quinta-feira, 30 de novembro de 2023

UM CONTO DE MISTÉRIO - PARTE 2

 



Angelina assistia à novela, calmamente, comendo pipoca. De repente, ouviu um grito agudo e desesperado vindo de alguma das casas. Ela se pôs de pé e a tigela com as pipocas se esparramou no chão sobre Tobi, o cão caramelo e sua única companhia.

Afobada, ela abriu a porta da casa. Logo se deu conta que vinham lamentos e uivos da casa da frente. A casa onde sua melhor amiga morava.

― Lou! Lou, o que está acontecendo?

A mulher, em pânico, atravessou a rua, abriu o portão da casa de Lourdes, cruzou o jardim e olhou pela janela. E a cena que viu foi aterrorizante.

― Ai, meu Deus!

Angelina deu a volta e tentou entrar na casa. A porta estava trancada. Ela bateu, desesperada.

― Lou, me deixa entrar! Lou!

Não demorou muito Lourdes abriu a porta e desabou nos pés da amiga, aos prantos.

― O Juarez... o Juarez...

Angelina pulou por cima da amiga e foi até a cozinha onde o corpo do seu compadre jazia no chão. Ela se agachou ao lado do homem e deu vários tapinhas no seu rosto. Como não resolveu nada, começou a distribuir socos mais fortes para ver se o cara acordava.

Lourdes surgiu tropeçando nos próprios pés e desabou ao lado dela.

― Angelina, ele está... morto?

― Cruzes, parece que sim.

A morte de Juarez era surreal. A pouco tinha visto o casal chegar feliz, de bicicleta, rindo. Agora o homem estava morto no piso frio da cozinha. De pau duro. Angelina simplesmente não conseguia tirar os olhos do volume das calças do falecido.

Lourdes se jogou sobre o peito do marido chorando cada vez mais forte. Angelina se levantou, zonza. Deveria chamar o vizinho, o doutor Miguel, o cardiologista da cidade. Quem sabe ele ainda poderia dar um jeito de salvar o pobre Juarez?

A vizinha da casa da esquerda apareceu também, entrando pela porta escancarada. Ao chegar à cozinha deparou-se com a cena caótica.

― Angelina, o que aconteceu?

― O Juarez morreu.

― Bem, mas não é disto que eu estou falando.

Ela fez um sinal com os olhos para a piroca do morto. Lou continuava com seu pranto, mal se dando conta de quem estava por ali.

― Pois é... Ele morreu assim. Que situação. Pobre Lourdes.

        Apesar da tragédia que se desenrolava ante seus olhos, Angelina estava tão impressionada com o vigor pós-morte de Juarez que não sabia o que fazer. Alguém deveria chamar o doutor Miguel. Mas não seria ela. Angelina queria ficar ali admirando o volume nas calças do Juarez.

― Por isso que a Lourdes tá chorando tanto ― concluiu a vizinha. ― Olha o que ela perdeu.


... continua.

       

 

 

 

 


UM CONTO DE MISTÉRIO




Entardecia naquela pequena cidade da serra. Era primavera, tudo era tão colorido e alegre. As flores cresciam nos jardins. As pessoas pareciam mais alegres depois de um inverno rigoroso.

Lourdes olhou para trás se equilibrando na bicicleta nova. Ganhara fazia três meses em pleno frio e era a primeira vez que passeava com ela. Atrás vinha o Juarez, seu marido, pedalando sua própria bicicleta. Fazia semanas que eles combinavam aquela volta. Estavam esperando o tempo melhorar, fazer sol, parar de chover.

Aquele dia finalmente chegara. Juarez acenou para Lourdes como se dissesse para ela seguir em frente. A noite chegava aos pouquinhos. Eles pedalaram mais um pouco, pararam na confeitaria da Dona Joca, compraram doces para degustarem logo mais.

Tudo estava tão perfeito que Lourdes não queria mais que aquele dia acabasse.

 O casal chegou por volta das 19 horas. A noite chegara de vez e um ventinho frio soprava. Juarez, animado, colocou os ingredientes para o jantar sobre o balcão e avisou:

Enquanto você toma seu banho, eu preparo as coisas por aqui.

Lourdes deu um beijo no marido. Não podia haver no mundo homem melhor que aquele.

― Obrigada, meu amor. Vou ficar bem cheirosinha para você.

Faceira, Lourdes foi para o banho, caprichou em todos os aromas possíveis e depois de meia hora abriu a porta do banheiro vestida com um roupão macio.

― Amor, estou pronta! Deixa que eu termino a janta e venha tomar seu banho.

