quarta-feira, 21 de junho de 2017

MEU CHEFE É UMA LOUCURA (Cap. 3)

Parei de devanear, incomodada com meus próprios pensamentos. Ser virgem era algo que me deixava arrasada. Lembrei-me do celular. Segundo minha mãe, ele havia feito um “barulhinho”. Certamente era a maldita operadora me oferecendo um plano mágico. Sem esperar nada de bom, conferi o que era.

Me arrepiei. Gritei emocionada:

− Mãe! – abri a porta do quarto praticamente pulando. – Eu consegui! Eu consegui!

Minha mãe apareceu segurando um pano de prato, surpresa com a minha gritaria.

− Conseguiu o quê, criatura?
− Um emprego! – mostrei o celular para ela. – Olha aqui, é sério! Vou sair da pindaíba.

Ela franziu os olhos para enxergar o que estava escrito no visor do aparelho. Aparentemente não viu nada e perguntou:

− Onde, Valdirene? Em qual firma?

Eu já estava sem ar. Fui até a geladeira e me servi de um copo de água. Simplesmente mal podia conter a minha empolgação. De repente era como se o futuro abrisse suas portas para mim. Chega de ficar dentro do quarto escrevendo putaria!

− Naquela empresa lá do centro, mãe.
− A que tem vidros do chão até o teto?
− Esta mesma.      
   
Um lugar bem bonito onde eu iria trabalhar muito em breve. Era um prédio alto, uma agência famosa de propaganda e publicidade, toda envidraçada. Eu havia me candidato para recepcionista. Certamente trabalharia com uniforme, coque e cheia de pose. Samanta Hot ficaria um pouco para trás agora. Quem sabe até eu arrumasse um namorado firme?

− Quando você começa, Valdirene?
− Na mensagem diz que é para eu procurar o RH amanhã de manhã – respondi, aliviada. – Deve ser para providenciar documentos, exames... o de praxe. Acho que leva uns 15 dias.
− Fico feliz – disse minha mãe voltando para a cozinha. – Agora você desentoca daquele quarto e sai para a vida. E quem sabe até me dá um genro?


Coloquei o relógio para despertar às 7 horas da manhã e uma hora depois já estava sacolejando dentro de um ônibus lotado. Não, aquilo não era ruim. Depois de meses enfiada em um tédio dos infernos, estar apertada no meio de tanta gente era como se sentir viva novamente. Aquela seria minha rotina – bendita rotina – dali para frente. Eu estava pondo muita fé no meu novo emprego. Claro, eu sentiria alguma saudade de Samanta Hot. Afinal, ela me fizera companhia durante todos aqueles meses. Mas depois de pôr minhas contas em dia e renovar meu guarda-roupa, eu queria cursar uma faculdade, aperfeiçoar meu inglês, viajar. Samanta Hot talvez se aposentasse. E nem por um momento eu pensei nos meus famintos leitores.

sábado, 17 de junho de 2017

MEU CHEFE É UMA LOUCURA (Cap. 2)



A porta do quarto foi aberta de repente e eu levei um susto. Disfarcei e minimizei o texto antes que minha mãe descobrisse que meu vício do momento era escrever contos de putaria para a internet.

− O que foi, mãe?
− Seu celular fez um barulhinho. Acho que alguém está tentando falar com você.
− Obrigada, vou olhar depois – agradeci, desejando que minha mãe vazasse do meu quarto de uma vez. Meu conto estava em um ponto crucial e ser interrompida naquele momento me deixou ligeiramente aborrecida.

Peguei o celular e o coloquei em cima da penteadeira. Tentei me concentrar outra vez no texto, mas aquela pausa fez minha criatividade se perder em algum ponto da minha mente. Fiquei olhando para a tela do meu notebook, tentando encontrar um final excitante para a história. Não consegui.

Prazer, meu nome é Valdirene da Silva. Mas os mais chegados me chamam simplesmente de Val. Val. A moça sem graça e tímida, desempregada há meio ano. Val, a moça sem namorado e que passa a maior parte do tempo sonhando acordada, esperando que o príncipe encantado bata a sua porta. Não precisa vir de cavalo. Eu topo uma Mercedes.

Prazer, meu nome é Samanta Hot. O que eu faço? Escrevo contos eróticos. Enquanto Samanta Hot sou um sucesso. Minhas histórias picantes fazem sucesso na internet. Recebo elogios, convites para sexo selvagem e perguntas indiscretas. Sim, meus eróticos leitores imaginam que os textos que escrevo são uma espécie de autobiografia. Não são. Tudo não passa de uma mente extremamente criativa, que precisa pôr para fora tudo aquilo que parece transbordar. Eu poderia escrever sobre muitas coisas. Amor, romance, terror, suspense, aventura. Optei por putaria e sacanagem. E me dei bem. Mas não fiquei rica. Preciso desesperadamente de um emprego antes que minha mãe vá à falência.

Este é o meu grande segredo. Ninguém pode saber que a desajeitada Valdirene da Silva é a escaldante Samanta Hot. Que vergonha... Minha mãe sofreria um AVC se descobrisse do que é capaz de sair de dentro da minha cabeça com tamanha riqueza de detalhes. E com que cara eu iria olhar para a vizinhança, parentes, ex − colegas de trabalho? Nunca. Samanta Hot morrerá junto com Valdirene da Silva, a santa.

