quinta-feira, 7 de abril de 2016

A NOIVA MORTA - 6ª parte


Josué conseguiu conciliar o sono somente por volta das quatro horas da manhã. Quando levantou, às dez horas, Getúlio já tinha saído há um bom tempo. Com sono, ele vestiu a primeira roupa que viu pela frente, com a intenção de comer alguma coisa e voltar para a cama. Quando abriu a porta, levou um susto. Uma senhora, que ele nunca havia visto até então, varria o corredor da casa.

— Olá, bom dia! ─ cumprimentou ela, de bom humor. — Não nos conhecemos ainda. Sou a Vanda, faço a limpeza da casa do seu Getúlio uma vez a cada quinze dias.
— Ah… prazer, Vanda. Eu sou o…
—… Josué. Seu primo me disse. Acho que ele se esqueceu de avisar que eu viria hoje.
— Sim ─ o rapaz continuava embaraçado. — Mas tudo está bem. Não quero atrapalhar você.
— Fique à vontade ─ replicou ela, varrendo o chão com disposição.

Josué pegou um pedaço de pão e já estava voltando para dormir quando se deparou com a porta do quarto do primo aberta. O rapaz achou esquisito, pois Getúlio fazia questão de conservá-la sempre fechada. Naquela manhã, no entanto, Vanda precisara entrar lá para limpar. Curioso, Getúlio parou à porta. De imediato lhe chamou atenção um bonito baú de madeira encostado no canto do quarto.

— Seu Getúlio gosta de tudo limpinho ─ comentou a mulher em meio aos seus afazeres.
— Sim, ele é muito organizado ─ retrucou Josué sem tirar os olhos do baú.
— O primo do senhor gosta que a casa fique um brinco!

Josué não prestou atenção ao que a mulher dissera. Intrigado, ele apontou para o baú:

— O que tem dentro?

Vanda olhou na direção que Josué apontava e respondeu:

— É ali que seu Getúlio guarda as fotos da falecida.
— Da Mariana?
— Sim. É a relíquia dele. Um verdadeiro tesouro. Não deixa ninguém mexer ali. Nem eu! É o próprio seu Getúlio que limpa o baú.
— Que interessante...

Naquele momento alguém bateu no portão. Vanda colocou a vassoura de lado e anunciou:

— Deve ser o carteiro. O seu Getúlio está esperando uma encomenda.

A mulher passou rápida por Josué. Mal ela sumiu das suas vistas, Josué entrou no quarto e abriu o baú com o coração explodindo de curiosidade. Sabia que era uma besteira, mas... não custava dar uma olhadinha.

Um pedaço de cetim cor-de-rosa cobria as fotos. Cuidadosamente, mas com pressa, Josué afastou o tecido e pegou a primeira foto que lhe caiu nas mãos. Uma moça muito bonita fazia pose em meio às flores da praça da cidade, sorrindo abertamente para o fotógrafo. Josué sentiu o sangue sumir do rosto. Era ela! Mariana era a moça da praça! Atarantado, Josué enterrou a mão entre as tantas fotos que Getúlio guardava com carinho e pegou mais três. Em todas elas, Mariana sorria para a câmera, um sorriso doce, feliz e apaixonado. Bem diferente da alma angustiada que vagava agora pela cidade em busca sabe-se lá Deus o quê.

Josué escutou Vanda se despedindo no portão e prontamente fechou o baú. Dentro do bolso da calça escondeu uma das fotos de Mariana. Não acreditava que ela pudesse ter morrido. Talvez fosse algum engano, disse Josué para si mesmo indo para o quarto. O fato de ela tê-lo levado até os portões do cemitério poderia ter sido uma brincadeira de mau gosto. Pobre Getúlio. Mariana forjara sua própria morte para não casar com ele.

Josué foi para o quarto, mas não conseguiu mais dormir. Era impossível para ele desgrudar os olhos da foto que furtara. Mariana era linda! Por isto Getúlio estava tão apaixonado. Decidiu que naquela noite iria sozinho até a praça procurá-la. Sairia antes mesmo de Getúlio chegar para não dar motivo para ele acompanhá-lo. E se Mariana não estivesse na praça, então Josué iria até o cemitério.

A ansiedade tomou conta de Josué o dia inteiro. Vanda preparou um almoço gostoso, mas ele mal tocou, alegando mal-estar. Fechou-se no quarto com uma xícara de chá de hortelã, única coisa que conseguiu ingerir. Um pouco antes das oito horas da noite, já estava pronto e perfumado, pronto para ir atrás de Mariana. Minutos antes Getúlio ligara para avisar que ficaria um pouco mais na farmácia. Ótimo, pensou ele, entre animado e nervoso.

