quinta-feira, 17 de março de 2016

A NOIVA MORTA - 3ª parte





Getúlio foi obrigado a rir ante os preparativos do primo. Um pouco antes das oito horas da noite ele já estava pronto para sair. Lavou o cabelo, pegou emprestado o perfume caro de Getúlio e até vestiu a calça nova comprada na loja da Clotilde poucas horas antes. Ao contrário do dia anterior, a noite estava agradável e estrelada. Perfeita para um encontro como ele mesmo fizera questão de frisar.

— E se ela não estiver lá? ─ perguntou Getúlio, meio que surpreso com o empenho de Josué em ir atrás da moça desconhecida.
— Se não estiver hoje, pode ser que amanhã ela venha. Ou depois — Josué estava bastante empolgado. — Quero saber quem deixou uma dama daquelas esperando sob chuva e frio. Aquilo não se faz.
— Bem, boa sorte.
— Obrigado ─ disse ele dando o retoque final no cabelo. — Se eu demorar você saberá o motivo.

Josué saiu em seguida e tomou o rumo da praça. Seus passos eram nervosos e apressados. Ainda não sabia bem o que dizer se ela estivesse lá. Geralmente desinibido no trato com as mulheres, daquela vez Josué se sentia tímido. Mesmo assim isto não foi o bastante para desanimá-lo. Seguiu firme e forte, sentindo as mãos frias dentro do bolso. Seu empenho foi recompensado. Assim que dobrou a esquina, deparou-se com a visão da jovem sentada no mesmo banco, exatamente como a noite passada. Josué parou, respirou fundo e tomou a direção dela. A ansiedade aumentou à medida que se aproximava. Não havia ninguém na praça quando ele parou ao lado da moça.

A jovem olhava para algum ponto indefinido a sua frente, as mãos cruzadas no colo sobre o vestido branco. Os cabelos louros estavam cobertos por uma espécie de véu. Apesar do ventinho frio, aquilo não parecia lhe afetar.

— Boa noite, moça.

Ela não respondeu imediatamente e Josué chegou a se perguntar se seria surda. Aos poucos, porém, voltou seus olhos para cima e fitou Josué. Assim, tão de perto, a moça era ainda mais linda.

— Boa noite ─ repetiu ele.
— Boa noite ─ ela disse com a voz quase sussurrada.

Estranho aquilo, disse Josué para si mesmo. Algo não estava certo ali.

— Você… você está sozinha?

Ela voltou a olhar para frente e balançou a cabeça fazendo que sim.

— Qual seu nome? O meu é Josué. Muito prazer.

Nada. Sem resposta, Josué se sentiu um bobo. Ele tentou novamente:

— Qual seu nome?

Silêncio. Um vento mais geladinho começou a soprar e o rapaz aconchegou-se no seu casaco. O vestido dela era fino, mas mesmo assim a garota não dava sinais de que passava frio. Criatura estranha aquela!

— Por que você está sozinha? Desde ontem eu a vejo aqui. Está esperando alguém?

A moça o olhou mais demoradamente desta vez. Murmurou depois de alguns segundos:

— Eu preciso ir para casa.
— Bem, eu posso levar você. Permite?

Ela não respondeu e se levantou, parando ao lado de Josué.

— Você é daqui da cidade? Onde você mora?

A moça apontou para frente e Josué entendeu que aquela era a direção para onde ambos deveriam se dirigir. Ao lado dela, o homem acompanhou os seus passos suaves e silenciosos. A moça era tão graciosa que parecia deslizar. Era uma lástima que não fosse de muita conversa.

— De onde você vem? ─ insistiu Josué, ansioso para travar uma conversa.

Pelo visto a moça não estava nem um pouco disposta a bater papo. Josué, desconcertado, iniciou um monólogo incessante. Não sabia sequer se a moça estava ouvindo alguma coisa. Ela permanecia ao seu lado, olhando para frente, parecendo alheia a todo o resto. O próprio Josué se sentia um tolo.

A jovem tomou um rumo um pouco desconhecido para Josué. Depois de um tempo, ambos pegaram um caminho que se afastava da parte central da cidade. Um pouco temeroso, Josué olhou ao redor. Não estava gostando muito daquele novo trajeto.

— Você mora para estes lados?