Valdirene da Silva, a virgem. Que isto não se espalhe. Tenho 30 anos. Quase nenhum namorado, muitas decepções, sexo nenhum. Sim, já cheguei perto. Estive na mesma cama que um homem, eu devia ter uns 20 anos. Eu era mais bonitinha, mais graciosa, mais alegre.  E Interessei-me pelo cretino-mor do bairro, o Jair.

Considero isto a maior cagada da minha vida. Acreditei que o desgraçado estava afim de mim também. O Jair já tinha comido mais da metade do mulherio do bairro. Acho que só faltava eu. E, como trouxa que era, caí bem certinho na lábia dele. Palavras bonitas ditas no meu ouvido tiveram o poder de me encantar. Quando me dei conta estava completamente envolvida e pronta para transar. Pelo menos era o que eu achava.

Fui para os finalmentes com ele muito rápido. Pudera, eu estava louca para perder minha virgindade. Provavelmente a última virgem do bairro era eu.  O Jair tinha muita experiência na área e decidi que seria com ele, na falta de coisa melhor. Lembro-me como se fosse hoje. Chegamos na casa dele, um sábado de tarde, e o cara não estava disposto a perder tempo. Foi logo tirando a roupa e arrancando a minha. Confesso, fiquei meio assustada, mas não podia recuar. Quando eu estava só de calcinha e com os peitos de fora, o Jair tirou a cueca samba canção.

Dei um grito.

Aquilo não podia ser de verdade. O Jair era um verdadeiro tripé. Imaginei aquela coisa entrando em mim, me rasgando, me deformando. O Jair levou um susto com meu berro e brochou na hora. Aproveitei aquele momento de constrangimento e me vesti correndo. Ele não fez nada para impedir. Ficou sentado na cama, com seu enorme pau agora murcho, observando-me sair porta afora para nunca mais.

Aquilo me marcou profundamente. Por semanas temi que o Jair abrisse a boca e revelasse meu fiasco. Mas ele nunca fez nada. Manteve silêncio sobre o fato e continuou comendo quem aparecesse na frente dele. Tive outros namoradinhos. Beijei na boca, mas sexo... Acabava com qualquer tipo de relacionamento quando as coisas estavam se direcionando para isto. E assim cheguei aos 30 anos. Virgem, subindo pelas paredes e louca para dar.


Ah, como eu queria ser depravada como a Samanta Hot!

quarta-feira, 14 de junho de 2017

MEU CHEFE É UMA LOUCURA (Cap. 1)

Valdirene está desempregada há meses quando consegue um emprego de recepcionista em uma grande empresa. Escritora erótica nas horas vagas e virgem aos trinta anos, ela mal pode acreditar que o seu chefe é o cara mais lindo que já viu na vida! E agora, Valdirene?


"Ramona entrou na sala do Dr. Clóvis e fechou a porta sorrateiramente. O chefe, concentrado entre tantos papéis, perguntou sem olhar para sua secretária:
− Dona Ramona, a senhora trouxe o relatório que eu pedi?
Ela não respondeu. Aproximou-se lentamente da mesa do chefe, abrindo um a um os botões pequenos da sua blusa recatada. Quando parou em frente a ele estava apenas de sutiã.
O homem ainda não havia reparado que sua subordinada estava tentando lhe seduzir. Sua preocupação eram os números da empresa. Ele estendeu a mão para pegar o relatório. Ramona não perdeu tempo. Abaixou um pouco o corpo e sugou com vontade dois dedos da mão do chefe.
Dr. Clóvis tomou um susto. Ele não era nenhuma beleza. Pelo contrário. Era baixinho, sedentário e usava óculos fundos de garrafa. Não fazia sucesso com as mulheres. Mas como tinha a carteira recheada, sempre havia uma para satisfazer suas necessidades mais prementes. Nunca, nunca mesmo, aventurara-se com qualquer colega da empresa. Pelo menos até aquele momento.A estonteante Ramona, ex-miss bumbum, estava deliciosamente chupando seus dedos.
Seu pau subiu na hora. Foi inevitável. Ramona estava gulosa, sorvendo seus dedos sem parar e lhe lançando olhares muito sedutores. Os peitos siliconados quase saltavam do sutiã vermelho e a saia longa estava prestes a ser jogada no chão.
−Dona Ramona, alguém pode entrar e...
Ela soltou os dedos do chefe e a mão dele caiu pesadamente sobre a mesa.
− Eu tranquei a porta.
− Dona Ramona – ele estava arfante. Ramona abriu o fecho da saia que despencou no chão. A sua secretária estava sem calcinha. – Aqui não é lugar para...
− É sim. – devolveu ela, agora dando a volta na mesa e parando finalmente ao seu lado. Com alguma violência, virou a cadeira de rodinhas onde ele estava sentado e o posicionou frente a ela. Murmurou – Eu chupo seu pau. Depois você me chupa, ok?
Naquele momento o presidente da empresa abriu a porta que não estava trancada como Ramona acreditava. Ela ficou em pé, assustada, sem tentar esconder a nudez. Dr. Clóvis tentou cobrir seus 25 centímetros de pau com o relatório financeiro.
− Sexo a três? – indagou o manager, abrindo o fecho das calças. – Vamos lá!"

