sábado, 18 de fevereiro de 2017

O HOMEM DO JARDIM (Capítulo 3)






O quarto de Francesca ficava ao lado do de Dona Laura. A decoração era praticamente igual. Móveis pesados e de bom gosto, mas tudo bem aconchegante. O jantar foi no quarto da velha senhora. Algumas vezes, como naquela noite, ela optara por ficar mais resguardada. Magda já havia ligado para avisar que teria um jantar político e chegaria mais tarde.

— Nossos horários não são muito compatíveis – comentou Dona Laura comendo uma sopa cremosa e cheirosa. Minha filha tem uma vida muito agitada. Eu até já me acostumei.
— Agora estou aqui para fazer companhia para a senhora.
— Estou muito contente com sua presença – sorriu Dona Laura. — Só espero que você não fique aborrecida em cuidar de uma velha.
— Estou gostando de tudo, Dona Laura. De verdade – assegurou Francesca, lembrando-se do homem bonito no jardim. Bonito e misterioso.

Depois de assistirem um programa na TV, Dona Laura decidiu se recolher. Francesca a acomodou na cama e foi para seu próprio quarto. A janela dava para o jardim imenso. Curiosa, ela se aproximou da janela, afastando a cortina pesada. Não dava para ver muita coisa. Lá fora era escuro e o silêncio reinava. Quem seria ele? Poderia ser um empregado ou alguém de fora que estava realizando serviços na casa. Francesca esperava, sinceramente, vê-lo outra vez. Por enquanto, precisava conter sua curiosidade. Não conhecia nenhum outro empregado ainda para poder indagar quem seria, sem parecer uma intrometida.

*

Dona Laura gostava de acordar cedo. Por volta das sete horas ambas já estavam em pé. A primeira refeição ela gostava de tomar na sala e, de braços dados com Francesca, Dona Laura caminhou devagar pelo corredor até o elevador da casa. 

— Temos uma cozinheira que faz uns bolos deliciosos para mim – piscou ela para Francesca. — É a responsável pelos meus quilinhos a mais.

As duas entraram no elevador e Dona Laura suspirou. Foi um suspiro longo e profundo que assustou a jovem.

— A senhora está se sentindo bem?
— Sim, estou bem – deu um tapinha no braço de Francesca. — Estava lembrando do sonho que tive hoje – fez uma pausa e completou. — Com o Gregório.
— Foi um sonho bom?
— Ah, foi. Dificilmente eu tenho sonho ruins com meu marido. Sonhei que ele havia retornado para casa, como sempre. Às vezes penso que ele está preparando a minha ida para o outro lado.
— Não se impressione muito com estes sonhos, Dona Laura.
— Não, eu não me impressiono muito. Mas eu gosto de sonhar com ele. Nestes sonhos eu estou sempre jovem!

O elevador parou e ambas se encaminharam para a sala, onde uma das empregadas já havia distribuído os quitutes. Francesca chegou a suspirar ao ver a variedade de pães e bolos.

— Tudo isto é para nós?
— Magda recebe algumas pessoas de manhã aqui, para o café. Mas tenho a impressão que sobra comida, sabe? Magda é um pouco perdulária.

Magda apareceu mais tarde e realmente disse que algumas pessoas iriam aparecer pouco depois. Quando chegaram, Dona Laura ficou distraída conversando com os amigos da filha e Francesca aproveitou para ajudar Sofia, uma das empregadas, a levar a louça usada para a cozinha. Além de querer se integrar mais com as outras pessoas, Francesca queria saber quem era o tal homem misterioso do jardim.

— Francesca, muito obrigada. Pode deixar as coisas sobre a pia. Eu já irei lavar.

Ela fez o que Sofia pediu, mas não voltou para a sala. Pelas risadas que escutava, sabia que Dona Laura estava se divertindo com alguns dos convidados da filha.

— São muitos empregados nesta casa? Estou impressionada com o tamanho.

Sofia começou a lavar a louça enquanto explicava.

— Sim, somos um número razoável. Jardineiros temos dois.  Na cozinha somos três e temos duas arrumadeiras. Com você somos oito empregados para dar conta de tudo. Já pensou se a família fosse grande? Estaríamos perdidos!
Francesca riu ao mesmo tempo em que pegava um pano de prato para secar a louça já limpa.

— Acho que ontem vi um dos jardineiros.
— Provavelmente. Eles ficam circulando pelos jardins o dia inteiro. Eles já são meio velhos, sabe? Mas fazem o serviço muito bem.

Velhos? Francesca ficou em silêncio. O homem que tinha visto no dia anterior parecia ser jovem.

