quarta-feira, 11 de setembro de 2024

A PRINCESINHA (Conto Erótico)






O tropel de cavalos se fez ouvir ao longe. Alerta, Arwen correu até a amurada do castelo. Era início de uma noite fria. As aias que a seguiram deram risadinhas e se cutucaram, olhando para a princesa, tentando todas elas decifrar alguma espécie de tensão no seu rosto. Arwen, contudo, se manteve em silêncio olhando para frente. O primeiro cavaleiro trazia um estandarte com o brasão da família. Mais atrás, vinha o rei e, logo depois, o príncipe, seu futuro marido. De longe, era impossível ver o rosto dele.


一 Ansiosa, princesa? 


一 Nem um pouco. ー era a mais pura mentira. Ela passou a mão pelos longos cabelos louros, cacheados. 一 Quem deve estar nervoso é ele.


A jovem respirou fundo disfarçando o quanto seu coração batia acelerado. Um homem que nunca vira antes e com quem iria se casar em breve, estava chegando para conhecê-la. Não fazia a menor ideia de como ele era. O Rei, pai de Arwen, somente lhe dissera que o rapaz era um pouco mais velho que ela. E nada mais.


一 É melhor eu descer e recebê-lo. Podem ficar por aí. Não preciso de companhia.


A princesa deu meia volta e caminhou, a passos calmos. Mas sua vontade era sair correndo, atravessar os longos corredores, descer a escadaria e se postar no portão do castelo. Sonhara com o príncipe na noite passada. Ele era alto, cabelos louros e tinha um rosto forte. Acordara excitada e molhada. E esperançosa que seu príncipe fosse tão formoso como o do sonho.


Quando chegou ao salão nobre do castelo, os visitantes já estavam por lá. Havia um burburinho, conversas altas e risadas. Os reis já se conheciam e haviam acertado o casamento entre Arwen e o príncipe há um bom tempo, o que não parecia justo para ela. Mas, enfim… era assim que as coisas deveriam ser.


Ela reparou que havia um homem jovem, de costas, vestindo um manto dourado que quase arrastava pelo chão. Arwen se arrepiou. Assim, de longe, o príncipe parecia belo.


一 Arwen, minha filha. ー o Rei Cork fez um gesto para que a princesa se aproximasse. 一 Venha conhecer seu futuro marido. 


Todos os olhares, menos o do príncipe, se voltaram para ela. De cabeça erguida, Arwen atravessou o salão mostrando uma segurança que não sentia. Percebeu os olhos do outro rei, seu quase sogro, a lhe fitar, intensamente. Gostaria de observá-lo melhor. Ele era alto, possuía uma barba grisalha e um porte altivo. Mas depois se concentraria nele. Arwen não suportava mais a curiosidade em saber quem era seu noivo. O homem com quem dividiria uma vida e o reino vizinho. Arwen se aproximou mais. O salão estava em silêncio, na expectativa do encontro.


A ansiedade que sentia em olhar para o rosto do príncipe (e nem sabia seu nome ainda), não parecia ser a mesma dele. Quando estava há uns cinco passos, ele resolveu olhar para trás e encará-la. A princesa estacou, de repente. Os olhos de ambos se fixaram um no outro.


Arwen teve vontade de sair correndo do salão e fugir do castelo para nunca mais voltar.


Como seu pai tivera a coragem

 

              *


一 Filha, quero lhe apresentar o príncipe Elinor.


O rapaz fez uma mesura com a cabeça, enquanto Arwen permanecia estática e em choque, sem sequer piscar.


Elinor era, simplesmente, o homem mais feio que já havia visto na vida. Muito mais feio que Affonso, o louco, que circulava pela cidade pedindo comida e dizendo impropérios. Elinor era magro, talvez por isto usasse o manto para disfarçar os ossos aparentes. As maçãs do rosto eram saltadas. Havia uma espinha explodindo bem na ponta do nariz. Entradas na cabeça já anunciavam que estaria calvo em breve. Os lábios eram finos. A roupa lhe caía mal. Ele estendeu a mão. 


一 Prazer em conhecê-la, Arwen.


Seu hálito era fétido. Ela se viu obrigada a apertar a mão de Elinor, que era fria e seca. Imaginou aqueles dedos lhe tocando o corpo inteiro e teve vontade de vomitar. Retirou a mão logo, furiosa. O pai de Elinor, rei Vanius, então, se manifestou:


一 Estamos muito felizes por Vossa Alteza fazer parte da nossa família. Em breve.


Arwen se virou para ele. Ao contrário do filho, o futuro sogro era um homem bonito. Com um meio sorriso, encarava a princesa com seus olhos negros. Por alguns instantes, Arwen ficou perdida naquele olhar. E se pegou dizendo preferir casar com o pai e não com o filho.


一 Obrigada.


Estonteada, Arwen deu meia volta e saiu correndo. Não fugiu do castelo, como era sua vontade. Subiu novamente as escadarias de pedra e se refugiu no seu quarto. Deitada na cama imensa, chorou. De raiva do pai, da tristeza por estar prometida a um príncipe que lhe enojava e, principalmente, por estar morrendo de desejo por um homem que vira por somente cinco segundos.


                                                                     *


A aia não demorou a aparecer. Encontrou a princesa com a cabeça afundada no travesseiro e o rosto inchado de tanto chorar.


一 Princesa, vim lhe arrumar para o jantar com seu futuro noivo.

一 Diga para meu pai que estou indisposta.


Ao mesmo tempo em que dizia isto, sabia que seria impossível não descer até o salão real. O príncipe percorrera longa distância somente para conhecê-la. Não podia fazer esta desfeita. E… havia o rei, o pai do seu futuro esposo.


Desejava vê-lo outra vez. Queria tocá-lo. Aquilo que era um homem de verdade e não aquele arremedo de macho que o pai lhe arrumara para ser seu marido.


一 Rei Cork lhe virá buscar, pessoalmente, se continuar aqui. Venha, vamos escolher seu melhor vestido.