Silêncio. Ninguém respondeu. Lourdes achou estranho. Será que Juarez estava no celular? Talvez alguém tivesse o chamado lá fora, no portão.

Lourdes foi para a cozinha ainda chamando o marido. Mas ele não respondia. A preocupação começou a tomar conta. Sentiu o cheirinho da carne cozinhando à medida que se aproximava.

― Juarez! Onde você está?

Ela parou na porta da cozinha e deu um grito. Um grito que foi ouvido do outro lado da rua.

 

Obs: este é o primeiro capítulo de uma história que pretendo desenvolver. Dependendo dos resultados das leituras, eu vou começar a postar todo o enredo aqui.


domingo, 12 de março de 2023

A GAROTA MAIS FORTE DA ESCOLA

Anos 80. Eu tinha por volta de 15, 16 anos. Estudante de ensino médio. Não era das mais bonitas da classe. Longe de ser. Me achava magra demais e, nos dias mais frios, eu aproveitava para vestir duas calças e ficar mais cheiinha.






Antes se meu problema fosse apenas pernas finas ou falta de beleza. Eu já estava acostumada com aquilo. Resignada. O que me tirava, literalmente, o sono, é que naquele ano eu fora parar numa turma nova na escola. As poucas amigas que eu fizera estavam em outra sala. Sabe-se lá o motivo, eu agora tinha outros colegas. Eu não consegui me adaptar àquela nova configuração. Não demorou para o bullying começar num tempo em que esta palavra não existia e os problemas se resolviam na escola mesmo, sem precisar vir pai e mãe à direção exigir providências. 


Lá em casa ninguém sabia o que eu passava naquela escola dos infernos. O bullying vinha de um grupo de garotos da minha sala. Eles, do nada, resolveram pegar no meu pé na segunda semana de aula. Para piorar a situação, não consegui criar vínculo com nenhuma das minhas novas colegas. Elas não iam com a minha cara, mas não me maltratavam. Me excluíam sempre que podiam. Os trabalhos em grupo eu fazia com outro grupo de meninos que, por sua vez, eram excluídos também pelos outros, os que faziam maldades comigo.


Então me apaixonei pelo Ricardo. Eu já o conhecia de outros anos letivos, mas nunca estudamos na mesma turma. E nem nunca Ricardo olhou para minha cara. Para o que achei que era sorte minha, ele foi reprovado e naquele ano foi parar na minha sala. Oba, um sinal dos deuses e talvez a gente começasse a ter um lance, sei lá. Me enganei, redondamente. Logo, Ricardo fez amizade com os meninos que faziam bullying comigo. E comecei a ser vítima dele também.


Quando isto aconteceu, lembro que chorei escondido enquanto tomava banho. Era muito azar. O cara nem sabia que eu existia. E agora me dizia coisas horríveis sem eu nunca ter feito nada para ele. Era inacreditável o que acontecia comigo naquela sala de aula. Eu me defendia como podia, mas era tímida demais para me impor. Algumas vezes, uma ou outra garota tentava intervir para eles pararem. No outro dia, entretanto, começava tudo outra vez.


Várias vezes pensei em contar tudo para meu irmão gêmeo (que estudava em outra escola, minha mãe queria que fôssemos independentes um do outro), ou para meu irmão mais velho e também para papai. Travei. Pura vergonha. Hoje me arrependo de não ter pedido ajuda. Não sei como disfarcei meu desespero e angústia naquela época. Para minha família tudo estava bem. Nem desconfiavam do meu inferno particular.


                                                                          *


No ambiente escolar todos estavam em polvorosa. Em semanas haveria o Baile da Rainha. Cada turma escolheria duas candidatas para desfilar e disputar a cobiçada faixa. Minha mãe, anos antes, tinha sido a eleita naquela mesma instituição. A foto do Baile eu guardava comigo e, embora fôssemos parecidas, eu nunca tivera um décimo da beleza dela. Na minha sala de aula havia duas meninas muito bonitas, a Laura e a Cecília. Era certo que ambas seriam as escolhidas da turma. Eu, pelo menos, votaria em ambas, apesar de nenhuma delas me dar a mínima.