— Bem, então não foi nenhum deles que vi. Esta pessoa parecia mais nova, tipo uns trinta anos.
Sofia a olhou sem entender.
— Ué, que estranho. Não temos empregados homens tão jovens assim.

Francesca engoliu em seco.

— Talvez fosse alguém de fora fazendo reparos na casa.
— Não, não veio ninguém diferente aqui ontem. Dona Magda tem muitos amigos e eles adoram passear pelo jardim. Mas ontem ela passou o dia inteiro fora.
— Mesmo? – Francesca não tinha o que dizer.
— Acho que você viu coisas – Sofia riu.
Rindo também, mas um pouco intrigada, Francesca disse:
— Devo estar ficando doida. É muita coisa nova para minha cabeça!
— Se é! Aproveite um dia que Dona Laura tirar uma soneca à tarde e faça uma expedição por aí. Vai ser bem interessante, acredite.


Minutos depois Francesca retornou à sala, tentando controlar seu nervosismo. E se o homem bonito fosse um invasor, um bandido? A casa era resguardada, além de possuir um bom sistema de segurança. Não era qualquer pessoa que podia entrar lá. Sentando ao lado de Dona Laura, ela tentou se acalmar. Mais cedo ou mais tarde o homem iria aparecer de novo. E se ela tivesse mais sorte, tentaria falar com ele.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O HOMEM DO JARDIM (Capítulo 2)





Dona Laura era uma simpática velhinha de cabelos brancos. Quando Magda abriu a porta do quarto espaçoso, a senhora abriu um sorriso.

— Finalmente minha companhia chegou.

Francesca simpatizou imediatamente com Dona Laura. Magda fez as apresentações:

— Mamãe, esta é a…
— Já sei, a Francesca. Não precisa me apresentar. Gostei dos seus cabelos.

A moça riu e pegou um cacho dos seus cabelos vermelhos.

— Ah, muito obrigada. Mas eles dão um pouco de trabalho para cuidar.
— Venha até aqui – Dona Laura bateu com a mão no assento de uma cadeira. — Sente aqui ao meu lado e vamos nos conhecer melhor.

Francesca percebeu um alívio na voz de Magda quando esta disse:

— Bem, meninas. Vejo que está tudo em ordem por aqui. Francesca, ela é toda sua. Bom dia para vocês.

Magda deu um rápido beijo na mãe e saiu do quarto, apressada. Dona Laura, sentada em uma cadeira próxima à janela, comentou:

— Ela estava louca para ir embora.
— Impressão sua, Dona Laura – retrucou Francesca, polidamente, sentando próximo a ela.
— Nada disto. Conheço minha filha muito bem. Então, conte-me sobre você – pediu a senhora com os olhos brilhantes. — Quero saber quem você é.
— Ah, não tenho muito que contar, não. Deixe-me ver... Sou formada em enfermagem, tenho 24 anos e esta é a primeira vez que fico longe de casa. Rompi um noivado de dois anos há pouco tempo... Acho que é isto.
— Você é uma moça muito bonita. Não vai se entediar aqui?
— Não, não vou mesmo! Eu precisava de algo diferente na minha vida. Estou muito feliz por estar aqui. De verdade.
— Que ótimo – Dona Laura parecia satisfeita. A porta se abriu naquele momento e entrou uma empregada trazendo um bule de chá, biscoitos e duas xícaras. — Veja, é para nós. Adoro um chazinho.

Francesca serviu chá a ambas. Dona Laura disse:

— Esta é uma casa grande. Você vai se surpreender com o tamanho.
— Dona Magda me contou que a senhora gosta muito de passear pelos jardins.
— Gosto muito – disse Dona Laura, mordiscando um biscoitinho. — Magda tentou me convencer a vender a casa várias vezes.
— A senhora deve gostar muito de viver aqui.
— Ah, sim! Nasci e cresci aqui. Morei com meu marido nesta casa por quinze anos.

A jovem percebeu um tom de tristeza na voz de Dona Laura. Arriscou-se a perguntar:

— Ele morreu jovem?
— Morreu? Não sei se ele morreu, Francesca. Ele simplesmente sumiu.
— Sumiu? – Francesca quase queimou a língua com o chá, subitamente interessada naquela história. — Como assim?
— Era nosso aniversário de casamento. Ele havia ido tratar de negócios em uma fazenda vizinha. Eu preparei um jantar bem caprichado para quando ele retornasse. Só que ele nunca mais voltou.
— Mas ninguém sabe o que houve?

Dona Laura balançou os ombros em sinal de dúvida.