A aia encheu uma tina com água fresca e passou compressas no rosto de Arwen, melhorando sua expressão. Depois a princesa escolheu um vestido rosado, apertado no busto e com algum decote. 


一 Não sei se é apropriado este traje, princesa.

一 Mas é com ele que vou ao jantar, aia! ー Arwen decidira não se importar mais com nada. 一 Quero que meu noivo veja como sou linda.

一 Ele deve estar encantado.


A princesa colocou uma pequena tiara nos cabelos louros.


一 Pois eu não.



                                                                 *

Havia mais gente no jantar em que Arwen foi, oficialmente, apresentada ao seu noivo, o príncipe Elinor. Arwen recebeu os cumprimentos de pessoas próximas ao Rei sem conseguir disfarçar sua expressão de desagrado. Não conseguira mais olhar para o rosto do príncipe nem mesmo quando sentaram, frente a frente, na grande mesa onde a comida foi servida.


Do lado direito de Elinor, sentara Vanius, pai dele. Elegante e com voz sedutora, Vanius atraiu para si todos os olhares. Era um homem magnético. Sua risada era bonita de ouvir, contagiando a todos que estavam no salão. Não apenas Arwen se mostrava encantada por ele. As outras mulheres também. Contudo, era para a princesa que o rei endereçava seu olhar mais ardente.


O vinho era servido sem moderação. Quando criou coragem, Arwen levantou os olhos para Elinor. Ele estava quase bêbado, falando algumas besteiras. Talvez por ser príncipe e próximo rei de um reino importante, as pessoas riam do que ele dizia. Vanius, no entanto, não parecia muito satisfeito com aquele comportamento. Depois de um tempo chamou um dos seus cavaleiros e Elinor saiu amparado do salão por dois homens. Arwen respirou aliviada. Sentiu-se mais livre para admirar o sogro, e pouco estava se importando se havia outras pessoas, inclusive o pai, que percebiam seu jogo. As risadas da princesa a cada coisa que Vanius dizia ecoavam pelo salão. Parecia uma prostituta, ela sabia. E tinha por quem puxar. A Rainha Magenta, sua mãe, era conhecida por ter um homem a cada noite até que Cork, certa ocasião, decidiu acabar com aquela libertinagem e a degolou juntamente com o amante da ocasião.


一 Filha, está na hora de você se recolher.


A voz fria do pai interrompeu uma troca pulsante de olhares entre ela e Vanius. Formou-se um silêncio constrangedor. Vanius bebeu um gole do seu vinho como se aquilo não o atingisse. Arwen, no entanto, sentiu uma certa mágoa. Como assim? Depois de passar mais de duas horas em quentes contatos visuais, o rei Vanius parecia não importar que ela se ausentasse. A princesa tomou um último gole de vinho e se levantou. Sentiu um pouco o salão rodar, mas logo se recompôs. Fez uma breve mesura sem olhar para ninguém e foi em direção à saída do salão. Duas aias se aproximaram, talvez temerosas que Arwen estivesse bêbada o bastante para não conseguir caminhar sozinha. Com um gesto, ela as afastou. O coração batia forte. Como desejava aquele homem. E seu pai, o cruel Rei Cork, eliminara a possibilidade, tal qual fizera com a fogosa Rainha Magenta.


                                                                       *


As aias acomodaram Arwen na cama, envolta em cobertas para atravessar a noite fria. Depois, foram para o quarto ao lado onde dormiram em seguida. A princesa não relaxou. O calor a consumia. Jogou as cobertas para o chão. Quase não conseguia respirar. Escutava as vozes alegres vindas do salão e gostaria de estar lá, ao lado dele. Sentia como se o espírito de Magenta fizesse parte dela também. Agora compreendia as razões da mãe para se comportar daquele jeito que ela mesma, Arwen, desprezara por anos a fio. O desejo era mais forte que seus princípios. Apenas desejava sentir Vanius dentro de si. 


E, até aquela noite, nunca a princesa deitara com homem algum.


                                                                     *


Ela dormiu, apesar da febre que lhe queimava por inteiro. Acordou, de repente, sentindo o colchão afundar. O luar entrava através das cortinas quando Arwen abriu os olhos, surpresa com a movimentação. Foi entre a penumbra que ela pôde enxergar a sombra de Vanius.


Arwen sentou na mesma hora, nua. Devia ter tirado a roupa enquanto dormia. O rei esticou a mão calosa e firme, e segurou um dos seios. Sussurrou:


一 Por eles e por muito mais estou aqui.

一 Então venha ー implorou ela. Detestou seu próprio tom de voz. Não devia mostrar o quando necessitava do corpo daquele homem. 一 Não posso mais esperar.


Vanius deitou por cima de Arwen. O peso, aquele tipo de peso, era uma novidade. Não sabia que um homem podia ser tão pesado… O cabelo solto foi puxado para trás e o pescoço da princesa ficou exposto. A boca de Vanius começou a agir por ali.


Foi instintivo. O Rei não precisou sequer forçar. Arwen abriu as pernas para recebê-lo. E não se importava que doesse. Ouvira relatos de primeiras noites. Dolorosas e cruéis primeiras noites. Estava disposta a sentir todas as sensações possíveis.


Vanius lambeu, beijou e mordeu a pele alva do pescoço da princesa para, em seguida, descer para os seios onde se demorou por um tempo. Os gemidos de Arwen era algo que ela não podia controlar. Ele murmurava palavras pesadas que a excitavam mais. Alguém havia dito que a primeira vez de uma mulher era ruim? Aquilo estava longe de ser. 


Então, Vanius levantou finalmente o rosto e encarou Arwen. Extasiado. Em segundos, ele atirou seu manto negro no chão e se desfez de todas as suas roupas o mais rápido que podia. A princesa posicionou-se sobre seus cotovelos para poder admirá-lo em toda sua nudez.


E, quando o viu inteiramente nu, se deu conta que a diversão sequer tinha iniciado.