A votação aconteceu em um dia chuvoso. Não daria para ter a aula de Educação Física no pátio, então a professora teve a incumbência de organizar a escolha. Até aí tudo bem. A conversa seguia animada na sala de aula. A única silenciosa era eu, sem ninguém para trocar uma ideia ou uma risada. De repente, comecei a escutar um cochicho dos bostas que pegavam no meu pé. Eles falavam alguma coisa entre eles, riam e me olhavam. E riam outra vez. Comecei a ficar tensa. O que estavam tramando, aqueles desgraçados? Logo me dei conta. Estavam votando em mim. Eles haviam me posto um apelido. Meio grama, devido à minha magreza. O pavor tomou conta. Toda a sala pôs o nome das candidatas em pedaços de papel distribuídos pela professora. No meu pânico, devolvi o papel em branco. Passei a suar só de imaginar que, quando os papéis fossem abertos e começassem a contabilizar os votos, o nome atribuído a mim, meio grama, seria revelado. Percebi que Ricardo me encarava, sorrindo, maldoso. Me encolhi, acuada. 


Nunca desejei tanto que um buraco se abrisse e eu caísse dentro.


E a conferência dos votos iniciou.


                                                                   *


Hoje lembro daquela tarde chuvosa como um dos piores dias da minha vida escolar. Sim, os meninos votaram em mim. Pelo menos, fizeram o favor de colocar meu nome verdadeiro na “cédula” de votação. Graças aos votos deles, eu fiquei em segundo lugar, ocupando a vaga que seria de Cecília, naturalmente. Eu e Laura fomos as escolhidas.  Nem acreditei que aquilo estava acontecendo. Meu sonho secreto sempre havia sido disputar um título de beleza, talvez pelo passado da minha mãe. Agora, às avessas, eu realizaria meu sonho. Não iria ficar nem entre as três primeiras colocadas, mas não importava. Mal podia esperar para chegar em casa e contar a novidade. O Baile da Rainha seria em três semanas. E eu faria de tudo para dar o meu melhor.


                                                                      *


Não é exagero afirmar que minha família ficou mais empolgada que eu. Logo se formou uma força-tarefa para me preparar para o Grande Dia. Mamãe chamou minhas tias e primas para o Baile. Vovó tratou de confeccionar um vestido muito semelhante a que minha mãe usou no dia da sua coroação. Era muita função em torno de mim. Confesso que até me assustei. Eu não seria sequer finalista mesmo com todo aquele aparato. Depois relaxei e deixei nas mãos de Deus.


Na sala de aula eu continuava sendo vítima de bullying. As amigas da Cecília não cansavam de enviar indiretas sobre a minha escolha. Toda vez que eu olhava para o lado e, sem querer, dava de cara com o Ricardo, ele me fazia uma careta. Nossa, aquilo estava ficando pesado. Lentamente, fui tomando consciência que deveria tomar alguma atitude antes que piorasse. Como eu tinha muita coisa na cabeça, deixei para resolver, de vez, a situação, depois do Baile. 


E a grande noite, enfim, chegou.


                                                                       *


Era um sábado de meia estação. Um clima gostoso, perfeito para o vestido lindo que minha vó fez em tempo recorde. O Baile seria à noite e à tarde minhas primas e tias invadiram minha casa. Me maquiaram, ondularam meus cabelos e a tia Karen, professora de Educação Física, me passou uma série de agachamentos para minhas coxas ficarem delineadas. Não adiantou nada. 


O evento teria lugar no ginásio da escola. Eu, como candidata, deveria chegar duas horas antes. Meu gêmeo me levou e já ficou por lá, esperando o restante da parentada chegar. Me instalei numa sala com as outras garotas. Num canto. Elas estavam bonitas. Se maquiavam, arrumavam o cabelo uma das outras. Nenhuma se dava ao trabalho de falar comigo. Me senti deslocada e um pouco patinho feio, embora hoje, olhando para aquelas fotos antigas, eu estivesse muito bem. Tentei me acalmar. Não roí as unhas. Imaginei minha família toda em peso aguardando a minha passagem. Não podia decepcioná-los.


Uma professora apareceu na sala barulhenta pelas vozes alegres das meninas e nos orientou. Entraríamos todas juntas e depois, individualmente. Eu estava mais feliz que nervosa. Quando fizemos o desfile em grupo, minha torcida era a mais ruidosa. O grupo dos guris que praticavam bullying em mim estava bem perto do palco, algo que me desagradou. Eu seria a quinta menina a entrar sozinha. Teria um palco inteiro só pra mim como nunca havia tido até então. Rezei segundos antes de ser a minha vez. Esperei o sinal da professora e avancei, firme e sorridente, pelo palco. Recebi aplausos. Mas quando passei bem em frente dos meninos, ouvi nitidamente a voz do Ricardo, clara e cristalina, ecoando por todo o ginásio.


一 Aê, dragão!


Nitidamente, se instalou um mal-estar na plateia. Certo silêncio se formou por alguns segundos. Meu estômago doeu e tive vontade de chorar. Continuei sorrindo, envergonhada, sem enxergar mais ninguém. Imaginei meu pai, irmãos e primos tentando identificar o cretino para tomar satisfação depois. Era certo que eles não deixariam barato.


