sábado, 23 de maio de 2020

COVA RASA (Conto de terror)





Era uma criança muito bonita. Quando me candidatei ao emprego fiquei encantada com tanta formosura. Laila tinha cinco anos e doces olhos azuis. Parecia tão mimosa que rezei para conseguir aquela colocação. Passei por uma entrevista tranquila. A mãe de Laila, fisicamente muito parecida com a filha, me passou confiança e sensatez. Fiquei em torno de uma hora naquela casa e adorei tudo. A criança perfeita, pais lindos, atenciosos e educados. Seria tão bom se eu conquistasse o emprego de babá de Laila! Resolveria muito dos meus problemas. Eu ficaria muito feliz de viver naquela casa enorme e confortável. Na hora de ir embora, Laila fez questão de me dar um abraço bem apertado e nunca me senti tão acolhida.

            A resposta veio em uma semana. Eu estava empregada! Juntei minhas roupas em duas mochilas e no dia combinado assumi minhas funções de babá da Laila.

            A família morava numa grande casa em um bairro afastado do centro. Havia outras residências no condomínio, mas o contato com a vizinhança era mínimo. No início estranhei. Parecíamos tão isolados! Porém, logo me vi às voltas com os cuidados de Laila. Os pais saiam cedo para o trabalho e nós passávamos o dia todo juntas. Laila foi um amor nos dois primeiros dias.

            Até que ela resolveu matar um gato.

         Eu estava preparando o almoço com a porta da cozinha aberta para o vasto jardim. De repente olhei para o lado e deparei-me com Laila, tão angelical no seu vestidinho cor-de-rosa, segurando um gato branco pelo pescoço. Dei um grito e soltei a colher que caiu no chão espalhando comida. Os olhos de Laila, tão frios, e o gato de língua de fora me deixaram muito assustada. O rosto de Laila era uma máscara de maldade. Nem parecia a menina fofa que eu aprendera a amar.

            — Laila, o que você fez?

            Ela sorriu e largou o bicho no chão. Eu nunca havia visto aquele gato na vida. Devia ser dos vizinhos. Eu queria muito que Laila respondesse que não tinha nenhuma relação com a condição do bicho.

            — Eu o matei.

             A confissão feita em tom frio me chocou mais ainda. Tentei fingir serenidade. Laila parecia possuída por um espírito maligno e eu não podia mostrar para ela o quanto aquilo tudo era terrível para mim.

            — Por que você fez isto com o gato, Laila?

            — Não gosto dele.

            Fiquei sem ter o que dizer. Olhei para o gato morto aos pés da criança. De uma hora para outra os olhos azuis se tornaram doces. Outra garota. Eu permanecia pasma.

            — Bem, temos que enterrá-lo.

            Laila pulou por sobre o gato, passou por mim ignorando-me totalmente e foi para a sala assistir televisão. Fiquei estática por alguns segundos, meio catatônica. Eu teria que enterrar o gato. Nunca tinha passado por uma situação semelhante na vida.

            Achei uma pá na garagem e fiz uma cova para enterrar o bicho. Quando terminei, meia hora depois, eu sentia uma bola dentro do estômago. De repente, Laila e aquela casa me pareceram muito sinistras.

            O restante da tarde foi tranquilo, mas não consegui mais ficar à vontade com Laila. Ela, contudo, se portou normal o tempo todo. Almoçou bem, dormiu o soninho da tarde, andou de bicicleta pelas ruas do condomínio, sempre sorrindo e exalando doçura. Era tudo muito surreal.

            Os pais chegaram no horário habitual e aproveitei o momento que a mãe de Laila estava na cozinha para contar o ocorrido. Ela me escutou atentamente enquanto tomava um copo de suco de laranja. Era possível escutar os gritinhos felizes de Laila brincando no outro cômodo com o pai.

            — Posso entender seu desconforto afirmou ela me olhando fixamente. Peço que não se assuste. Laila é assim mesmo.

            — Assim mesmo? Como assim?

            — É um traço da sua personalidade a mulher baixou o tom de voz. Ela não gosta de animais. Da outra vez aconteceu o mesmo com um filhote de cachorro que veio, por engano, parar no nosso jardim.

            Arregalei meus olhos. Achei que estivesse entendendo tudo errado.

            — Ela é uma boa menina a mãe de Laila sorriu. Contamos com a sua discrição.

            Meu Deus, pensei. A criança é psicopata.

            Pensamentos conflitantes passaram velozes pela minha mente. E se eu pedisse para ir embora? Não, eu não podia. Estava cheia de dívidas. Precisava aguentar firme. Laila não era uma garotinha ruim. Era dona do sorriso mais lindo do mundo, a despeito de ter assassinado dois animais.

            — Que Deus me ajude.

*

            Aquele primeiro mês passou tão rápido e com tantos afazeres que quase me esqueci dos feitos de Laila. No mais, ela vinha se portando muito bem, como uma criança normal. Laila gostava de me presentear com belos desenhos que fazia com seus lápis de cor. Líamos histórias juntas e depois ela dormia no meu ombro igual um anjo. Eu queria acreditar que aquilo que eu presenciara nunca mais iria se repetir.

            O próximo golpe veio em um dia à tarde. Os pais de Laila precisaram fazer uma viagem a negócios. Eles voltariam somente no dia seguinte. Mas não me importei. Laila vinha se comportando tão bem que a morte do gato parecia algo surreal.  Eu decidira – para meu próprio  bem – esconder aquele fato em um canto obscuro do meu cérebro. Descobrimos, no jardim, um enorme formigueiro. Arrepiei-me só de ver aquelas formigas graúdas. Laila, ao meu lado, disse:

            — Odeio estes bichos.