                                                                          *


A primeira coisa que pensou foi que não o suportaria todo dentro dela. Aquilo não podia ser de verdade. Arwen temeu e tremeu. De desejo e medo. Não podia recuar e sequer Vanius permitiria que ela fugisse naquele momento. Suas pernas foram afastadas ainda mais e Arwen ficou totalmente exposta. O membro estava duro e parecia uma tora. Ele vai me rasgar todinha, pensou a princesa. Com uma das mãos, ele colocou seu membro junto ao corpo dela.


一 Já sentiu algo parecido na sua vida?


Ela balançou a cabeça fazendo que não. Mal respirava. Instintivamente, tentou fechar as pernas, contudo Vanius a escancarou ainda mais.


一 Não pense que vai fugir de mim, princesinha. Você é minha. Pelo menos, nesta noite.


Arwen teve vontade de dizer que seria dele por todas as noites possíveis. Mas quando ele forçou o membro dentro dela, a princesa deixou escapar um grito.


一 Pode gritar. Ninguém virá salvar você. Estão bêbados demais para isto.

一 Quem disse que quero ser salva?


Vanius puxou Arwen para junto de si e ela foi penetrada com força. A princesa gritou mais alto, pouco se importando se de fato alguém iria escutar.


一 Se a princesinha quiser, eu paro.


Arwen o encarou. Vanius sorria, lascivo. Ela entendia aquele olhar. Ele jamais iria parar mesmo que ela implorasse.


一 Eu quero mais…


Vanius se deitou por cima dela de novo, em vários movimentos de vai e vem. Arwen o envolveu com suas pernas e o abraçou com força, não querendo perdê-lo e nem que o tempo passasse. Sentia dor e uma espécie de prazer. As unhas dela riscaram as costas do rei e o seu pescoço estava marcado pela boca de Vanius. O peso daquele homem fazia com que se sentisse protegida. Em que outro reino encontraria um homem assim?


Um jorro quente dentro da sua vagina interrompeu os movimentos frenéticos. Ele rolou de cima dela e ficou estirado sobre a cama, de olhos fechados. Arwen se tocou entre as pernas. Sangue e uma gosma branca escorriam por ali. Finalmente, murmurou. Se a sua virgindade era um troféu para seu pai, então ele havia perdido o jogo.


A mão dele tocou na barriga lisa de Arwen. Ela o encarou, com carinho.


一 Gostaria que fosse você e não seu filho.

一 Eu sei. Ele sabe. Seu pai sabe. A esta altura, o reino inteiro deve saber.


Vanius voltou a sentar. Com um rápido movimento virou Arwen de bruços.


一 O que…

一 Fique quieta. Eu não acabei.


As nádegas de Arwen foram separadas de um modo bem pouco gentil. Assustada, sem saber o que estava por vir, ela agarrou firme o colchão. Será que ele seria capaz de…


A dor de ser penetrada por trás foi tão aguda que a princesa soltou um grito. Enterrou o rosto no meio de uma das cobertas, pois estava certa que seus berros seriam escutados do outro lado do rio.


Sem pausa, Vanius a penetrou por trás seguidas vezes, batendo-lhe nas nádegas com força. Os gritos abafados de Arwen o excitavam mais. Em algum momento, ele pegou os cabelos da princesa e ela sentiu que não passava de uma égua nas mãos dele. O rei a cavalgava. Poderia estar sendo ruim. Mas não era.


A porta que ligava o quarto da princesa ao das aias se abriu. Em meio ao seu desvario, Arwen virou o rosto para o lado. Duas das suas aias, uma ao lado da outra, paradas, em choque, assistiam à cena. Quando Vanius se deu conta que eram observados, desmontou de Arwen e foi em direção a elas. Uma tentou fugir, mas não foi longe. A outra logo foi pega pelo rei. Com cada aia debaixo do braço, Vanius as jogou na cama. Por algum tempo, fez o que quis com ambas, sob os olhares surpresos de Arwen. Mais tarde, quando as duas aias jaziam nuas e exaustas sobre a cama da princesa, o rei vestiu suas roupas, jogou o manto por cima do corpo e foi embora, sem dizer mais nada. E sem olhar para trás.


As três garotas se entreolharam. Envergonhadas umas das outras, mas satisfeitas.


                                                                         *


No outro dia, rei Vanius e príncipe Elinor partiram antes de Arwen levantar. O Rei Cork, constrangido, explicou para a filha que o príncipe não desejava casar. Ela agradeceu aos céus. O corpo estava dolorido, o pai a olhava desconfiado. Talvez a história não fosse bem aquela. Isso não importava. A questão é que nunca mais iria encontrar um homem como Vanius. Tanto seu coração como seu corpo ansiavam por ele.


O dia passou calmamente. Arwen e suas aias, que mal a encaravam, passaram aquelas horas preguiçosas no tear. Quase não conversaram nada, ainda impactadas pelos acontecimentos da madrugada. A hora de dormir chegou. Na cama de Arwen ainda restavam as marcas do sexo com Vanius. O pescoço fora envolvido com uma manta durante o dia para que o pai e mais ninguém percebesse os hematomas.


Não havia muito tempo a perder. Arwen despachou as aias e jogou algumas roupas mais simples em uma trouxa, soltou o cabelo e se despenteou. Vestiu também uma roupa velha que a fazia parecer uma das camponesas. Cobriu-se com um manto antigo, porém quente. Se conseguisse sair do castelo, era possível que ninguém se desse conta que a moça loira e magra andando pela cidade era a filha de Cork.


Quando a madrugada chegou, não foi difícil despistar os guardas do Rei, bêbados de tanta cerveja. A princesa passou pelos portões do castelo e ganhou a noite, desapareceu no meio do bosque, disposta a lutar pelo que acreditava que devia ser seu.


