domingo, 10 de dezembro de 2023

UM CONTO DE MISTÉRIO - PARTE 5

 


Um dia depois do enterro de Juarez, Lorena voltou para casa e Valentina, a sobrinha, ficou com Lourdes para lhe fazer companhia por um tempo, o tempo que precisasse. Sentada no banquinho da cozinha, magoada e traída, Lourdes observava Valen preparar, animada, bolinhos de arroz.

 

― Sabe o que eu vou fazer? – Lourdes rugiu. ― Vou desinfetar esta cozinha. Foi aqui que o encosto morreu.

 

Valentina deu uma risada.

 

― Tia, relaxa. Ele tá morto mesmo.

― Morreu de pau duro. Devia estar pensando na outra.

― Bem, só o tempo para aliviar sua mágoa. Mas pense positivo. Agora todo mundo sabe que o tio Juarez era sem-vergonha. Eu, pessoalmente, achava ele um santo.

― Santo. Santo do pau oco, aquele cretino.

 

Inquieta, Lourdes levantou e foi até o quarto em que dormiu, feliz, por 15 anos com Juarez. De forma violenta, abriu a porta do guarda-roupa e pôs para baixo todas as roupas do falecido. Depois, pegou vários sacos de lixo e jogou dentro, obstinada. Valentina fritava os bolinhos quando viu a tia passar arrastando vários daqueles sacos pretos em direção ao quintal.

 

― Tia, que merda é esta? O que você está fazendo?

― Vou tacar fogo nas roupas do traidor.

― Por que você não doa para alguma instituição de caridade? – a jovem desligou o fogo e foi atrás de Lourdes.  ― Tem tanta gente precisando...

 

Mas Lourdes não queria saber de mais nada. Sem olhar para a sobrinha, juntou alguns pedaços de madeira que estavam no fundo do quintal e os reuniu no meio do pátio. Valentina percebeu um olhar frio de psicopata vindo de Lourdes.

 

― Tia, a senhora está bem?

― Nunca estive tão bem na minha vida.

 

A fogueira foi facilmente acesa. As labaredas subiram rápidas e Valentina recuou.


― Cuidado para não se queimar, tia.

 

Lourdes não se deu ao trabalho de responder, focada na missão de incendiar as roupas do Juarez. Peça por peça, sentindo um grande prazer naquela atividade, Lourdes foi atirando as roupas com vontade, algumas vezes soltando gargalhadas sinistras. Nem reparou que a sobrinha registrava a cena com o celular, enviando fotos para que Lorena visse a que ponto ela chegara.

 

Já no final, com as chamas bem vivas, Lourdes jogou a última peça de roupa. Era uma cueca boxer vermelha. Uma cueca que, inclusive, Lourdes adorava quando o marido tirava.

 

― Que cena incrível! – berrou ela, extasiada com as chamas altas.

 

Então, o provável aconteceu. Um vento começou a soprar do nada e uma fagulha pegou em uma roupa do varal de Lourdes.

 

― Tia, a camisola tá incendiando.

 

De repente, Lourdes pareceu cair na real. A camisola que tanto amava pegava fogo. Valentina correu para pegar um balde e encher de água.

 

― Valen, as outras roupas estão pegando fogo também!

 

Valentina olhou para trás e se desesperou ao ver a cena. A tia, apavorada, tentava salvar as outras peças do varal que começava a incendiar.

 

― Fogo! Fogo! – Valentina tentou gritar, mas o pânico era tanto que a voz saiu fraca.

― Valentina, chame os bombeiros!

 

Antes, contudo, que Valentina conseguisse se mexer, um homem de mais ou menos 50 anos apareceu do outro lado da cerca. Como um super-herói, ele saltou para o quintal de Lourdes e em pouco tempo conseguiu debelar o fogo, tanto da fogueira com as roupas já queimadas do Juarez, quanto do varal. Angelina e outras vizinhas apareceram já dentro da casa de Lourdes depois de terem arrombado a porta, imaginando que tia e sobrinha estivessem presas. A situação estava sob controle.

 

E Lourdes não conseguia afastar os olhos do vizinho bonitão.

 

Quem era aquele cara?

 

 


quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

UM CONTO DE MISTÉRIO - PARTE 4

 



As palavras de Gina caíram como um tsunami na sala mortuária. Lourdes empalideceu e precisou se agarrar na cadeira para não cair. Angelina, pálida, olhou da amiga para a mulher e fez a pergunta que todos queriam fazer:

― De qual Juarez você está falando?