— Ele chegou a visitar a outra fazenda. Depois que saiu de lá ninguém mais soube o que aconteceu. Fizemos buscas por dois meses. Nem um fio de cabelo foi encontrado. Nos primeiros anos chegavam pistas de que o teriam visto em algum lugar, mas nada nunca foi confirmado – ela suspirou. — Às vezes tenho a impressão de que ele entrará por aquela porta, jovem e altivo. Não o imagino um homem velho, da minha idade. Minha filha tinha apenas 13 anos na época. Acho que é por isto que ela sempre quis ir embora daqui.

Francesca comentou:

— Deve ter sido bem difícil para a senhora...
— Ainda é. Várias vezes eu o vejo ao pé da minha cama. Deve ser por que está morto né? Ou é minha cabeça de velha.
— Não diga isto, Dona Laura. Espero que ele esteja em um bom lugar.

Dona Laura bebeu duas xícaras de chá e então convidou:

— Vamos dar uma voltinha no jardim?

*

Dona Laura e Francesca passeavam pelo jardim ao final da tarde. Um ventinho frio obrigou ambas a vestirem um casaquinho. A primeira alertou:

— No final da tarde sempre esfria um pouco, mesmo no verão. Espero que você tenha trazido um casaquinho, Francesca.
— Eu trouxe roupas para todas as estações, Dona Laura – riu a jovem. — Não precisa se preocupar comigo. Eu que devo me preocupar com a senhora!

Dona Laura apontou para um balanço antigo mais a frente.

— Vamos parar ali. Quero ler um pouco do meu livro.

Francesca a conduziu com a cadeira de rodas até o local e Dona Laura comentou:

— Magda costumava se embalar neste balanço quando menininha. Depois que ela cresceu pouco foi usado.
— Será que eu posso experimentar, Dona Laura? Adoro balanços!
— Claro, distraia-se. Estou atrasada na minha leitura.

Sentada no balanço de madeira, Francesca fechou os olhos e respirou fundo. O ar puro e fresco era revigorante e a moça sentiu um grande bem-estar. Aproveitando que Dona Laura estava concentrada no livro, a jovem começou a prestar atenção ao seu redor. No lugar onde estavam havia dois bancos de madeira e mais adiante um chafariz. No balanço de madeira cabiam duas pessoas e era adornado por trepadeiras. Dona Laura havia mencionado que havia uma grande piscina do outro lado da casa e, quando esquentasse, Francesca poderia dar um mergulho, se quisesse. Em cada parte do jardim havia canteiros de flores diferentes. Francesca desejou ter trazido o celular no passeio para tirar algumas fotos.

Mais adiante um movimento chamou atenção de Francesca. Um homem de cabelos escuros encostado a uma árvore olhava fixamente para ela. A surpresa foi tanta que o balanço foi parando lentamente. Não podia distinguir direito suas feições, mas dava para perceber que era muito bonito. Quem seria?, perguntou-se ela, encantada. Dona Laura, concentrada na leitura, não percebeu nada. O homem continuou no mesmo lugar, imóvel. Talvez fosse algum empregado da casa, embora não estivesse vestido como se fosse um.

— Francesca...

Ela piscou assustada. Dona Laura a olhava com curiosidade.

— Tudo bem com você?
— Sim? Oh, sim, está tudo certo.
— Está um pouco frio. Vamos voltar?
— Claro! – Francesca deixou o balanço e se aproximou da cadeira de rodas. Olhou disfarçadamente para onde estaria o homem, mas ele não estava mais lá.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O HOMEM DO JARDIM (Capítulo 1)




O carro entrou pelo portão de ferro e percorreu a estrada de chão batido por mais ou menos um quilômetro. Francesca não queria perder um único detalhe, com os olhos presos na paisagem que se descortinava ante seu nariz. Logo a casa surgiu ao fundo e já de longe dava para perceber que era grande e bem cuidada. Quando o automóvel finalmente parou frente aos degraus da entrada, uma mulher de cabelos escuros, com mais ou menos cinquenta anos, aguardava Francesca.

A moça havia sido escolhida entre várias candidatas para ser a acompanhante de Laura Pedroso, uma senhora de 80 anos, mãe da prefeita da cidade de São Tomás. Os demais empregados não tinham habilitação suficiente para a colocação e Magda decidiu abrir uma seleção. Agora Francesca, depois de uma viagem de três horas de ônibus, finalmente chegava ao seu destino. Pelo visto, o anúncio não estava mentindo quando informara que o local era realmente diferenciado.

O motorista abriu a porta para Francesca saltar e Magda já a aguardava com sua pose altiva. Não foi preciso sequer pegar as duas malas. Um empregado surgiu de dentro da casa e fez isto por Francesca.

