sábado, 22 de abril de 2017

O HOMEM DO JARDIM (Capítulo 12)






— Não vi você no enterro – disse ela entrando no quarto e fechando a porta.

Francesca respirou fundo. Sentiu medo. Magda não parecia nem um pouco enlutada. Sua voz era firme.

— Fiquei um pouco mais para trás – explicou a jovem, ciente de que a mulher já tinha visto suas malas no canto do quarto.
— Você pretendia partir? Sem falar comigo?
— Não quis incomodar a senhora com este assunto – mentiu ela. — Iria entrar em contato mais tarde.
— Você não pode partir.

Francesca chegou a piscar. Não entendeu direito o que Magda queria dizer com aquilo.

— Como?

Magda se aproximou mais um pouco.

— Você pensa que sairá desta casa depois de ter descoberto o corpo do meu pai?
— O corpo… era mesmo de Gregório? – a voz de Francesca saiu estrangulada. — Quem contou para a senhora?

A outra riu. Sua risada foi simplesmente diabólica.

— Em poucos dias você desvendou um mistério de 40 anos. Quando as coisas estavam literalmente mortas e enterradas, você chegou aqui com seu jeitinho de sonsa e descobriu tudo.
Francesca empalideceu.
— Dona Magda, não sei o que descobri. Não tive intenção nenhuma de bagunçar tudo. Gregório apareceu nos meus sonhos sem que eu pudesse impedir.
— Ah, você podia impedir, sim. Era só manter sua linda boquinha fechada. E olhe o que você fez! Foi abrir a boca para minha mãe!
— Só fiz o que me pareceu certo naquele momento! – Francesca tentou se defender. — Dona Laura só falava no marido.
— Ah, o santo marido! – Magda deu outra risada, desta vez com sarcasmo. — O lindo marido de Dona Laura. Foi bom ela ter morrido, sabe? Assim não descobriu o sem vergonha que ele era!
— Meu Deus, Dona Magda! – Francesca recuou dois passos quando Magda avançou mais um pouco. — Mal cheguei aqui. Não sei nada da vida do seu pai. Mesmo Dona Laura me falou pouca coisa sobre ele. Na verdade, eu quero ir embora deste lugar o quanto antes e esquecer tudo.
— Você não vai a lugar nenhum – a voz de Magda saiu assustadoramente baixa. — Pensa que irá embora levando consigo um segredo deste tamanho?
— Jamais contarei que os ossos de Gregório foram encontrados ao lado do poço – a voz de Francesca tremeu. — Não me interessa esta história.
— Sei muito bem o que você vai fazer – Magda encarou Francesca com seus olhos de louca. — Vai chegar na sua cidade e contar sua aventurazinha. E logo meu nome será levado à mídia e isto me destruirá. Ora, mocinha! Eu sou poderosa! Não é uma ninguém como você que irá me destruir!
— Pelo amor de Deus, Dona Magda! Eu jamais faria isto! Por favor, eu juro que nunca contarei a ninguém sobre os fatos que presenciei nesta mansão – Francesca consultou o relógio. — Agora preciso ir. Vou perder meu ônibus.

Francesca quase gritou quando viu um punhal na mão esquerda de Magda. A lâmina brilhou sob a luz da lâmpada. A visão da jovem ficou turva por alguns segundos.

— Você não irá a lugar nenhum. Aliás, vou enterrar você no mesmo lugar que enterrei meu pai. E ninguém nunca dará falta de uma chinelona como você.

Branca de susto, Francesca perguntou, trêmula:

— Enterrou seu pai? O que é isto?
— Aquele monstro! – os lábios de Magda tremeram por alguns instantes. — Ele abusou de mim por anos e ninguém nunca fez nada! Ela – Magda se referiu claramente à mãe — nunca fez nada para me salvar das garras dele. Como você acha que deveria ter sido o seu fim?

Francesca, estonteada ante tantas informações bombásticas, apoiou-se na cômoda. Em um primeiro momento achou que Magda estivesse mentindo. Mas a raiva da mulher era quase palpável. Ela tremia segurando o punhal com toda a sua força.

— Sinto muito, Dona Magda. Jamais poderia adivinhar que seu pai...
— Ele me pegou enquanto eu brincava com minhas bonecas no jardim – Magda relembrou, baixando um pouco a mão que estava com o punhal. — Eu estava distraída, era um belo dia de sol. De repente aquele homem se agigantou a minha frente e, como todas as outras vezes, arrancou minhas roupas.

A jovem escutava o relato, tensa. Senão fosse toda a emoção contida nas palavras e na fisionomia de Magda, ela poderia até não acreditar nas coisas horríveis que saiam da boca da mulher.

— Eu já estava cansada de ser abusada e esconder meus machucados. Naquele dia, em um momento de distração dele, peguei uma pá e atingi a cabeça do desgraçado. Não sei quantas vezes, eu não enxergava nada mais a minha frente. Quando me dei conta, pensa que me arrependi? Nunca. Tratei de abrir um buraco e enterrar o maldito lá dentro. Fiz tudo sozinha. Faria de novo, se fosse preciso.
— Eu jamais poderia... Dona Magda, sinto tanto pelo seu sofrimento.
— Não sente nada! – estrebuchou ela. — Você esteve ao lado da minha mãe, ela que sabia sobre as maldades que aquele homem cometia contra mim. Você sonhou com ele! Qual a conexão que você e o maldito tinham a ponto de ele aparecer nos seus sonhos?
— Como eu posso saber? – perguntou Francesca, desesperada. — Não pude controlar. Ele apareceu nos meus sonhos naturalmente!
— Você merece morrer! – Magda estrebuchou. — Devem ter sido íntimos em outras vidas. Por isto ele a procurou!