            Estremeci. A voz de Laila saiu algo... tenebroso. Virei para o lado. Os olhos dela estavam parados e a boca era um risco fino. Fiquei sem saber como agir.

            — Er... Elas não causam mal, Laila.

            Foi tudo muito rápido. Com uma força que me surpreendeu, Laila me empurrou sobre o formigueiro. Eu caí de cara sobre os insetos em meio a um grito de susto. Formigas entraram na minha boca, olhos e morderam minhas bochechas. Fiquei em pé, batendo no meu rosto com as mãos, tentando afastar os bichos dos meus braços, cuspindo as que entraram na minha boca. Foi horrível. O tempo todo Laila riu de mim. Uma risada maldosa e asquerosa.

            Então um véu vermelho cobriu meus olhos. Enlouqueci. Desferi um tapa tão forte ao lado da cabeça de Laila que ela caiu. Somente percebi o que tinha feito quando o surto passou e vi que a pedra que Laila havia batido a cabeça se tingia de sangue.

            — Laila, levante.

            Suspendi Laila pelos ombros, porém ela parecia uma boneca de pano. O ferimento ao lado da cabeça era feio. Feio e fatal. Sacudi-a algumas vezes aos berros:

            — Acorda, desgraçada! Acorda!

            Fiquei em pânico. Meu corpo gelou. Não senti mais as picadas das formigas. Com a mesma pá que havia enterrado o gato, fiz um buraco para Laila e a pedra ensanguentada. A sepultura foi no limite com a outra propriedade, afastada da casa.

         Eram apenas quatro horas da tarde. E eu tinha o cadáver de uma criança enterrado no jardim.

*

         Fiquei sentada no degrau da varanda, atordoada, e a noite chegou. Meus olhos não desgrudavam da pequena sepultura. De repente, me dei conta que era noite e levantei para acender a luz. Estava sozinha, com medo e pasma com o que tinha acontecido. Eu não sabia o que fazer. Pensei em ligar para a policia, correr até o vizinho mais próximo, fugir. Me matar.Mas não fiz nada. Continuei sentada, em estado catatônico, tão gelada que parecia que a morta era eu.

         Algo se moveu próximo à sepultura de Laila. No início pensei que fosse algum animal e levei um susto. O movimento cessou e então achei que fosse impressão minha. Eu estava perturbada demais. Uns dois minutos depois aconteceu a mesma coisa. Algo estava se movendo na cova rasa de Laila. Fiquei em pé. Não sabia se fugia ou ia até lá conferir o que era.

         Permaneci no mesmo lugar.

         Uma mão saiu de dentro da terra. Não me dei conta na hora o que era aquilo. Os dedos romperam a terra e em seguida apareceu a mão inteira. Meu coração quase parou. Depois surgiu a outra mão. Ambas as mãos se ergueram em direção ao céu como se quisessem pegar alguma coisa. Lágrimas correram pelo meu rosto inchado pelas mordidas das formigas.Minha voz ficou presa na garganta. Achei que fosse um pesadelo. Mas não era. Eu estava bem acordada.

         Depois das mãos terem rompido a terra, a cabeça loira de Laila surgiu. Ela sentou, ereta, e balançou os cabelos de um lado para o outro para tirar a sujeira da cabeça. Então olhou para mim.

         Nossos olhos ficaram fixos um no outro por alguns segundos. Laila havia virado um zumbi. Levantei pronta para fugir, porém meus joelhos estavam fracos demais para me sustentarem tamanho meu medo. Caí no chão, sem ar e à beira de um ataque de nervos. Olhei para frente outra vez. Laila chutou a terra que voou para cima e para todos os lados. Eu observava a cena bizarra. Parecia que ela estava se divertindo ao fazer aquilo. Acho que escutei uma gargalhada. Havia vários sons ao meu redor. Pássaros, um cachorro latindo ao longe, meu coração descompassado. E a gargalhada de Laila.

         Então ela se virou de lado e ficou em pé. Eu, caída no chão, sem forças para me levantar, assisti Laila tirar a terra do vestido, da pele e dos cabelos. A ferida agora havia virado uma massa seca de sangue. Eu devia ter fugido. Laila era uma morta-viva.

         A criatura (sim, agora Laila era isto) veio caminhando até mim. Um andar meio arrastado, mas firme. Laila sorriu e mesmo com as bochechas sujas de terra eu pude enxergar suas covinhas. Mas aquele sorriso... Era como se o diabo tivesse entrado naquele corpo. Tentei levantar, contudo não consegui ficar em pé outra vez. Uma fraqueza enorme tomara conta do meu corpo. Uma tonteira, um enjoo, eu me sentia doente. Ao mesmo tempo a coisa vinha se aproximando. Laila era tão bonita quando era viva, mas agora... Agora ela era um monstro que caminhava na minha direção e que chegava cada vez mais perto. As mãozinhas se crisparam como se ela quisesse me esganar. Ah, mas eu tinha mais força que Laila. Ela era uma criança e eu, uma mulher adulta. Laila não me venceria ainda que eu estivesse me sentindo tão mal.