Porém, decidi que quem faria aquilo seria eu.


Terminei o desfile com a mesma cara que entrei, sorrindo com todos meus dentes. Percebi que as candidatas também estavam constrangidas. Desci do palco, avancei até onde Ricardo estava e parei a sua frente. Ele era mais alto, mas não o temi. Ficamos nos encarando por cinco segundos. Ricardo era puro deboche e desdém.


Foram dois diretos de esquerda. Quebrei o nariz dele, fissurei o osso de um dedo meu. Saí de alma lavada. Fui aplaudida outra vez, desta vez mais forte. Talvez, por desagravo, os jurados decidiram dar o título de Rainha para mim.


E nunca mais sofri bullying na minha vida.


Diga não ao bullying, Peça ajuda. Você não precisa lutar sozinho.



quarta-feira, 23 de novembro de 2022

BAGAÇA NO GRUPO DA FAMÍLIA

 




Tia Dora

Gente, vocês já viram o cabelo novo da Ritinha? Tá um arraso!


Valesca sobrinha

Ô tia. Todo mundo sabe que aquilo é mega hair. Nem é dela, não.


Paulinho sobrinho

Ah, fala sério, Val. Então aquele cabelão loiro é tudo falso?


Valesca sobrinha

Claro, primo. Tem alguma coisa de verdadeiro naquele corpo?


Tia Dora

Pera lá, seus fofoqueiros. Não venham falar da prima de vocês perto de mim.


Ritinha

Por acaso, eu estou sendo assunto aqui do grupo? Obrigada pela deferência.


Valesca sobrinha

Prima, querida, a gente só está comentando do seu novo cabelo. Aquele que você comprou lá no salão da Ester.


Ritinha

Se eu comprei, então ele é meu. Quer um pra você? A Ester tem uns mega hair que vão ficar muito melhor na sua cabeça do que isso aí que você tem agora.


Valesca sobrinha

Uau, ela tá toda irritadinha.


Tia Dora

Rita, não dá audiência pros seus primos. Isso é inveja.


Valesca sobrinha

Inveja, eu? Meu cabelo é de ver-da-de.


Ritinha

Olha, que legal. Ela sabe separar as sílabas.


Paulinho sobrinho

Sério, agora vou falar na real. Rita, seu cabelo tá muito show.


Ritinha

(emojis de coração) Valeu, priminho.


Valesca prima

Se eu der um puxão, fica tudo na minha mão. Rá! Até rimou.


Tia Dora

Valesca, vamos parar com a baixaria?


Ritinha

Mãe, deixa pra lá. A Val sempre teve inveja de mim.


Valesca prima

Inveja do quê? Do seu cabelo ralo? Dos seus namorados pobres? De ter uma mãe que banca as perucas da filha? Deixa eu rir aqui um pouquinho.


Vó Sônia

Que bagaça é esta aqui no grupo? Será possível que eu não posso sair pra beber uma pinga e vocês ficam aqui se matando?


(silêncio)


Vó Sônia

Se começarem de novo a brigar, eu acabo com esta merda de grupo.


Paulinho primo

Boa, vó


Vó Sônia

Cala a boca você também.




segunda-feira, 21 de novembro de 2022

FELIZ ANIVERSÁRIO (conto erótico)

 



Acordei 10 horas da manhã de um sábado. Não um sábado qualquer. Um sábado épico.


Fazia três anos que eu não transava. O último sortudo havia sido um cara que conheci numa festa e terminei a noite na cama dele. Não me perguntem o nome. Não lembro deste detalhe, mas dos centímetros eu lembro direitinho. Inclusive, saudades.


Três anos na seca. Mas aquela triste data não iria passar em branco. Eu comemoraria do meu jeito.

Levantei, tomei banho, me perfumei e voltei para a cama.


Três anos sem sexo merecia uma siririca.


Nem isso eu fazia mais. Minha vida andava tão corrida, tão sem noção, tão caótica, que eu até tinha me esquecido que uma siririca bem feita podia resolver uma parte dos meus problemas.

Me posicionei na cama, fiquei confortável. Era só começar.


Cadê meu grelo velho de guerra?


Cadê?


Achei. Vamos lá. Eu podia ter lixado a unha antes. Droga, mas o importante era meu grelo ainda estar vivo.

Agora vai.


Comecei com calma, destreinada, me redescobrindo. Aliás, para falar a verdade, os melhores orgasmos que eu tive foram comigo mesma. Na maioria das vezes fingi uma gozada violenta para meu parceiro da ocasião não se sentir ofendido. Boa atriz, eu. Digna de um Oscar.