Subitamente ela parou. A rua não era muito clara. Faltavam postes de iluminação por ali. Sem falar nada, a moça apontou para um local atrás de dele. Josué, a princípio, não entendeu. Havia dois portões de ferro enferrujados e muitas árvores mais para o fundo. Não parecia ser um local de moradia.

— Aqui? Você mora aqui?

Intrigado, Josué foi até os portões. Queria saber o que havia atrás deles. Era tudo muito antigo. Como seria a casa da garota? Velha, caindo aos pedaços, solitária como ela?

Os olhos do homem custaram um pouco a se acostumar com a escuridão além dos portões. Era difícil conseguir visualizar alguma coisa mesmo com a luz das estrelas.

— Meu Deus... ─ sussurrou quando distinguiu dois túmulos velhos e carcomidos pelo tempo poucos passos de onde estava. Aquele lugar era o cemitério da cidade!

Totalmente pálido e sem sentir as pernas, o rapaz se voltou bruscamente para a moça. O sorriso fantasmagórico que ela lhe lançou fez com que Josué soltasse um grito horrível, de puro medo.

— Quem você é? De onde você vem?!


A moça fez menção de se aproximar e estendeu sua mão para tocá-lo. Tomado pelo pânico, Josué deu dois passos para trás, tropeçou em uma pedra e se estatelou no chão, sem nunca tirar os olhos de cima dela. O fantasma, a alma penada ou seja lá o que fosse aquela criatura, caminhou na direção de Josué. Mais do que rápido ele ficou em pé e com as mãos feridas e sangrando pela queda nas pedras do cemitério, ele deu meia volta e saiu correndo e arfante daquele lugar tenebroso.

domingo, 13 de março de 2016

A NOIVA MORTA - 2ª parte

Getúlio só voltou ao trabalho um mês depois, longe de se recuperar do seu luto. Durante suas noites mal dormidas, não conseguia acreditar que novamente tivera azar no amor. Fora uma fatalidade, dissera o médico. Possivelmente Mariana sofria de alguma doença do coração e não suportara tanta emoção. Após a morte da mais bela mulher da cidade, a comunidade entrou em um período de comoção. Alguns casamentos foram adiados. Afinal, uma noiva morrera durante as palavras do padre e muitos casais acharam que a igreja era amaldiçoada. Enquanto o padre não benzeu a igreja, nenhuma união ali se formou. Alheio a tudo, Getúlio voltou ao trabalho, nem percebendo que a sua volta já pipocavam várias solteiras ansiosas em casar com ele.

Sem conseguir esquecer a noiva, Getúlio não se mostrou interessado em mais nenhuma outra mulher. Mergulhou no trabalho como um louco. Abria a farmácia às sete horas da manhã para fechar somente passando das oito horas da noite. Na hora do almoço corria até a casa onde viveria com Mariana, fazia um lanche rápido e voltada para a lida. Era a maneira que encontrara para tentar fugir da dor. Assim foi sua vida durante os primeiros meses após a partida dela. Casa-trabalho-trabalho-casa. Recusava todos os convites dos amigos para sair, beber uma cerveja ou jogar futebol. Foi quando o primo Josué, companheiro de infância, resolveu passar uns tempos com Getúlio. Tinha como missão fazer com que o amigo saísse daquela maldita depressão.

Josué chegou em uma tarde de quarta-feira. Tão boa pinta quanto o primo, o rapaz desceu do ônibus na rodoviária causando sensação. Até chegar à farmácia onde Getúlio trabalhava, de mala e cuia, meia dúzia de mulheres mais afoitas o seguiram cheias de risinhos e promessas. Getúlio o pôs para dentro e fechou a cortina de ferro antes que o local fosse invadido, rindo bastante. Aliás, era a primeira risada que o homem soltava em meses.

Depois de se cumprimentarem efusivamente, Josué segurou o primo pelos ombros e declarou em alto e bom som:

— Puxa, cara! Você está pele e osso!
— Bem… ─ Getúlio se sentiu envergonhado. — Não tenho sentido muita fome nos últimos tempos.
Josué se caracterizava pelos gestos expansivos e bom humor.
— Isto vai mudar a partir de hoje! De agora! Vamos sair daqui, comprar carne e fazer um grande churrasco! O que você acha? Não aceito “não” como resposta!

A proposta sacudiu o espírito triste de Getúlio. Ora, por que não?