Vanius.


segunda-feira, 25 de março de 2024

NOITES SOMBRIAS


 

Nem sei como tudo começou. Aliás, sei sim. Foi na pandemia, bem no início, naqueles primeiros meses que não havia vacina, a gente se sufocava com as máscaras e o fim do mundo parecia estar logo ali.

Quem primeiro pegou a peste foi meu irmão mais velho, Leandro. Além de irmão, também era meu ídolo, protetor, corajoso, invencível. Por isso não acreditei quando ele começou a sentir falta de ar e todos aqueles outros sintomas pavorosos. Juro, dentre todas as pessoas do mundo, achei que o Leandrinho nunca pegaria a doença.

Mas ele pegou.

Minha mãe foi logo em seguida. De repente, na nossa casa havia duas pessoas bem doentes, isoladas cada uma no seu quarto. Meu pai, vivo, saudável e apavorado, me mandou para a peça dos fundos, no nosso terreno mesmo, mas afastada da casa, onde minha querida avó materna viveu feliz seus últimos anos de vida. Lembro que quando entrei na casinha senti o perfume que ela usava, uma água de colônia antiga. Lá tinha cheiro de talco, da comidinha cadeira que vovó tanto adorava fazer pra mim e as flores que ela cultivava e que nunca deixei  morrer. Os aromas estavam lá e me acalentavam nos meus momentos de angústia e desespero. Lá fiquei sem pôr o nariz para a rua durante um mês. Nestes trinta dias meu pai trazia comida, água, refrigerantes, docinhos, tudo o que fosse para me distrair. Com meu notebook, eu tinha acesso ao mundo e as notícias horríveis que não paravam de chegar. Isolada do mundo, eu não via nem Leandro e nem minha mãe. Aliás, nunca mais os vi. Morreram com diferença de dois dias após algum tempo passado num hospital. Desesperei-me sozinha, não tinha um ombro para chorar a perda. Meu pai me informou pelo aplicativo de mensagens, nervoso, tenso, me proibindo de ir no enterro deles. Com ele, felizmente, nada aconteceu. Voltei para a casa da frente uma semana depois da partida da mamãe, a última a falecer, depois que meu pai fez uma limpeza pesada por tudo.  

Havia um imenso buraco em cada peça daquela casa. Temendo que eu pegasse a peste, papai despachou tudo o que havia no quarto do Leandro. Chorei de raiva. Fiquei sem nenhuma lembrança dele, palpável. Com minha mãe foi igual. Era estranho dizer que eu estava em casa, sendo que aquela casa não era mais meu lar tão amado.

Eu tinha recém feito 16 anos. Fiz aniversário sozinha na peça dos fundos um pouco antes dos dois partirem. A única companhia que tive foi da minha vó. Esta mesma, a que tinha morrido poucos anos antes. Juro que a vi em uma das sombras da sala, sorrindo para mim.

Tentei voltar à vida normal, recusando-me a morrer junto com eles. Minhas aulas eram remotas, o contato com meus colegas era virtual. Até um namoradinho virtual, de outro estado eu arrumei neste meio tempo. As saídas ao supermercado eram controladas. Meu pai vivia meio apavorado, no início. Porém, o luto dele passou bem rápido.

Reparei que ele saía de casa mais frequente do que antes. Papai era contador e conseguia fazer home office. Mas, à medida que as restrições iam diminuindo, ele passou a ficar mais tempo fora. Não dei muita importância. O dia em que voltei às aulas presenciais foi comemorado. Mesmo de máscara, fizemos algazarra e festa. Naquele dia resolvi ir almoçar no shopping com a Luíza. Foi ela que me deu um cutucão que quase quebrou minhas costelas enquanto passeávamos de braço dado pela praça de alimentação.

— Aquele cara se agarrando com a loira não é o tio Oscar?

Claro que não era. Despretensiosamente, olhei para o lado. Era meu pai. Como se fosse um garotão de vinte anos, ele acariciava as costas de uma vadia que estava praticamente sentada no colo dele e com uma saia tão curta que eu quase enxerguei seu útero.

Fiquei sem palavras, chocada. Luiza me deu um puxão.

— Faz de conta que não viu e vamos sair daqui.

— Mas como ele tem coragem, Lu? – eu estava muito inconformada. — Não tem oito meses que ele ficou viúvo.

Luiza saiu me arrastando pelos corredores do shopping.

— Você sabe como os homens são. O tempo de luto deles é diferente.

— Olha o tipo de mulher que ele pegou! Uma vadia, quase mostrando a calcinha.

— Menina, calma. Ele...

— Lu, ele não me disse nada. Agora eu estou entendendo muita coisa.

Não consegui sequer comer nada naquele dia. Minha ideia era bater de frente com papai quando ele chegasse em casa. Porém, não fiz nada. Ele retornou por volta das oito horas da noite muito bem-humorado e ainda me trouxe uma roupa nova. Mais tarde, deitada na cama e muito magoada, pensei que ele poderia pelo menos ter me contado que estava com uma namorada nova. Até quando ele pretendia me esconder seu novo status de relacionamento eu não fazia a menor ideia.

Aquela vida dupla levou dois meses. E eu aguentando tudo trancado na goela. Um domingo, aniversário dele, papai resolveu fazer uma festa familiar, com meus tios, primos e agregados. Era a primeira reunião da parentada depois da pandemia, depois das perdas e que seria na casa do meu padrinho. Achei que ele levaria a vaca e que me avisaria antes por consideração à única filha que lhe restara. Mas não. Foi surpresa. Papai apareceu com a loura pendurada nele. Surpresa geral. Tentei me manter neutra ante a cara de espanto e algum desagrado por parte de quase toda a família.