A noite não estava tão bonita quanto as anteriores. Nuvens pesadas no céu anunciavam chuva para breve. Josué franziu a testa. Uma tempestade não estava nos seus planos. Enquanto caminhava apressado até a praça, colocou a mão no bolso. A foto de Mariana continuava ali, como que para encorajá-lo. Com passos firmes, focado no seu objetivo, Josué logo chegou à praça. Devido ao tempo ruim, ela estava completamente deserta.

O homem suspirou, um pouco desanimado. Não, ele não ficaria parado ali, esperando que Mariana aparecesse. “Vou até o cemitério”, disse para si mesmo. Porém, não precisou dar dois passos. No outro extremo da praça, distinguiu uma mulher caminhando tão suavemente que parecia deslizar. Ela olhou atentamente para Josué, como se de repente percebesse sua presença. Por alguns instantes, os olhos da jovem e do rapaz se encontraram. Então, ela deu meia volta e desapareceu.

— Mariana! ─ gritou Josué, acenando para ela. — Por favor, me espere.

A voz dele se perdeu na solidão da praça, quase fazendo eco. Josué apressou os passos. Em seguida, pôs-se a correr. Não podia deixar Mariana escapar-lhe daquele jeito. Tinha absoluta certeza que a moça tinha algo a lhe dizer.

Menos de dez minutos depois, Josué chegou tenso e exaurido nas proximidades do cemitério. Com as pernas fracas, sentou no cordão da calçada para recuperar o fôlego. Sentia-se quase envergonhado de si mesmo. Era jovem demais para ficar tão cansado daquele jeito. Precisava parar de beber e comer porcaria. No dia seguinte começaria a fazer exercícios e…

Quando Josué olhou para frente, deparou-se com Mariana às portas do cemitério. Era ela, não precisava sequer confirmar com a foto que trazia no bolso das calças. O tecido leve do vestido esvoaçava ao seu redor, tal qual os cabelos. Era uma visão lindíssima e Josué sentiu o ar lhe faltar novamente tamanha sua emoção.

— Mariana...

Ele ficou em pé prontamente. Mariana o olhou e depois entrou no cemitério. Josué caminhou  até lá com as pernas ainda pesadas da corrida. Por que Mariana fazia tanta questão de conversa com ele dentro daquele lugar tão triste? Josué não conseguia entender. Mas aquilo não importava. O que mais desejava naquele momento era ficar frente a frente com ela e descobrir porque havia fugido de Getúlio e enganado a todos.

Os portões do cemitério estavam trancados com um cadeado enorme. Josué sacudiu as grades freneticamente.

— Como ela conseguiu entrar? ─ perguntou Josué a si mesmo.

Sem se dar por vencido, o rapaz reparou que os muros que cercavam o lugar não eram tão altos. Tomando uma pedra como apoio, o rapaz escalou o paredão com alguma dificuldade, suando muito e praticamente estragando toda sua produção. Ligeiramente tonto, Josué caiu do outro lado, estatelando-se no chão. Quando pôde ficar em pé, ainda agarrando-se no muro, vislumbrou Mariana a poucos passos. Ela lhe sorriu, sentada em um túmulo. Josué devolveu o sorriso, encantado. Meio que tropeçando nas pedras e raízes das árvores, ele se aproximou de onde Mariana estava. Sentia-se cansado, mas finalmente valera a pena. Chegara o momento que tanto esperara. Ficaria frente a frente com ela e saberia de todos seus segredos.

Josué sentou ao lado de Mariana, respirando fundo. Ao olhar para ela, levou um susto. A moça havia desaparecido. Atarantado, Josué a chamou em voz baixa:

— Mariana? Mariana! Onde você está?

Um vento forte soprou, balançando os galhos das árvores. Josué se encolheu dentro do casaco e, subitamente, sentiu medo. Estava sozinho dentro do cemitério, cujos portões estavam trancados. E se não conseguisse pular os muros? Estava tão fatigado... Não, Josué não queria passar a noite naquele lugar.

— Mariana, volte, por favor!

Somente naquele momento Josué se deu conta que estava sentado sobre um túmulo. Enojado, ele ficou em pé, tremendo. Uma foto na lápide lhe chamou atenção.