A calma com que eu iniciei passou para uma certa urgência. Algo meio sem freio mesmo. Aquela siririca tava ficando interessante. Encontrei o ponto certo. Passei a pressionar o grelo, este órgão de tão difícil acesso para alguns. Meninos, um conselho: estudem com mais afinco o órgão sexual feminino. Falando mais claro, a buceta. É cansativo ensinar onde fica o clitóris.


O negócio tava vindo. Deixei escapar um gemido não tão baixo. Fazia um tempão que eu não gozava. Tanto que nem precisei me concentrar muito. O orgasmo veio numa avalanche, revirei os zóinho, fiquei ofegante, saiu um squirt  e eu fui ao céu e voltei várias vezes. Parabéns pra mim.


Não sei quanto tempo durou. Mas foi incrível. Abri os olhos, relaxada, satisfeita, empoderada e olhei para o lado. Minha avó de 82 anos assistia à cena da porta do meu quarto.


Nos encaramos por uns cinco segundos. Olhar fixo uma na outra, sem piscar. Vó Gertrudes fez um sinal de positivo e caiu fora.


Reiniciei minha comemoração.

Feliz 3 anos sem sexo.





segunda-feira, 3 de outubro de 2022

LIVRE AO VENTO





Eu tinha tanta coisa para dizer a ele

As palavras quase transbordavam dos meus lábios

Mas ele era surdo a cada intenção minha

Enquanto eu dançava no jardim das flores, triste, livre e sozinha 

quarta-feira, 18 de maio de 2022

TALVEZ EU NÃO VÁ PARA O CÉU


Fui presenteada com o cara mais bonito da rua. O nome dele era Jesus, mas de santo não tinha nada. Mas eu gostei dele do mesmo jeito, desde a primeira vez que pus meus olhos naquele corpo gostoso. Durante o flerte, toda vez que o cara se aproximava, minhas amigas berravam para todo mundo ouvir (inclusive o próprio):

- Tatiana, Jesus está chegando!

Nada mais clichê. Mas pior que deu certo. Jesus achava engraçado, começou a prestar atenção em mim e quando me dei conta estávamos ficando. Sim, me tornei a ficante do Jesus.

Atraí admiração e inveja. Da minha parte, fiquei entusiasmada e perplexa. Nunca imaginei que Jesus fosse dar bola pra mim. Em contrapartida, entreguei meu corpinho para Jesus usufruir como bem ele quisesse. Eu merecia depois de uns dois anos na seca, na merda total. 

Salve Jesus.

A questão é que eu nunca tinha namorado um cara bonito. Eu só pegava os feinhos (que tinham o seu valor, é claro) e outros tipos exóticos. De repente. Jesus surgiu em minha vida e eu me vi sem saber como fazer para aquele relacionamento dar certo. Quanta insegurança, Jesus (Cristo).

Antigas ficantes e namoradas (eram muitas) não demoraram a mostrar toda a inveja e desdém. Mandei a todas se foderem. Agora Jesus era meu. Eu fazia de tudo para agradar meu salvador. Comprei um e-book com muitas dicas para fazer sexo gostoso. Aprendi a fazer acrobacias sexuais, tipo transar pendurada no lustre, de pé em cima da rede, algemada e de olhos vendados. Era uma loucura. Descobri que as trepadas com meus ex nada mais eram que um entra e sai desgovernado.

Jesus era louco por sexo e fodia muito bem. Ah, o pica das galáxias master.

Todas as noites eu agradecia a Jesus (o Cristo) pela incrível sorte que eu tinha tido. Quando dei conta eu já havia me tornado a namorada dele. Éramos um casal oficial. Jesus viera ao mundo para me salvar do tédio, das frustrações amorosas e de uma vidinha sem graça. Tempos felizes aqueles.

Tão felizes que passaram rápido demais da conta.

Meu namoro com ele durou exatos um ano e dois meses. Foi quando descobri que Jesus tinha outro relacionamento com meu primo, o Jurandir. A quem, carinhosamente, comecei a chamar de Judas. De orgulho ferido, coração em frangalhos e com a família em polvorosa, dei uma surra no Jesus e uma voadora no Jurandir.

Talvez eu não vá pro céu. 


sexta-feira, 13 de maio de 2022

O GAROTO QUE TINHA DEMAIS

 



Ele era o cara mais popular da escola.

E também o mais gato.

O mais gostoso.

O melhor jogador de futebol.

Namorava a guria mais bonita da turma (eu morria de inveja dela).

Tirava as melhores notas.