quinta-feira, 18 de maio de 2017

A CASA DA FRENTE (Caps. 1/2/3)


Capítulo 1

            Quando Marcelo estacionou o carro junto ao meio fio, Samanta perguntou surpresa:
− Você tem certeza de que é esta?
− Eu não iria brincar com uma coisa tão séria – respondeu ele sorrindo.
            Ela riu alto. Aquela casa era simplesmente demais. Samanta abriu a porta do carro praticamente em câmera lenta analisando cada detalhe da construção. Em pé, na calçada, ficou em silêncio até escutar a voz de Marcelo:
− E então? O que você acha?
− Incrível. É a casa que eu sempre sonhei. Moderna, clean... Podemos entrar?
− Claro – Marcelo pegou as chaves do bolso e perguntou: − Você acha que eu a traria aqui só para ficar do lado de fora?
− Ora, eu mataria você!
            De mãos dadas, ambos entraram na casa. O hall e a sala eram de bom tamanho e Samanta logo se viu pensando na decoração
− Me aparece aconchegante – e ela apontou para o canto da sala. – Sempre sonhei em ter uma lareira como aquela ali.
− Você ainda não viu o resto. Venha  − disse Marcelo, puxando-a pela mão. – Tem muito mais.
            Durante a meia hora seguinte o casal percorreu a casa de dois pisos fazendo planos como se ela já lhes pertencesse. No final, Samanta enumerou tudo o que tinha gostado:
− Piscina, banheira de hidromassagem, lareira, escritório para você, um quarto de casal enorme… O que posso querer mais? Para mim ela é perfeita. Sem falar que este condomínio é bem bacana.
            Marcelo e Samanta estavam casados há pouco mais de um ano. Modelo famosa, Samanta fazia ainda alguns trabalhos, optando por ficar o maior tempo possível com o marido. Já Marcelo era um advogado em ascensão em uma notória firma jurídica. O casamento ia muito bem. Desde o primeiro dia que se viram nunca mais haviam se desgrudado.
            Porém, apesar de ambos estarem vivendo momentos de grande paixão, Samanta jamais poderia suspeitar que Marcelo, poucos anos antes, sofrera uma terrível decepção amorosa. Aliás, isto era um tabu na vida dele, um assunto que poucos conheciam e que Marcelo não fazia a menor questão de lembrar. Mulher de rara beleza, Samanta o fascinara instantaneamente com seus olhos verdes e a pele negra. Em três meses estavam casados e vivendo intensamente cada instante.
− É só você dizer “sim” e eu ligo para o corretor – Marcelo apontou para o celular. – A decisão está toda em suas mãos.
− Ligue para ele agora. Eu quero esta casa!
            Sem perder tempo, ele telefonou para o corretor acertando uma visita. Samanta já tinha mil idéias para decorar a casa quando o marido desligou o celular.
− Vou fazer deste lugar o nosso ninho de felicidade, meu amor. Será que fui piegas demais?
− Acho que sim – sorriu Marcelo, abraçando-a. – Mas qual é o problema, desde que isso a faça mais feliz?
− Você é o responsável por tudo de bom que tem acontecido na minha vida – confessou ela. – Mal vejo a hora de me mudar para cá – Samanta lhe roubou um beijo.
− Vamos dar uma volta pelo condomínio e conhecer nossos novos vizinhos?
− Claro, estou ansiosa por isto!
            O condomínio agradou em cheio Samanta. Com ciclovia e calçadão para caminhar, ela se sentiu em casa. De mãos dadas com o marido enquanto faziam o reconhecimento de área, ela apontou discretamente e exclamou:
− Veja, tem até um supermercado!
− Eu falei que você encontraria tudo o que precisa aqui – replicou Marcelo, satisfeito com a alegria da esposa.
− Realmente, estou cada vez mais surpresa. E aliviada.
− Aliviada por quê?
− Não suporto mais o estresse da cidade. Estou precisando de um lugar calmo para viver. E você também – reparou ela. – Aquele escritório suga toda sua energia.
− Você repõe todas minhas energias.
− Pensei que eu também tirasse.
− Nas horas certas, sim – Marcelo riu.
− E depois – emendou ela com um sorriso no rosto, – nossos bebês serão criados com mais liberdade e qualidade de vida. Este lugar é perfeito para crianças.
            Marcelo ficou em silêncio. O assunto “filhos” era constante na vida do casal, porém sempre por parte de Samanta. O sonho dela era ser mãe. Ele, no entanto, jamais revelara que fizera uma vasectomia meses antes de conhecê-la. E não tinha se arrependido disso mesmo depois de se apaixonar por ela. Crianças, sinceramente, somente a dos outros. E mesmo assim com alguma distância. Marcelo sabia que deveria ter contado para Samanta desde o início. Mas não o fizera. Assim, ela continuava alimentando seu sonho, mal sabendo que com Marcelo isso jamais poderia se concretizar.
− Você não acha? – perguntou ela.
− Acho o quê?
− Os nossos filhos serão muito felizes aqui. Viverão uma infância de verdade e não presos dentro de apartamentos, em uma selva de concreto.
− Ah, claro... Aqui é o lugar ideal – para trocar de assunto, Marcelo rapidamente falou. – Vou deixar você encarregada das reformas, dos pedreiros, de tudo. Com o novo caso que me deram na firma não terei tempo de gerenciar as coisas mais de perto.
− Deixa comigo – Samanta concordou feliz. – Vou adorar me ocupar com a reforma e a decoração da casa. Posso até consultar você de vez em quando.
− Gostaria muito, mas reconheço seu bom gosto. Fico tranquilo deixando tudo em suas mãos.
            Samanta deu uma gargalhada gostosa e o abraçou.
− Tenho certeza de que seremos muito felizes aqui, meu amor.
− Viveremos momentos inesquecíveis neste lugar.
            Eles mal podiam imaginar o quanto a frase de Marcelo tinha de verdadeira.