Marcia, este era o nome dela. Marcinha, para meu pai. De fato, Marcia não era uma pessoa ruim. Se esforçou para ser simpática, sorriu para mim algumas vezes, mas não tivemos nenhum assunto em comum. Naquela noite meu pai não dormiu em casa. No dia seguinte ele inventou de iniciar uma reforma na pecinha dos fundos. Não entendi o motivo, o lugar estava em perfeitas condições. Algumas semanas mais tarde caiu a ficha quando tudo ficou pronto. A casinha dos fundos era para mim. Meu pai a deixou fofa e clean (mais tarde descobri que Marcia era decoradora de interiores) para eu morar lá, já que Marcia estava de mudança para nossa casa, lugar onde fomos tão felizes. Certo, entendo que ele tem todo o direito de reconstruir sua vida. A questão é que, nesta reconstrução, eu sobrei.

E um plano mirabolante e aterrador até mesmo para mim começou a tomar forma nas noites sombrias que se seguiram.



... se você acha a história interessante, escreva nos comentários para eu postar a continuação.

 

sábado, 24 de fevereiro de 2024

UM CONTO DE MISTÉRIO - PARTE 15

 


Lourdes não soube dizer quanto tempo ficou encostada no balcão da pia olhando para Régis, na esperança que ele se mexesse. De repente, escutou o motor de um carro parando frente a sua casa e a voz feliz de Valentina. Logo em seguida a porta da frente se abriu. Valentina entrou, falando alto:

- Tia, você está em casa?

A luz da sala foi acesa. Lourdes, sem voz e atordoada, não respondeu. Escutou os passos da sobrinha se dirigindo até a cozinha. Precisava se acalmar para tomar controle da situação.

- Meu Deus, que merda é esta?

Valentina parou na porta, surpresa e pálida.

- Tia, o que você fez?

- Me defendi - Lourdes conseguiu falar à meia voz.

Para chegar até a tia, Valentina precisou saltar por cima do cadáver de Régis.

- Você está gelada.

Silêncio.

- Pode me contar o que houve, por favor? Estou meio que passando mal.

Em poucas palavras, Lourdes contou tudo, desde o convite para andar de bike até o quase estupro.

- Este filho da puta não me respeitou.

- Tia, tudo bem - Valentina se posicionou de costas para o defunto, evitando olhar para ele. - Tente respirar com mais calma.

Rápida, Valentina pegou o celular do bolso. - Vou chamar a polícia.

- Não!

O berro de Lourdes foi bem sonoro e Valentina deixou o celular cair sobre a barriga de Régis. Lourdes agarrou o aparelho e não o devolveu para a sobrinha.

- Não o quê? Tia, tem um cadáver na sua cozinha!

- Mais um.

Lourdes soltou uma gargalhada histérica e sinistra que assustou Valentina.

- Não vou chamar polícia porra nenhuma. Eu vou sair presa daqui.

- Alegue legítima defesa.

- Quem vai acreditar em mim? A cidade inteira vai começar a falar que coloquei um homem dentro de casa mal Juarez esfriou. Eu matei um homem, Valentina!

- Muito bem. - Valentina cruzou os braços. - E você pretende fazer o que com o corpo do cara?

- Enterrar o cara no meu quintal. Com a sua ajuda.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

UM CONTO DE MISTÉRIO - PARTE 14

 - Não chega perto de mim!

Era inacreditável o que estava acontecendo. O que começara com um romântico passeio de bicicleta, se transformara em algo bizarro. O vizinho galã se transformara numa besta pervertida pronto para atacá-la.


- Vamos, querida. Não adianta resistir.


Régis se encostou em Lourdes e ela pôde sentir o membro duro ficando sua barriga. Numa atitude desesperada, cuspiu nele. No mesmo instante ele se afastou com o rosto retorcido em uma máscara de raiva.


- Para o seu próprio bem, seja boazinha.


Novamente, Régis fez menção de partir para o ataque. Lourdes, sem pensar duas vezes, atirou o chá quente no rosto dele. Régis urrou, cego pelo líquido fervente. E ameaçou:


- Eu vou acabar com você


Mas antes que ele conseguisse esboçar qualquer outra reação, Lourdes quem investiu contra ele. Usando uma força que não sabia possuir, deu um empurrão no seu agressor. Foi o suficiente para ele tropeçar nas próprias pernas, se desequilibrar e cair para trás. Antes da queda, contudo, Régis bateu a nuca da mesa.


Lourdes ficou por um minuto inteiro observando o corpo daquele homem grande caído  no chão da sua cozinha, imóvel, exatamente no lugar onde Juarez tinha partido desta para melhor.


- Levanta, desgraçado - murmurou. - Abra este maldito olho.


Nada. Lourdes, em pânico, se agachou no chão e tentou procurar o pulso de Régis. Não encontrou. As xícaras, espatifadas no chão, davam um toque final naquela cena de terror.


Precisava mandar, urgente, benzer aquela cozinha.







sábado, 10 de fevereiro de 2024

UM CONTO DE MISTÉRIO - PARTE 13



Lourdes dormiu sentada no sofá sem se dar conta. De repente, acordou por volta das oito horas da noite, assustada. A casa continuava silenciosa. Valentina não tinha chegado ainda. Devia estar namorando com Fabinho em algum lugar. Seu coração ficou ainda mais apertado. Por via das dúvidas, foi até a cozinha e engoliu mais uma piroquinha só para garantir. Naquele exato momento ouviu uma batida na porta. 

Valentina devia ter esquecido a chave.

Mais aliviada e ainda com um último pedaço de pão de piroca na boca, Lourdes atravessou a sala e abriu a porta. Régis lhe sorria, sedutor. 

- Boa noite - cumprimentou ele. - Estou atrapalhando?

O pão desceu direto goela abaixo. 

- Er... claro que não. Tudo bem com você?

- Tudo ótimo. Vim te fazer um convite.

Mil coisas passavam pela cabeça de Lourdes. Não era possível que a magia do pãozinho já estivesse fazendo efeito.

- Ah é? - ela chegou a sentir um calorão na periquita. - Agora fiquei curiosa.

- Quer dar uma volta de bike?

Régis apontou para o portão. Uma bicicleta de primeira linha estava encostada ali, reluzente como o dono. Lourdes sentiu um nó no estômago. Lembrou do seu último passeio de bicicleta. Foi quando Juarez caiu duro no chão da cozinha vitimado pelo enfarte fulminante.