         Ela me sorriu e eu reparei nos dentes sujos de terra. Eu estava completamente sozinha com Laila. Ou no que ela se transformara. Então ela deu uma gargalhada, uma coisa sinistra e maquiavélica. Estremeci. Não, eu precisava me erguer. Precisava sair daquele lugar antes que ela chegasse perto de mim. Eu devia ter chamado a polícia desde o início, antes mesmo de enfiar Laila na cova rasa.

         Uma paulada na cabeça me deixou mais zonza do que eu já estava. Caí para o lado e me vi deitada no gramado olhando para as estrelas. Minha cabeça doía e encostei a mão na testa. Estava pegajosa. Era sangue. Gemi. Laila cresceu ao meu lado. Reparei que ela segurava um pedaço de pau na mão. Foi aquilo que me atingira. Se eu estivesse no meu estado normal, não teria sido abatida daquele jeito.

         — Laila, por favor... – consegui murmurar. — Me perdoe.

         Ela apernas me olhou com aqueles olhos que antes eu achara tão lindos. A última coisa que vi foi aquele pedaço de pau firme nas mãos dela.  

         —Morra.

*

         Dei um cutucão com meu pé na cabeça dela. A babá sangrava pelo nariz e pela boca. Morta. Feito o gato. Como o cachorro que arranquei a cabeça. Tipo meu primo que eu empurrei no lago aquela vez. Ops, mas ele não morreu. Meu tio conseguiu salvá-lo antes. Uma pena. Minha cabeça doía, acho que tenho terra na garganta. Preciso ligar para meus pais. Acho que eles estão longe, mas serão os únicos que poderão me salvar (de novo).

         Peguei o celular da babá que estava sobre o sofá. Minha mãe atendeu logo.

         — Oi, mamãe. Eu fiz de novo.



segunda-feira, 18 de maio de 2020

O VULTO (conto de suspense)








O ruído estranho me despertou em alta madrugada. Levantei devagar. Pensei que fosse o gato, mas logo esbarrei no rabo peludo do bicho dormindo sobre o tapete do quarto. Abri a porta com o coração disparado. O som cessara, mas mesmo assim eu me mantinha em alerta. A luz acesa da sala me tranquilizou até eu reparar que a cadeira estava torta. Não era daquele jeito que eu a havia deixado antes de ir para a cama horas antes. Logo após tê-la colocado no lugar, percebi algo estranho no prédio vizinho. Uma sombra me observava dois andares acima. O vulto estava próximo a janela e não dava para distinguir se era homem ou mulher. 

Outra vez o barulho. Vinha da cozinha. Fiz força para as minhas pernas saírem do lugar de tão moles que já estavam. Empurrei a porta com o pé e apertei o interruptor para acender a luz. Foi tudo muito rápido. Gritei.

Um morcego desgovernado passou voando por mim, esbarrando seu pequeno corpo justo no meu rosto. Me debati, apavorada, respirando com dificuldade. O bicho voou para a sala, mas a luz era sua maior inimiga. Desorientado, ele dava voltas em círculos pela sala em meio aos meus murmúrios nervosos. Entre esta confusão toda, o vulto permanecia na janela. Distingui, entre a escuridão do ambiente em que ele estava, dois fachos amarelos.

Seriam... olhos?

O morcego me atropelou de novo e eu gritei. Apaguei a luz na esperança de o bicho se acalmar e encontrar a saída pela janela que eu acabara de abrir. O vulto desaparecera. Suspirei, aliviada. O morcego, enfim, saiu janela afora e eu a fechei no segundo seguinte. Fiquei parada junto às cortinas, respirando fundo, tentando me acalmar. Eram 3:30 da manhã. Eu precisava dormir, meu dia seria cheio.

Espreguicei-me em um bocejo alto. Alguma coisa roçou na minha mão. Virei para o lado bem devagar. Aqueles dois olhos amarelos estavam sobre mim.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

DO OUTRO LADO DO MURO (conto de terror)







Eu escutei o latido de um cachorrinho do outro lado do muro. Aquilo estava cada vez mais frequente agora. Desde que aquela família estranha se mudou para a casa ao lado da minha, coisas bizarras começaram a acontecer. Cantorias sinistras depois da meia noite, uma criança pequena chorando quase sem pausas e o latido insistente do tal cachorrinho. Parecia um filhote e pelo jeito que gania, dava a impressão de estar sofrendo.

Minha mãe me proibira com todas as letras de chegar perto do muro que separava as duas casas. Mas naquela noite não suportei a angústia. Eu estava sozinha em casa e algo muito errado estava ocorrendo do outro lado do muro.

Peguei uma escada e sem pensar muito (para não desistir), encostei-a na parede e subi degrau por degrau. Quando minha cabeça ultrapassou a altura do muro consegui visualizar o que havia no pátio do vizinho. Meu coração batia tanto que tive a impressão que teria um ataque cardíaco.

A princípio, apesar da luz fraca, parecia tudo normal. No fundo, próximo da porta, um cachorrinho preto me olhava, assustado. Amarrado pelo pescoço por uma corda grosseira, o animal parecia acuado e triste. E talvez, machucado. Eu não podia deixar aquilo permanecer. Me armando da pouca coragem que tinha, passei a perna sobre o muro e no segundo seguinte já estava dentro do outro pátio. Não fiz nenhum barulho enquanto me aproximava do cão. Ele recuou um pouco, mas logo percebeu que eu não iria machucá-lo.