Josué não precisou chegar muito perto para ver quem estava sepultado ali. A foto de uma moça sorridente e bela lhe encarava fixamente. Uma dor forte no peito fez com que Josué caísse de joelhos sobre a terra.

— Mariana! Não, não...

Josué desabou no chão, com o peito parecendo pegar fogo. Um dos seus últimos atos foi pegar a foto de Mariana que ainda estava no seu bolso. Encarou-a longamente, sentindo uma dor terrível cortar sua respiração. Josué se retorceu, mal acreditando que aquilo estava lhe acontecendo. Alguém tinha que aparecer para lhe salvar.


Mariana surgiu ao seu lado, mais bela do que nunca. Agachou-se ao lado dele e estendeu-lhe a mão. Josué segurou-a com força, tentou falar alguma coisa, mas engasgou. Um raio riscou o céu no exato momento que Josué respirou pela última vez.

A NOIVA MORTA - 5ª parte





Josué respirou fundo segundos antes de dobrarem a esquina que dava na praça. Getúlio chegou a se sentir meio tonto ante aquela expectativa. Para decepção dos dois, a única pessoa que estava sentada exatamente no mesmo lugar em que a moça de branco estivera,era a Glorinha, figura pitoresca da cidade e que conversava com tudo o que surgia na sua frente, inclusive com árvores, flores e postes.

— É aquela a moça bonita? ─ gracejou Getúlio, tentando evitar o nervosismo.

Apesar do medo, Josué se mostrou frustrado.

— Claro que não. Talvez a Glorinha tenha espantado ela.
— Ou talvez a tenha visto...
— Venha ─ Josué puxou o primo pelo braço. — Vamos descobrir de uma vez.

A contragosto, Getúlio foi praticamente arrastado até Glorinha. Naquele momento ela travava uma conversa bem animada com uma trilha de formigas que passava bem a sua frente.

— Oi, Glorinha ─ cumprimentou Josué, nervoso.
— Oi ─ grunhiu ela, sem tirar os olhos das formiguinhas.
— Estou procurando uma pessoa.
— E eu com isto?

Josué ignorou a grosseria da velha.

— Você viu uma moça bonita, vestida de branco, aqui na praça agora à noite?
Glorinha não fez questão de encarar os dois. Apontou para a direção oposta com seu torto dedo indicador.
— Ela foi para lá.

Getúlio e Josué se entreolharam.

— Você conversou com ela, Glorinha? Sabe o nome dela? ─ Josué nem disfarçava mais sua curiosidade.
— Só sei que ela foi para lá.

Getúlio puxou o amigo pelo braço e ambos se afastaram dali. Ele não sabia o que pensar.

— O que você acha? ─ perguntou Josué — Devemos ir atrás?
— Aquela é a direção do cemitério.
— Sim, desde ontem eu sei disso. Mas estamos em dois, lembra?

Getúlio sentia as pernas fracas. Desde que Mariana morrera, nunca mais chegara nem perto do cemitério. Queria distância daquilo tudo.  A não ser que fosse sua mulher que estivesse vagando pela pequena cidade.

— Não me agrada ir para aqueles lados. O motivo eu não preciso explicar, não é?
— Tudo bem, cara. Mas você percebeu que há algo acontecendo de estranho por aqui. A Glorinha também viu a moça.

Os dois se afastaram apressados da praça.

— A Glorinha é maluca, não esqueça.

Os primos voltaram em silêncio para casa. Getúlio, de tão perturbado que estava, tomou três cálices de vinho e foi dormir ligeiramente embriagado. Josué observou o primo ir para a cama em silêncio e se arrependeu de tê-lo metido naquela história. Será que…

Será que Getúlio achava que a jovem era sua falecida esposa?


Aquela hipótese atingiu Josué profundamente. Não havia conhecido Mariana, sequer pudera comparecer à infeliz cerimônia de casamento por causa do emprego. Seria possível que a pobre moça vagava pela cidade sem descanso? Mais tenso ainda, Josué recolheu-se ao seu quarto e se deitou cobrindo a cabeça com o travesseiro. Não teve coragem de apagar a luz do abajur. Parecia a que a qualquer momento o fantasma da moça (Mariana?) surgiria a sua frente. Foi difícil pregar o olho naquela noite.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

A NOIVA MORTA - 4ª parte






Getúlio estava comodamente sentado no sofá assistindo televisão quando Josué irrompeu casa adentro muito pálido. Encostado à porta, como se tivesse medo que alguém entrasse atrás dele, o rapaz mal conseguia respirar.