Bem, Juarez estava morto e no inferno. Régis era diferente.

- Adoraria. Espere um instante que eu vou buscar a minha.

A noite estava agradável. Lourdes se esqueceu da existência de Valentina e da amiga. Provavelmente, deviam estar curtindo a companhia dos seus parceiros, tal qual ela fazia. Régis era um homem muito agradável. Além de bonito e gostoso, tinha um papo simples e fluído. Várias vezes Lourdes se pegou rindo feito uma adolescente abobada e apaixonada. Ah, Régis... e aquela bermuda de ciclista que marcava tudo, inclusive tudo mesmo? Era difícil para ela desviar o olhar daquela potência toda. Juarez dava pro gasto. Régis, contudo, estava em um patamar muito superior.

Não havia ninguém na rua. Naquela noite gostosa, as pessoas haviam se recolhido mais cedo. Melhor assim. Lourdes poderia desfrutar melhor da companhia de Régis, sem ninguém ficar enchendo o saco dizendo que ela recém havia enviuvado e já tinha achado um macho.

Uma hora e meia depois, Lourdes já estava com as pernas sem força de tanto pedalar. Gentil, vendo que ela estava cansada, Régis propôs que fossem voltando para casa. A volta foi ainda mais divertida. Risos, olhares trocados com mais intenções, calorão e arrepios. Lourdes se sentiu no paraíso.

Quando dobrou a rua em que morava, Lourdes percebeu que sua casa ainda estava às escuras, sinal que Valentina ainda não havia chegado do seu encontro com Fabinho. Ela teve vontade de rir. Enquanto Valentina se divertia com o filho, ela se divertia com pai. Nossa, parecia coisa de novela.

- Do que você está rindo?

Régis fez a pergunta, curioso. Lourdes tentou se controlar.

- Nada demais. Só estava pensando que seria bom você entrar e tomar um chá comigo.

- Será ótimo.

A intenção de Lourdes realmente não era ir além de um chá de hortelã. Até porque não queria passar a imagem de uma mulher fácil. Talvez trocar uns beijinhos e só. 

Régis deixou a bicicleta no jardim da casa e seguiu Lourdes para dentro da casa. Ele elogiou a decoração e o perfume que deixava um aroma de lavanda nos ambientes. Na cozinha, Lourdes tratou de cobrir com um pano o que sobrara das piroquinhas e passou a ferver a água para o chá, de costas para ele.

Régis sentou em um banquinho e o papo rolava solto. Lourdes esperava que Valentina demorasse BEM a chegar. Não via a hora de trocar uns beijos com aquele homem gentil e sensível. A água esquentou e Lourdes preparou os cházinhos. Se voltou para ele e quase deixou as xícaras se espatifarem no chão. Régis estava com seu membro para fora. Era uma coisa enorme, tão diferente do Juarez, coitado. Lourdes empalideceu.

- O que é isso, criatura?

Lourdes se surpreendeu com o olhar de Régis. De uma hora para outra, ele deixara de ser aquele cara gentil e aprazível. Agora parecia uma besta tarada, olhando-a como se Lourdes fosse um pedaço de carne a sua disposição. Todo o desejo dela foi embora. Nojo e medo eram seus sentimentos.

- O que acha? Dá conta?

"Não, não dou. Inclusive, socorro."

Mas não havia ninguém para lhe salvar.

- Acho que você confundiu as coisas.

- Eu confundi? - Régis ficou em pé com o negócio em riste. - Você me convida para entrar na sua casa para tomar chá. É isto mesmo que você pensa que eu quero?

Ele deu um passo para a frente, ameaçador. Lourdes ficou segurando as xícaras e as mãos já tremiam, quase derrubando o líquido quente. Paralisada.

- Melhor você nem chegar perto. - Lourdes tentou firmar a voz. Não deu certo.

- A única coisa que você tem que fazer é colaborar.

Cruzes. Lourdes percebeu que seria estuprada na cozinha de casa. E não fazia a menor ideia de como sair daquela enrascada.



sábado, 20 de janeiro de 2024

UM CONTO DE MISTÉRIO - PARTE 12

 

Lourdes assistia, desolada, Valentina engolir o quinto pãozinho de piroca sem constrangimento nenhum.

― Nossa, tia, que delicinha. A receita você aprendeu com quem?

― Não sei.

― Tudo bem. Entendo que você esteja envergonhada porque a receita veio da sua própria cabeça. Parabéns.

― Eu nem sei o que dizer.

― Mas eu sei. Faça mais uma fornada e comece a vender. A mulherada vai amar – Valentina pegou mais um pãozinho. ― Hoje vou para a academia e malhar duas horas seguidas. Mas está valendo a pena. Nunca comi nada tão gostoso.

― A Angelina também gostou bastante.

― Ah, ela provou também? Bem, vou dar uma descansada. Pense no que te falei. Você vai ficar rica.

Durante o
trajeto para a academia, Valentina e Angelina não paravam de falar nos pãezinhos eróticos de Lourdes, que a tudo escutava, calada. A amiga, então, parecia deslumbrante. Algo nela brilhava, parecia flutuar. Com a sobrinha acontecia o mesmo. O riso estava mais cristalino, os cabelos de Valentina pareciam flutuar a sua volta. O que estava acontecendo? Lourdes se perguntou várias vezes. Será que haviam sido... as piroquinhas?

Na academia Lourdes se concentrou em fazer seu treino, ainda intrigada com a transformação de Valentina e Angelina. Elas estavam diferentes, sem dúvida. De repente, Lourdes flagrou a amiga conversando com um cara já mais maduro, enquanto fazia bíceps. A conversa parecia íntima, ao pé do ouvido. Lourdes levou a mão à boca, surpresa. Olhou para o lado para ver se Valentina já havia percebido também. Contudo, a sobrinha nem treinando estava. Ela e Fabinho bebiam água, muito juntos, na área de descanso. Não era possível. Lourdes, de repente, se sentiu abandonada. Se Valentina e Angelina arrumassem namorados, ficaria sozinha de novo. Isso lhe pareceu aterrador.