Capítulo 2

            Devido ao trabalho de Marcelo e ao tempo livre de Samanta, foi ela quem inspecionou as reformas que haviam planejado. Tudo estava saindo bem e dentro do cronograma proposto e o casal não via a hora de se mudar para o condomínio. Todos os dias pela manhã, Marcelo deixava Samanta na nova casa que tomava a forma que ambos desejavam e aparecia para buscá-la no horário do almoço e depois no final da tarde. Ela estava adorando sua nova atividade.
            Parada na calçada, Samanta observava, próxima ao gramado da frente, a paisagista conversar com o jardineiro. Pelo andar da carruagem, ela teria o mais lindo jardim do condomínio. Satisfeita, olhou em volta. As ruas calmas e com pouco movimento eram perfeitas para uma corridinha matutina ou ao entardecer.
            De óculos escuros e com os cabelos cacheados presos no alto da cabeça, Samanta se destacava em qualquer lugar graças ao seu porte altivo. Por isto não estranhou quando percebeu, pelo canto do olho, que alguém a observava da casa da frente. Samanta voltou-se rapidamente para dar o flagra, porém não foi rápida o bastante para ver quem era. Quem a espreitava escondeu-se atrás das cortinas. O mistério permaneceu durante o dia inteiro.
            Mais para o fim da tarde, quando Marcelo veio buscá-la após o trabalho, Samanta comentou:
− Sabe que havia alguém me espionando na casa da frente? Muita falta do que fazer!
− Certamente era algum fã seu. Deve estar se achando o cara mais sortudo do mundo porque você vai morar bem na frente da casa dele. É uma pena, porque quem ganhou a sorte grande fui eu.
− É impossível manter-se modesta ao seu lado, meu amor – comentou Samanta acariciando o rosto dele.
− Você é a única mulher que eu conheço que não precisa bancar a modesta.
− Estou tão feliz que nós vamos morar nesta casa, Marcelo – sussurrou ela enquanto o carro saía do condomínio e pegava a via movimentada. − Espero que os vizinhos também sejam legais.
− Bem, você tem a capacidade de se entrosar com qualquer pessoa, qualquer que seja o lugar. Você realmente não tem com que se preocupar.
− Mas você sabe que muitas pessoas só se aproximam porque sou relativamente famosa.
− Depois que essas mesmas pessoas lhe conhecem de verdade, ficam encantadas com seu carisma. Eu me encantei à primeira vista.
− E eu também – confessou ela com os olhos brilhantes. – Meu encanto permanece até hoje.
            Marcelo olhou para Samanta perguntando-se o que ela havia visto nele. Não que Marcelo fosse um homem sem atrativos. Pelo contrário. Mas sua esposa havia desfilado pelas passarelas de Nova York e Milão ao lado dos homens mais bonitos do mundo. O fato de ela achá-lo interessante e amá-lo a ponto de se casarem, era praticamente um milagre.
− Tenho a mais absoluta certeza de que seremos muito felizes na nossa nova vida – assegurou ele dando um beijo em Samanta.
           