Uma batida na porta fez com que Magda se calasse. Em seguida, a voz gentil de Sofia se fez ouvir:

— Francesca, está tudo bem?
— Está tudo bem, Sofia – Magda respondeu com a voz em seu tom normal. — Estou conversando com Francesca.

Silêncio do outro lado. Quando se voltou novamente para Francesca, Magda murmurou, avançando sobre ela.

— Não ouse gritar.

Francesca desviou do golpe no último momento, tropeçando nas malas e caindo sobre elas. Quando percebeu que havia errado o alvo, Magda ficou mais furiosa ainda.

— Vou matar você e enterrar no mesmo lugar que ele.

A jovem se levantou rapidamente, quase sem pensar. Porém, as pernas não lhe ajudavam e ela caiu outra vez. Antes que Magda a alcançasse, Francesca conseguiu se levantar. Pôs uma perna frente à outra para manter o equilíbrio precário quando Magda avançou segurando o punhal.
Francesca, rápida, deu uma rasteira em Magda, que caiu de joelhos no chão. O punhal saltou longe, próximo à porta. Foi neste momento que Sofia resolveu entrar no quarto para ver o que estava acontecendo.

— Fran! O que é isto?
— Chame a polícia! – implorou Francesca, segundos antes de ser derrubada por Magda.

Sofia segurou o punhal e saiu correndo do quarto. Enquanto seus passos em fuga eram ouvidos do quarto, Magda montou sobre Francesca e apertou-lhe o pescoço. Além da falta de ar, a dor era grande. Pontos negros surgiram frente aos seus olhos e ela sabia que não iria demorar muito até perder os sentidos. Magda sentiu os dedos de Francesca no meio dos seus olhos, deu um grito pavoroso e soltou momentaneamente o pescoço da outra. Francesca aproveitou o momento para lhe desferir um potente murro no nariz.

Magda tombou para o lado e arregalou os olhos quando viu o sangue nas suas mãos. Francesca ficou em pé, lutando para sugar o ar. Podia ainda sentir os dedos de Magda no pescoço. Do chão, mas ainda pronta para continuar lutando, Magda berrou:

— Você vai pagar por este sangue aqui!

Francesca mal teve tempo de se recuperar. No momento seguinte, Magda já estava atracada com ela, em uma luta corporal terrível. Novamente, Magda tentou segurar Francesca pelo pescoço. Desta vez, a moça foi mais rápida e lhe desferiu um potente joelhaço no estômago. Com um grito, Magda se dobrou em duas. Francesca ficou no mesmo lugar, recuperando o fôlego e sentindo dores pelo corpo. Não sentia forças nas pernas para sair correndo do quarto e pedir ajuda aos colegas.

— Vou matar você.

A ameaça veio em um sussurro terrível dos lábios de Magda. O sangue lhe escorria pelo rosto e na sua mão agora havia uma tesoura, possivelmente pega de cima da cômoda. Os olhos de Francesca se arregalaram. O objeto era grande e pontiagudo. Um único golpe seria o bastante para abatê-la.

Antes que Magda fizesse qualquer movimento, Francesca reparou no vaso de cerâmica a poucos passos de si. Certa vez Dona Laura lhe dissera que Gregório havia lhe dado de presente de aniversário de casamento. Tirando forças de onde não tinha, Francesca segurou o vaso de bom tamanho e jogou sobre Magda. Sua única intenção era atrapalhar seus movimentos para que ela própria conseguisse tempo suficiente para sair do quarto. Contudo, a força empregada por Francesca surpreendeu-a. O vaso atingiu em cheio o peito de Magda, fazendo a tesoura voar longe. Surpresa e desequilibrada, Magda foi jogada para trás. Francesca deu um grito quando viu a mulher atravessar a janela aberta e caindo no vazio. O grito de Magda foi agudo e forte e depois de uma pancada surda, o silêncio.

Francesca ficou parada no meio do quarto, aturdida e zonza. Dois segundos depois Sofia retornou acompanhada de dois empregados.

— Fran, onde está Dona Magda?

— No jardim. Eu a matei.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

O HOMEM DO JARDIM (Capítulo 11)


Francesca acordou pontualmente às sete da manhã. A luz do sol entrava através da veneziana, anunciando um lindo dia de sol. Mesmo assim, foi com certo peso no coração que a jovem se levantou naquele dia. Ela sabia bem o que lhe deixava assim. Dona Laura, antes de ir para cama lhe contara sobre a difícil conversa que tivera com Magda. Francesca escutou tudo com o peito apertado. Magda não a pouparia por ela e Dona Laura terem ido tão longe a ponto de descobrir a ossada de Gregório ou seja lá quem fosse. A velha senhora contara as palavras rudes e irônicas com as quais a filha havia se dirigido a ela e Francesca ficara chocada.