O nó estava forte. Praguejei, respirei fundo para me acalmar e tentei de novo. Uma sombra atrás de mim, no muro, fez com que minhas pernas ficassem mais bambas do que já estavam. Me voltei, tensa, e deparei-me com um gato preto. Seus olhos amarelos e ferozes me disseram que eu não era para estar naquele lugar. Contudo, eu não tinha como sair. O gato bloqueava minha passagem. Parecia estar esperando que eu subisse no muro para me atacar.

O cachorrinho ganiu de novo e quando tentei soltar o nó mais uma vez, a porta da casa se abriu. Olhei para cima sem acreditar na minha má sorte. A porta lentamente foi abrindo e pensei que era melhor para mim fugir. Levantei tão rápido que, em pânico, tropecei nos meus próprios pés e caí no chão em um baque surdo. O gato saltou do muro e parou ao meu lado, espreitando-me. A porta agora estava aberta totalmente e a escuridão não permitia que eu visse quem estava ali. Um vulto, um véu, algo se movia através da brisa leve que soprava. Não dava para saber se era homem ou mulher, jovem ou velho. Eu precisava fazer alguma coisa. Talvez fugir fosse pior.

— Boa noite – murmurei.

Não houve resposta. A luz acendeu e num primeiro momento ela me cegou. Não havia ainda me habituado com a claridade quando escutei uma voz aveludada e simpática:

— Olá. Quem é você?

Uma moça bonita, de branco e longos cabelos negros, me fitava com olhos brilhantes. Meu medo se dissipou no mesmo instante. Ela não parecia nem um pouco ameaçadora. Levantei esfregando as mãos nas minhas calças jeans.

— Sou a Luciana, a vizinha da casa ao lado. Eu... fiquei preocupada com os latidos do cachorrinho.

 A moça sorriu parecendo compreender a situação perfeitamente.

— Ah, ela é muito sensível. Late por tudo. Muito prazer em conhecê-la. Você não quer entrar? Venha tomar um chazinho comigo e minha família.

Uau, eu não esperava receber aquele convite. Tudo parecia normal ali e, de repente, me vi ansiosa para saber quem eram meus novos vizinhos. Teria muitas novidades para contar quando meus pais retornassem.

— Eu adoraria.

Ela fez um gesto para que eu me aproximasse e chegou para o lado a fim de que eu entrasse na casa. Me vi numa cozinha antiga e com facas afiadíssimas expostas sobre uma mesa grande. Senti um arrepio. Mais para o canto, no chão, um saco preto e imenso parecia estar cheio.

Cheio de quê?

A porta que dava para o pátio se fechou com um barulho sinistro. Nada fazia mais sentido. Olhei para trás. A moça simpática sorria para mim com uma corda na mão.


terça-feira, 21 de abril de 2020

AS MELHORES AMIGAS (Conto infantil)





Tina e Tônia eram as melhores amigas. Tina adorava seu vestido de fita cor do céu. Tônia não tirava seu vestido de chita cor-de-rosa. Um dia Tina derrubou feijão no vestido preferido de Tônia. A amiga ficou tão triste que Tina decidiu costurar um vestido ainda mais bonito para Tônia. Ele era cheio de florezinhas e borboletas e toda vez que Tônia o vestia, ela imaginava estar em um jardim encantado passeando com sua melhor amiga. E Tina, com seu vestido cor de céu, levava Tônia para voar com os beija-flores.

Porque quando a gente é criança os sonhos andam de mãos dadas com a gente.

sábado, 11 de abril de 2020

O BELO







Mas ele era bonito, sabe? Tinha pose, estilo, um olho preto misterioso. Eu gostava de olhar para ele, embora ele nem soubesse da minha existência. Não que eu me importasse. Na verdade, eu o achava muita farinha pro meu saco. Imagina se um homem daqueles iria se interessar por mim... Eu me contentava com pouco naquela época. O “pouco”, no caso, era eu ficar observando o cara meio que escondido, analisando cada movimento seu, o jeito que caminhava, cruzava as pernas, até o tênis que ele usava me dava arrepio. Tudo nele era bonito. Eu sabia que ele nunca iria olhar para mim com algum interesse.

Não que eu fosse feia. Não! Na verdade, eu bem bonitinha, graciosa, não tinha problema para encontrar namorado. O problema é que fui me encantar com alguém que, como minha mãe dizia, era de um nível social diferente do meu. Para ele, eu sei, eu era uma pobretona. Que andava de ônibus. Que quando ficava doente tinha que ir parar na UPA e não na clínica particular top dos Jardins. Eu era simples. Ele, grandão. Não, gente. Eu tinha pé no chão. Ele nunca iria querer nada comigo.

Aconteceu, então. Os nossos destinos se cruzaram. Foi uma coisa muito louca e, ao mesmo tempo, muito estúpida. Quando me dei conta ele estava praticamente em cima de mim, passadas fortes, óculos de grife escuros, um deus. Eu não tive nem tempo de perder o fôlego. Só ouvi aquela voz metálica dizendo “ponha no lixo pra mim”. Levei alguns segundos para me dar conta que ele estava se dirigindo a mim. Aquela mãozona morena que tanto eu admirava colocou nas minhas próprias mãos uma latinha de cerveja amassada. E foi embora. Não olhou para trás. Não agradeceu. Fiquei olhando para o lixo que ele deixara comigo e tive uma vontade louca de atirar de volta nas costas largas dele.

Pensei em abaixar a cabeça e recomeçar meu trabalho. Mas antes que eu fizesse isso, levantei o dedo do meio num gesto afrontoso.