Gina, imperturbável, apontou com a cabeça para o defunto.

― Deste aqui.

Devagar, Lourdes se levantou. Ninguém respirava naquele lugar.

― Deve haver algum engano. Juarez era meu marido há mais de quinze anos.

― Meu também.

Houve um “oh” que ecoou entre os presentes. Lourdes pensou que fosse vomitar. Evitou olhar para o corpo do marido ao mesmo tempo em que algumas peças soltas começavam a se juntar na sua mente.

― Você deve lembrar, Lourdes – a voz de Gina era aveludada e sedutora. ― de algumas viagens que Juarez fazia. Para você ele dizia que era a serviço.

Lourdes lembrava muito bem. A última, inclusive, tinha sido na semana anterior. De fato, Lourdes implicava com as viagens frequentes, mas não teria porque duvidar da fidelidade do marido. E quando Juarez voltava, era com os braços cheios de presentes e mais amoroso do que nunca.

― Era para a minha casa que ele ia. Não moro muito distante desta cidade.

― Ah... – fez Lourdes pouco à vontade, sentindo os olhares dos familiares e amigos sobre ela. A impressão era que um par de chifres nascia, lentamente, em sua testa. ― E o que você quer aqui? Veio fazer jus a sua pensão por viuvez?

Mas Gina não demonstrava estar disposta a brigar. Sua expressão era de dor quando retrucou:

― Não quero nada. Juarez era a única coisa que eu queria. Ele prometeu que iria se separar de você para ficar comigo. Bem, nenhuma de nós duas ficou com ele. Boa tarde a todos.

Antes de sair, Gina se inclinou sobre o caixão e beijou os lábios do falecido. Depois, tão elegante quanto entrou, saiu da sala mortuária sem dizer mais nada.

Por uns trinta segundos o local permaneceu em silêncio. Lourdes, envergonhada, tentava processar tudo aquilo. Chegou mesmo a imaginar que fosse alguma brincadeira de mau gosto. Mas, à medida que os minutos passavam, mais fios soltos se uniam e Lourdes foi obrigada a admitir que estava sendo corna há muito tempo.

― Venha, tia, senta aqui com a gente.

Branca, Lourdes sentou entre a irmã e a sobrinha, sem conseguir articular uma palavra. Angelina estendeu a ela um copo com água e açúcar quando, na verdade, Lourdes queria parar no primeiro bar e encher a cara.

O clima ficou estranho na sala mortuária. As pessoas, chocadas, se afastaram do caixão, como em protesto, e também constrangidas pela situação. Aos poucos, uma forte raiva foi tomando conta de Lourdes. Fechou os olhos e contou até cinquenta, pois a vontade que tinha era de desferir uma voadora no caixão e fazer Juarez voar longe.

Depois daquele fato, o velório transcorreu de uma maneira atípica. Lourdes se recusou a chegar perto do caixão. Quando o enterro saiu e alguns amigos seguraram o caixão para levar ao crematório, Lourdes não se aguentou e berrou:

― Quantos de vocês sabiam que o desgraçado levava uma vida dupla?

Lorena pegou a irmã pelo braço, tensa.

― Calma, Lou.

― Estou muito calma. Se estivesse nervosa, já teria eu mesma incendiado o Juarez.

Ninguém tinha coragem de falar nada. As amigas de Lourdes se aproximaram e fizeram um círculo em torno dela como se quisessem protegê-la e evitar que tomasse alguma atitude mais extrema. Durante a cerimônia de despedida, Lourdes não falou nada. Amigos fizeram alguns discursos em homenagem ao morto, mas todos eles estavam desconfortáveis. Por fim, quando o caixão foi enviado para o crematório, Lourdes não se aguentou e disparou, ferina:

― Não vejo a hora de jogar as cinzas deste infeliz no lixão da cidade.

 

... continua.

 

 


domingo, 3 de dezembro de 2023

UM CONTO DE MISTÉRIO - PARTE 3

 


O velório do Juarez parou a pequena cidade de Nova Itália do Sul. Afinal, o falecido era gerente do único banco local e conhecia todo mundo. A comoção era geral. Lourdes, depois de passar chorando a noite inteira até ficar com o rosto inchado, deixou-se ficar, inerte, amparada pelos amigos, quase sem falar nada.  a irmã, Lorena, estava presente, acompanhada de Valentina, única sobrinha de Lourdes.