— Bom dia, Francesca - cumprimentou Magda, estendendo a mão. — Sou Magda Pedroso.

Nem precisavam apresentações. Francesca já havia consultado o Google e sabia algumas coisas sobre sua nova chefe.

— Muito prazer - devolveu Francesca.

— Vamos entrar. Tenho um tempinho antes de ir à Prefeitura.

Francesca foi conduzida até a biblioteca. Os móveis pesados e as estantes lotadas de livros deixaram bem claro onde ela iria querer passar suas horas de folga.

— Seja muito bem-vinda - disse Magda puxando uma cadeira e se acomodando atrás de uma pesada mesa. — Sente-se, por favor. Quero conversar com você antes de lhe apresentar minha mãe.

Francesca sentou frente a Magda, curiosa pelo que estava por vir. Esperava que a tal Dona Laura não fosse uma velha ranzinza.

— Minha mãe é uma pessoa muito carismática - começou Magda, olhando atentamente para Francesca, — mas é preciso de alguém sempre ao seu lado. Ela tem problema em um dos quadris e não pode andar longas distâncias. Para isto ela prefere a cadeira de rodas. Você já deve ter percebido que a casa é grande e ela gosta muito de passear. Prepare-se para passeios pelos nossos jardins. Como você sabe, sou a prefeita da cidade e nem sempre tenho condições de ficar junto a ela. Isto caberá a você.

— Sim, senhora.

— Minha mãe tem uma cabeça boa, mas algumas vezes ela alega ver meu pai - Magda riu. — O problema é que ele desapareceu há mais de 40 anos, sem deixar vestígios, portanto, deve ser coisa da cabeça dela. Ela quase não se queixa de nada, além da solidão. Para isto você está aqui.

— Tenho certeza que nos daremos muito bem, prefeita.

— Aqui estão o número do meu telefone e o do médico. Não hesite em ligar se for preciso, a qualquer hora - Magda esticou um pedaço de papel com os números dos celulares. Consultou o relógio. — Vamos conhecer a famosa Dona Laura.

Francesca estava curiosa em conhecer a velha senhora. Magda a conduziu pela sala grande até uma escadaria.

— Esta casa foi construída pelo meu avô. Deve ter uns 130 anos. Há algum tempo passou por uma grande reforma.

— É uma linda casa, Prefeita.

— Você vai gostar daqui.

Magda e Francesca subiram os degraus que levavam ao primeiro piso. Quando a jovem olhou para baixo a fim de olhar melhor a sala e todos sua decoração, teve a impressão de ter visto uma sombra perto de um dos corredores, espreitando-a.

Quem seria? Por algum motivo, os pelinhos do seu braço ficaram todos arrepiados.

O HOMEM DO JARDIM (apresentações)

Queridos leitorinhos

Estou investindo em um novo conto de suspense. Vem comigo?




A história se passa em uma cidade do interior, onde a jovem Francesca inicia seu novo emprego como acompanhante de uma senhora de 80 anos, muito solitária. Mal a moça começa sua nova função e avista um homem estranho nas imediações da casa, mais precisamente no jardim. Curiosa, aliada às histórias que Dona Laura conta, Francesca se dá conta que está frente a um mistério que envolve a família. O que será? Quem é o belo homem que parece cuidar todos os passos de Francesca?

domingo, 15 de janeiro de 2017

SOMENTE NOS MEUS SONHOS (Final)






Lucinda, apesar do pavor, pôde contar com as suas pernas. Assim que se embrenhou no bosque, escutou os berros aterrorizantes de João atrás de si. Ele não hesitaria em matá-la. O seu consolo era que certamente Doutor Henrique escutara os tiros e talvez tivesse condições de providenciar ajuda.
Dentro da mata se fazia cada vez mais escuro. Lucinda temia ficares em lugares mal iluminados, mas daquela vez não teria jeito. A luz da lua entre as nuvens pouco lhe ajudava e sabia estar em desvantagem. João devia conhecer muito bem aquelas trilhas, cada árvore e arbusto. Os braços e o rosto de Lucinda já estavam arranhados por bater nos galhos que surgiam a sua frente. Não ouvia mais os gritos de João, mas ele devia estar ao seu encalço. O homem era esperto. Quanto mais silêncio fizesse, mais fácil seria de acabar com ela.

— Oh, Álvaro... Por favor, me salve...