Devagar e tentando se preparar para um dia que seria complicado, Francesca se vestiu com as mãos trêmulas. A última visão que tivera antes de ir dormir e se despedir de Dona Laura havia sido o saco com ossos posicionados no canto do quarto. A intenção era acordar, pôr os ossos dentro de uma caixa e em seguida fazer um enterro simbólico, sem alarde nenhum. Tudo em segredo para não atrair a atenção, comentário ou investigação sobre Gregório.

— Vamos levantar, Dona Laura? – Francesca entrou no quarto e foi direto afastar as cortinas e abrir a janela. — Está um dia lindo lá fora.

De propósito, Francesca ignorou o saco com os ossos no canto do quarto e aproximou-se da cama. Dona Laura continuava dormindo serenamente.

— O que a senhora acha de tomarmos o café da manhã no jardim?

Francesca sentou ao lado da cama e pôs a mão sobre a de Dona Laura. Retirou-a imediatamente com um pequeno grito.

— Dona Laura? – ela cutucou a senhora no ombro, levemente. — Por favor, acorde.

A moça sabia que Dona Laura não iria acordar nunca mais, mas até então aquilo parecia ser inacreditável. A expressão serena da senhora contrastava com o rosto conturbado de Francesca. A jovem ficou em pé, se apoiando na cama para não cair. Por alguns instantes a visão ficou turva e Francesca pensou que fosse desmaiar. Depois de respirar fundo diversas vezes, ela deu meia volta, indo em direção à porta. Precisava chamar um médico.

Médico? Para quê? Dona Laura estava morta.

Os pensamentos confusos de Francesca estavam lhe pondo nervosa. Precisava se acalmar para poder transmitir a notícia direito. Francesca abriu a porta com violência e saiu com tanta impetuosidade do quarto que caiu de joelhos no chão. Levantou-se em seguida e percorreu o corredor praticamente trocando os pés. Lá de cima escutou vozes na sala. Era Magda no celular. Francesca e ela se encararam por alguns instantes. Era possível perceber nos olhos frios da mulher toda a sua raiva.

— Dona Magda! – chamou Francesca quase sem voz.

Imediatamente, Magda desligou o telefone. Francesca desabou no chão de vez, aos prantos.

— Francesca! – o berro de Magda foi ouvido em toda a casa. — O que aconteceu com ela?

Os gritos de Magda atraíram os empregados. A jovem, sem conseguir se levantar, ficou o tempo suficiente no chão até ser amparada pelos colegas. E quando Magda conseguiu alcançar o quarto de Dona Laura, realmente não havia mais nada a fazer.

O enterro de Dona Laura foi concorrido. Magda colocou os ossos do pai dentro do caixão da mãe e o manteve fechado durante toda a cerimônia. O dia foi muito triste. Os empregados pareciam perdidos e Francesca teve a impressão de ver Gregório à cabeceira do caixão durante alguns momentos. Abalada, Francesca tentava assimilar tudo o que acontecera. A única certeza que tinha é que Dona Laura tinha partido feliz.

Magda, passado o choque inicial, tentou a duras penas manter a serenidade durante o dia inteiro. Vestida totalmente de preto, cabelos presos e óculos escuros, Magda mal abria a boca para agradecer as condolências. Francesca tentou ficar o máximo possível longe dela. Pretendia desaparecer da mansão logo depois do enterro. Não queria sequer saber do que teria direito a receber. Todos os seus instintos diziam para que fosse embora de lá o quanto antes.

O enterro aconteceu no jazigo da família e Francesca acompanhou de longe. Antes mesmo de terminar, ela retornou para a mansão. Precisava arrumar as malas. Sabia que havia um ônibus que saía da rodoviária às nove horas da noite. Era neste que Francesca pretendia embarcar. Caso o perdesse, estava disposta a permanecer na rodoviária esperando o próximo, fosse a hora que fosse. A mansão que gostara tanto, de repente parecia carregada de uma energia ruim.

O dia estava anoitecendo quando Francesca fechou a última mala. Não havia sequer avisado aos colegas que pretendia ir embora. O lugar se mantinha silencioso e triste. Uma vez ou outra Francesca escutava algum barulho vindo da cozinha. Sofia certamente estava preparando alguma coisa para Magda comer. Consultou o relógio. Era hora de desaparecer da mansão.


A porta se abriu de repente e Francesca se voltou com um pequeno grito. Magda estava parada à porta, recém-vinda do enterro. Não estava mais com os óculos escuros. Por isto, quando Francesca se deparou com os olhos gelados de Magda, um arrepio percorreu sua espinha.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

O HOMEM DO JARDIM (Capítulo 10)




Magda estava cansada depois de ter passado o dia em reuniões. Apesar de ter ficado em casa, trabalhara igual como se estivesse na prefeitura. Na biblioteca, sentada em frente a sua mãe, Magda tentava prestar atenção no que ela queria dizer. Provavelmente era papo furado.

— Você está melhor do resfriado, minha filha?
— Não muito – Magda olhou rapidamente para a caixa de lenços ao lado, sobre a mesa. Estava quase no fim. — Vou tomar leite com mel e ir para a cama. Devo estar melhor amanhã.

Dona Laura cruzou as mãos no colo. Queria disfarçar sua ansiedade, mas era quase impossível.