— Ainda faltam duas horas para a farmácia fechar. Não posso sair agora.
— Deixe disso, pare de trabalhar, criatura! Está na hora de você se divertir um pouco.

Getúlio não discutiu. Em menos de 15 minutos os dois primos estavam no açougue comprando a carne para o churrasco. Depois passaram no mercadinho da Dona Maria onde levaram cerveja. A noite fechou animada. Os dois amigos comeram e beberam até depois da meia noite. Getúlio riu das aventuras e desventuras amorosas do primo, mas muito pouco contou da sua vida. Quando foi dormir já estava se sentindo melhor, mais leve. Levantou às seis horas da manhã bem disposto. Josué ficaria por lá algumas semanas e estava dormindo quando Getúlio saiu para trabalhar. Boa gente seu primo, pensou ele enquanto se dirigia assoviando para a farmácia. Pena que não chegara antes.
*
Josué se encarregou de fazer com que Getúlio voltasse à vida. Não demorou muito para que Getúlio começasse a encarar a vida com mais otimismo. Mesmo assim, não se sentia preparado para um novo relacionamento. Mariana ainda era a única mulher da sua vida. Guardava todas as fotos dela dentro de um baú que ficava em um cantinho do seu quarto. Não deixava ninguém chegar perto dos retratos, nem mesmo a moça que limpava a casa semanalmente. Sentia ciúmes. Nem mesmo Josué tinha autorização de chegar perto do baú.

Se Getúlio não queria namorar ninguém, com o primo era ao contrário. Josué, com toda sua pinta de galã, era a sensação da cidade. Já no primeiro mês de estada partira três corações. Josué sempre tinha algo novo e engraçado para contar para o primo.

Tudo aconteceu em uma noite fria onde uma chuva fina e persistente gelava até os ossos. Josué voltava do mercadinho encolhido dentro do seu casaco. Ninguém lhe avisara que na cidadezinha onde o primo Getúlio morava fazia tanto frio. Josué estava fazendo planos de dar uma passada na loja de modas da Clotilde no dia seguinte quando se deparou com uma cena estranha. Sentada no banco da praça uma moça vestida de branco parecia solitária e triste. Mas o que faria alguém, seja lá quem fosse, sozinha em uma noite fria ao relento?


Josué diminuiu seus passos, na dúvida se deveria se aproximar dela. Mesmo com a cabeça baixa, era possível reparar que a jovem possuía grande beleza. Encantado, o homem decidiu ir falar até lá. Talvez estivesse perdida, ora essa. Justo naquele momento, um amigo de Josué passou de carro buzinando para lhe chamar atenção. Ele levou um susto, quase deixou as poucas compras caírem. Josué acenou para o outro e voltou os olhos em seguida para a moça.

Ela não estava mais ali.

Josué deu uma volta em torno de si mesmo, praguejando. Bastara dois segundos distraído para que a moça se evaporasse. Frustrado, Josué voltou para casa. Encontrou o primo na cozinha preparando o jantar. Getúlio estranhou quando reparou a expressão esquisita de Josué. Nunca o vira tão sério.

— O que houve? A chuva deixou você mal-humorado?

Josué largou a sacola com compras sobre a mesa, com força. Encarou o primo e disse:

— Você nem sabe o que aconteceu.

Getúlio se surpreendeu com a atitude de Josué, tão tenso.

— Algo grave, pelo visto.
— Eu vinha caminhando pela rua debaixo desta chuvinha irritante. De repente olhei para o lado e vi uma moça. Cara, nunca vi mulher tão linda. Ela estava sentada no banco da praça, sozinha.
— Com este tempo? Esperando alguém?
— Não faço a menor ideia. Pensei se deveria me aproximar dela ou não. Quando decidi que sim, seu compadre Carlos passou buzinando e eu me distraí. Neste meio tempo ela sumiu.

Josué se mostrava inconformado.

— Sumiu como?
— Sei lá, de repente ela não estava mais sentada no banco da praça. Em meio segundo, levantou, foi embora e eu a perdi de vista.
— Quem será, hein? ─ Getúlio continuou remexendo na comida, intrigado. — Não deve ser daqui da cidade.

Josué sentou em um banquinho e aceitou o copo de cerveja que o primo lhe estendeu.

— Amanhã eu vou voltar. Talvez eu tenha sorte de encontrá-la.