Ela esperou que Álvaro surgisse em algum recanto do bosque para resgatá-la. Nunca imaginou que uma simples visita ao cemitério fosse render aquilo tudo. Conseguira mexer com a família mais poderosa da região e também temia por sua própria família. Cada passo dado agora já era com dificuldade, pois além da tensão, sentia-se cansada. Aos poucos escutou o som manso do rio. Parecia não estar muito longe agora. Guiada pelo ouvido, imersa na escuridão, Lucinda seguiu a duras penas a trilha, atenta para ruídos de passos atrás dela. Não escutou nada. Em menos de dez minutos chegou ao rio. E simplesmente não soube o que fazer.

Lucinda desabou na beira do rio, exausta. O coração batia em alta velocidade, por medo e cansaço. Aparentemente estava sozinha ali e as nuvens haviam encoberto a lua, o que era muito bom caso João aparecesse. Respirando fundo, Lucinda olhou para frente. Se tivesse fôlego podia atravessar a nado o rio. O problema é que nunca soubera nadar direito e não fazia isto há anos. Tampouco sabia a profundidade ou o que encontraria do outro lado. Porém, qual a alternativa que tinha? João poderia surgir a qualquer momento e não podia se dar ao luxo de ficar sentada ali. Precisava se salvar.
No momento em Lucinda equilibrou-se para ficar em pé, a lua surgiu brilhante. Observando o leito do rio, ela calculou que precisaria de bastante energia para chegar ao outro lado. Mas antes que desse um passo a frente, uma mão áspera a pegou fortemente pelo cotovelo, torcendo seu braço. Lucinda não precisou sequer se virar para saber quem era.

— Então você pensou que poderia escapar de mim, sua cadela?

O bafo de João fez Lucinda ficar nauseada. Ela tentou puxar o braço, mas João evidentemente era mais forte.

— Você é muito ousada. Seus amiguinhos empregados também. Mas vocês terão tudo o que merecem.

Lucinda gemeu quando João começou a arrastá-la para o rio. Ele fez com que a moça entrasse na água à força. A cada passo dado, Lucinda afundava um pouco. O rio era profundo e em breve não daria mais pé. Com força, João afundou a cabeça dela por alguns momentos, trazendo-a de volta à tona. Lucinda respirou todo o ar que podia, já tonta. Ele deveria estar repetindo o que havia feito com Julieta na noite anterior.

— Foi assim que vocês a mataram... não foi?

A voz de Lucinda saiu entrecortada e João ficou furioso. Esbravejou:

— Cale a sua boca!

Antes de ter a cabeça mergulhada novamente na água, Lucinda percebeu que João olhou para os lados. Parecia observar se havia alguém nas proximidades. Desta vez, na percepção de Lucinda, João a deixou um pouco mais de tempo submersa. Quando finalmente ele a soltou, a moça mal enxergou as estrelas brilhantes no céu. Estava zonza, sem ar, como se a morte estivesse lhe rondando. Ela tentou se segurar, instintivamente, na camisa de João. Ele deu uma gargalhada maldosa.

— Fim de linha para você, garotinha. Quando você nascer de novo, aprenda que não deve se meter com gente poderosa.

João não precisou quase de força nenhuma para empurrar Lucinda na água. O rio não estava com muita correnteza naquela noite, porém ela estava tão fraca, exausta e sem ar que facilmente foi levada pelas águas. A última visão que teve de João foi dele rindo com a cabeça jogada para trás.

*

O corpo de Lucinda foi levado lentamente pelo rio. No início ela afundou, mas uma força sobrenatural a fez voltar à superfície antes que perdesse os sentidos. “Se ao menos eu conseguisse boiar”, gemeu ela, tentando manter a cabeça fora da água. Com os olhos marejados de lágrimas, Lucinda observou as estrelas lá em cima, tão belas, alheias ao sofrimento dela. Os braços estavam tão cansados que ela mal podia se debater. Conseguiu boiar por alguns segundos, mas por fim afundou. E na exaustão em que se encontrava, não achou isto tão ruim. Se era para morrer, que fosse de uma vez.

De repente, Lucinda voltou à tona novamente. Abriu os olhos enquanto sentia que estava sendo levada para a beira do rio não pela correnteza, mas por alguma outra coisa. Aos poucos foi sentindo que não estava mais tão fundo assim e os pés tocaram o chão. Quando Lucinda caiu de novo, a água já lhe batia nos joelhos. Achou que não fosse mais levantar, mas foi levada até a beira quase engatinhando, os cabelos grudando no rosto e no pescoço. Quase não tinha mais força para gemer. Quando finalmente tombou na beira do rio, fora da água, olhou para os lados. Não ficou surpresa ao se deparar com Álvaro.

Ela sorriu e por alguns instantes achou que tinha morrido também.

— Obrigado por tudo o que você fez.

Lucinda tentou falar, mas a voz não saiu. Álvaro prosseguiu:

— Não se preocupe. Eles vão lhe encontrar. Você não irá morrer.