— Aconteceu algo importante hoje.
— Aqui na mansão? – Magda riu, um pouco despeitada. — Acho que o último grande evento deste lugar foi há 40 anos. Quando meu pai sumiu.

O silêncio de Dona Laura disparou o alarme na mente de Magda. Chegando mais para frente, ela perguntou:

— O que houve aqui que ainda desconheço?

Dona Laura fez um sinal com os olhos para um saco preto encostado à porta da biblioteca.

— Descobrimos uma ossada ao lado do poço.

Magda encarou a mãe sem entender.

— O que a senhora está dizendo...
— Creio que é do seu pai.

A outra encostou-se ao espaldar da cadeira. A expressão era de choque.

— Como você… tem certeza que é ele?
— Ele apareceu novamente nos sonhos de Francesca.
— De novo esta palhaçada? – a voz de Magda saiu estridente. — Quando vocês duas irão parar de brincar com coisa séria?
— Está ali o resultado da brincadeira – retrucou Dona Laura, firme.
— Mãe, por favor! – Magda ficou em pé, alterada. — Você não percebe que está sendo vítima de um golpe de Francesca?
— Mal qual motivo esta moça teria para nos dar um golpe destas proporções, Magda? Ela mal chegou aqui!
— Você não conhece a maldade deste mundo! Ela pode ter sido plantada na mansão para realizar suas trapaças! Ou então seus comparsas falsificaram o currículo perfeito para colocá-la aqui dentro e assim arrancar todo nosso dinheiro!

Dona Laura sacudiu a cabeça negando cada palavra da filha.

— Você está completamente enganada! Francesca é um doce de pessoa!
— Você contou a história de nossa família a ela! Assim foi fácil planejar alguma coisa com a quadrilha da qual ela faz parte. Os ossos – Magda apontou dramaticamente para o saco — certamente são de outra pessoa. Alguém que provavelmente ela ou seu bando assassinaram!
— Se há alguma dúvida vamos fazer o exame de DNA!
— Este tipo de exame demora muito para sair o resultado. E custam muito caro.
— Nós temos dinheiro para bancar. Eu tenho certeza que é Gregório. Seu pai realmente apareceu nos sonhos de Francesca. Nada disto é mentira.
— O que você espera fazer, afinal? – Magda estava exasperada.
— Dar um enterro decente para seu pai. A pessoa que o matou pode não ser descoberta jamais, mas Gregório merece descansar no jazigo da família.

Magda balançou a cabeça e riu, irônica:

— Isto é bizarro. O que você pretende fazer? Chamar a vizinhança para o velório? Lembre que se fizer alarde que um esqueleto foi encontrado dentro da mansão, a polícia vai se meter. Sabe quando sairá o enterro deste monte de osso anônimo? Depois do seu.

Dona Laura pensou um pouco para depois dizer:

— Não há necessidade de envolver a polícia. Vou providenciar uma caixa e colocar os ossos dentro. Farei uma coisa bem simples. Boa noite para você.

A senhora levantou com dificuldade, foi até a porta e chamou um dos empregados para levar o saco com os ossos de Gregório para seu quarto. Antes de sair, olhou para a filha e disse:

— Antes que você se ofereça, não quero sua ajuda. Clodoaldo pode me acompanhar até o quarto. Fique aí com suas dúvidas. Amanhã, quando você estiver com a cabeça mais fria, conversamos.


Incrédula, Magda observou a mãe sair da biblioteca junto com o empregado. Ela só foi para seu próprio quarto depois da meia noite.

domingo, 26 de março de 2017

O HOMEM DO JARDIM (Capítulo 9)




No outro dia, logo depois do café, Dona Laura e Francesca já estavam prontas para iniciar novamente a aventura. O único entrave era Magda. Justo naquela manhã ela acordara com um resfriado e decidiu trabalhar em casa pelo menos naquele turno.

Sentadas na varanda, frente ao jardim, Francesca torceu as mãos, nervosa:

— E agora, Dona Laura?
— Acho que podemos arriscar. Não há motivos para Magda ir atrás de nós. Além de estar resfriada, ela marcou algumas reuniões de trabalho aqui na casa. Seria muito azar nosso se ela for justamente conferir o que estamos fazendo do outro lado da propriedade.
Francesca pensou um pouco.

— A senhora tem toda razão. Mas o improvável também pode acontecer.

A conversa era feita aos sussurros.

— Francesca, minha filha, eu não aguento mais esperar. Mal dormi esta noite. Vamos arriscar. O que temos a perder?

“Meu emprego”.

A moça, porém, guardou para si seus receios. No fundo também estava curiosa para saber no que aquilo tudo iria resultar. Quinze minutos depois as duas já estavam ao lado do poço. Com as mãos trêmulas, Francesca pegou a pá.

— Vou cavar do outro lado.

Sem perder tempo e a toda hora olhando por cima do ombro para conferir se alguém se aproximava, Francesca iniciou o trabalho. Dona Laura tentou tranquilizá-la:

— Calma, Francesca. Eu a avisarei caso veja alguém nas proximidades.

O dia não estava tão quente, mas mesmo assim a testa da jovem brilhava de suor. Ao fim de vinte minutos ela já estava quase desistindo. Segurou a garrafa de água que Dona Laura lhe estendeu e confessou:

— Será que meu sonho foi só um maldito sonho? Estou começando a desconfiar que sim.