Angelina circulava em volta do caixão tentando ver se a piroca do Juarez continuava em pé. A vizinha que também presenciara a cena no dia anterior lhe dera vários cutucões para Angelina tomar jeito. Era preciso respeitar o morto e a viúva. Mesmo assim, Angelina não conseguia evitar voltar os olhos para o caixão tentando enxergar alguma coisa no meio daquele monte de flores. Pobre Juarez. Até que era bem galã. Uma pena.

Já estava combinado que Valentina ficaria um tempo fazendo companhia para a tia. A casa era grande e Lourdes não conseguia se imaginar vivendo em um lugar com tantas lembranças, completamente sozinha.

― Pode deixar, tia – prometeu Valentina que andava pela casa dos 20 anos. ― Nós vamos bombar.

― Valen, pelo amor de Deus – Lorena deu um cutucão na filha. ― Sua tia mal enviuvou.

― Ah, tá! E ela vai ficar chorando pelo resto da vida? De jeito nenhum.

Naquele momento Lourdes começou a chorar de novo, momento em que um grupo de amigas se aproximou para acolhê-la em um abraço. Para um velório, até que as coisas iam normais. Discursos de despedida, choro, homenagens, um grupo de homens discutindo futebol em um canto da sala mortuária.

Então algo aconteceu. Faltava meia hora para o enterro propriamente dito acontecer, quando uma mulher alta, aparentando uns 35 anos, apareceu. Bonita, vestida de preto e com os cabelos escuros caindo pelas costas, ela caminhou até o caixão, firme. Ante os olhares de todos que estavam ali, acariciou o rosto do Juarez.

Valentina olhou da mulher para a tia, da tia para a mulher e fez a pergunta que estava entalada na garganta de todos os presentes.

― Mas quem é esta daí?

 Lourdes prontamente se pôs em pé. O rosto era uma máscara de dor. Sem olhar para ninguém, se aproximou da mulher que continuava com a mão no rosto do morto, sem dar bola para ninguém.

― Quem você pensa que é para ficar passando a mão no meu marido?

 A voz aguda de Lourdes ecoou por todo o salão. Calmamente, a mulher voltou seus olhos para Lourdes e anunciou:

― Meu nome é Gina. E Juarez era meu marido também.


... CONTINUA...

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

UM CONTO DE MISTÉRIO - PARTE 2

 



Angelina assistia à novela, calmamente, comendo pipoca. De repente, ouviu um grito agudo e desesperado vindo de alguma das casas. Ela se pôs de pé e a tigela com as pipocas se esparramou no chão sobre Tobi, o cão caramelo e sua única companhia.

Afobada, ela abriu a porta da casa. Logo se deu conta que vinham lamentos e uivos da casa da frente. A casa onde sua melhor amiga morava.

― Lou! Lou, o que está acontecendo?

A mulher, em pânico, atravessou a rua, abriu o portão da casa de Lourdes, cruzou o jardim e olhou pela janela. E a cena que viu foi aterrorizante.

― Ai, meu Deus!

Angelina deu a volta e tentou entrar na casa. A porta estava trancada. Ela bateu, desesperada.

― Lou, me deixa entrar! Lou!

Não demorou muito Lourdes abriu a porta e desabou nos pés da amiga, aos prantos.

― O Juarez... o Juarez...

Angelina pulou por cima da amiga e foi até a cozinha onde o corpo do seu compadre jazia no chão. Ela se agachou ao lado do homem e deu vários tapinhas no seu rosto. Como não resolveu nada, começou a distribuir socos mais fortes para ver se o cara acordava.

Lourdes surgiu tropeçando nos próprios pés e desabou ao lado dela.

― Angelina, ele está... morto?

― Cruzes, parece que sim.

A morte de Juarez era surreal. A pouco tinha visto o casal chegar feliz, de bicicleta, rindo. Agora o homem estava morto no piso frio da cozinha. De pau duro. Angelina simplesmente não conseguia tirar os olhos do volume das calças do falecido.

Lourdes se jogou sobre o peito do marido chorando cada vez mais forte. Angelina se levantou, zonza. Deveria chamar o vizinho, o doutor Miguel, o cardiologista da cidade. Quem sabe ele ainda poderia dar um jeito de salvar o pobre Juarez?

A vizinha da casa da esquerda apareceu também, entrando pela porta escancarada. Ao chegar à cozinha deparou-se com a cena caótica.