Capítulo 3
           
            Dia da mudança. No interior da casa, Marcelo indicava onde os móveis deveriam ser colocados. Do lado de fora, além de verificar se os seus pertences estavam sendo bem transportados, Samanta observava disfarçadamente a casa da frente, a espera que o “espião” que a observara na vez passada aparecesse novamente por detrás das cortinas. Infelizmente para ela, nada aconteceu. Nenhum vulto suspeito apareceu na janela, a porta da frente se manteve fechada o tempo todo e parecia que realmente não havia ninguém na casa. Dando de ombros, Samanta se consolou pensando que teria muito tempo para descobrir quem a havia espionado.
            Uma mão bateu no ombro dela e Samanta levou um susto. Uma mulher simpática, de aproximadamente 45 anos e baixinha lhe sorria com todos os dentes possíveis. Sorrindo também, Samanta cumprimentou:
− Olá, bom dia.
− Olá, como vai você? Meu nome é Laura e seremos vizinhas. Vim aqui lhe dar boas vindas em nome do nosso condomínio.
            Ambas trocaram dois beijinhos e Samanta ficou na dúvida se ela não seria a moradora da frente.
− Oh, muito obrigada. E você? Mora onde?
− Do lado da sua casa. Estamos apenas separadas por um muro.
− Que ótimo! – exclamou Samanta. – Depois que estiver tudo arrumado, eu convido você para tomar um chá comigo. Você gosta de chá? Ah, eu nem me apresentei. Meu nome é Samanta.
− E quem não sabe disto? Já faz tempo que eu vejo você embelezando as capas das revistas de moda de todo o país.
− Depois que casei com Marcelo somente faço alguns trabalhos eventuais. Prefiro bancar a dona de casa. É bem menos cansativo, acredite.
− Escute, Samanta – disse Laura cada vez mais simpática. – Quando chegam moradores novos no condomínio, nossa associação costuma oferecer uma pequena recepção para que todos possam se conhecer e manter este clima de cordialidade que reina aqui. O que você acha de eu organizar um encontro assim em torno de você e seu marido?
− Eu acho ótimo. Afinal, eu preciso conhecer meus vizinhos. Quando seria?
− Bem, hoje é terça-feira... Que tal na sexta? Fica bom para vocês?
− Sim! – garantiu Samanta animada. – Para mim fica perfeito e tenho certeza que para Marcelo também.
− Então está combinado. Vou avisar os nossos vizinhos. Sexta-feira, às 21 horas. Pode ser?
− Claro!
− Na minha casa, então.
− Eu tenho certeza de que vou adorar conhecer todos vocês.
*
− Eu não vou.
            Samanta colocou as mãos na cintura. Ambos estavam parados no meio do quarto, ainda com as roupas dentro das malas e as portas do closet escancaradas esperando que alguém pusesse ordem na bagunça. Marcelo se despiu atirando a calça e a camisa para cada canto. A única coisa que ele queria era uma ducha relaxante.
− Marcelo, por favor! Não seja antipático.
− Não é que eu seja antipático. Sou apenas antissocial, só isto.
− Bem, então está na hora de você começar a se socializar.
− Justo na sexta-feira? – perguntou Marcelo, já nu e pronto para entrar no banho.
− Qual o problema?
− Sabe como eu vou estar na sexta? Um caco – ele tentou fugir da conversa se enfiando dentro do banheiro. Samanta foi atrás.
− Marcelo, é muito feio deixar as pessoas falando sozinhas.
− Não fiz isto – protestou Marcelo experimentando a água. – É que estou ansioso por um bom banho. Nosso dia foi pesado.
− Se você não for, eu irei sozinha – ameaçou ela.
− Sozinha? Vai me deixar sozinho em uma sexta à noite?
− Você vai ficar sozinho porque quer. Estou lhe dando a opção para me acompanhar.
            Ele ficou em silêncio por alguns instantes, enquanto se metia embaixo da água. Depois disse:
− Sabe o que eu havia planejado para a gente na sexta-feira? Um jantarzinho romântico, um bom vinho…
− Meu amor, teremos todas as noites de sexta-feira das nossas vidas para um programa como esse. Vamos, não seja ranzinza. Eu não posso desmarcar, já concordei com a Laura. A esta altura ela já deve ter convidado os outros moradores. Imagine que chato ter que ligar cancelando tudo? As pessoas vão pensar que somos um casal antipático!
− Está bem – concordou ele, depois de algum tempo em que o único som audível foi o da ducha. – Já que você faz tanta questão…
− Faço questão, sim. Tenho certeza que nós iremos ter uma noite muito agradável.


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sexta-feira, 5 de maio de 2017

O HOMEM DO JARDIM (FINAL)




Francesca estava com as malas prontas no hall da mansão. Sofia a acompanhava enquanto o táxi não chegava.

— Pelo visto todos nós perderemos nossos empregos, Fran – resmungou Sofia, bem desanimada. — Espero que você tenha melhor sorte. Não sobrou ninguém da família nem para nos dar uma carta de recomendação.
— Não fique preocupada, Sofia. Para trabalhar na mansão não é qualquer um. Tenho certeza que logo vocês todos irão conseguir boas colocações – Francesca pegou as mãos de Sofia. — Muito obrigada por ter falado à polícia sobre o que você viu no quarto. Se não fosse seu testemunho, talvez eles não acreditassem em mim.
— Só falei o que eu vi. Você está com alguns hematomas, Fran. Qualquer perícia afirmaria que você foi agredida por ela. Tudo o que aconteceu foi por legítima defesa.

Francesca suspirou.

— A única coisa que eu queria era um emprego tranquilo. Eu gostava tanto de Dona Laura.
— Quer dizer que você enxergava o falecido no jardim? Meu Deus, só de pensar fico toda arrepiada! Este era o maior mistério das redondezas!
— Incrível, não? Gregório foi aparecer justo para mim!
— Dona Magda... Nunca ia imaginar que a própria filha foi capaz de matar o pai. Ela guardou o segredo por anos. Isto que é ter sangue frio!
— E eu cheguei para estragar tudo. Ela só podia querer me matar mesmo.
— Quando a polícia terá resultado se o corpo é do marido de Dona Laura?
— Ainda vai demorar um pouco. Talvez eu até tenha que voltar aqui outras vezes.