— Primo, o que houve? Alguém lhe atacou? ─ Getúlio ficou em pé e se aproximou de Josué. Ele tremia inteiro.
— Preciso me sentar ─ murmurou, se arrastando para o sofá.

Getúlio reparou as mãos machucadas do primo e ficou preocupado. Foi até a cozinha e voltou segurando um copo de cerveja.

— Tome. Acho que você está precisando.

Sem conseguir afastar os pensamentos da terrível visão que tivera minutos antes, Josué disse tentando fazer graça em meio ao seu nervosismo.

— Acho que preciso de um porre ─ o rapaz tomou a bebida de um gole só.
— Afinal, o que aconteceu para lhe deixar neste estado? ─ Getúlio puxou uma cadeira e se instalou frente ao primo. — Parece que viu uma assombração.
— Pois vi mesmo.

Getúlio riu, mas calou-se em seguida ao ver Josué muito sério.

— Como assim?
— Você escutou bem. Sabe aquela linda moça que eu tentei cortejar? Ela é um fantasma.
Sem saber se ria ou ficava sério, Getúlio foi até a cozinha e voltou com a garrafa de cerveja. Serviu a si mesmo e ao primo, mais uma vez. Depois de um longo gole, Getúlio voltou a perguntar:
— Pode me explicar melhor?

Tenso, Josué explicou os detalhes do seu encontro maldito com a moça. Ao terminar, Getúlio sacudiu a cabeça de um lado para o outro e retrucou:

— Você bebeu.
— Não. Você mesmo viu como eu saí daqui. Sem nenhuma gota de álcool no lombo. Juro, esta cidade é assombrada.

Vendo a incredulidade do amigo, Josué propôs:

— Venha comigo.
— Onde?
— Até a praça amanhã à noite. Certamente ela estará lá.
— Você foi enganado por alguém, está na cara isto.

Josué estava inconformado.

— Peço-lhe que venha comigo. Juro, não estou louco.
— Tudo bem ─ concordou Getúlio depois de pensar por alguns instantes. — Já estou curioso em conhecer esta mulher misteriosa.

*

Getúlio foi dormir ensimesmado. A princípio não acreditou em uma palavra dita pelo primo. Mas depois, à medida que ele contava aquela história estapafúrdia, começou a se sentir incomodado. Josué mencionara, antes de tudo acontecer, que a moça sentada no banco da praça era de uma beleza ímpar. Quem seria? Depois de Mariana não havia mais nenhuma moça que chegasse aos pés dela. Sua noiva era única. A mulher mais bonita das redondezas estava morta há mais de seis meses.
Ou não?

O homem se remexeu inquieto na cama. E se… Mariana tivesse voltado? Talvez sua alma estivesse vagando pelo mundo dos vivos, inconformada com a morte no momento mais importante da sua existência. Getúlio fechou os olhos com força. Não, aquilo não podia ser verdade. Getúlio achou que estivesse ficando louco. Pensou em dizer para o primo, no dia seguinte, que não iria mais a praça nenhuma. Era certo que Josué tivera algum tipo de alucinação. Sim, era isto.

No entanto, no outro dia pela manhã, Josué continuava convicto da visão que tivera na noite anterior. Desta vez Getúlio não teve coragem de contradizer o primo. Apesar do medo que sentia do que poderia encontrar, ele confirmou que iria com Josué até a praça, logo depois que fechasse a farmácia.

A expectativa do que poderia encontrar atrapalhou a rotina de Getúlio o dia inteiro. Ele não conseguiu se concentrar em nada e não tratou com a gentileza de sempre os clientes. Um pouco antes das oito horas da noite Josué apareceu tenso e pálido. Dez minutos depois os primos tomaram o rumo da praça.


A noite não estava muito diferente da anterior. O friozinho dava mostras que chegara para ficar, o bastante para Josué se encolher dentro do casaco. Getúlio seguia ao seu lado sentindo o coração quase saltar da boca. Por duas noites seguidas Josué se deparara com a moça misteriosa sentada na praça. Será que eles teriam a mesma sorte desta vez? 

quinta-feira, 17 de março de 2016

A NOIVA MORTA - 3ª parte





Getúlio foi obrigado a rir ante os preparativos do primo. Um pouco antes das oito horas da noite ele já estava pronto para sair. Lavou o cabelo, pegou emprestado o perfume caro de Getúlio e até vestiu a calça nova comprada na loja da Clotilde poucas horas antes. Ao contrário do dia anterior, a noite estava agradável e estrelada. Perfeita para um encontro como ele mesmo fizera questão de frisar.