Lourdes parou o que estava fazendo, tensa. O horário para ir embora ainda não havia chegado. Fabinho estava preocupado demais em contar coisas engraçadas para Valentina, pois ela não parava de rir, aquele riso solto de pessoas apaixonadas. Ele se esquecera de passar o restante do treino para Lourdes. Angelina simplesmente havia sumido. Desacorçoada, Lourdes pegou suas coisas e foi embora da academia, apressada e sozinha.

Quando chegou em casa comeu três pãezinhos em sequência, quase sem mastigar. Depois sentou no sofá e esperou a transformação na sua vida começar.

Talvez um namorado batesse a sua porta a qualquer momento.


domingo, 14 de janeiro de 2024

UM CONTO DE MISTÉRIO - PARTE 11

 



Angelina colocou de volta, lentamente, a piroca gourmet no lugar. Lambeu os dedos e comentou:

 

― Estão deliciosas. Já provou?

 

Lourdes olhou, desconfiada, para a amiga.

 

― Estão mesmo?

― Claro. Toma – ela esticou uma piroca para Lou. ― Experimenta.

 

Lourdes provou. Primeiro deu uma dentada na ponta, desconfiada da sua própria culinária. Mas Angelina insistiu:

 

― Deixa de ser fresca e engole tudo de uma vez.

 

Foi o que Lourdes fez. A primeira dentada já tinha sido irresistível. Não foi difícil colocar tudo na boca e degustar.

 

― Uau. Nem eu sabia do que era capaz.

― De engolir um inteiro?

― Não. De fazer algo tão gostoso.

 

Angelina olhou para Lourdes, curiosa.

 

― O que você vai fazer com estes pãezinhos?

― Ora, vou comer.

― Lou, olha bem o que eu vou te dizer. Estes pãezinhos têm tudo para fazer o maior sucesso. Põe pra vender. Você vai ficar rica.

― Você está louca, Angelina? Recém enviuvei do traste. O que as pessoas vão dizer se eu começar a vender pãezinhos em forma de piroca?

― Não importa o que digam. Elas vão comprar e comer. Você será um sucesso. É capaz até de aparecer em algum programa de TV.

― Não tenho a menor intenção de ficar famosa.

 

Angelina pegou dois pãezinhos e anunciou:

 

― Bem, acho que você deve pensar melhor. Posso levar estes aqui? Ah, vim perguntar se você quer ir hoje à academia.

― Claro, irei sim – talvez o vizinho bonitão estivesse por lá.

― Ótimo. Eu passo aqui mais tarde, então. Até mais.

 

Angelina foi embora mastigando o pãozinho, quase de olhos fechados. Lourdes ficou parada na cozinha, enrolada numa toalha, olhando para sua produção, sem imaginar do fora capaz de fazer. A melhor coisa seria comer as pirocas gourmet e esquecer a receita. Não queria ser chamada de depravada e pervertida pela cidade inteira.

 

Lourdes voltou para o banheiro para secar o cabelo. Dez minutos depois Valentina retornou da faculdade. Com fome, cumprimentou a tia que não a escutou por causa do barulho do secador, e foi direto para a cozinha.

 

― Tia, sua louca!

 


terça-feira, 9 de janeiro de 2024

UM CONTO DE MISTÉRIO - PARTE 10

 


Era uma manhã agradável e ensolarada. Lourdes abriu as janelas e se deparou com seu jardim florido e com algumas borboletas coloridas sobrevoando a grama. Aqueles dias brilhantes de primavera eram os preferidos do Juarez. Muito frequente, o casal saía para caminhar pelo bairro, encontrando os vizinhos e batendo longos papos. Dias felizes.

 

Imediatamente, Lourdes afastou as lembranças da mente, voltando a sentir a sua mágoa e ódio contra o marido morto. Já passavam 15 dias do falecimento. O fato de descobrir, em pleno velório, que Juarez levava uma vida dupla era tão doloroso que Lourdes não sabia se iria conseguir superar aquilo tão cedo.

 

Valentina apareceu na sala, bocejando. Foi direto para a cozinha pegar uma xícara de café.

 

― Bom dia, tia Lou. Eu preciso ir à faculdade hoje. Talvez eu fique o dia inteiro por lá. Você vai ficar bem?

― Ora, claro que vou.

 

Era a primeira vez que Lourdes ficaria sozinha de verdade desde a morte de Juarez. Até então, a sobrinha não havia desgrudado dela. Por alguns segundos, Lourdes ficou com medo de si própria. Será que suportaria a solidão e todos seus fantasmas a assombrando sem dó? Bem, mas não tinha alternativa. Valentina precisava retomar sua vida. E Lourdes, a dela própria.

 

Uma hora depois Valentina saiu e Lourdes se viu olhando para a casa vazia. Na primeira meia hora chorou encolhida na poltrona. Depois, com vergonha da sua fraqueza, resolveu limpar a casa inteira, atividade que a deixou envolvida até a hora do almoço. Sem fome, optou por não comer nada. Mas, apesar do cansaço, ainda se sentia angustiada. Foi quando resolveu preparar alguma receita. Só não sabia o que fazer ainda.

 

De dentro do armário, Lourdes tirou a farinha de trigo, açúcar e baunilha. Depois pegou o leite e chocolate em pó. Descobriu leite condensado escondido no fundo do armário. Provavelmente, Juarez havia comprado e escondido para comer sozinho. Bem feito, morreu antes.

 

Com todos os ingredientes a sua volta para preparar algum tipo de iguaria saborosa, Lourdes não sabia nem por onde começar. Lembrou-se da ocasião da morte de Juarez. O homem morrera de pau duro no meio da cozinha. Ali mesmo, onde ela estava. Sorrindo, maquiavélica, Lourdes resolveu homenagear o falecido.

