revirou os olhos, aborrecida.

一 Você está bem?

一 Sabe o que é… ー Serena não aguentou mais e olhou de novo para a calçada. 

O desconhecido já havia ido embora.


 

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sábado, 7 de dezembro de 2024

VICKI VIDA LOKA - CAP. 3 - O CARA MAIS BONITO DA ESCOLA




Meu olhar cruzou com o dele durante a mesma insuportável aula de Filosofia, quando eu tentava, de forma heroica, manter meus olhos abertos. Para disfarçar um bocejo de grandes proporções, virei para trás fingindo que pegaria algo na mochila pendurada na cadeira.

Meu bocejo ficou pela metade.

Na minha diagonal, duas fileiras atrás, me deparei com o ser mais belo do planeta. Surfista. Pele bronzeada. Cabelos loiros. Músculos na medida certa.

Nossos olhos se cruzaram por exatos dois segundos, os mais longos da minha vida e que não causaram efeito nenhum a ele. Tudo bem, já estava acostumada. Meu tipo de beleza não é suficientemente forte para provocar amores à primeira vista. A partir daí, tudo se apagou da minha mente. Quem era ele? A aula acabou, o sinal para o intervalo tocou e eu estava em surto.

Depois de dois períodos de Filosofia, eu precisava desesperadamente de ar puro e descobrir quem era o cara. Vi quando ele saiu da sala acompanhado de outros meninos sem nem se dar ao trabalho de olhar para o meu lado. Normal. Somente a Jéssica poderia me salvar.

— Quem é?

— Quem é o quê?

— O surfista.

— Dudu?

— Você está me perguntando ou afirmando?

— Só pode ser ele. É o único surfista da sala.

— Dudu? – fiquei saboreando as sílabas. Dudu. Eduardo. Eduardo & Victória. Vicki & Dudu. Que lindo...

— Você também?

— Eu o quê?

— Apaixonadinha?

— Eu? Só achei o cara interessante. A propósito, ele tem namorada?

— Ah, ele fica com várias. Só não ficou comigo porque eu não faço o tipo dele. Mas não namora ninguém. Só quer curtir.

— Ótimo. Então eu tenho chances.

Não levou cinco minutos e eu já estava com Jéssica na arquibancada assistindo o Dudu mostrar sua habilidade no futebol. Eu não estava sozinha. Todas as garotas da escola estavam ali, sem sequer piscar para não perder um único lance. Dudu, meu futuro namorado, sabia ser uma estrela. Perdoei o fato de ele ser um baita exibido. Cada gesto seu era triunfal e exagerado para chamar ainda mais atenção das gurias.

Eu não conseguia tirar os olhos dele.

— Tá vendo aquela morena lá do outro lado?

Foi um sacrifício eu ter que desviar o olhar para onde Jéssica apontava. Tive o desprazer de topar com uma morena peituda, bundão e coxa grossa literalmente grudada na cerca que separava a quadra da arquibancada. Se eu tivesse uma palavra para descrevê-la, seria uma com cinco letras:

VADIA. Em negrito e caps lock.

— O que tem?

— É a ficante mais frequente dele.

Eu teria trabalho. Mas estava gostando daquilo.

— Susi.

— É o nome dela?

— Aham.

Anotei no meu caderninho mental. Vamos em frente.


segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

VICKI VIDA LOKA - CAP. 2 - PRIMEIRO DIA NA ESCOLA

 




A escola não fica muito longe de casa, mas meu pai fez questão de me prestar um apoio moral.

Ganhei uma carona.

Implorei, pelo amor de Deus, que ele me deixasse na esquina. Eu não podia passar a impressão, já no primeiro dia de aula, que eu era uma patricinha estilo Gabi, minha irmã. Eu caprichei no visual. Mechas laranja no cabelo, calça capri larga e regata de uma banda de rock. Me senti uma superstar quando me aproximei da escola enfrentando as dezenas de olhares dos meus novos colegas.