— E se ela não estiver lá? ─ perguntou Getúlio, meio que surpreso com o empenho de Josué em ir atrás da moça desconhecida.
— Se não estiver hoje, pode ser que amanhã ela venha. Ou depois — Josué estava bastante empolgado. — Quero saber quem deixou uma dama daquelas esperando sob chuva e frio. Aquilo não se faz.
— Bem, boa sorte.
— Obrigado ─ disse ele dando o retoque final no cabelo. — Se eu demorar você saberá o motivo.

Josué saiu em seguida e tomou o rumo da praça. Seus passos eram nervosos e apressados. Ainda não sabia bem o que dizer se ela estivesse lá. Geralmente desinibido no trato com as mulheres, daquela vez Josué se sentia tímido. Mesmo assim isto não foi o bastante para desanimá-lo. Seguiu firme e forte, sentindo as mãos frias dentro do bolso. Seu empenho foi recompensado. Assim que dobrou a esquina, deparou-se com a visão da jovem sentada no mesmo banco, exatamente como a noite passada. Josué parou, respirou fundo e tomou a direção dela. A ansiedade aumentou à medida que se aproximava. Não havia ninguém na praça quando ele parou ao lado da moça.

A jovem olhava para algum ponto indefinido a sua frente, as mãos cruzadas no colo sobre o vestido branco. Os cabelos louros estavam cobertos por uma espécie de véu. Apesar do ventinho frio, aquilo não parecia lhe afetar.

— Boa noite, moça.

Ela não respondeu imediatamente e Josué chegou a se perguntar se seria surda. Aos poucos, porém, voltou seus olhos para cima e fitou Josué. Assim, tão de perto, a moça era ainda mais linda.

— Boa noite ─ repetiu ele.
— Boa noite ─ ela disse com a voz quase sussurrada.

Estranho aquilo, disse Josué para si mesmo. Algo não estava certo ali.

— Você… você está sozinha?

Ela voltou a olhar para frente e balançou a cabeça fazendo que sim.

— Qual seu nome? O meu é Josué. Muito prazer.

Nada. Sem resposta, Josué se sentiu um bobo. Ele tentou novamente:

— Qual seu nome?

Silêncio. Um vento mais geladinho começou a soprar e o rapaz aconchegou-se no seu casaco. O vestido dela era fino, mas mesmo assim a garota não dava sinais de que passava frio. Criatura estranha aquela!

— Por que você está sozinha? Desde ontem eu a vejo aqui. Está esperando alguém?

A moça o olhou mais demoradamente desta vez. Murmurou depois de alguns segundos:

— Eu preciso ir para casa.
— Bem, eu posso levar você. Permite?

Ela não respondeu e se levantou, parando ao lado de Josué.

— Você é daqui da cidade? Onde você mora?

A moça apontou para frente e Josué entendeu que aquela era a direção para onde ambos deveriam se dirigir. Ao lado dela, o homem acompanhou os seus passos suaves e silenciosos. A moça era tão graciosa que parecia deslizar. Era uma lástima que não fosse de muita conversa.

— De onde você vem? ─ insistiu Josué, ansioso para travar uma conversa.

Pelo visto a moça não estava nem um pouco disposta a bater papo. Josué, desconcertado, iniciou um monólogo incessante. Não sabia sequer se a moça estava ouvindo alguma coisa. Ela permanecia ao seu lado, olhando para frente, parecendo alheia a todo o resto. O próprio Josué se sentia um tolo.

A jovem tomou um rumo um pouco desconhecido para Josué. Depois de um tempo, ambos pegaram um caminho que se afastava da parte central da cidade. Um pouco temeroso, Josué olhou ao redor. Não estava gostando muito daquele novo trajeto.

— Você mora para estes lados?

Subitamente ela parou. A rua não era muito clara. Faltavam postes de iluminação por ali. Sem falar nada, a moça apontou para um local atrás de dele. Josué, a princípio, não entendeu. Havia dois portões de ferro enferrujados e muitas árvores mais para o fundo. Não parecia ser um local de moradia.

— Aqui? Você mora aqui?

Intrigado, Josué foi até os portões. Queria saber o que havia atrás deles. Era tudo muito antigo. Como seria a casa da garota? Velha, caindo aos pedaços, solitária como ela?

Os olhos do homem custaram um pouco a se acostumar com a escuridão além dos portões. Era difícil conseguir visualizar alguma coisa mesmo com a luz das estrelas.