Nunca mais, seu cretino.

terça-feira, 7 de abril de 2020

MOCORONGA VÍRUS - Parte 2 final





                                                                                4



Dalva não era propriamente uma mulher bonita, mas sabia ainda como conquistar um homem. Já havia passado dos cinquenta anos, contudo o corpo se mantinha em forma à base de muita ginastica. Quando a prima Maricota telefonou pedindo ajuda para sair do cativeiro ela não pensou duas vezes em libertá-la. E se o policial estivesse fazendo campana não teria problema algum. Ela poderia dar um jeitinho de fazer com que ele relaxasse na guarda.

Sem medo pulou as barricadas que o prefeito pusera na entrada da cidade e caminhou, resoluta, para o centro da cidade. Dalva conhecia Santa Luzia, já visitara a prima algumas vezes e sabia muito bem onde ficava a delegacia. Esgueirando-se pelas sombras, ela não custou muito a avistar um policial jovem e bonito frente ao prédio do lugar. Dalva se escondeu atrás de uma árvore para observá-lo melhor. O homem estava com sono e, com certeza, seus reflexos, mais lentos. Uma pena que Maricota estivesse naquela situação, pois seria um prazer conhecer mais de perto o belo agente da lei. Bem, isto teria que ficar para outro dia, para depois da pandemia do mocoronga vírus passar. Primeiro precisava tirar a prima e o amigo dela do confinamento e fugir dali antes que restasse presa também.

Foi depois de um bocejo prolongado que Josias percebeu que a árvore se mexia. Ele piscou algumas vezes até cair em si e ver que, na verdade, uma mulher de cabelo oxigenado, de calça justa e tênis cor-de-rosa se escondia atrás de uma árvore. Ele suspirou. O que mais faltava acontecer em Santa Luzia naquela noite? Ele pegou a espingarda e apontou para a figura caminhando firme na sua direção.

— Levante as mãos!

Josias falou em tom baixo e firme. Não era sua intenção acordar a cidade inteira naquela longa madrugada que não terminava nunca.

A mulher saiu detrás da árvore com um sorriso estampado no rosto e se movendo como se fosse uma serpente. Em um primeiro momento, Josias pensou que Dalva fosse um travesti. Realmente, aquela noite estava bem esquisita.

— Não atire, meu amor. Não sou uma assassina.

Josias nunca havia visto a mulher na sua vida. Sim, era uma mulher. Mas o que ela fazia circulando por Santa Luzia em alta madrugada?

— De onde você é?

— Estou de passagem – respondeu ela se aproximando devagar.

— Passagem? De que jeito? As entradas da cidade estão bloqueadas.

Dalva parou frente a ele guardando uma certa distância. A espingarda ainda estava apontada para ela sem muita convicção agora.

— Sou uma fada – Dalva fez uma pose graciosa. — Posso qualquer coisa.

— Meu Deus – murmurou Josias. Não sabia dizer se a mulher estava bêbada ou era maluca. — De onde você saiu?

— Já disse, sou uma fada. E vim aqui alegrar sua noite solitária.

Josias baixou a espingarda. Sim, a mulher era doida.

— Olha, só para esclarecer. Não estou triste e tampouco me sentindo sozinho. Volte para onde você veio. Ou vou ter que lhe prender.

— Uau, que loucura! Eu adoraria ser algemada por você.
Dalva sorriu com todos seus dentes branquinhos. Senão fosse a prima presa, ela bem que gostaria de ficar de assunto com o bonito.

— Senhora – Josias apontou para a direção da entrada da cidade. — Não sei como entrou, mas recomendo que se ponha daqui para fora.

— Já que é assim irei embora mesmo – Dalva sacudiu os ombros fingindo-se conformada. — Um dia voltarei para conversarmos mais de perto. Eu sei que é por causa do mocoronga vírus que você não quer falar comigo.

Dalva atirou um beijinho para ele e se virou para ir embora. Deu três passos e desabou no chão.

— Ai!

Josias soltou outro suspiro. Era demais. A mulher massageava o pé que, supostamente, estava torcido. Seu rosto era uma expressão de dor. Josias não podia deixá-la ali.

— Vou ajudar você.

Ele se aproximou de Dalva e se agachou ao lado dela. Esperava, de todo o coração, que a criatura não estivesse contaminada pelo mocoronga.

— Tudo bem. Se apoie em mim – ele ofereceu o braço. — Vou levar você até a delegacia.

Amparada por Josias, Dalva foi pulando num pé só, gemendo de dor, mas adorando o contato físico entre os dois. O homem abriu a porta pesada da delegacia, acendeu a luz e indicou uma cadeira para Dalva.

— Você pode sentar ali mesmo.

— Oh, muito obrigada – ela o encarou com seu sorriso radiante. — Você é tão gentil.

— Não faço mais que minha obrigação.

Foi tão rápido que Josias não teve tempo de se defender. Dalva acertou a cabeça do policial com um cassetete e usou de tanta força que o homem desabou no chão. Chocada com sua própria atitude, ela o observou por alguns segundos. Sabia que quando ele voltasse a si estaria muito encrencada. Afobada, revistou seu bolso até encontrar uma chave que supôs ser a do galpão onde a prima estava. Dalva saiu pelos fundos da delegacia e não demorou muito a encontrar o local onde Maricota e Vanderlei estavam.

— Mari! Mari, sou eu! Você está aí?

Maricota deu um pulo ao ouvir a voz da prima.

— Dalva! Sim, estamos aqui!