— Quem sabe?

terça-feira, 8 de março de 2016

A NOIVA MORTA - 1ª parte




Quando Mariana e Getúlio pousaram os olhos um no outro pela primeira vez, foi amor à primeira vista. Ela era a jovem mais linda da cidade. Getúlio, um excelente partido. Depois de dois anos namorando, ele a pediu em casamento, prontamente aceito.

Getúlio era alguns anos mais velho, devia andar pelos trinta anos. Não seria o seu primeiro casamento. A primeira esposa, Tereza, morrera durante o parto, quando ele ainda morava em outra cidade. Viúvo e desiludido, não demorou muito para que Getúlio abandonasse a cidade onde viveu, cresceu e casou, em busca de novas paragens para esquecer sua dor. Quando conheceu a jovem Mariana, linda moça de cabelos dourados e longos, Getúlio novamente começou a acreditar no amor. O namoro não demorou a engatar para felicidade e satisfação da família da moça. Logo Getúlio começou a trabalhar na farmácia de propriedade do sogro e as coisas pareciam andar em um caminho feliz e estável.

Uma costureira renomada da cidade vizinha foi especialmente contratada para fazer o vestido de Mariana. A moça queria que o seu vestido fosse o mais lindo de todas as noivas. Certa madrugada acordara de repente, pegara um papel e uma caneta e desenhara o vestido que aparecera no seu sonho. Não sabia desenhar, mas os traços ficaram encantadores. Empolgada, Mariana encarregou a costureira famosa de fazer um vestido igualzinho ao sonho. Getúlio não podia vê-lo antes da grande data.

O dia do casamento amanheceu belo e ensolarado. Era março, final de verão. Soprava uma brisa gostosa quando Getúlio chegou à igreja que, pouco a pouco, começou a encher. As flores vermelhas enchiam a nave com seu colorido e aroma. Em pé, no altar, Getúlio não disfarçava o nervosismo. A noiva estava atrasada. O padre demonstrava impaciência. Os convidados se remexiam inquietos nos bancos. Será que Mariana desistira de casar? Getúlio sentiu o suor escorrer pelas costas.

De repente a marcha nupcial começou a tocar e Mariana entrou exuberante pelo corredor da igreja, conduzida pelo seu pai. Getúlio sorriu, orgulhoso por ser aquela mulher linda a sua futura esposa.

Mal a noiva passou a percorrer o corredor florido que a levaria até seu futuro marido, um “oh” se fez ouvir entre os presentes. O véu era longo, o vestido todo rendado. Nas mãos, um buquê de flores roxas completavam o visual encantador. Mariana nem percebeu o quanto abalou os homens e despertou inveja das mulheres. Seus olhos somente pertenciam a Getúlio que a esperava bem trajado em um terno escuro e o cabelo cuidadosamente penteado para trás.

O jovem padre iniciou a cerimônia, ele mesmo surpreso com a beldade que estava a sua frente. Superou a primeira frase em que gaguejou de nervoso e o rito continuou. Mariana volta e meia olhava para Getúlio somente para admirar a sua virilidade. O homem parecia feliz. Ela, muito mais. Já no final, o padre perguntou à noiva se ela aceitava Getúlio como seu futuro esposo. Era o momento em que Mariana havia sonhado desde que pusera os olhos nele pela primeira vez. Olhando do padre para Getúlio e dele para o padre, Mariana respirou fundo e, sorrindo, respondeu em alto e bom som, para que toda a igreja escutasse:

— Sim.

Getúlio sorriu. No momento seguinte Mariana desabou à frente, quando beijando os sapatos do padre. Houve uma comoção entre os convidados. Getúlio logo se precipitou para juntar a noiva. Pobrezinha, pensou ele. Desmaiara de tanta emoção. Talvez fosse o calor, a igreja estava ficando um pouco abafada. Com cuidado, Getúlio a virou para cima, deixando-a estendida no chão para que ela respirasse melhor. Bateu de leve na face pálida dela, esperando alguma reação.

— Mariana, está tudo bem. Acorde.

Ela não se mexeu. Uma ruga de preocupação se formou na testa de Getúlio. Um dos padrinhos, médico e amigo do noivo, se aproximou afobado, empurrando-o para o lado. Getúlio, tenso, observou quando o homem pegou o pulso de Mariana e ficou por algum tempo tentando escutar alguma coisa. Alguns murmúrios foram escutados na igreja. A mãe de Mariana se abanava com um leque, um pouco afastada dali. O médico então voltou seus olhos para Getúlio. Sua expressão era terrível.