 

Depois de 40 minutos Lourdes olhou para a bancada e quase se aplaudiu. Diante dela havia cerca de 20 pãezinhos em forma de piroca. Umas maiores, outras menores, ao gosto do freguês. Ou da freguesa. Era só assar e ver como ficavam. Ela não sabia bem o que fazer com aquilo, mas tinha certeza que Valentina iria morrer de rir quando visse sua produção.

 

Lourdes não saiu do lado do forno até as pirocas gourmet ficarem assadas. Já sobre a mesa, Lourdes pegou uma delas para provar. A maior de todas. Incrível. Lou saboreou de olhos fechados. Nunca havia provado uma piroca daquela qualidade.

 

Já passava das duas horas da tarde e a temperatura lá fora já passava dos trinta graus. Lourdes resolveu tomar um banho, enquanto pensava o que fazer com aquela fornada de pirocas. Comeria tudo? Venderia? Pensou em engolir uma inteira sem mastigar na frente de Régis, o vizinho gato. Ele poderia, quem sabe, deixar de ser só simpático e tomar uma atitude de homem.

 

*

 

Angelina bateu na porta da casa de Lourdes e foi logo entrando. Escutou o som do chuveiro ligado e percebeu que a amiga estava no banho. Com sede, foi até a cozinha pegar um copo de água.

 

― Minha Nossa Senhora, o que é isto? Lourdes, o que deu em você?

 

Com os olhos arregalados, Angelina se aproximou da mesa e pegou uma piroca. Não era das maiores. Ela a analisou, cheirou, chegou à conclusão que era um pãozinho e decidiu que deveria provar.

 

Era uma delícia.

 

De olhos fechados, Angelina devorou a piroca gourmet sentada no chão, deliciada com o sabor. Nunca havia comido nada assim. Já estava pensando em pegar uma piroca maior quando Lourdes apareceu na cozinha e a flagrou naquele estado.

 

― Tira a boca da minha piroca!

 

Continua...



domingo, 7 de janeiro de 2024

UM CONTO DE MISTÉRIO - PARTE 9

 


Pontualmente, às 17 horas, as três novas alunas da academia estavam de volta. Lourdes escolheu uma legging diferente para que seus atributos ficassem mais visíveis e Angelina apareceu de shortinho de lycra. Valentina morria de vergonha da roupa das duas e queria, simplesmente, desaparecer.

 

Fabinho, ao vê-las, não cansou de elogiá-las. Angelina chegou a ficar rosada de excitação. Logo, o personal as colocou para fazerem um treino separado para evitar distrações. Lourdes bem que tentava se concentrar. Mas era difícil resistir aos dotes de Fabinho.

 

Tudo aconteceu quando Lourdes estava em um dos equipamentos para pernas. Fabinho graduava o peso quando olhou para o lado e acenou para alguém. Lourdes voltou seus olhos para o mesmo lugar querendo saber quem era a vadia que Fabinho acenava. Levou um susto ao se deparar com o vizinho bonitão, o Régis.

 

― E aí, pai!

 

Como assim? Pai? Agora estava explicado porque Fabinho era tão bonito e lhe lembrava alguém. Com as pernas bambas, Lourdes observou Régis se aproximando de ambos. Sorrindo, com uma bermuda revelando as pernas bem modeladas, Régis era o cara mais bonito da academia, superando o próprio filho. Do outro lado, Lourdes percebeu Angelina com a cabeça inteira virada para eles.

 

― Boa tarde, meu filho – ele olhou para Lourdes. ― Oi, tudo bem?

― Tudo ótimo – Lourdes temeu ficar vermelha. ― Não vi você mais pela vizinhança.

― Ah, eu tive que fazer algumas viagens – Régis olhou para o filho e explicou. ― Lourdes é minha vizinha.

― Sério? Quando eu for visitar meu pai vou aproveitar para ir à sua casa tomar um chá, Lourdes.

Uma espécie de excitação percorreu o corpo de Lourdes. Imaginou um sexo à três com aqueles dois deuses gregos. Em seguida, tentou se conter. Não era lugar nem hora para ter pensamentos daquele tipo.

 

Mas estava sendo difícil.

 

― Vou adorar receber os dois. Sou expert em fazer chás.

 

De repente, Angelina apareceu saltitante e parou ao lado deles.

 

― Nossa, que surpresa! Régis, você treina aqui também?

 

As faces de Angelina estavam coradas. E os olhos eram duas bolitas brilhantes. Lourdes fez um sinal discreto com a cabeça para que ela vazasse dali. Angelina ficou.

 

― Sim, esta é a academia do meu filho.

― Não! Verdade? Que beleza!

― Bem, meninas. Foi um prazer encontrá-las aqui. Conversamos outra hora.

 

Lourdes deu um aceno para ele e Régis foi fazer seu treino. Mais tarde, na saída, enquanto vinham caminhando lentamente pela rua calma, Angelina não parava de olhar para trás. Até que Lourdes explodiu.

 

― Será que você pode parar de ficar controlando se o Régis está vindo também? Chega a ser ridículo uma mulher da sua idade tendo este tipo de comportamento.

― Não estou fazendo nada demais. E quem disse que estou esperando para ver se o vizinho vem vindo? Ele é o único homem do mundo que mora por aqui?

― Meu Deus do céu! – Valentina deu um grito no meio da rua. ― Já estou arrependida de ter convidado vocês duas para treinar comigo. De agora em diante eu vou vir sozinha. Não quero mais passar vergonha com vocês. Estão desesperadas por macho? Então se matem entre si. Boa tarde.

 

Furiosa, Valentina caminhou apressada à frente de ambas, deixando-as para trás. Angelina comentou:

 

― Acho que ela está precisando de um namorado.

― E você de um banho gelado.

― Credo, Lou. Quanta amargura – Angelina olhou uma derradeira vez para trás. ― Acho que ele não vem mesmo.

 

Continua...