Com as mãos trêmulas, Dalva conseguiu abrir a porta. Maricota surgiu branca e aliviada abraçando a prima. Mas não havia tempo para demonstrações de afeto.

— Eu acertei uma cacetada no policial – Dalva pegou a mão da prima puxando-a para fora do galpão. — Se ele acordar estou mais ferrada que vocês dois juntos!

Maricota olhou para Vanderlei que vinha logo atrás dela.

— Não podemos perder tempo, Vanderlei!

Os três saíram da delegacia em silêncio nervoso, caminhando fininho. Josias continuava no chão, gemendo e parecendo prestes a acordar. Assim que ganharam a rua Vanderlei anunciou:

— Vocês vão para um lado e eu vou para outro. Até qualquer dia, Maricota.

Dalva deu um puxão na prima enquanto Vanderlei desaparecia aos pinotes pelas ruas desertas de Santa Luzia.

— Vem, Mari! O policial já vai acordar!

De mãos dadas, as duas primas atravessaram a praça correndo, tensas e rindo de nervosas. Tinham a impressão que a qualquer momento o delegado e os outros policiais iriam brotar do nada para levarem as duas para o xilindró.

— Atchim!

Dalva soltou a mão de Maricota para espirrar.

— Nossa, estou em péssima forma – gemeu Maricota apoiando as duas mãos nos joelhos, arfante.

Foram mais dois espirros na sequência enquanto Maricota aproveitava para recuperar o fôlego. Dalva explicou, fungando:

— O pólen das flores me causa alergia.

Outra vez, mais descansadas, elas se puseram a correr rumo às barricadas. Dalva deixou mais alguns espirros no ar de Santa Luzia ao mesmo tempo que a prima escalava os obstáculos que o prefeito mandara colocar no portal de entrada da cidade. Só ficou aliviada quando se viu dentro do carro da prima.

— Tão cedo eu não volto para cá – suspirou ela meio entristecida.

— Muito menos eu – Dalva acionou a partida do motor. — Pobre do bonitão. Eu gostaria tanto de conhecê-lo melhor...

O carro partiu em disparada. Santa Luzia ficou para trás jogada a sua própria sorte.

O mais forte sobreviveria.

Ou não.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

MOCORONGA VÍRUS - Parte 1






1

Primeiro o prefeito mandou fechar as duas entradas da cidade. Depois o delegado ordenou que o contingente de três policiais fizesse uma ronda todos os dias ao anoitecer para quem estivesse na rua fosse devidamente posto dentro de casa. O motivo? O mocoronga vírus, uma peste que provocava uma sucessão de espirros e uma diarreia incontrolável.

Logo o pavor tomou conta da pequena Santa Luzia. As pessoas tinham medo de sair à rua. As missas foram suspensas e o comércio local começou a atender com as grades fechadas, evitando qualquer contato pessoal. Máscaras de proteção e luvas eram a nova moda entre os habitantes apavorados.

O remédio para diarreia esgotou rapidamente das duas farmácias no município. Ninguém queria ser pego desprevenido. Ainda que não houvesse sido registrado nenhum caso na comunidade e arredores, o medo de se cagar em público era maior que qualquer coisa.

Os namorados não se beijavam mais. Ninguém mais compartilhava o chimarrão. Os cumprimentos afáveis e apertos de mão deixaram de acontecer. Tudo era à distância. O pavor tomou conta daquele pequeno lugar. Tinha gente que até medo de peidar sentia. A situação era caótica.

E havia o Vanderlei, o bêbado de estimação da cidade. Ele vivia numa casinha um pouco afastada do centro de Santa Luzia com seus cachorros. Vander era um bêbado quieto e não se sabia se ele estava a par do que estava ocorrendo. O fato é que o homem circulava, despreocupado, pelas ruas da cidade com sua garrafa de cachaça, feliz na sua bebedeira, sempre com um par de cachorro nos seus calcanhares. De fato, Vanderlei era o cara mais sereno de Santa Luzia. Não estava nem aí para nada. Um vírus? Deixa pra lá.

Mas teve uma vez que Vander burlou o toque de recolher da polícia. Foi em uma noite em que ele estava mais bêbado do que nunca. Aos berros, o homem deu uma volta ao redor do chafariz da praça bebendo cachaça. As pessoas chegaram à janela e algumas pediram que ele fosse para casa. Ninguém queria sair para acalmá-lo com medo do vírus e da polícia (o delegado esbravejou que prenderia quem ousasse estar fora de casa depois que o sol baixasse). Vanderlei ignorou a todos. Quando avistou um dos policiais se aproximando juntamente com o delegado, Vanderlei tirou as calças e defecou bem no meio da praça.

 — Eu peguei o mocoronga vírus! – berrou ele. — Estou pesteado!

E ria. Algumas janelas foram batidas violentamente. O policial e o delegado, que vinham em passo firme, pararam subitamente ao assistirem aquela cena. Não tanto pela nojeira, mas pelo medo do infeliz estar infectado. O policial deu um cutucão no delegado e comentou:

— Ele não está doente coisa nenhuma. É só para afrontar mesmo.

Mas o delegado suava em profusão.

— Eu só não mando prender este vagabundo porque ele pode contaminar toda a delegacia. Vou falar com o prefeito para mandar desinfetar a praça.

No outro dia quando os moradores saíram para seus afazeres encontraram a praça cercada por um cordão de isolamento. De Vander, nem sinal.