— Getúlio, ela está morta.

quinta-feira, 3 de março de 2016

PRECE PARA CONSEGUIR UM NAMORADO





Neste novo ano que está por aí

Quero um marido bem bonito, bem rico e bem dotado

Que ele seja bem simpático, bem querido e bem empregado

Se dê bem com a minha mãe e seja bastante tarado

Tem mais:

Espero que meu amor goste bastante de passear

Não importa se de iate ou no seu jatinho particular

O importante de tudo é ele me amar

Estando eu gorda, magra ou linda de arrasar

Mas se me surgir alguém com uma mão na frente e outra atrás

O importante é que ele tenha saúde

E paciência para me aturar

Mas Deus, que seja feita a Vossa vontade

Para que minha alma nunca mais ande sozinha

E Deus, por favor


Que a Sua vontade seja a mesma que a minha

quarta-feira, 2 de março de 2016

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

APARÊNCIAS





Fico pensando o que ela acha de mim. Deve dizer para todas suas amigas que sou uma babaca, que passo todos os dias estudando, não vou à festa nenhuma e nunca me viu com namorado. É quase tudo verdade mesmo. Minha vida nos últimos tempos tem sido em cima dos livros. Festas? Nem sei mais o que é isto. Namorados? Nunca encontrei um garoto que gostasse de mim. Minha vizinha curte a vida sem pensar no amanhã. Pela janela do meu quarto, discreta, acompanho a movimentação. Ela tem um círculo de amigos ruidosos. Eles param na frente do prédio com suas motos potentes. Ou então com carros importados. Imagino quantos lugares divertidos eles frequentam. Ah, ela tem um namorado. Um gatinho. Parece gostar muito dela. Pudera. A garota é uma graça. Loira, cabelos com lindos cachos, magrinha. Eu, de tanto que estudei trancada em casa e só saindo para ir ao cursinho, ganhei algumas gordurinhas que não tinha antes. Meu rosto ficou mais cheiinho e minhas coxas, mais grossas. Agora vou ter que correr atrás do prejuízo. O pior de tudo, ainda por cima, foi que consegui passar no vestibular. Meu sonho era cursar teatro. Claro, não fui forte o bastante para lutar contra meus pais, que sonham em ver a filha mais nova formada em medicina. Mas não era isto que eu queria! Eu queria ser igual a ela, minha vizinha, que não parece ter medo de nada, é livre e resolvida. Um dia destes nos encontramos no elevador. Fiquei constrangida, mal a cumprimentei. Ela também não fez questão de me olhar. Eu sei. Ela me acha uma boçal.  

Fico pensando o que ela acha de mim... Deve dizer para a família dela que sou uma porra louca, que só vive em festas, cercada de amigos desocupados e com um namorado que não acrescenta em nada. É quase tudo verdade mesmo. Meus amigos não são meus amigos. Só pensam neles, são muito egoístas. As nossas festas? Só vou para não ficar presa em casa. Meu namorado? Um bobo, nem gosto dele. Comecei a namorá-lo para fazer ciúmes pro meu ex. Não deu certo. Agora aquele chato não desgruda de mim. Já minha vizinha leva uma vida calma, tranquila.

Sinto inveja dela.

Eu preciso desacelerar um pouco antes que eu enlouqueça. Observo frequentemente a família da menina. Gente pacífica, estruturada. Bem ao contrário da minha. Meus pais são separados, não se falam há anos. Moro com minha mãe e minha irmã. Meu irmão mora com meu pai, quase não vejo os dois. Minha querida mãe pouco se importa com o que faço da minha vida, desde que eu não engravide. Se ela soubesse que eu nem tenho vontade de transar com o idiota... Ele não me dá tesão nenhum. Eu queria ser como minha vizinha, isto sim. Ela é muito bonita. Tem um corpo tipo violão, como os homens gostam. Eu? Sou uma tábua, mal tenho peito, mal tenho bunda. Emagreci de tristeza de uns meses para cá, não sei onde vou parar. E ela é muito inteligente também. Passou para medicina. Era tudo o que eu queria. Meu sonho é ser médica, tratar de gente doente, conseguir a fórmula da juventude e da felicidade e distribuir para o mundo inteiro. Um dia destes nos encontramos no elevador. Ela mal me cumprimentou. Deve me achar uma maluca inconsequente. Magoei e fiquei olhando para o teto o tempo todo. Eu sei. Perto dela sou uma boçal.