Naquele momento o táxi apontou no caminho que levava à mansão. Francesca, sentindo um misto de saudade e tristeza, despediu-se de Sofia.

— Obrigada mais uma vez.

As duas jovens trocaram um abraço apertado e Francesca embarcou. Lentamente, o veículo percorreu o trajeto que levava à estrada. Saudosa, a moça se virou para trás. Queria lançar um último olhar à mansão.


Francesca sufocou um grito. O espectro de Magda a encarava entre as árvores.

sábado, 22 de abril de 2017

O HOMEM DO JARDIM (Capítulo 12)






— Não vi você no enterro – disse ela entrando no quarto e fechando a porta.

Francesca respirou fundo. Sentiu medo. Magda não parecia nem um pouco enlutada. Sua voz era firme.

— Fiquei um pouco mais para trás – explicou a jovem, ciente de que a mulher já tinha visto suas malas no canto do quarto.
— Você pretendia partir? Sem falar comigo?
— Não quis incomodar a senhora com este assunto – mentiu ela. — Iria entrar em contato mais tarde.
— Você não pode partir.

Francesca chegou a piscar. Não entendeu direito o que Magda queria dizer com aquilo.

— Como?

Magda se aproximou mais um pouco.

— Você pensa que sairá desta casa depois de ter descoberto o corpo do meu pai?
— O corpo… era mesmo de Gregório? – a voz de Francesca saiu estrangulada. — Quem contou para a senhora?

A outra riu. Sua risada foi simplesmente diabólica.

— Em poucos dias você desvendou um mistério de 40 anos. Quando as coisas estavam literalmente mortas e enterradas, você chegou aqui com seu jeitinho de sonsa e descobriu tudo.
Francesca empalideceu.
— Dona Magda, não sei o que descobri. Não tive intenção nenhuma de bagunçar tudo. Gregório apareceu nos meus sonhos sem que eu pudesse impedir.
— Ah, você podia impedir, sim. Era só manter sua linda boquinha fechada. E olhe o que você fez! Foi abrir a boca para minha mãe!
— Só fiz o que me pareceu certo naquele momento! – Francesca tentou se defender. — Dona Laura só falava no marido.
— Ah, o santo marido! – Magda deu outra risada, desta vez com sarcasmo. — O lindo marido de Dona Laura. Foi bom ela ter morrido, sabe? Assim não descobriu o sem vergonha que ele era!
— Meu Deus, Dona Magda! – Francesca recuou dois passos quando Magda avançou mais um pouco. — Mal cheguei aqui. Não sei nada da vida do seu pai. Mesmo Dona Laura me falou pouca coisa sobre ele. Na verdade, eu quero ir embora deste lugar o quanto antes e esquecer tudo.
— Você não vai a lugar nenhum – a voz de Magda saiu assustadoramente baixa. — Pensa que irá embora levando consigo um segredo deste tamanho?
— Jamais contarei que os ossos de Gregório foram encontrados ao lado do poço – a voz de Francesca tremeu. — Não me interessa esta história.
— Sei muito bem o que você vai fazer – Magda encarou Francesca com seus olhos de louca. — Vai chegar na sua cidade e contar sua aventurazinha. E logo meu nome será levado à mídia e isto me destruirá. Ora, mocinha! Eu sou poderosa! Não é uma ninguém como você que irá me destruir!
— Pelo amor de Deus, Dona Magda! Eu jamais faria isto! Por favor, eu juro que nunca contarei a ninguém sobre os fatos que presenciei nesta mansão – Francesca consultou o relógio. — Agora preciso ir. Vou perder meu ônibus.

Francesca quase gritou quando viu um punhal na mão esquerda de Magda. A lâmina brilhou sob a luz da lâmpada. A visão da jovem ficou turva por alguns segundos.

— Você não irá a lugar nenhum. Aliás, vou enterrar você no mesmo lugar que enterrei meu pai. E ninguém nunca dará falta de uma chinelona como você.

Branca de susto, Francesca perguntou, trêmula:

— Enterrou seu pai? O que é isto?
— Aquele monstro! – os lábios de Magda tremeram por alguns instantes. — Ele abusou de mim por anos e ninguém nunca fez nada! Ela – Magda se referiu claramente à mãe — nunca fez nada para me salvar das garras dele. Como você acha que deveria ter sido o seu fim?

Francesca, estonteada ante tantas informações bombásticas, apoiou-se na cômoda. Em um primeiro momento achou que Magda estivesse mentindo. Mas a raiva da mulher era quase palpável. Ela tremia segurando o punhal com toda a sua força.

— Sinto muito, Dona Magda. Jamais poderia adivinhar que seu pai...
— Ele me pegou enquanto eu brincava com minhas bonecas no jardim – Magda relembrou, baixando um pouco a mão que estava com o punhal. — Eu estava distraída, era um belo dia de sol. De repente aquele homem se agigantou a minha frente e, como todas as outras vezes, arrancou minhas roupas.

A jovem escutava o relato, tensa. Senão fosse toda a emoção contida nas palavras e na fisionomia de Magda, ela poderia até não acreditar nas coisas horríveis que saiam da boca da mulher.