2

A Maricota saiu cedo de casa, por volta das oito horas da manhã, para ir até o cemitério levar algumas rosas para pôr no túmulo do finado. Não era por um vírus mixuruca que ela iria ficar em casa confinada como algumas amigas estavam fazendo. Ela precisava sair, respirar ar puro (ou não tão puro assim), cumprimentar as pessoas. Bem, as pessoas não estavam saindo muito para a rua. O prefeito recomendara que era para sair só em caso de necessidade. Bem, o finado estava de aniversário e ele merecia flores. E lá foi Maricota agarrada no seu buquê de rosas. Não tinha medo do mocoronga vírus, muito menos de ficar doente. O bicho não tinha nem chegado perto de Santa Luzia ainda! Que gente medrosa!

Enquanto caminhava segurava de si até o cemitério no ponto mais alto da cidade, Maricota pôde perceber os olhares tortos que recebia dos vizinhos recolhidos nas suas casas e que estavam na janela cuidando da vida alheia. Quase fez uma banana pra aquela gentinha. No cemitério não ficou mais que meia hora. Rezou, deu uma chorada, conversou um pouco com o finado e foi embora. Lembrou que precisava comprar pão e passou na padaria do seu Joca. Havia em torno de cinco pessoas que se mantinham afastadas uma das outras esperando do lado de fora para serem atendidas. Seu Joca, de máscara, atendia pela grade, entregando os produtos por ali, dentro de uma sacola pendurada na ponta de uma taquara. Maricota ficou por ali admirando a bela praça (agora já limpa depois da cagança do Vanderlei), os passarinhos, o céu azul. Ninguém conversava. Pareciam ter medo de abrir a boca e acabar engolindo o mocoronga. A primavera era linda, Maricota pensou ao mesmo tempo que sentiu vontade de espirrar. Maldita rinite, praguejou ela antes de ser sacudida por uma sequência de uns dez espirros. Quando voltou ao normal se surpreendeu ao reparar que os vizinhos estavam a metros de distância dela, todos a observando com ares de espanto e terror. Paralisados. Seu Joca a encarava de olhos arregalados. Aliás, com a máscara, a única coisa que aparecia no rosto do homem eram os óculos de aros grossos. Todo ele era pânico. Maricota levou cinco segundos para se dar conta do que acontecera.

— Gente... – ela teve vontade de rir. — É só uma crise de rinite.    
        
Uma mulher apontou um dedo trêmulo e nervoso para ela, dizendo com uma voz cavernosa:

 — Ela está com a coisa!

— Não, não estou, não – Maricota ainda riu sem se dar conta da gravidade. — É rinite, eu tenho surtos sempre que começa a primavera. Gente, nem me caguei ainda!

Só quem riu foi ela. Ninguém mais. Seu Joca fechou a porta do estabelecimento com um estrondo e se refugiou lá dentro. Do lado de fora alguém sacou o celular e ligou para a polícia. Quem então arregalou os olhos foi Maricota. Oi? Polícia? Então iriam prendê-la? Ou levá-la para algum tipo de confinamento?

 Socorro.

Maricota deu meia volta e saiu correndo do jeito que podia. Ela não tinha mais idade para correr, mas de alguma forma conseguiu se afastar da cidade o bastante para escapar das garras da polícia. No meio do caminho, numa estradinha de terra, suada e com as pernas bambas, deu de cara com o Vanderlei.

 — Vander! – berrou ela se aproximando. Lembrou que o finado dava dinheiro para ele sempre que o bebum pedia. — Me ajuda, por favor! A polícia quer me prender!

 — Por quê? – naquele momento ele não estava tão bêbado assim. — Você cagou na praça também?

 — Não! – Maricota se horrorizou com a pergunta de Vanderlei. — Eu só espirrei.

 — Ah, minha filha – retrucou Vanderlei balançando a cabeça de um lado para o outro. — Você já devia saber que lá na cidade não se pode nem cagar e nem espirrar.

 — Pois é, mas a rinite me atacou. E chamaram a polícia.

 — Olha – Vanderlei cruzou os braços e olhou para ela. — O que você pode fazer é se esconder lá em casa.

— Na sua casa? – Maricota torceu a cara. — Mas lá vai ter lugar para mim? Naquele muquifo?

— Quer ou não quer?

Não que tivesse medo de Vanderlei. Ele sempre fora um pobre diabo inofensivo. Só não sabia o que esperar de um local habitado por um bêbado.

 — Tudo bem – ela decidiu arriscar. Não tinha alternativa. Lembrou da sua prima, a Dalva. Ela morava há cinquenta quilômetros de Santa Luzia e sempre haviam sido amigas. Era claro que Dalvinha iria ajudá-la naquele momento crítico. — Eu vou aceitar sua hospitalidade. Mas não será por muito tempo. Vou ligar para minha prima Dalva vir me salvar.

— Só se ela chegar de helicóptero – devolveu Vanderlei. — O prefeito mandou fechar as entradas, esqueceu, minha filha?

3

Ainda com o coração aos saltos, Maricota seguiu Vanderlei pela estradinha de terra, dobrou à direita e seguiu por mais alguns metros. Havia mato por todos os lados e, no fundo do caminho, a casinha do Vanderlei. Era de madeira e bem pintada. Quando chegaram frente à casa, Vanderlei fez uma mesura e apontou para a porta.

 — Pode entrar. A casa é sua.

— Muito obrigada – desconfortável, Maricota empurrou a porta, ressabiada. Se surpreendeu. O local era limpinho e bem arrumado. — Nossa, Vander. Você sabe cuidar bem da sua casinha.