― Angelina, o que aconteceu?

― O Juarez morreu.

― Bem, mas não é disto que eu estou falando.

Ela fez um sinal com os olhos para a piroca do morto. Lou continuava com seu pranto, mal se dando conta de quem estava por ali.

― Pois é... Ele morreu assim. Que situação. Pobre Lourdes.

        Apesar da tragédia que se desenrolava ante seus olhos, Angelina estava tão impressionada com o vigor pós-morte de Juarez que não sabia o que fazer. Alguém deveria chamar o doutor Miguel. Mas não seria ela. Angelina queria ficar ali admirando o volume nas calças do Juarez.

― Por isso que a Lourdes tá chorando tanto ― concluiu a vizinha. ― Olha o que ela perdeu.


... continua.

       

 

 

 

 


UM CONTO DE MISTÉRIO




Entardecia naquela pequena cidade da serra. Era primavera, tudo era tão colorido e alegre. As flores cresciam nos jardins. As pessoas pareciam mais alegres depois de um inverno rigoroso.

Lourdes olhou para trás se equilibrando na bicicleta nova. Ganhara fazia três meses em pleno frio e era a primeira vez que passeava com ela. Atrás vinha o Juarez, seu marido, pedalando sua própria bicicleta. Fazia semanas que eles combinavam aquela volta. Estavam esperando o tempo melhorar, fazer sol, parar de chover.

Aquele dia finalmente chegara. Juarez acenou para Lourdes como se dissesse para ela seguir em frente. A noite chegava aos pouquinhos. Eles pedalaram mais um pouco, pararam na confeitaria da Dona Joca, compraram doces para degustarem logo mais.

Tudo estava tão perfeito que Lourdes não queria mais que aquele dia acabasse.

 O casal chegou por volta das 19 horas. A noite chegara de vez e um ventinho frio soprava. Juarez, animado, colocou os ingredientes para o jantar sobre o balcão e avisou:

Enquanto você toma seu banho, eu preparo as coisas por aqui.

Lourdes deu um beijo no marido. Não podia haver no mundo homem melhor que aquele.

― Obrigada, meu amor. Vou ficar bem cheirosinha para você.

Faceira, Lourdes foi para o banho, caprichou em todos os aromas possíveis e depois de meia hora abriu a porta do banheiro vestida com um roupão macio.

― Amor, estou pronta! Deixa que eu termino a janta e venha tomar seu banho.

Silêncio. Ninguém respondeu. Lourdes achou estranho. Será que Juarez estava no celular? Talvez alguém tivesse o chamado lá fora, no portão.

Lourdes foi para a cozinha ainda chamando o marido. Mas ele não respondia. A preocupação começou a tomar conta. Sentiu o cheirinho da carne cozinhando à medida que se aproximava.

― Juarez! Onde você está?

Ela parou na porta da cozinha e deu um grito. Um grito que foi ouvido do outro lado da rua.

 

Obs: este é o primeiro capítulo de uma história que pretendo desenvolver. Dependendo dos resultados das leituras, eu vou começar a postar todo o enredo aqui.


domingo, 12 de março de 2023

A GAROTA MAIS FORTE DA ESCOLA

Anos 80. Eu tinha por volta de 15, 16 anos. Estudante de ensino médio. Não era das mais bonitas da classe. Longe de ser. Me achava magra demais e, nos dias mais frios, eu aproveitava para vestir duas calças e ficar mais cheiinha.






Antes se meu problema fosse apenas pernas finas ou falta de beleza. Eu já estava acostumada com aquilo. Resignada. O que me tirava, literalmente, o sono, é que naquele ano eu fora parar numa turma nova na escola. As poucas amigas que eu fizera estavam em outra sala. Sabe-se lá o motivo, eu agora tinha outros colegas. Eu não consegui me adaptar àquela nova configuração. Não demorou para o bullying começar num tempo em que esta palavra não existia e os problemas se resolviam na escola mesmo, sem precisar vir pai e mãe à direção exigir providências. 


Lá em casa ninguém sabia o que eu passava naquela escola dos infernos. O bullying vinha de um grupo de garotos da minha sala. Eles, do nada, resolveram pegar no meu pé na segunda semana de aula. Para piorar a situação, não consegui criar vínculo com nenhuma das minhas novas colegas. Elas não iam com a minha cara, mas não me maltratavam. Me excluíam sempre que podiam. Os trabalhos em grupo eu fazia com outro grupo de meninos que, por sua vez, eram excluídos também pelos outros, os que faziam maldades comigo.