— Eu já estava cansada de ser abusada e esconder meus machucados. Naquele dia, em um momento de distração dele, peguei uma pá e atingi a cabeça do desgraçado. Não sei quantas vezes, eu não enxergava nada mais a minha frente. Quando me dei conta, pensa que me arrependi? Nunca. Tratei de abrir um buraco e enterrar o maldito lá dentro. Fiz tudo sozinha. Faria de novo, se fosse preciso.
— Eu jamais poderia... Dona Magda, sinto tanto pelo seu sofrimento.
— Não sente nada! – estrebuchou ela. — Você esteve ao lado da minha mãe, ela que sabia sobre as maldades que aquele homem cometia contra mim. Você sonhou com ele! Qual a conexão que você e o maldito tinham a ponto de ele aparecer nos seus sonhos?
— Como eu posso saber? – perguntou Francesca, desesperada. — Não pude controlar. Ele apareceu nos meus sonhos naturalmente!
— Você merece morrer! – Magda estrebuchou. — Devem ter sido íntimos em outras vidas. Por isto ele a procurou!

Uma batida na porta fez com que Magda se calasse. Em seguida, a voz gentil de Sofia se fez ouvir:

— Francesca, está tudo bem?
— Está tudo bem, Sofia – Magda respondeu com a voz em seu tom normal. — Estou conversando com Francesca.

Silêncio do outro lado. Quando se voltou novamente para Francesca, Magda murmurou, avançando sobre ela.

— Não ouse gritar.

Francesca desviou do golpe no último momento, tropeçando nas malas e caindo sobre elas. Quando percebeu que havia errado o alvo, Magda ficou mais furiosa ainda.

— Vou matar você e enterrar no mesmo lugar que ele.

A jovem se levantou rapidamente, quase sem pensar. Porém, as pernas não lhe ajudavam e ela caiu outra vez. Antes que Magda a alcançasse, Francesca conseguiu se levantar. Pôs uma perna frente à outra para manter o equilíbrio precário quando Magda avançou segurando o punhal.
Francesca, rápida, deu uma rasteira em Magda, que caiu de joelhos no chão. O punhal saltou longe, próximo à porta. Foi neste momento que Sofia resolveu entrar no quarto para ver o que estava acontecendo.

— Fran! O que é isto?
— Chame a polícia! – implorou Francesca, segundos antes de ser derrubada por Magda.

Sofia segurou o punhal e saiu correndo do quarto. Enquanto seus passos em fuga eram ouvidos do quarto, Magda montou sobre Francesca e apertou-lhe o pescoço. Além da falta de ar, a dor era grande. Pontos negros surgiram frente aos seus olhos e ela sabia que não iria demorar muito até perder os sentidos. Magda sentiu os dedos de Francesca no meio dos seus olhos, deu um grito pavoroso e soltou momentaneamente o pescoço da outra. Francesca aproveitou o momento para lhe desferir um potente murro no nariz.

Magda tombou para o lado e arregalou os olhos quando viu o sangue nas suas mãos. Francesca ficou em pé, lutando para sugar o ar. Podia ainda sentir os dedos de Magda no pescoço. Do chão, mas ainda pronta para continuar lutando, Magda berrou:

— Você vai pagar por este sangue aqui!

Francesca mal teve tempo de se recuperar. No momento seguinte, Magda já estava atracada com ela, em uma luta corporal terrível. Novamente, Magda tentou segurar Francesca pelo pescoço. Desta vez, a moça foi mais rápida e lhe desferiu um potente joelhaço no estômago. Com um grito, Magda se dobrou em duas. Francesca ficou no mesmo lugar, recuperando o fôlego e sentindo dores pelo corpo. Não sentia forças nas pernas para sair correndo do quarto e pedir ajuda aos colegas.

— Vou matar você.

A ameaça veio em um sussurro terrível dos lábios de Magda. O sangue lhe escorria pelo rosto e na sua mão agora havia uma tesoura, possivelmente pega de cima da cômoda. Os olhos de Francesca se arregalaram. O objeto era grande e pontiagudo. Um único golpe seria o bastante para abatê-la.

Antes que Magda fizesse qualquer movimento, Francesca reparou no vaso de cerâmica a poucos passos de si. Certa vez Dona Laura lhe dissera que Gregório havia lhe dado de presente de aniversário de casamento. Tirando forças de onde não tinha, Francesca segurou o vaso de bom tamanho e jogou sobre Magda. Sua única intenção era atrapalhar seus movimentos para que ela própria conseguisse tempo suficiente para sair do quarto. Contudo, a força empregada por Francesca surpreendeu-a. O vaso atingiu em cheio o peito de Magda, fazendo a tesoura voar longe. Surpresa e desequilibrada, Magda foi jogada para trás. Francesca deu um grito quando viu a mulher atravessar a janela aberta e caindo no vazio. O grito de Magda foi agudo e forte e depois de uma pancada surda, o silêncio.

Francesca ficou parada no meio do quarto, aturdida e zonza. Dois segundos depois Sofia retornou acompanhada de dois empregados.

— Fran, onde está Dona Magda?