— Meu Deus... ─ sussurrou quando distinguiu dois túmulos velhos e carcomidos pelo tempo poucos passos de onde estava. Aquele lugar era o cemitério da cidade!

Totalmente pálido e sem sentir as pernas, o rapaz se voltou bruscamente para a moça. O sorriso fantasmagórico que ela lhe lançou fez com que Josué soltasse um grito horrível, de puro medo.

— Quem você é? De onde você vem?!


A moça fez menção de se aproximar e estendeu sua mão para tocá-lo. Tomado pelo pânico, Josué deu dois passos para trás, tropeçou em uma pedra e se estatelou no chão, sem nunca tirar os olhos de cima dela. O fantasma, a alma penada ou seja lá o que fosse aquela criatura, caminhou na direção de Josué. Mais do que rápido ele ficou em pé e com as mãos feridas e sangrando pela queda nas pedras do cemitério, ele deu meia volta e saiu correndo e arfante daquele lugar tenebroso.

domingo, 13 de março de 2016

A NOIVA MORTA - 2ª parte

Getúlio só voltou ao trabalho um mês depois, longe de se recuperar do seu luto. Durante suas noites mal dormidas, não conseguia acreditar que novamente tivera azar no amor. Fora uma fatalidade, dissera o médico. Possivelmente Mariana sofria de alguma doença do coração e não suportara tanta emoção. Após a morte da mais bela mulher da cidade, a comunidade entrou em um período de comoção. Alguns casamentos foram adiados. Afinal, uma noiva morrera durante as palavras do padre e muitos casais acharam que a igreja era amaldiçoada. Enquanto o padre não benzeu a igreja, nenhuma união ali se formou. Alheio a tudo, Getúlio voltou ao trabalho, nem percebendo que a sua volta já pipocavam várias solteiras ansiosas em casar com ele.

Sem conseguir esquecer a noiva, Getúlio não se mostrou interessado em mais nenhuma outra mulher. Mergulhou no trabalho como um louco. Abria a farmácia às sete horas da manhã para fechar somente passando das oito horas da noite. Na hora do almoço corria até a casa onde viveria com Mariana, fazia um lanche rápido e voltada para a lida. Era a maneira que encontrara para tentar fugir da dor. Assim foi sua vida durante os primeiros meses após a partida dela. Casa-trabalho-trabalho-casa. Recusava todos os convites dos amigos para sair, beber uma cerveja ou jogar futebol. Foi quando o primo Josué, companheiro de infância, resolveu passar uns tempos com Getúlio. Tinha como missão fazer com que o amigo saísse daquela maldita depressão.

Josué chegou em uma tarde de quarta-feira. Tão boa pinta quanto o primo, o rapaz desceu do ônibus na rodoviária causando sensação. Até chegar à farmácia onde Getúlio trabalhava, de mala e cuia, meia dúzia de mulheres mais afoitas o seguiram cheias de risinhos e promessas. Getúlio o pôs para dentro e fechou a cortina de ferro antes que o local fosse invadido, rindo bastante. Aliás, era a primeira risada que o homem soltava em meses.

Depois de se cumprimentarem efusivamente, Josué segurou o primo pelos ombros e declarou em alto e bom som:

— Puxa, cara! Você está pele e osso!
— Bem… ─ Getúlio se sentiu envergonhado. — Não tenho sentido muita fome nos últimos tempos.
Josué se caracterizava pelos gestos expansivos e bom humor.
— Isto vai mudar a partir de hoje! De agora! Vamos sair daqui, comprar carne e fazer um grande churrasco! O que você acha? Não aceito “não” como resposta!

A proposta sacudiu o espírito triste de Getúlio. Ora, por que não?

— Ainda faltam duas horas para a farmácia fechar. Não posso sair agora.
— Deixe disso, pare de trabalhar, criatura! Está na hora de você se divertir um pouco.