Então me apaixonei pelo Ricardo. Eu já o conhecia de outros anos letivos, mas nunca estudamos na mesma turma. E nem nunca Ricardo olhou para minha cara. Para o que achei que era sorte minha, ele foi reprovado e naquele ano foi parar na minha sala. Oba, um sinal dos deuses e talvez a gente começasse a ter um lance, sei lá. Me enganei, redondamente. Logo, Ricardo fez amizade com os meninos que faziam bullying comigo. E comecei a ser vítima dele também.


Quando isto aconteceu, lembro que chorei escondido enquanto tomava banho. Era muito azar. O cara nem sabia que eu existia. E agora me dizia coisas horríveis sem eu nunca ter feito nada para ele. Era inacreditável o que acontecia comigo naquela sala de aula. Eu me defendia como podia, mas era tímida demais para me impor. Algumas vezes, uma ou outra garota tentava intervir para eles pararem. No outro dia, entretanto, começava tudo outra vez.


Várias vezes pensei em contar tudo para meu irmão gêmeo (que estudava em outra escola, minha mãe queria que fôssemos independentes um do outro), ou para meu irmão mais velho e também para papai. Travei. Pura vergonha. Hoje me arrependo de não ter pedido ajuda. Não sei como disfarcei meu desespero e angústia naquela época. Para minha família tudo estava bem. Nem desconfiavam do meu inferno particular.


                                                                          *


No ambiente escolar todos estavam em polvorosa. Em semanas haveria o Baile da Rainha. Cada turma escolheria duas candidatas para desfilar e disputar a cobiçada faixa. Minha mãe, anos antes, tinha sido a eleita naquela mesma instituição. A foto do Baile eu guardava comigo e, embora fôssemos parecidas, eu nunca tivera um décimo da beleza dela. Na minha sala de aula havia duas meninas muito bonitas, a Laura e a Cecília. Era certo que ambas seriam as escolhidas da turma. Eu, pelo menos, votaria em ambas, apesar de nenhuma delas me dar a mínima.


A votação aconteceu em um dia chuvoso. Não daria para ter a aula de Educação Física no pátio, então a professora teve a incumbência de organizar a escolha. Até aí tudo bem. A conversa seguia animada na sala de aula. A única silenciosa era eu, sem ninguém para trocar uma ideia ou uma risada. De repente, comecei a escutar um cochicho dos bostas que pegavam no meu pé. Eles falavam alguma coisa entre eles, riam e me olhavam. E riam outra vez. Comecei a ficar tensa. O que estavam tramando, aqueles desgraçados? Logo me dei conta. Estavam votando em mim. Eles haviam me posto um apelido. Meio grama, devido à minha magreza. O pavor tomou conta. Toda a sala pôs o nome das candidatas em pedaços de papel distribuídos pela professora. No meu pânico, devolvi o papel em branco. Passei a suar só de imaginar que, quando os papéis fossem abertos e começassem a contabilizar os votos, o nome atribuído a mim, meio grama, seria revelado. Percebi que Ricardo me encarava, sorrindo, maldoso. Me encolhi, acuada. 


Nunca desejei tanto que um buraco se abrisse e eu caísse dentro.


E a conferência dos votos iniciou.


                                                                   *


Hoje lembro daquela tarde chuvosa como um dos piores dias da minha vida escolar. Sim, os meninos votaram em mim. Pelo menos, fizeram o favor de colocar meu nome verdadeiro na “cédula” de votação. Graças aos votos deles, eu fiquei em segundo lugar, ocupando a vaga que seria de Cecília, naturalmente. Eu e Laura fomos as escolhidas.  Nem acreditei que aquilo estava acontecendo. Meu sonho secreto sempre havia sido disputar um título de beleza, talvez pelo passado da minha mãe. Agora, às avessas, eu realizaria meu sonho. Não iria ficar nem entre as três primeiras colocadas, mas não importava. Mal podia esperar para chegar em casa e contar a novidade. O Baile da Rainha seria em três semanas. E eu faria de tudo para dar o meu melhor.