 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

A CAIXA






O AMOR QUE SINTO POR VOCÊ DEIXEI GUARDADO NUMA CAIXA.

TALVEZ EU A ENTERRE BEM FUNDO.

TALVEZ NÃO.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A VIDENTE E A BOLA DE CRISTAL





Cris ficou esperando por notícias do Agnaldo durante longos seis meses. Nem um telefonema, mail, pombo correio. Silêncio total e absoluto.

Meio anos antes, Agnaldo, num misto de arrogância e satisfação, informara para Cris que fora convidado a assumir uma das gerências da multinacional em que trabalhava, em Belém do Pará. Cris exultou. Sim, agora não haveria mais motivos para retardar aquele noivado que já durava três anos. Agnaldo finalmente iria pedi-la em casamento e ambos viveriam uma vida feliz em Belém. Um bom cargo, filhos, vida mansa. A vida que a vidente lhe previra há um tempo estava finalmente acontecendo.

Mas para espanto de Cris, Agnaldo somente comunicara sua transferência para Belém, fizera as malas e em dois dias partira, prometendo notícias assim que se instalasse. A mãe de Cris costumava dizer, sarcástica, que Agnaldo ainda não havia se instalado, tendo em vista a ausência total de sinais vitais.

Num primeiro momento, ela achou que ele estava morto. Não conhecia a família do Agnaldo para obter notícias, mas a avó da Cris, com seus oitenta anos, logo deu o veredicto: notícia ruim chega logo. Agnaldo deveria era estar aproveitando a sua nova vida de solteiro.

Cris desabou. Cachorro, sem vergonha, ordinário. Seria mesmo possível? Naqueles últimos seis meses, Cris emagreceu, não retocou sua tintura loira, andava de tênis e camiseta até no serviço. As colegas, pesarosas, tentavam ajudá-la a sair daquela depressão causada pelo cafajeste, mas Cris não queria se ajudar. Se pelo menos chegasse um mail!, dizia ela para si mesma.

Então ela teve uma idéia brilhante: A vidente! Aquela que lhe previra uma vida maravilhosa poderia dizer o que acontecera com o safado. Cris ligou para a mulher e implorou um horário no mesmo dia. Em menos de duas horas, estava sentada na frente da mulher e da sua bola de cristal.

Mas para espanto seu, a vidente lhe disse as mesmas coisas. Um homem maravilhoso, alguns filhos, uma vida pacata e feliz. Poderia não ser o Agnaldo, mas e daí? O Agnaldo era o único homem da face da terra? Não. Então que Cris ficasse calma e aguardasse. O único cuidado que deveria ter era com um pequeno acidente sem maiores proporções.

Um pouco mais feliz, Cris saiu da vidente com a cabeça nas nuvens. Quando foi atravessar a rua tranquila, na frente da casa da mulher, foi atropelada pelo que ela julgou ser uma bicicleta.

O casamento com o presidente da multinacional em que Agnaldo supostamente ainda trabalhava estava marcado para logo mais às dezessete horas. Três meses depois do atropelamento, Cris se lembrava do acidente rindo de tão feliz. Quando sentira o baque do Audi e caíra no asfalto, ela ficara ligeiramente desacordada. Mãos fortes a seguraram pelo rosto e um perfume a envolveu. Inebriada, ela respirou fundo e entreabriu os olhos. Deparou-se com o homem mais bonito do mundo. Agnaldo sumiu da sua visão para nunca mais voltar. Agora, prestes a casar com seu atropelador, Cris se sentia uma afortunada. A vidente lhe dera sorte, mas tanta sorte, que foi escolhida para ser sua madrinha de casamento. 

O MENINO QUE TINHA ASAS


Quando a criança nasceu, a mãe logo viu que havia algo estranho nas costas do filho. O médico não soube identificar o que eram aqueles dois pequenos membros que saltavam da pele do piá. A mãe se apavorou. Chorou, descabelou-se, entrou em depressão pós-parto ainda no hospital. Mas como o bebê gozava de ótima saúde, foram mãe e filho para casa. Caso surgisse alguma coisa diferente, falou o doutor, eles que voltassem.