Getúlio não discutiu. Em menos de 15 minutos os dois primos estavam no açougue comprando a carne para o churrasco. Depois passaram no mercadinho da Dona Maria onde levaram cerveja. A noite fechou animada. Os dois amigos comeram e beberam até depois da meia noite. Getúlio riu das aventuras e desventuras amorosas do primo, mas muito pouco contou da sua vida. Quando foi dormir já estava se sentindo melhor, mais leve. Levantou às seis horas da manhã bem disposto. Josué ficaria por lá algumas semanas e estava dormindo quando Getúlio saiu para trabalhar. Boa gente seu primo, pensou ele enquanto se dirigia assoviando para a farmácia. Pena que não chegara antes.
*
Josué se encarregou de fazer com que Getúlio voltasse à vida. Não demorou muito para que Getúlio começasse a encarar a vida com mais otimismo. Mesmo assim, não se sentia preparado para um novo relacionamento. Mariana ainda era a única mulher da sua vida. Guardava todas as fotos dela dentro de um baú que ficava em um cantinho do seu quarto. Não deixava ninguém chegar perto dos retratos, nem mesmo a moça que limpava a casa semanalmente. Sentia ciúmes. Nem mesmo Josué tinha autorização de chegar perto do baú.

Se Getúlio não queria namorar ninguém, com o primo era ao contrário. Josué, com toda sua pinta de galã, era a sensação da cidade. Já no primeiro mês de estada partira três corações. Josué sempre tinha algo novo e engraçado para contar para o primo.

Tudo aconteceu em uma noite fria onde uma chuva fina e persistente gelava até os ossos. Josué voltava do mercadinho encolhido dentro do seu casaco. Ninguém lhe avisara que na cidadezinha onde o primo Getúlio morava fazia tanto frio. Josué estava fazendo planos de dar uma passada na loja de modas da Clotilde no dia seguinte quando se deparou com uma cena estranha. Sentada no banco da praça uma moça vestida de branco parecia solitária e triste. Mas o que faria alguém, seja lá quem fosse, sozinha em uma noite fria ao relento?


Josué diminuiu seus passos, na dúvida se deveria se aproximar dela. Mesmo com a cabeça baixa, era possível reparar que a jovem possuía grande beleza. Encantado, o homem decidiu ir falar até lá. Talvez estivesse perdida, ora essa. Justo naquele momento, um amigo de Josué passou de carro buzinando para lhe chamar atenção. Ele levou um susto, quase deixou as poucas compras caírem. Josué acenou para o outro e voltou os olhos em seguida para a moça.

Ela não estava mais ali.

Josué deu uma volta em torno de si mesmo, praguejando. Bastara dois segundos distraído para que a moça se evaporasse. Frustrado, Josué voltou para casa. Encontrou o primo na cozinha preparando o jantar. Getúlio estranhou quando reparou a expressão esquisita de Josué. Nunca o vira tão sério.

— O que houve? A chuva deixou você mal-humorado?

Josué largou a sacola com compras sobre a mesa, com força. Encarou o primo e disse:

— Você nem sabe o que aconteceu.

Getúlio se surpreendeu com a atitude de Josué, tão tenso.

— Algo grave, pelo visto.
— Eu vinha caminhando pela rua debaixo desta chuvinha irritante. De repente olhei para o lado e vi uma moça. Cara, nunca vi mulher tão linda. Ela estava sentada no banco da praça, sozinha.
— Com este tempo? Esperando alguém?
— Não faço a menor ideia. Pensei se deveria me aproximar dela ou não. Quando decidi que sim, seu compadre Carlos passou buzinando e eu me distraí. Neste meio tempo ela sumiu.

Josué se mostrava inconformado.

— Sumiu como?
— Sei lá, de repente ela não estava mais sentada no banco da praça. Em meio segundo, levantou, foi embora e eu a perdi de vista.
— Quem será, hein? ─ Getúlio continuou remexendo na comida, intrigado. — Não deve ser daqui da cidade.

Josué sentou em um banquinho e aceitou o copo de cerveja que o primo lhe estendeu.

— Amanhã eu vou voltar. Talvez eu tenha sorte de encontrá-la.

— Quem sabe?

terça-feira, 8 de março de 2016

A NOIVA MORTA - 1ª parte




Quando Mariana e Getúlio pousaram os olhos um no outro pela primeira vez, foi amor à primeira vista. Ela era a jovem mais linda da cidade. Getúlio, um excelente partido. Depois de dois anos namorando, ele a pediu em casamento, prontamente aceito.

Getúlio era alguns anos mais velho, devia andar pelos trinta anos. Não seria o seu primeiro casamento. A primeira esposa, Tereza, morrera durante o parto, quando ele ainda morava em outra cidade. Viúvo e desiludido, não demorou muito para que Getúlio abandonasse a cidade onde viveu, cresceu e casou, em busca de novas paragens para esquecer sua dor. Quando conheceu a jovem Mariana, linda moça de cabelos dourados e longos, Getúlio novamente começou a acreditar no amor. O namoro não demorou a engatar para felicidade e satisfação da família da moça. Logo Getúlio começou a trabalhar na farmácia de propriedade do sogro e as coisas pareciam andar em um caminho feliz e estável.