                                                                      *


Não é exagero afirmar que minha família ficou mais empolgada que eu. Logo se formou uma força-tarefa para me preparar para o Grande Dia. Mamãe chamou minhas tias e primas para o Baile. Vovó tratou de confeccionar um vestido muito semelhante a que minha mãe usou no dia da sua coroação. Era muita função em torno de mim. Confesso que até me assustei. Eu não seria sequer finalista mesmo com todo aquele aparato. Depois relaxei e deixei nas mãos de Deus.


Na sala de aula eu continuava sendo vítima de bullying. As amigas da Cecília não cansavam de enviar indiretas sobre a minha escolha. Toda vez que eu olhava para o lado e, sem querer, dava de cara com o Ricardo, ele me fazia uma careta. Nossa, aquilo estava ficando pesado. Lentamente, fui tomando consciência que deveria tomar alguma atitude antes que piorasse. Como eu tinha muita coisa na cabeça, deixei para resolver, de vez, a situação, depois do Baile. 


E a grande noite, enfim, chegou.


                                                                       *


Era um sábado de meia estação. Um clima gostoso, perfeito para o vestido lindo que minha vó fez em tempo recorde. O Baile seria à noite e à tarde minhas primas e tias invadiram minha casa. Me maquiaram, ondularam meus cabelos e a tia Karen, professora de Educação Física, me passou uma série de agachamentos para minhas coxas ficarem delineadas. Não adiantou nada. 


O evento teria lugar no ginásio da escola. Eu, como candidata, deveria chegar duas horas antes. Meu gêmeo me levou e já ficou por lá, esperando o restante da parentada chegar. Me instalei numa sala com as outras garotas. Num canto. Elas estavam bonitas. Se maquiavam, arrumavam o cabelo uma das outras. Nenhuma se dava ao trabalho de falar comigo. Me senti deslocada e um pouco patinho feio, embora hoje, olhando para aquelas fotos antigas, eu estivesse muito bem. Tentei me acalmar. Não roí as unhas. Imaginei minha família toda em peso aguardando a minha passagem. Não podia decepcioná-los.


Uma professora apareceu na sala barulhenta pelas vozes alegres das meninas e nos orientou. Entraríamos todas juntas e depois, individualmente. Eu estava mais feliz que nervosa. Quando fizemos o desfile em grupo, minha torcida era a mais ruidosa. O grupo dos guris que praticavam bullying em mim estava bem perto do palco, algo que me desagradou. Eu seria a quinta menina a entrar sozinha. Teria um palco inteiro só pra mim como nunca havia tido até então. Rezei segundos antes de ser a minha vez. Esperei o sinal da professora e avancei, firme e sorridente, pelo palco. Recebi aplausos. Mas quando passei bem em frente dos meninos, ouvi nitidamente a voz do Ricardo, clara e cristalina, ecoando por todo o ginásio.


一 Aê, dragão!


Nitidamente, se instalou um mal-estar na plateia. Certo silêncio se formou por alguns segundos. Meu estômago doeu e tive vontade de chorar. Continuei sorrindo, envergonhada, sem enxergar mais ninguém. Imaginei meu pai, irmãos e primos tentando identificar o cretino para tomar satisfação depois. Era certo que eles não deixariam barato.


Porém, decidi que quem faria aquilo seria eu.


Terminei o desfile com a mesma cara que entrei, sorrindo com todos meus dentes. Percebi que as candidatas também estavam constrangidas. Desci do palco, avancei até onde Ricardo estava e parei a sua frente. Ele era mais alto, mas não o temi. Ficamos nos encarando por cinco segundos. Ricardo era puro deboche e desdém.


Foram dois diretos de esquerda. Quebrei o nariz dele, fissurei o osso de um dedo meu. Saí de alma lavada. Fui aplaudida outra vez, desta vez mais forte. Talvez, por desagravo, os jurados decidiram dar o título de Rainha para mim.


E nunca mais sofri bullying na minha vida.


Diga não ao bullying, Peça ajuda. Você não precisa lutar sozinho.



quarta-feira, 23 de novembro de 2022

BAGAÇA NO GRUPO DA FAMÍLIA

 




Tia Dora

Gente, vocês já viram o cabelo novo da Ritinha? Tá um arraso!


Valesca sobrinha

Ô tia. Todo mundo sabe que aquilo é mega hair. Nem é dela, não.


Paulinho sobrinho

Ah, fala sério, Val. Então aquele cabelão loiro é tudo falso?


Valesca sobrinha

Claro, primo. Tem alguma coisa de verdadeiro naquele corpo?