Dona Laura se mostrou decepcionada.

— Você está fazendo o que pode, Francesca. Se não encontrar nada, vou manter a esperança que um dia meu Gregório vai voltar.
— Tentarei mais um pouco – suspirou ela, recomeçando a escavar.

Francesca segurou a pá com força e a enterrou um pouco mais fundo desta vez. Subitamente, ela parou e olhou para o buraco, a testa franzida.

— O que foi, Francesca?
— Tem algo aqui... Eu não sei o que...

Ela remexeu com a pá mais fundo no buraco. Fragmentos de ossos surgiram ante seus olhos.

— Dona Laura... – iniciou ela, tensa. — Parecem ossos.
— Meu Deus! Traga-me aqui para que eu possa ver – pediu a senhora, remexendo-se, nervosa, na cadeira de rodas.

A pá foi levada com terra e pedaços de ossos misturados. Dona Laura arregalou os olhos.

— O que a senhora acha que é?

A voz trêmula da velha disse ao segurar um fragmento de osso:

— Vá em frente. Acho que estamos próximas de resolver o maior mistério da minha vida.

Francesca recomeçou a cavar e não demorou muito para um osso de maior tamanho surgir em meio a terra. Mal respirando, ela cavoucou com a pá até achar mais outros ossos e, por fim, o crânio de uma pessoa. Dona Laura a fitava sem ter ideia do que Francesca havia encontrado.

— O que você achou aí?

O crânio encarava Francesca com suas órbitas escuras. Ela recuou alguns passos lembrando do homem do jardim. Era tudo muito surreal.

— Francesca... o que você está vendo?
— Dona Laura, eu… − sem encontrar palavras para se expressar, Francesca finalmente se agachou e pegou o crânio. — Veja.

Dona Laura colocou as mãos no peito, pasma e emocionada.

— Meu Gregório – sussurrou ela, estendendo as mãos para segurar a cabeça.

Francesca caminhou até Dona Laura e, em silêncio, pôs o crânio no colo da senhora. Algumas lágrimas escorreram dos olhos dela e a jovem ficou sem ter o que dizer naquele momento tão doloroso.

— Bem... não temos como saber se realmente é o Gregório, Dona Laura.
— É ele, sim – retrucou ela acariciando o crânio e sujando, sem se importar, as mãos de terra. — Meu coração está dizendo que é meu marido mesmo. Quem o odiava tanto para fazer tamanha maldade?

Depois de alguns segundos de silêncio, Francesca perguntou, sentindo um aperto no peito:

— O que a senhora pretende fazer agora?
— Dar um enterro digno a ele. Meu esposo já ficou tempo demais longe da família.

Ela suspirou fundo mais uma vez e Francesca reparou que Dona Laura se esforçava para manter a serenidade.

— Francesca, vá pegar um saco na cozinha para colocarmos os ossos do Gregório. A polícia tem que ser avisada também, embora isto de nada vá adiantar.
— Dona Laura, e sua filha? O que a senhora irá dizer a ela?
— A verdade. Viemos até aqui e descobrimos o corpo do pai dela.

A jovem estremeceu. Magda iria ficar louca quando soubesse que Francesca desobedecera a suas ordens. Seu destino agora estava traçado. Seria demitida em poucas horas.

— Eu sei o que a Dona Magda irá dizer. Que estes ossos não pertencem ao pai dela – a voz saiu trêmula.
— Ela não terá como negar, Francesca! Gregório entrou em contato com você! Que culpa você tem se ele a escolheu?
— Mas foi um sonho, Dona Laura! Pode ser tudo uma enorme coincidência. Só teremos certeza com um exame de DNA! – rebateu a moça muito tensa, pressentindo o pior.
— Que se faça DNA, então! Vá lá, pegue o saco. Com Magda me entendo eu.

Uma hora mais tarde Francesca e Dona Laura fizeram o caminho de volta para a mansão. No colo da senhora, o saco preto contendo os ossos do marido. Magda estava em uma reunião de trabalho e Dona Laura decidiu esperar até a noite para conversar coma filha.

— O que são mais algumas horas para quem esperou 40 anos? – perguntou Dona Laura a uma apavorada Francesca.


A jovem não disse nada. Seu coração estava apertado somente de imaginar que a bomba ainda estava para explodir.

domingo, 19 de março de 2017

O HOMEM DO JARDIM (capítulo 8)






Francesca precisou colocar um pouco de maquiagem antes de descer para o chá. Pretendia contar para Dona Laura sobre o ocorrido depois do jantar, quando estivessem somente as duas. Se Magda soubesse de qualquer coisa, suas malas estariam na frente da mansão antes mesmo de o sol nascer.

Mesmo tentando aparentar que tudo estava bem, Francesca várias vezes percebeu o olhar de Dona Laura sobre si. O chá serviu para acalmar a jovem, mas ela quase não conseguiu saborear os petiscos de Sofia. Algumas vezes Francesca teve a impressão de ver alguma sombra próxima às cortinas ou mesmo um vulto passando pelo lado de fora da janela. Não teve certeza se realmente era Gregório ou sua imaginação. O certo era que aquele assunto estava deixando seus nervos em frangalhos. Não sabia exatamente como dizer tudo aquilo para Dona Laura sem que Magda um dia viesse a saber de tudo.