O seu grupo de amigos era o mais descolado.

Os pais eram bem sucedidos e com excelentes empregos. Ou seja, a faculdade dele estava garantida. Nunca precisaria se preocupar com os valores da mensalidade. Certo que ele iria se formar na melhor universidade.

Nossa. Que sorte ele tinha. Eu queria ser a namorada dele. Talvez sua sorte respingasse um pouco em mim. Porém, eu era tão patinho feio que o André nunca se deu ao trabalho de olhar para minha cara. Até acho que ele nunca soube, sequer, que eu existia.

Um dia acordei com a notícia que o André tinha morrido.

Oi? Como assim?

Se atirou do 10º andar do prédio em que morava.

Choquei. Todo mundo chorou. Ninguém compreendeu.

Anos depois, eu já mais velha e adulta, acho que consegui entender o motivo daquela morte tão estúpida.

André possuía demais.

Para ele tudo era fácil demais.

Ele, André, nunca precisou lutar por nada.

Sempre lhe deram tudo.

Mas, para ele, o "tudo" nunca fora o bastante.



domingo, 1 de maio de 2022

PARA SEMPRE TODO MEU


 

Primeiro que não aceitei quando tudo aconteceu. Fiquei louca, surtada, psicótica. Nosso relacionamento era incrível. Muito amor, paixão e sexo. Sexo todos os dias. Nossos amigos morriam de inveja. Como assim trepar todos os dias?

Pois é, queridos. Eu e o Daniel transávamos todos os dias.

Até aquela maldita madrugada.

No meio de uma trepada quente, muito quente, o Dani teve um AVC. Sério. O cara passou mal durante o ato. Achei que fosse brincadeira. Uma brincadeira muito sem graça. O socorro levou vinte minutos para chegar. Levaram o Dani pelado para o hospital, inconsciente, meio morto.

O amor da minha vida nunca mais recobrou a consciência.

Em estado vegetativo Daniel voltou para casa um mês depois. Não havia o que fazer com ele. Minha vida, então, se resumiu a cuidá-lo. Tudo o que eu fazia era pelo Dani. Esqueci-me de mim. Algumas pessoas me diziam que aquilo não era vida. Que o Dani jamais iria querer viver daquele jeito. Mas eu me empenhava em deixá-lo vivo. Mesmo a consciência dele estando em um mundo distante, pelo menos o corpo estava ali, limpo, perfumado e todinho meu. Talvez nunca o Dani tenha sido tão meu em todo nosso relacionamento.

À medida que o tempo passava, minha vida foi se ajustando em torno da vidinha dele. Comecei a trabalhar online, cuidava dele, participava de reuniões via zoom, cuidava dele, ia pra feira, cuidava dele, recebi até amigos para churrascadas enquanto o Dani dormia no quarto, cheiroso e penteado. Todo meu.

Em um domingo acordei como se fosse mais um dia normal. Preparei uma bandeja de café, pão e bolos (minhas refeições eram no quarto com ele onde eu contava tudo o que estava acontecendo na minha vida e no mundo lá fora) e abri a porta com um sonoro bom dia.

Dani estava morto.

Minhas mãos afrouxaram, a bandeja espatifou no chão, gritei. Não. Eu não podia aceitar aquilo. Não queria perdê-lo uma segunda vez. Queria aquele corpo pra mim para todo o sempre, já que a mente do meu amor estava vagando pelo espaço há tanto tempo.

Então tive uma ideia. Uma grande ideia.

*

Para todos os efeitos o Dani continuava vivo. Desde o AVC eu nunca deixei ninguém mais vê-lo. Dani não tinha mais parentes vivos ou próximos, então foi muito fácil fazer isto.

Ninguém sabe que ele morreu. Ninguém sabe que o Dani está empalhado no nosso quarto, sentado na poltrona favorita dele.

Ninguém precisa saber que despachei a cama hospitalar de madrugada e queimei toda a medicação que ele tomava. Até o ar ficou mais respirável lá em casa. Não havia ninguém mais doente.

Bem, Dani ficou meio estranho empalhado. Mas é ele. Dani continua comigo. E ninguém tem nada que ver com minhas escolhas. É crime? Não. 

Vivo feliz com ele. Conversamos, conto minhas histórias, rimos. Eu não estou louca.

Tenho culpa por amar tanto assim?


quarta-feira, 23 de março de 2022

LOUCA E VINGATIVA





Ele era o cara mais bonito que eu já tinha visto. Meu colega de trabalho. De repente, ele apareceu no meu setor para resolver um problema no sistema. Aí que eu me apaixonei. Na hora. Foi uma espécie de soco que me sacudiu e me acordou para o amor. Ou tesão. 