Tia Dora

Pera lá, seus fofoqueiros. Não venham falar da prima de vocês perto de mim.


Ritinha

Por acaso, eu estou sendo assunto aqui do grupo? Obrigada pela deferência.


Valesca sobrinha

Prima, querida, a gente só está comentando do seu novo cabelo. Aquele que você comprou lá no salão da Ester.


Ritinha

Se eu comprei, então ele é meu. Quer um pra você? A Ester tem uns mega hair que vão ficar muito melhor na sua cabeça do que isso aí que você tem agora.


Valesca sobrinha

Uau, ela tá toda irritadinha.


Tia Dora

Rita, não dá audiência pros seus primos. Isso é inveja.


Valesca sobrinha

Inveja, eu? Meu cabelo é de ver-da-de.


Ritinha

Olha, que legal. Ela sabe separar as sílabas.


Paulinho sobrinho

Sério, agora vou falar na real. Rita, seu cabelo tá muito show.


Ritinha

(emojis de coração) Valeu, priminho.


Valesca prima

Se eu der um puxão, fica tudo na minha mão. Rá! Até rimou.


Tia Dora

Valesca, vamos parar com a baixaria?


Ritinha

Mãe, deixa pra lá. A Val sempre teve inveja de mim.


Valesca prima

Inveja do quê? Do seu cabelo ralo? Dos seus namorados pobres? De ter uma mãe que banca as perucas da filha? Deixa eu rir aqui um pouquinho.


Vó Sônia

Que bagaça é esta aqui no grupo? Será possível que eu não posso sair pra beber uma pinga e vocês ficam aqui se matando?


(silêncio)


Vó Sônia

Se começarem de novo a brigar, eu acabo com esta merda de grupo.


Paulinho primo

Boa, vó


Vó Sônia

Cala a boca você também.




segunda-feira, 21 de novembro de 2022

FELIZ ANIVERSÁRIO (conto erótico)

 



Acordei 10 horas da manhã de um sábado. Não um sábado qualquer. Um sábado épico.


Fazia três anos que eu não transava. O último sortudo havia sido um cara que conheci numa festa e terminei a noite na cama dele. Não me perguntem o nome. Não lembro deste detalhe, mas dos centímetros eu lembro direitinho. Inclusive, saudades.


Três anos na seca. Mas aquela triste data não iria passar em branco. Eu comemoraria do meu jeito.

Levantei, tomei banho, me perfumei e voltei para a cama.


Três anos sem sexo merecia uma siririca.


Nem isso eu fazia mais. Minha vida andava tão corrida, tão sem noção, tão caótica, que eu até tinha me esquecido que uma siririca bem feita podia resolver uma parte dos meus problemas.

Me posicionei na cama, fiquei confortável. Era só começar.


Cadê meu grelo velho de guerra?


Cadê?


Achei. Vamos lá. Eu podia ter lixado a unha antes. Droga, mas o importante era meu grelo ainda estar vivo.

Agora vai.


Comecei com calma, destreinada, me redescobrindo. Aliás, para falar a verdade, os melhores orgasmos que eu tive foram comigo mesma. Na maioria das vezes fingi uma gozada violenta para meu parceiro da ocasião não se sentir ofendido. Boa atriz, eu. Digna de um Oscar.


A calma com que eu iniciei passou para uma certa urgência. Algo meio sem freio mesmo. Aquela siririca tava ficando interessante. Encontrei o ponto certo. Passei a pressionar o grelo, este órgão de tão difícil acesso para alguns. Meninos, um conselho: estudem com mais afinco o órgão sexual feminino. Falando mais claro, a buceta. É cansativo ensinar onde fica o clitóris.


O negócio tava vindo. Deixei escapar um gemido não tão baixo. Fazia um tempão que eu não gozava. Tanto que nem precisei me concentrar muito. O orgasmo veio numa avalanche, revirei os zóinho, fiquei ofegante, saiu um squirt  e eu fui ao céu e voltei várias vezes. Parabéns pra mim.


Não sei quanto tempo durou. Mas foi incrível. Abri os olhos, relaxada, satisfeita, empoderada e olhei para o lado. Minha avó de 82 anos assistia à cena da porta do meu quarto.


Nos encaramos por uns cinco segundos. Olhar fixo uma na outra, sem piscar. Vó Gertrudes fez um sinal de positivo e caiu fora.


Reiniciei minha comemoração.

Feliz 3 anos sem sexo.