Foi após o jantar que a conversa finalmente aconteceu. Sofia levou os pratos para a cozinha e Magda estava recolhida ao seu quarto. Na sala de jantar estavam apenas Dona Laura e Francesca.

— O que você tem, menina? O passeio no jardim não lhe fez bem?

Apreensiva, Francesca olhou para cima, em direção ao quarto de Magda. Dona Laura a tranquilizou:

— Fique calma. Minha filha só sairá de lá amanhã.

Mesmo com esta garantia, Francesca ainda sentia as mãos trêmulas.

— Dona Laura, não foi um sonho.
— Ah, eu sei que não foi. Realmente Gregório veio falar com você. Acredito nisso.

Francesca balançou a cabeça fazendo que não.

— Ele apareceu de novo, Dona Laura. Hoje de tarde, no jardim.

A senhora arregalou os olhos e levou a mão à boca.

— De novo? – ela perguntou aos sussurros. — O que ele disse agora?
— Ele pediu que eu que lhe transmitisse uma mensagem. Por favor, Dona Laura – Francesca implorou, engolindo em seco. — Sua filha não pode saber de nada. Ela irá me demitir se a senhora comentar alguma coisa.
— Ela não saberá de nada. Magda é muito cética para estas coisas. Conte-me. O que Gregório disse? Estou com urticária!
— Ele me disse… que está perto do poço.

Um silêncio se formou na sala. Lágrimas vieram aos olhos da velha senhora.

— Oh, minha querida... pobrezinho. Então... ele está enterrado ao lado do poço?
— Não sei. É o que Gregório deu a entender. Foi ele quem me levou até a parte antiga da casa.
— Quase não vamos até aquele lado. Nem lembrava que havia um poço abandonado por lá.
— E agora, Dona Laura? O que iremos fazer?
— Escavar
*
Para decepção de Francesca e Dona Laura, uma forte chuva caiu desde as primeiras horas da manhã na cidade. Próximo à janela, ao lado de Francesca, a senhora comentou:

— Não acredito que a sorte nos abandonou justo neste momento tão crucial.

Francesca tentou contemporizar:

— A senhora já esperou 40 anos. O que é mais um dia ou dois?
— É muita coisa, minha jovem, para quem já passou dos oitenta. Rezo todas as noites para que eu não morra sem antes saber o que aconteceu com meu Gregório. E logo agora que estamos tão perto, desaba este temporal.
— Dona Laura, a chuva não vai cair para sempre. Ouvi Sofia comentar que a previsão é que o tempo melhore até o meio da tarde.
— Espero que a meteorologia acerte desta vez. Não gostaria de perder mais nenhum dia da minha vida nesta busca sem fim.

De fato, o sol saiu por volta das três horas da tarde, animando a ambas. Dona Laura se encarregou de conseguir uma velha pá com um dos empregados, alegando que iria plantar algumas mudas do outro lado da casa. Assim, sem que ninguém as incomodasse, ambas se encaminharam para a parte antiga da casa. Francesca chegou a experimentar um friozinho na barriga quando parou a cadeira de rodas de Dona Laura próximo ao poço. A velhinha suspirou:

— Posso morrer sem saber quem tirou a vida do meu marido, mas pelo menos estou prestes a saber onde ele passou os últimos 40 anos.
— Por onde eu começo, Dona Laura? Ele não me disse exatamente o lugar onde está.
— Comece do lado que você quiser, Francesca. Quem o matou não deve tê-lo enterrado tão fundo assim.

Francesca estava ciente de que aquele trabalho poderia durar vários dias. Mas estava disposta a arregaçar as mangas e tentar descobrir se realmente Gregório se encontrava ali. Felizmente não fazia muito calor quando Francesca começou a escavar. Dona Laura trazia no colo uma pequena sacola com água mineral e uma toalha.

— Meu único medo – confessou Francesca empunhando a pá, — é que Dona Magda apareça por aqui.
— Ah, não se preocupe. Ela não costuma vir para estes lados. Desde que a casa foi reformada não lembro de Magda ter os posto os pés aqui.
— Graças a Deus. É muito bom saber – Francesca enxugou o suor da testa com o dorso da mão. — Que desculpa daríamos a ela?
— Simples. Um novo canteiro de flores.

Francesca cavou por uns bons 25 minutos. A terra era boa de escavar, mas ao final daquele tempo o resultado fora nulo. Novas nuvens de chuva começaram a chegar.

— Vamos parar por hoje, Francesca – pediu Dona Laura, olhando para o céu. — Acho que vai cair outra tempestade. Deixe a pá por aí mesmo.


As duas entraram na mansão no exato momento que outra chuvarada passou a cair. 

terça-feira, 14 de março de 2017

O HOMEM DO JARDIM (Capítulo 7)




Francesca sentou quase imediatamente. Max, totalmente imóvel, estava com os olhos fixos no homem.

— Você… você…

Gregório permaneceu no mesmo lugar. Os olhos negros dele expressavam certa tristeza e isto o deixava ainda mais belo. Francesca fez menção de levantar, mas ele a deteve com um gesto.

— Por favor, não vá – pediu ele.