Ela balançou a cabeça sem saber exatamente em que mundo se encontrava. Mas estar com Álvaro estava sendo bom. Sentia-se em paz, um pouco à parte da crueldade e injustiça que presenciara e vivera. Mesmo molhada não se sentia desconfortável. O barulho do rio era relaxante e quase pôde sentir o toque da mão de Álvaro na sua. As pálpebras pesaram antes que conseguisse dizer qualquer coisa para ele. Porém, de onde Álvaro vinha provavelmente ele já sabia tudo o que ela gostaria de dizer. Precisava descansar. Estava tranquila. Álvaro a protegia. Não precisava de mais nada.

Lucinda não soube quanto tempo se passou. Despertou com latidos de cachorro e gritos de homens. Ao abrir os olhos percebeu fachos de lanterna próximo onde ela estava. Ergueu o braço para se fazer visível e a voz de um homem, provavelmente Henrique, gritou:

— Lá está ela! Viva!

Sim, viva. Lucinda sorriu ao se lembrar de quem a salvara. Quem acreditaria? Mas para que contar? Levaria aquele segredo para o resto da sua vida e, quem sabe, encontraria Álvaro em outros tempos.

Ou nos seus sonhos.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

SOMENTE NOS MEUS SONHOS (Cap. 8)






Henrique estava frente à cunhada no salão da mansão. Ele conhecia aquele lugar muito bem. Passara sua infância lá, entre brincadeiras e travessuras com o irmão Álvaro. Quando os pais faleceram, Álvaro já estava de casamento marcado com Marília. Henrique nunca gostara dela. Marília era outra mulher por dentro. Era uma pena que Álvaro não tivera tempo de se livrar daquele embuste.

— Fiquei sabendo que houve uma morte aqui ontem. Mais uma – disse ele, implacável. A conversa que tivera com a moça Lucinda pela manhã o enchera de dúvidas e depois de certezas. E no final do dia descobrira, casualmente, que ela estava desaparecida.

Marília estava sentada no sofá macio, ainda do tempo da mãe de Álvaro e Henrique. Claramente ela não se sentia à vontade. A visita inoportuna do cunhado estava atrapalhando seus planos.

— Pobre Julieta – murmurou ela. — Uma empregada excelente. Acreditamos que bebeu demais e foi para o rio de madrugada.
— Qual o motivo que teria ela para beber? Julieta vinha tendo algum problema com você?

A pergunta foi direta. Marília o encarou, surpresa.

— Comigo? De jeito nenhum. Sempre me dei bem com todos os empregados. 

Fico surpresa com este seu questionamento.

— Fiquei sabendo que ontem uma moça veio à força para cá. João a trouxe do cemitério. Qual o motivo?
— Qual o seu interesse em…
— Tem relação com o meu irmão? Com a morte dele?

Não estava nos planos de Marília entrar em atrito com o cunhado. Ele era esperto demais. E a odiava.

— É uma maluca. João a viu chorando várias vezes no túmulo do Álvaro. Pensei que fosse alguma namorada perdida dele. Fiquei intrigada e com raiva, ora esta! Mandei João trazê-la para cá.
— O que ela respondeu?

Henrique não estava disposto a ser simpático e Marília começava a se sentir acuada.

— Negou tudo, é claro. Depois eu vi que era maluca e a mandei embora. Não entendo tantas perguntas!
— Eu soube que a moça que você diz que é doida desapareceu. Você tem alguma coisa a ver com isto?

Marília sentiu as faces ficarem avermelhadas. Não podia se deixar trair.

— Eu? Pelo amor de Deus, Henrique! Eu já falei que a mulher tem um parafuso a menos! Deve ser por isto que desapareceu.

Naquele exato momento os gritos de João foram ouvidos do lado de fora e Henrique se pôs de pé. Marília permaneceu sentada, sem coragem para levantar. Seus instintos lhe diziam que algo estava dando errado.

— É João? – perguntou Henrique indo até a janela. — Seu empregado anda meio nervosinho, não é mesmo?

Antes ainda de Henrique chegar à janela, um tiro foi disparado. Henrique e Marília se entreolharam, assustados. Ela ficou em pé e de tão nervosa esbarrou em um vaso que se espatifou ao lado do sofá.

— Mas o que é isto? – Marília estava apavorada. João não daria um tiro por nada. Quando percebeu a movimentação de Henrique em direção à porta, ela gritou: — Tome cuidado! Podem ser bandidos!