E assim seguiu a vida em uma cidadezinha pequena do interior, onde a praça e a igreja eram os lugares mais movimentados. O piá foi crescendo. Aquela coisa nas costas quase nem aparecia. A avó paterna dizia que o guri estava marcado pelo diabo e, por via das dúvidas, nem nos dias de mais calor, o pobre andava sem camisa. Não seria de bom tom os vizinhos verem aquilo.

No dia em que o garoto completou nove anos, as asas finalmente tomaram a forma do que realmente eram. Asas. O menino possuía duas belas asas prateadas que brilhavam com a luz  do sol. A família ficou extasiada. Não havia marca de nascença do diabo. Não! Era ao contrário! Um anjo! Havia um anjo entre eles.

Mas o belo guri de cabelos loiros e encacheados não tinha a menor idéia do encantamento que causava. Entretanto, agora que suas asas tinham se revelado e não cabiam mais dentro da camisa e nem do casaco, ele estava proibido de sair de casa até que os pais decidissem o que fazer.

O menino das asas mal saía para o pátio. A vizinha fofoqueira do lado podia descobrir o segredo. Bem que podiam dizer que estava fantasiado de anjo... Já tinha visto na Bíblia Sagrada da avó a foto de um querubim. Porém, o guri sabia que de anjo não tinha nada. A única coisa que desejava era sair para a rua e jogar bola de gude com os outros meninos, correr de bicicleta e ser como os outros. Era tão simples...

E foi o que ele fez, em certo entardecer. O céu se encontrava violeta, uma brisa gostosa soprava sem parar. Lá fora os amiguinhos, que o julgavam doente, pois nunca mais pusera os pés na rua, corriam sem parar. Aquilo foi demais para um menino de apenas nove anos. Sem pensar duas vezes, ele abriu a porta da rua e se lançou na calçada. Quem reparou primeiro naquelas asas prateadas fugindo pelas aberturas que o pai improvisara na camisa foi o Juca. Pálido, ele apontou para o amigo e berrou:

— Ele tem asas!

Todos os olhos se voltaram para ele. De repente, a praça parou. Do armazém, saiu gente para a calçada para ver quem possuía asas. As crentes da cidade caíram de joelhos. Milagre! Milagre! Havia um anjo na cidade. Assustado, o menino quis correr. As pessoas se aproximavam ávidas de novidades, ávidas por um milagre, ávidas por algo que lhe movimentasse suas pobres vidas.

O garoto começou a ficar com medo, arrependido que estava de haver saído do refúgio do seu lar. Os olhos dos seus vizinhos, aqueles mesmos que conhecia desde que nascera, estavam diferentes, sinistros, quase maldosos. Eles queriam tocar nas suas asas, uma câmera fotográfica explodiu em um flash. Eu não sou anjo nenhum, quis ele gritar. Eu sou como vocês... Entretanto, nenhuma voz saiu dos seus lábios pálidos. Ele possuía asas, os outros não. A diferença era esta. As pessoas o julgavam divino. O menino sabia que era alguém como qualquer outro alguém.

Então, quando o desespero tomou conta do seu coração, suas asas bateram em um ruflar encantador. O último raio de sol iluminou a prata que lhe despontavam nas costas e as pessoas murmuraram um “oh” extasiado. Ele deu meia volta, atarantado, ensandecido no seu medo. Com reverência, as pessoas abriram espaço para o piá passar correndo, as asas batendo. E essas faziam um som que ninguém jamais conseguiu esquecer.

O garoto sentiu que seus pés não estavam mais tocando no chão. Primeiro ele pensou que estava deslizando; depois se sentiu no ar. E quanto mais batia suas asas, mais distante ficava da terra. Sabendo que alcançaria as estrelas, o menino que tinha asas voou cada vez mais alto. E sumiu. Nunca mais apareceu. As pessoas observaram-no desaparecer nas alturas, crendo que ele estava indo em direção a Deus.


Todos queriam ter asas também.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

STRIPTEASE




Ela havia se mudado há pouco tempo para o condomínio. 30 anos, loira, corpo bem estruturado. Solteira e pouco se lixando para isso. Sabia que podia ter o homem que quisesse quando desejasse. Era só estalar os dedos.