A voz de Gregório ecoou nos ouvidos dela clara e firme. Max gemeu baixinho e enfiou a cabeça entre as patas. Francesca murmurou:

— Eu não vou fugir.

A jovem esperou Gregório falar alguma coisa. Ele a fitou por mais alguns segundos. Então disse:

— Preciso que você conte uma coisa a Laura.

Francesca reparou que as roupas dele eram um pouco antigas. Gregório vestia um casaco pesado, calças de um tecido mais grosso e botas marrons. A brisa que soprava não balançava os cabelos do homem. Nada daquilo parecia ser real.

— O que você… quer que eu diga a ela?
— Estou perto do poço.

Ela não entendeu. Olhou disfarçadamente para os lados. Não havia ninguém ali para testemunhar aquela conversa estranha.

Perto do poço. Como assim? Gregório estava parado próximo a ela. De que poço ele falava?

— Atrás da ala antiga da casa. Poucas pessoas vão até lá agora – respondeu Gregório adivinhando os pensamentos dela.

A mente de Francesca tentava juntar os pontos. Tudo parecia ainda meio nebuloso.

— Diga somente isto para Laura. Ela entenderá.

Ele deu meia volta e saiu caminhando lentamente até sua imagem se dissolver ante os olhos perplexos de Francesca. Uma lambida no rosto a despertou do sonho surreal. Francesca permaneceu por ali mais alguns instantes, respirando fundo. O cachorro parecia um pouco estranho também.

— Gregório! – ela olhou paro os lados, sentando na relva. Ainda não tinha coragem de ficar em pé, as pernas estavam fracas. — Você esteve aqui de verdade?

O coração de Francesca era quase um tambor, batendo em pancadas secas dentro do peito. Não havia sido um sonho. O homem que vira no jardim e nos seus sonhos agora aparecera nitidamente e lhe fizera um pedido quase desesperado. O homem pelo qual se encantara estava morto e era marido de Dona Laura.

*

Quando as pernas firmaram, Francesca ficou em pé. Perto do poço. Gregório avisara que estava próximo a este lugar localizado na antiga ala da casa, pouco visitada. O olhar de Francesca percorreu toda a construção. Talvez a outra ala ficasse mais para trás.

Com passos ainda um pouco incertos, a jovem, acompanhada de Max, seguiu o caminho de pedras que levava até lá. Felizmente não encontrou ninguém pelo caminho. Seria bem complicado explicar a palidez e sua expressão de assombro.

De repente Max saiu em disparada na sua frente. A atitude do cão assustou Francesca. Ela andou mais alguns passos e um pouco adiante teve a impressão de enxergar uma sombra entre as árvores.

— Gregório?

O homem surgiu alguns metros a sua frente e olhou para ela como se quisesse dizer alguma coisa. Depois deu meia volta e saiu caminhando em passos leves, como se não tocasse no chão. Outra vez sua imagem se desfez tal qual fumaça. Francesca parou um instante, criando fôlego. Ele estava lhe indicando um caminho! Max, mesmo um pouco longe, latiu fortemente para Francesca.

Os latidos pareciam ser um alerta. Os receios de Francesca não foram o bastante para deixá-la imobilizada. Curiosa com o que estava prestes a encontrar, ela seguiu pelo caminho e dobrou o canto da casa. Havia ali uma edificação mais baixa, de um andar só. Max estava ali, indo e vindo, balançando a cauda. Quando viu Francesca latiu mais forte, querendo apressá-la. Não havia sinal do espectro de Gregório por ali.

Francesca seguiu pelo lado da casa antiga. O lugar não era muito cuidado pelos empregados. Os arbustos estavam um pouco altos e as portas e janelas fechadas firmemente. Max latiu de novo, nervoso, mais adiante. Francesca também estava mais tensa e se dirigiu até onde o cão a chamava. O que teria ele encontrado atrás da casa?

O poço antigo. Ao contornar a parte de trás da casa velha, Max a esperava de língua de fora sentado ao lado do poço que Gregório mencionara. Ela deixou escapar um grito e então as pernas faltaram de vez. Com os joelhos no chão de pedra, Francesca tentou raciocinar. Gregório lhe deixara uma mensagem importante. Com aquilo ele pretendia encerrar um mistério de quarenta anos. Um mistério que movera Dona Laura por décadas.


— Agora sim, Gregório. Eu o encontrei.

segunda-feira, 6 de março de 2017

O HOMEM DO JARDIM (Capítulo 6)