Henrique não deu ouvidos à cunhada. Correu até a varanda a tempo de ver Lucinda se embrenhando no bosque escuro e João no seu encalço. No chão o empregado ferido se contorcia de dor. Havia gritaria dos empregados e correria para salvar o homem. Marília apareceu na varanda e desceu alguns degraus parando ao lado de Henrique. 

Àquela altura ela já sabia que sua farsa estava em vias de ser descoberta. Não viu João em lugar nenhum.

— O que houve?
— Chame o socorro imediatamente. João tentou matar um dos seus empregados e agora quer fazer o mesmo com Lucinda!

Marília viu quando Henrique colocou a mão na cintura e retirou uma pistola do coldre. Balbuciou:

— O que você vai fazer?

— Salvar a moça.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

SOMENTE NOS MEUS SONHOS (Cap. 7)




Ela acordou depois de um tempo, sem saber exatamente onde estava. O lugar era abafado e pouco iluminado. As janelas estavam fechadas, pregadas firmemente com pedaços de madeira. O coração de Lucinda disparou. Havia sido sequestrada. Talvez estivesse na mansão, em cativeiro.

Lucinda sentou na cama, desnorteada e apavorada. A cabeça estava dolorida. Passou a mão na parte de trás e encontrou um galo, sinal que havia levado uma pancada. Não se lembrava de muita coisa também. Vagamente veio a sua mente a imagem de dois homens descendo de um carro, sem dar chance de ela tentar sequer fugir. Não sabia o que fazer. Estava à mercê das maldades da família Malta. Eles já haviam matado Julieta. A próxima, com certeza, seria ela.

O pavor tomou conta de Lucinda e gotas de suor escorreram pelas suas costas. Levantou da cama, desesperada, e foi direto para a porta que, como era de se esperar, estava trancada. Furiosa e temendo o pior, Lucinda esmurrou a madeira diversas vezes. Não teve coragem de pedir ajuda. Aquilo atrairia seus algozes e Lucinda temia ser torturada. Sem ter o que fazer ou para onde fugir, a moça sentou na cama dura e cobriu a cabeça com as mãos. Não tinha a menor ideia de que horas eram. Esperava que a mãe e as irmãs já tivessem se dado conta da sua ausência e acionado a polícia.

Subitamente, Lucinda escutou passos do lado de fora e eles ficavam mais fortes à medida que se aproximavam do lugar onde ela estava. Lucinda rezou para passarem reto pela porta, porém, escutou a chave entrando na fechadura. Pouco depois duas pessoas entraram na peça abafada, uma delas segurava um lampião. Lucinda levou alguns segundos até se dar conta que estava novamente à frente de Marília e João.

Lucinda se encolheu sobre a cama. Ambos pareciam estar furiosos. Marília entregou o lampião para o empregado e avançou na direção de Lucinda. Ela bem que tentou se afastar, mas Marília foi mais ágil. Pegou Lucinda pelos cabelos e a sacudiu violentamente:

— O que você foi fazer na empresa do meu cunhado?
— Me solte, por favor – implorou Lucinda, usando as mãos para afastar Marília. — Eu não estive lá.
— Não ouse me enganar! – Marília deu mais puxão e a soltou de forma brusca. — Você é muito atrevida! Desde quando ousa desafiar os Malta?
Ela respirou fundo. Encarou Marília e percebeu que a mulher estava disposta a tudo. João, posicionado mais para o canto, observava a cena com atenção, pronto para agir se fosse preciso.
— Estou quieta no meu canto. Sempre estive. O máximo que fiz foi orar no túmulo do seu marido – Lucinda massageou o couro cabeludo dolorido pelos puxões. — Me deixe ir embora, minha mãe deve estar preocupada.

Marília ignorou a súplica de Lucinda.

— O que Julieta disse para você ontem no jardim?
— Não me disse nada. Mal falei com ela! – Lucinda sabia não estar sendo convincente. — Apenas falamos sobre o tempo.

A gargalhada de Marília soou tão sinistra que Lucinda ficou toda arrepiada.

— Você deve me achar com cara de trouxa! Pensa que vou deixar você se safar?

Naquele momento João se moveu. Lucinda ficou mais apavorada que podia. Ele seria o seu torturador, então? Contudo, João passou reto pela cama onde ela estava e se dirigiu até as janelas pregadas por madeira. Marília o olhou, tensa. O homem encostou o ouvido na janela e fechou os olhos. Parecia tentar ouvir alguma coisa. Lucinda olhou de um para o outro, sem saber o que fazer. Talvez aquele fosse um bom momento para fugir.

De repente, João falou, pregando um susto em Lucinda. A voz dele estava estranha.