Para disfarçar a tensão e porque eu simplesmente não sabia onde me enfiar, peguei o celular e resolvi fingir que estava no WhatsApp. Sentei na ponta de um banco tentando passar a imagem que pouco me importava com aquela situação, todo mundo com sua turminha e eu, a isolada.

Então a sirene tocou. Me arrastei atrás dos meus colegas, a mochila pendurada, displicente, no ombro. Tudo para passar a imagem de “garota descolada”. Uma gota de suor escorreu pelas minhas costas. Alguém pode me abduzir? Não me sentia nem um pouco preparada para lidar com aquele monte de caras novas. Na minha outra escola eu tinha status. Status pop. Agora, graças aos meus queridos pais, teria que começar do zero.

Parei em frente à sala 211 e olhei para dentro. O pessoal já estava sentado, rindo e conversando, gente bronzeada e bonita. E eu ali, sem nem saber onde ia sentar.

Mal tive tempo para me desesperar. Uma menina de óculos não parava de me encarar. No início achei que ela queria briga. Mas não. Ela fez um sinal com os olhos indicando que o lugar ao seu lado estava vago. Não havia escolha. Entrei dura na sala sem olhar para ninguém e escorreguei na cadeira, na terceira fileira de uma sala com cerca de trinta alunos.

Olhei para minha colega. Ela parecia ansiosa em fazer amizade.

— Oi, meu nome é Jéssica!

Me surpreendi com a animação.

— Ah, eu sou a Victória. Mas me chama de Vicki, tudo bem? É assim que sou conhecida pela geral.

— É seu primeiro dia hoje?

— Sim. – não consegui disfarçar meu desgosto. — Rodei de ano e meus pais resolveram me trocar de escola. Respirar novos ares, sabe? Sempre é bom.

— Você vai gostar daqui.

A Jéssica parecia ser legal, pois era louvável o esforço que fazia para me deixar à vontade. Minha cara de bunda devia estar nítida. Pelo menos minha colega não criticou meu estilo e meu cabelo laranja.

— Adorei a cor dos seus cabelos!

Pronto. Melhores amigas. Me entusiasmei.

— Jura? Quer igual?

— Uau! Eu quero sim!

— Legal. Vou te ensinar. Você primeiro tem que…

— Bom dia, turma!

Jesus–Maria–José, o que era aquilo? Uma maluca entrou super empolgada na sala de aula perdendo pastas pelo meio do caminho e tentando mostrar que era uma profe descontraída. Não deu certo. Carisma zero. Todos se calaram encarando a criatura.

— Olá, pessoas! Sou a professora Ivonete e darei aula de Filosofia para vocês!

Odeio Filosofia e já estava odiando a professora também.

— Humm... Vejo carinhas novas por aqui. Vamos nos apresentar, gente?

NÃO!

— Você. – enxerguei um dedo comprido com uma unha estupidamente vermelha-brilhante apontando para mim. — Aluna nova, não? Apresente-se para seus colegas!

Quase senti os tambores rufando. Outra vez dezenas de olhos grudados em mim. Não havia me preparado para aquilo. Não tinha ensaiado nenhuma gracinha para descontrair meus colegas. Respirei fundo e comecei olhando fixo para frente:

— Bem, eu… Meu nome é…

— Venha aqui para frente. Todos querem lhe conhecer.

Não vou ficar vermelha, disse para mim mesma, enquanto me levantava amaldiçoando aquela infeliz. Parei ao lado dela e encarei a turma.

— Meu nome é Victória e…

Ivonete me interrompeu:

— Por que você decidiu estudar aqui?

— Eu não decido nada. Quem decidiu foram meus pais depois que fui reprovada.

Algumas risadinhas. Ponto para mim. A maluca ficou sem graça.

— Espero que você tenha melhores resultados este ano. O que acha do estudo da Filosofia?

Meu Deus! Oi? Sinceridade?

— Inútil.

Desta vez todo mundo riu. Para disfarçar o mal-estar, Ivonete encerrou minha apresentação e apontou para outro coitado que tomou o lugar lá na frente. Ganhei a implicância da professora.

Um bom começo.


... Continua...

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