 — Fique à vontade – disse ele entrando e fechando a porta. — Pode sentar. – Ele indicou um sofá velho, feito com uma colcha de retalhos. — Está com fome? Eu tenho comida na geladeira.

 — Você tem geladeira?

— Claro. Onde você acha que eu guardo o trago?

Maricota pegou o celular da bolsa.

— Primeiro preciso falar com a Dalva. Não pretendo passar minha noite aqui.

— Não se preocupe, eu tenho uma cama extra – ele parou frente à Maricota. — Ei, eu posso ajudar você a fugir daqui. Eu tenho um plano.

Maricota desligou o celular e o encarou, interessada.

— Um plano para me salvar das garras do louco do delegado? Me conte, por favor.

— Nós vamos de madrugada até sua casa, você junta suas roupas e pede para sua prima a esperar do lado de fora da cidade, antes das barricadas. Eu ajudo você a carregar suas coisas até lá.

Vanderlei acendeu um cigarro fedido e arrematou:

— Nunca vou me esquecer do seu Geraldo. Ele sempre financiou meu trago.

Maricota bateu palmas subitamente animada com aquela perspectiva.

— Grande plano. Vou ligar para a Dalva.

Ligação feita, Maricota e Vander se sentaram frente a frente para traçar o plano. Ambos chegaram à conclusão que não haveria como dar errado e, para comemorar, Maricota chegou a dividir uma garrafa de cachaça com seu novo amigo. Resultado: os dois dormiram o resto do dia e Vander acordou logo depois da meia noite, assustado.

— Acorda, mulher! Está na hora de irmos até a cidade!

O lugar era escuro e Vanderlei acionou sua lanterna. Com as pernas bambas, tensa, Maricota seguiu-o pelos caminhos escondidos da área rural de Santa Luzia. Antes de chegar à cidade recebeu uma mensagem da prima. Dalva já estava a postos na entrada da cidade aguardando novas instruções.

Era uma hora da manhã quando os dois chegaram ao centro da pequena Santa Luzia. Alguns postes de luz davam a iluminação necessária ao local. Vanderlei puxou Maricota pela manga da blusa e ambos se esgueiraram pelas sombras das ruas e andaram alguns pontos agachados para se confundirem com a escuridão. Estava indo tudo bem até aquele momento. Maricota enviou uma mensagem para Dalva para dizer que em breve se encontraria com ela e, precavida, guardou o celular dentro da calcinha. A casa branca e com um gracioso jardim na frente já era possível de ser avistada por sua dona que, alvoroçada, cutucou Vanderlei:

— Olha, estamos perto. Vou pegar o mínimo necessário e...

— Psh... – ralhou Vanderlei. — Todo silêncio é ouro.

Ele mal havia pronunciado aquelas palavras quando algo como uma teia cobriu o casal. De repente, Maricota se viu envolvida por uma rede e pensou, em um primeiro momento, ser uma brincadeira sem graça de Vanderlei. Porém, quando se virou para ele, se deu conta que o parceiro de fuga estava enredado também. E furioso.

— Mas que merda é esta? – perguntou ele em voz alta.

— Calem a boca vocês dois.

Uma voz vinda da escuridão fez com que Vander e Maricota se voltassem, assustados, para a direita. Um dos policiais segurava uma espingarda apontada diretamente para eles. Maricota ficou mais apavorada. Nunca, na vida, estivera na mira de uma arma. Vander, contudo, logo se recuperou do susto. Com as mãos na cintura olhou o policial e bradou, furioso:

— Pode explicar o que é isto aqui? Estamos sendo presos?

A voz aguda de Vander varou a noite de Santa Luzia. No entanto, nenhum vizinho abriu a janela para conferir que barraco era aquele. O policial sacudiu a arma frente aos dois em uma distância segura. Com a voz ainda em tom baixo, o homem ordenou:

— Sim, por estarem contaminados pelo mocoronga. Andem! Andem!

Maricota e Vanderlei não tiveram outra alternativa a não ser seguirem pelo caminho indicado pelo policial. Sempre na mira da espingarda, Maricota com as pernas trêmulas e Vanderlei, resmungando sozinho, caminharam pelas ruas escuras de Santa Luzia e foram parar atrás da delegacia. Nos fundos do terreno havia um pequeno galpão. O policial destrancou uma porta e disse:

— É aqui que vocês vão ficar até se livrarem da peste.

— Para começo de história, eu não estou com a peste – informou Maricota. — Estou com rinite.

— E naquele dia eu estava com dor de barriga – arrematou Vander com o dedo em riste – depois que o delegado me deu um cachorro quente estragado para eu comer.

— Calem-se! – ainda distante o policial fez um sinal com a espingarda. — Entrem aí.

Maricota na frente e Vander logo após, entraram na cela úmida e escura. O policial veio por trás, arrancou a rede e fechou o galpão. Em seguida se afastou apressado como se a peste pudesse envolvê-lo com um abraço. Maricota, furiosa, bateu o pé no chão diversas vezes.

 O que este delegado tem na cabeça? Como ele pode manter duas pessoas em cárcere privado sem ter feito nenhum exame para saber se estamos com a peste?

— Você está com o celular ainda?

— Sim.

— Então avise sua prima. Conte o que houve e descubra se ela pode dar um jeito de nos tirar desta enrascada.

Maricota pegou o celular de dentro da calcinha e telefonou na mesma hora para Dalva:

— Dalva! Você não vai adivinhar o que aconteceu...