— Alguém chegou, Dona Marília. Tenho a impressão que pelo barulho do motor é o carro do Doutor Henrique.
— Que inferno! – rugiu ela. Olhou para Lucinda e deu-lhe um empurrão que a fez cair do outro lado da cama. — Nós voltaremos. É só o tempo de eu despachar aquele idiota e virei novamente acertar as conta com você. Em definitivo.

João falou em um tom mais baixo para Marília:

— Devíamos ter dado cabo dela logo que a trouxemos para cá.

Lucinda estremeceu. Ambos saíram do lugar, deixando-a trêmula e enjoada. Doutor Henrique estava tão perto... Mas jamais iria saber que ela estava por lá, presa sabe-se lá Deus onde, à beira da morte. Se gritasse bem alto, talvez Doutor Henrique fosse capaz de escutar alguma coisa.

Passaram-se poucos minutos e novamente Lucinda escutou passos vindos pelo corredor. Era como se alguém estivesse correndo. Achou que João tivesse voltado para terminar o serviço enquanto Marília distraía o cunhado. Mas não entregaria sua vida assim tão fácil. A porta foi aberta bruscamente e era nítido que a pessoa não fazia a menor questão de ser discreta. Lucinda soltou um pequeno grito. Não era João.

*

Um rapaz jovem e magro, de aproximadamente 17 anos, entrou rápido no quarto. Ele foi logo dizendo enquanto pegava Lucinda pelo braço:

— Venha de uma vez. João e Dona Marília vão ficar um tempo com o Doutor Henrique. É a sua chance de escapar com vida daqui.

Lucinda não conseguiu articular nenhuma palavra. Estava assustada demais. O garoto trancou novamente a porta e a puxou por um corredor iluminado somente por velas.

— Onde estou? – ela conseguiu perguntar, em voz baixa, pisando fininho para não ser ouvida por mais ninguém.
— Você não precisa falar tão baixo aqui. Estamos nos subterrâneos da mansão. Há muitos anos era comum torturarem os escravos aqui embaixo. É o que pretendem fazer com você se não dermos o fora o quanto antes.

A pele de Lucinda se arrepiou toda mais uma vez. O menino olhou para ela e se apresentou:

— Meu nome é Mateus. Eles afogaram minha tia Julieta ontem no rio.
— Eu… eu presumi. Falei isto também para o Doutor Henrique hoje.
Os olhos de Mateus brilharam. — Jura? Puxa, espero que ele consiga fazer alguma justiça por aqui.

Mateus conduziu Lucinda pela penumbra do corredor. Em seguida, dobraram à direita e subiram uma escada. De tão nervosa, Lucinda tropeçou e caiu duas vezes, machucando os joelhos. No alto da escadaria, havia uma porta. Mateus olhou para Lucinda que vinha logo atrás e sussurrou:

— Vamos ficar o mais silenciosos possível agora. Esta porta sai na cozinha e o salão onde eles estão fica próximo. Vamos tentar fazer você chegar o quanto antes ao jardim. Depois, corra!

Lucinda mal balançou a cabeça. As pernas já estavam bambas. Pediu aos céus que realmente tivesse forças para fugir quando chegasse o momento. Na cozinha duas mulheres os aguardavam com o semblante carregado. Quando viram Mateus e Lucinda fizeram um sinal para seguirem em frente. O casal se esgueirou pelas paredes da grande cozinha até chegarem à porta. Logo Lucinda se viu ao ar livre. Recém anoitecera e havia ainda alguma luminosidade no céu. Outro empregado esperava Lucinda do lado de fora. De relance, ela enxergou uma caminhonete branca na frente da mansão. Devia ser a do Doutor Henrique.

— Venha – disse o empregado mais velho pegando o braço de Lucinda. — Você precisa sair daqui antes que os assassinos a vejam.

Porém, Lucinda não pôde sequer se afastar o quanto gostaria. Uma voz grossa e asquerosa gritou da varanda da mansão:

— Ei! Para onde você está levando esta mulher?

Lucinda olhou para trás e deparou-se com João mirando uma espingarda na direção dos dois. O homem que a acompanhava ainda gritou:

— Corra até o portão! Há uma pessoa esperando você lá.

Naquele momento um tiro certeiro o atingiu no coração, tingindo sua camisa branca imediatamente de vermelho. Ouviram-se vários gritos, inclusive o da própria Lucinda. Ela olhou na direção de João. Ele já havia deixado a varanda e avançava perigosamente na sua direção.

— Pode parar aí, sua vagabunda.


Lucinda não teve um segundo sequer de hesitação. Deu meia volta e se embrenhou no bosque que havia na lateral da casa. Sabia que mais adiante o rio cruzava os limites da propriedade. Seria por lá que ela haveria de fugir.