Sem pedir licença, a mulher entrou no quarto praticamente esbarrando na moça.
— Feche a porta, por favor.
Francesca fez o que Magda mandou, ainda sem imaginar o que estava causando todo aquele desconforto na patroa.
— Hoje minha mãe contou que você sonhou com meu pai.
Ela sacudiu a cabeça confirmando que sim. Ainda não tinha noção do que Magda queria realmente.
— Você sabe o que isto causou?
Engolindo em seco, Francesca respondeu:
— Não, senhora.
— Francesca, minha mãe é uma mulher velha e obcecada com o desaparecimento do meu pai. Ele sumiu há muitos anos, mas para ela foi ontem. Então, para agradá-la, você resolve dizer que teve um sonho com ele.
— Sonhei mesmo, senhora – interrompeu Francesca. — A surpresa de nós duas aumentou quando eu vi a foto.
— Deixe-me concluir. Não me interrompa. Este seu sonho, ou seja lá o que for, parece que fez o marido da minha mãe ressuscitar. Ela está vivendo uma expectativa que não existe.
— Que expectativa? – Francesca se sentiu incomodada com aquele assunto.
— Ela acha que o desaparecido irá entrar pela porta da frente a qualquer momento.
— Não é bem isto. Nós conversamos a respeito sobre o fato, Dona Laura tem ciência que muito provavelmente ele está morto.
— Você tem noção do que causou a ela?
— Não me consta que eu tenha lhe feito mal.
— Ela acha que o marido vai voltar. Nós sabemos que isto não irá acontecer. Minha mãe poderá ficar tão triste que temo que adoeça.
— Dona Laura está com os dois pés no chão. Não acredito que ela esteja iludida de alguma forma.
— Quero lhe dizer a uma coisa – Magda aproximou-se um pouco, ameaçadora. — Não comente mais sobre este assunto com minha mãe. Esqueça este seu maldito sonho. É melhor você andar na linha ou isto poderá custar seu emprego – ela respirou profundamente. — Tenha uma boa noite.
Magda passou reto por Francesca e bateu a porta com força ao sair. Assustada, Francesca sentou na cama pensando em tudo o que Magda havia lhe dito. Ela simplesmente distorcera tudo. Nem por um momento Dona Laura estava imaginando que Gregório iria aparecer. A curiosidade era saber o motivo de ele ter surgido nos sonhos dela. O que Gregório queria? O que ele precisava dizer?
*
No outro dia tanto Francesca como Dona Laura evitaram conversar sobre o sonho ou até mesmo Gregório. Francesca estava bastante incomodada, mas tentou disfarçar o quando pôde. Dona Laura também parecia pouco à vontade.
Magda se juntou a elas somente no jantar como se nada tivesse acontecido. Francesca mal abriu a boca e Dona Laura comentou somente assuntos triviais. Mais tarde Francesca se deu conta que Magda apenas participou do jantar para controlar as duas.
Mas na hora de dormir, quando Dona Laura estava acomodada na sua cama e Francesca se preparava para ir ao seu quarto, a senhora recomendou:
— Se você tiver algum sonho diferente, não se esqueça de me contar.
*
Depois do almoço, no dia seguinte, Dona Laura disse:
— Acho que vou tirar uma soneca, Francesca. Por que você não aproveita este tempo para tirar uma folguinha?
Francesca concordou.
— Talvez eu possa dar um passeio pelo jardim. Prometo não demorar.
— Pretendo ficar repousando ate próximo às 16 horas. Uma grande amiga minha virá tomar o chá das cinco comigo. Você também está convidada.
— Certo. Estarei aqui a tempo de deixar a senhora bem bonita!
Meia hora depois Francesca estava no jardim acompanhada de Max, o labrador negro da família. Magda não gostava que o animal ficasse dentro de casa e quando ele percebeu que teria companhia, pulou faceiro ao redor da moça.
Seria bom dar uma espairecida. Na noite anterior Francesca havia tido um sonho. Aliás, um sonho muito ruim. Magda tinha lhe demitido. Ela ainda trazia no peito uma espécie de angústia como se realmente a notícia houvesse sido real. Bem, talvez não estivesse muito longe da realidade se ela ousasse revelar seus sonhos.
— Vamos, Max! O dia está bonito, vamos correr!
O cachorro realmente estava disposto a se divertir. Correu alguns metros à frente de Francesca e se virou para esperá-la. Depois de alguns instantes, Francesca o alcançou, ofegante.
— Puxa, você é rápido demais para mim. Vamos!
Max saltou à frente outra vez, animado. A jovem o acompanhou do jeito que pôde, feliz de poder correr e esquecer um pouco das suas inquietações. O jardim parecia não ter fim. Depois de completar uma volta inteira, Francesca se atirou no gramado. Estava exausta, mas sentia-se aliviada. As angústias por ora haviam se dissipado. Deitada, de olhos fechados, ela percebeu quando Max se acomodou ao seu lado.
— Max, você acabou comigo – resmungou ela, sentindo as pálpebras pesarem.
O cão deu um pequeno ganido enquanto Francesca permanecia deitada e relaxada sob a brisa suave.
— Acho que vou ficar para sempre aqui, sabe?
A voz não passava de um sussurro. O relaxamento foi lhe levando para um estado de sonolência. Francesca tinha uma leve noção do que acontecia ao seu redor. Max continuava ao seu lado, paciente. Ao longe era possível escutar vozes e sons característicos da cozinha. Não se moveu. Era bom ficar assim, longe de tudo e todos. Principalmente longe de Magda e suas ameaças.
Os passos que Francesca escutou em meio ao seu torpor não a fizeram abrir os olhos. Imaginou ser algum empregado vindo buscar Max ou coisa parecida. Fosse o que fosse, ela iria permanecer no local mais um pouco. Ainda faltava um bom tempo para ter com Dona Laura.
Max deu um pequeno latido como se estivesse assustado. Francesca não deu bola. Aquilo iria passar dentro em pouco. Porém, quando Max ganiu baixinho como se estivesse vendo alguma coisa, Francesca resolveu entreabrir os olhos em meio ao sono.

Gregório estava a poucos metros dela.