Uma costureira renomada da cidade vizinha foi especialmente contratada para fazer o vestido de Mariana. A moça queria que o seu vestido fosse o mais lindo de todas as noivas. Certa madrugada acordara de repente, pegara um papel e uma caneta e desenhara o vestido que aparecera no seu sonho. Não sabia desenhar, mas os traços ficaram encantadores. Empolgada, Mariana encarregou a costureira famosa de fazer um vestido igualzinho ao sonho. Getúlio não podia vê-lo antes da grande data.

O dia do casamento amanheceu belo e ensolarado. Era março, final de verão. Soprava uma brisa gostosa quando Getúlio chegou à igreja que, pouco a pouco, começou a encher. As flores vermelhas enchiam a nave com seu colorido e aroma. Em pé, no altar, Getúlio não disfarçava o nervosismo. A noiva estava atrasada. O padre demonstrava impaciência. Os convidados se remexiam inquietos nos bancos. Será que Mariana desistira de casar? Getúlio sentiu o suor escorrer pelas costas.

De repente a marcha nupcial começou a tocar e Mariana entrou exuberante pelo corredor da igreja, conduzida pelo seu pai. Getúlio sorriu, orgulhoso por ser aquela mulher linda a sua futura esposa.

Mal a noiva passou a percorrer o corredor florido que a levaria até seu futuro marido, um “oh” se fez ouvir entre os presentes. O véu era longo, o vestido todo rendado. Nas mãos, um buquê de flores roxas completavam o visual encantador. Mariana nem percebeu o quanto abalou os homens e despertou inveja das mulheres. Seus olhos somente pertenciam a Getúlio que a esperava bem trajado em um terno escuro e o cabelo cuidadosamente penteado para trás.

O jovem padre iniciou a cerimônia, ele mesmo surpreso com a beldade que estava a sua frente. Superou a primeira frase em que gaguejou de nervoso e o rito continuou. Mariana volta e meia olhava para Getúlio somente para admirar a sua virilidade. O homem parecia feliz. Ela, muito mais. Já no final, o padre perguntou à noiva se ela aceitava Getúlio como seu futuro esposo. Era o momento em que Mariana havia sonhado desde que pusera os olhos nele pela primeira vez. Olhando do padre para Getúlio e dele para o padre, Mariana respirou fundo e, sorrindo, respondeu em alto e bom som, para que toda a igreja escutasse:

— Sim.

Getúlio sorriu. No momento seguinte Mariana desabou à frente, quando beijando os sapatos do padre. Houve uma comoção entre os convidados. Getúlio logo se precipitou para juntar a noiva. Pobrezinha, pensou ele. Desmaiara de tanta emoção. Talvez fosse o calor, a igreja estava ficando um pouco abafada. Com cuidado, Getúlio a virou para cima, deixando-a estendida no chão para que ela respirasse melhor. Bateu de leve na face pálida dela, esperando alguma reação.

— Mariana, está tudo bem. Acorde.

Ela não se mexeu. Uma ruga de preocupação se formou na testa de Getúlio. Um dos padrinhos, médico e amigo do noivo, se aproximou afobado, empurrando-o para o lado. Getúlio, tenso, observou quando o homem pegou o pulso de Mariana e ficou por algum tempo tentando escutar alguma coisa. Alguns murmúrios foram escutados na igreja. A mãe de Mariana se abanava com um leque, um pouco afastada dali. O médico então voltou seus olhos para Getúlio. Sua expressão era terrível.

— Getúlio, ela está morta.

quinta-feira, 3 de março de 2016

PRECE PARA CONSEGUIR UM NAMORADO





Neste novo ano que está por aí

Quero um marido bem bonito, bem rico e bem dotado

Que ele seja bem simpático, bem querido e bem empregado

Se dê bem com a minha mãe e seja bastante tarado

Tem mais:

Espero que meu amor goste bastante de passear

Não importa se de iate ou no seu jatinho particular

O importante de tudo é ele me amar

Estando eu gorda, magra ou linda de arrasar

Mas se me surgir alguém com uma mão na frente e outra atrás

O importante é que ele tenha saúde

E paciência para me aturar

Mas Deus, que seja feita a Vossa vontade

Para que minha alma nunca mais ande sozinha

E Deus, por favor


Que a Sua vontade seja a mesma que a minha

quarta-feira, 2 de março de 2016