Seja lá o que for. Só sei que paralisei e disse para mim mesma que acabara de encontrar o amor de toda uma vida. Discreta, observei o cara arrumar a pane no computador de outro colega. Ele não olhou para meu lado. Tipo, eu era uma pessoa invisível. Depois que ele foi embora, aproximei-me do meu colega tentando catar alguma coisa.

- E então? Tudo resolvido?

- 100%. O Matheus é a fera da informática aqui na empresa.

- Ah é? Bom que tudo se resolveu.

Dei meia volta e retornei para minha mesa. Bingo. Matheus. Da área da informática. Minha caçada estava só começando.

                                                                                    *

- Dai, me apaixonei.

Daiane, minha colega e amiga íntima. Trocávamos confidências picantes. Eu adorava os conselhos dela. Alguns surreais, mas que sempre haviam dado certo.

- Opa, criatura. Por quem?

- Pelo Matheus.

- Quem é este ser?

Estávamos na copa, horário do cafezinho. Geralmente o lugar que falávamos só putaria.

- O cara da informática. Acredita que eu nunca tinha visto o gostoso aqui dentro?

- Para aí. Matheus? Ah, sim. Sei quem é. Um gato. E casado.

Meu mundo caiu. Cheguei a me engasgar. Fazia duas horas que eu conhecera o Matheus e já tinha casado e formado uma família com ele. Sim, eu era boa em criar expectativas altas e depois me ferrar bonito.

- Puta que pariu. Nem acredito.

- Deixa de ser besta, Nanda. Vai que ele não é feliz no casamento? Se houver uma brecha você entra.

- Dai, você está louca? Não vou destruir relacionamento nenhum. Não é do meu feitio.

Um movimento na porta chamou nossa atenção. Matheus nos olhava sorrindo com uma caneca vazia na mão. 

                                                                                  *

- Bom dia, garotas.

Pensei que fosse me mijar. Ai, o Matheus. Olhei o cara mais de perto. Músculos salientes, barba por fazer, olhos negros e misteriosos. Ou nem tão misteriosos assim. E simpático. Lindo e gostoso também.

Eu não consegui responder. Dai, mais descontraída, disse:

- Olá, Matheus. Vocês por estes lados? A quem devo a honra?

- Ah, é que faltou café lá em cima. Então vim pedir um pouco emprestado. Se vocês não se importarem...

- De forma alguma. Já conhece a Fernanda? Do Financeiro.

Matheus me olhou enquanto eu esboçava um sorriso. Rezei para não ficar vermelha e me trair feito uma adolescente de quinze anos. Aliás, as adolescentes de quinze anos são muito mais desinibidas que eu.

- Muito prazer.

Ele esticou a mão grande e morena na minha direção. Nem acreditei. Eu iria tocar nele. E toquei. Uma mão áspera, de macho. Gente, adorei aquela mão.

- Er... o prazer é meu.

- Colegas - Dai pegou o celular. - Alguém está me ligando. Matheus fique à vontade. A copa é sua.

Óbvio que era uma ligação imaginária. De repente me vi sozinha na copa com o Matheus. Sem assunto nenhum e com as pernas bambas. Observei-o se servir de café enquanto eu permanecia muda.

- Que café delicioso.

- Fui que fiz.

Mentira. Eu só sabia beber o café que os outros faziam. Nunca fiz café na minha vida. 

- Parabéns. Nunca bebi um café tão gostoso.

- Pode vir aqui sempre que quiser - tentei me desinibir sem parecer que estava me oferecendo. - Só me avisa e eu preparo um café para você. Especial. Meu ramal é o 233.

Falei tudo de uma vez só. Me senti a louca carente desesperada por homens. Me arrependi na hora. Que vergonha, Meu Deus.

Matheus bebeu um gole do café e me encarou. Acho que nem ele acreditou no que tinha ouvido.

- Claro, com certeza. 233? Eu ligo.

Ele se serviu de mais café  e eu não conseguia afastar meus olhos daquele corpo lindo. Imaginei-o pelado em cima de mim e me subiu um calorão. Eu precisava me controlar. Fazia 5 meses que eu não transava. Talvez isto explicasse a carência e a vontade de transar ali naquela copa mesmo.

- Bem, muito obrigado. Preciso voltar para meu setor.

- Claro. Quer meu contato no Whats? - ofereci, desesperada.

                                                                               *

Cinco minutos depois eu estava sentada ao lado de Dai. 

- Você nem sabe o que eu fiz.

- Um boquete no Matheus lá na copa?

- Passei meu Whats pra ele.