A janela do seu quarto era de fundos e dava para outra torre de apartamentos. Privacidade não havia muita. Às vezes, quando queria se divertir um pouco, apagava as luzes e ficava observando tudo o que se passava na casa dos vizinhos. O casal de velhinhos – eles não tinham muita graça −, o casal mais jovem que gostava de transar em cima da pia da cozinha, a solteirona do 3º andar, os gays do 5º. Era legal ficar olhando a rotina dos outros.

Logo percebeu que sua vida também estava sendo observada. Era o vizinho do 7º andar. Nunca o havia visto frente a frente, mas de longe ele parecia ser interessante. Quem sabe não seria a sua próxima transa? Algumas vezes, enquanto se penteava em frente ao espelho, podia enxergá-lo sorrateiro atrás da cortina, com um binóculo. Era engraçado. E ficaria bem mais se conseguisse excitá-lo e fazer com que o cara aparecesse de pau duro na porta do seu apartamento.

Era noite. Ela chegou do trabalho cansada e largou a bolsa em cima da cama. Sem querer se deparou com o vizinho já lhe cuidando. Sorriu. Sim, seria naquela noite que faria um strip-tease básico. Não precisava ser muito elaborado. O melhor ficaria para quando se encontrassem pessoalmente. Se valesse a pena, é claro.

Ela começou tirando os sapatos sentada no banquinho da penteadeira. Salto alto dourado. Jogou-os para o lado e ficou em pé. Espreguiçou-se, esticando-se toda. Ficou de costas para a janela e começou a tirar a blusinha, mexendo os quadris em uma dança sensual. O sutiã vermelho destacou-se na sua pele branca e ela imaginou que o homem devia estar ajustando o binóculo.

Ainda rebolando sexy, ela se virou e jogou os cabelos loiros para trás e olhou de soslaio para a janela. Ele estava lá. O cara já havia tirado a camisa. Será que estava com calor? A mulher continuou. Abriu o sutiã e os belos seios saltaram imediatamente para fora. Ela os acariciou vagarosamente, apertou-os, soltou. A barriga lisinha trazia um piercing com o formato de um diabinho.

O cinto das calças jeans começou a ser aberto. Ela parou de rebolar. Colocou um pé em cima da cama e foi puxando o cinto até ele sair todo. Atirou-o no chão e novamente se endireitou. Olhou para cima. O homem não disfarçava mais. Com os olhos grudados nela observou-a tirar as calças e revelar coxas generosas e uma calcinha vermelha igual ao sutiã. A calcinha era diminuta, mal tapava seu corpo. Ela ficou de costas novamente e mostrou ao seu admirador uma bunda perfeita. Olhando por cima do ombro, diretamente para ele, a mulher abaixou um pouco a calcinha. Deu uma reboladinha e decidiu abaixar a calcinha um pouco mais, revelando então todo seu rabo.

No outro apartamento o homem arfava. Aquela bunda era demais. A marca diminuta do biquíni o deixou de pau duro. Ela se virou para frente e mostrou a bucetinha sem pelos. A calcinha foi atirada longe. Nua. A mulher estava completamente nua.

Sem sentir vergonha alguma, ela sentou no banquinho da penteadeira e abriu as pernas, expondo sua buceta. Lambeu um dedo e introduziu no seu corpo vagarosamente. Ficou algum tempo tirando e botando o dedo, com um sorriso lascivo. Depois, excitada, não se fez de rogada. Encontrou o clitóris e começou a massageá-lo. Primeiro suavemente. Mas à medida que prosseguia, a excitação aumentava. Sua buceta estava molhada, o cuzinho também. Ela pôs-se de pé e ficou de costas para a janela. Aquela altura não havia somente um vizinho. Havia vários na janela. De adolescentes a mulheres, a plateia cresceu. Ela não se importou. Inclinou-se para trás, mostrando sua bunda. Abriu as pernas, queria que todos a vissem. Continuou tocando o grelhinho, rebolando, gemendo. Alcançaria o gozo em breve. Adorava estar sendo vista e desejada.


O orgasmo veio logo e suas pernas fraquejaram. Ela caiu no chão, de joelhos, com um grito de satisfação. Ficou ali um tempo, recuperando-se. Depois olhou para eles. Os vizinhos ainda continuavam lá. Levantando-se, ela caminhou até o interruptor de luz. O quarto ficou escuro. O espetáculo acabara.





sexta-feira, 15 de janeiro de 2016