— No jardim. Eu a matei.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

O HOMEM DO JARDIM (Capítulo 11)


Francesca acordou pontualmente às sete da manhã. A luz do sol entrava através da veneziana, anunciando um lindo dia de sol. Mesmo assim, foi com certo peso no coração que a jovem se levantou naquele dia. Ela sabia bem o que lhe deixava assim. Dona Laura, antes de ir para cama lhe contara sobre a difícil conversa que tivera com Magda. Francesca escutou tudo com o peito apertado. Magda não a pouparia por ela e Dona Laura terem ido tão longe a ponto de descobrir a ossada de Gregório ou seja lá quem fosse. A velha senhora contara as palavras rudes e irônicas com as quais a filha havia se dirigido a ela e Francesca ficara chocada.

Devagar e tentando se preparar para um dia que seria complicado, Francesca se vestiu com as mãos trêmulas. A última visão que tivera antes de ir dormir e se despedir de Dona Laura havia sido o saco com ossos posicionados no canto do quarto. A intenção era acordar, pôr os ossos dentro de uma caixa e em seguida fazer um enterro simbólico, sem alarde nenhum. Tudo em segredo para não atrair a atenção, comentário ou investigação sobre Gregório.

— Vamos levantar, Dona Laura? – Francesca entrou no quarto e foi direto afastar as cortinas e abrir a janela. — Está um dia lindo lá fora.

De propósito, Francesca ignorou o saco com os ossos no canto do quarto e aproximou-se da cama. Dona Laura continuava dormindo serenamente.

— O que a senhora acha de tomarmos o café da manhã no jardim?

Francesca sentou ao lado da cama e pôs a mão sobre a de Dona Laura. Retirou-a imediatamente com um pequeno grito.

— Dona Laura? – ela cutucou a senhora no ombro, levemente. — Por favor, acorde.

A moça sabia que Dona Laura não iria acordar nunca mais, mas até então aquilo parecia ser inacreditável. A expressão serena da senhora contrastava com o rosto conturbado de Francesca. A jovem ficou em pé, se apoiando na cama para não cair. Por alguns instantes a visão ficou turva e Francesca pensou que fosse desmaiar. Depois de respirar fundo diversas vezes, ela deu meia volta, indo em direção à porta. Precisava chamar um médico.

Médico? Para quê? Dona Laura estava morta.

Os pensamentos confusos de Francesca estavam lhe pondo nervosa. Precisava se acalmar para poder transmitir a notícia direito. Francesca abriu a porta com violência e saiu com tanta impetuosidade do quarto que caiu de joelhos no chão. Levantou-se em seguida e percorreu o corredor praticamente trocando os pés. Lá de cima escutou vozes na sala. Era Magda no celular. Francesca e ela se encararam por alguns instantes. Era possível perceber nos olhos frios da mulher toda a sua raiva.

— Dona Magda! – chamou Francesca quase sem voz.

Imediatamente, Magda desligou o telefone. Francesca desabou no chão de vez, aos prantos.

— Francesca! – o berro de Magda foi ouvido em toda a casa. — O que aconteceu com ela?

Os gritos de Magda atraíram os empregados. A jovem, sem conseguir se levantar, ficou o tempo suficiente no chão até ser amparada pelos colegas. E quando Magda conseguiu alcançar o quarto de Dona Laura, realmente não havia mais nada a fazer.

O enterro de Dona Laura foi concorrido. Magda colocou os ossos do pai dentro do caixão da mãe e o manteve fechado durante toda a cerimônia. O dia foi muito triste. Os empregados pareciam perdidos e Francesca teve a impressão de ver Gregório à cabeceira do caixão durante alguns momentos. Abalada, Francesca tentava assimilar tudo o que acontecera. A única certeza que tinha é que Dona Laura tinha partido feliz.

Magda, passado o choque inicial, tentou a duras penas manter a serenidade durante o dia inteiro. Vestida totalmente de preto, cabelos presos e óculos escuros, Magda mal abria a boca para agradecer as condolências. Francesca tentou ficar o máximo possível longe dela. Pretendia desaparecer da mansão logo depois do enterro. Não queria sequer saber do que teria direito a receber. Todos os seus instintos diziam para que fosse embora de lá o quanto antes.

O enterro aconteceu no jazigo da família e Francesca acompanhou de longe. Antes mesmo de terminar, ela retornou para a mansão. Precisava arrumar as malas. Sabia que havia um ônibus que saía da rodoviária às nove horas da noite. Era neste que Francesca pretendia embarcar. Caso o perdesse, estava disposta a permanecer na rodoviária esperando o próximo, fosse a hora que fosse. A mansão que gostara tanto, de repente parecia carregada de uma energia ruim.

O dia estava anoitecendo quando Francesca fechou a última mala. Não havia sequer avisado aos colegas que pretendia ir embora. O lugar se mantinha silencioso e triste. Uma vez ou outra Francesca escutava algum barulho vindo da cozinha. Sofia certamente estava preparando alguma coisa para Magda comer. Consultou o relógio. Era hora de desaparecer da mansão.


A porta se abriu de repente e Francesca se voltou com um pequeno grito. Magda estava parada à porta, recém-vinda do enterro. Não estava mais com os óculos escuros. Por isto, quando Francesca se deparou com os olhos gelados de Magda, um arrepio percorreu sua espinha.