Dai se virou bruscamente na cadeira giratória e ficou de frente para mim.

- Hein? Repete.

- Trocamos nossos celulares - cochichei, exultante.

- Puxa vida, você é rápida! Mas vamos ser práticas. Qual é o próximo passo agora?

- Ora. Vou esperar ele entrar em contato comigo. Já que ele é casado fica ruim ligar para ele. Vai que a mulher esteja por perto...

- Certo. Só não crie grandes expectativas. Boa sorte, Nanda. Porque talvez você vá precisar.

Bem, eu já me sentia a pessoa mais sortuda do mundo. O cara que eu estava afim me dava bola. Que dia glorioso aquele.

                                                                           *

Esperei, em vão, por uma semana para que Matheus me ligasse. Nada. Nem tive coragem de contar para Dai o silêncio por parte dele. Cheguei a subir no setor de Informática para ver se ele estava por lá. Estava. De papo com a Priscila, a secretária gostosa do chefão. Ambos tomavam café e comiam biscoitinhos. Havia uma intimidade, um clima, sorrisos e olhares. Me senti os 3 "F": furiosa, frustrada e fudida. Não podia ser verdade. A Dai também percebeu e comentou o assunto. Tentei fazer que não me importei. Porém, em menos de uma semana, a empresa toda comentava, pelos cantos, do caso de amor entre os dois. Era demais para que eu pudesse suportar sem reagir. E então resolvi me vingar.

Certa manhã passei na farmácia e comprei um laxante. Quando cheguei na empresa esperei que a tia da copa fizesse o café e colocasse nas garrafas térmicas. Não demorou muito liguei para o ramal dele. O próprio atendeu.

- Informática, bom dia.

- Oi, Matheus. É a Fernanda, Financeiro.

- Ah, oi, Fernanda. Algum problema com seu computador?

- Não, meu computador está ótimo. É que eu fiz um cafezinho delícia e gostaria de saber se você está a fim de tomar uma caneca comigo.

A Dai escutou a conversa e se virou para mim com os olhos arregalados. Ela me conhecia muito bem e sabia que eu estava aprontando.

- Bem... pode ser. Eu... vou descer agora.

- Faça isto.

Desliguei o telefone me sentindo diabólica. 

- O que é isto, Nanda? - Dai não aguentava de tanta curiosidade.

- Nada, amiga. É só um café.

Levantei e fui para a copa. Naquele dia eu tinha colocado uma saia mais curta e um decote mais generoso. Sim, estava um pouco piranha mesmo e já tinha ganho alguns olhares a mais. Inclusive do Pedro, o gato do Marketing e que eu já descobrira que estava solteiro. Não demorou muito o Matheus apareceu. Achei ele um pouco constrangido. Já chegou com a caneca na mão, contudo eu já o havia servido de café. Café com laxante.

- Muito obrigado - ele agradeceu quando eu estendi a xícara descartável para ele. Tomou um gole, lambeu os beiços e comentou. - Ótimo. Você quem fez?

- Claro.

- Está gostoso.

- Só faço coisas gostosas.

Matheus me encarou meio sem jeito e terminou o café quase de um gole só. Eu não esperava muita coisa daquele encontro na copa. Queria apenas que ele me olhasse e talvez dissesse o quanto eu estava bonita com aquela roupa. Mas ele não disse porra nenhuma. Atirou a xícara no lixo e fez um gesto com a cabeça.

- Muito obrigada, Fernanda.

- Nanda para os íntimos.

- Valeu, Fernanda.

Ele deu meia volta e foi embora. Me senti rejeitada, apesar da minha vingança até ali estar dando certo. Dai apareceu quase em seguida com a pulga atrás da orelha.

- Alguma coisa deu errado? Nanda, você sabe que ele está de rolo com a Priscila. Pra que insistir?

- Tudo bem, Dai. Meus planos são outros.

Dai deve ter reparado na minha cara de louca vingativa.

- Eu sei que você está maquinando alguma coisa.

- Aguarde.

Voltamos ao trabalho. E eu sentei, ansiosa, esperando a comédia começar.

                                                                      *

A notícia percorreu cada canto da empresa. O Matheus teve uma dor de barriga violenta e não chegou a tempo no banheiro. Se cagou ali mesmo no posto de trabalho na frente da Priscila que vomitou no cestinho de lixo. Dizem os colegas que o fedor se espraiou pelos corredores do quarto andar e todas as janelas foram abertas para dar conta.

Dai passou a tarde toda me encarando esperando que eu confessasse o crime. Me calei. Mais tarde o Pedro, do Marketing, me convidou para dar uma volta. 

E eu fui.