quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O HOMEM DO JARDIM (Capítulo 1)




O carro entrou pelo portão de ferro e percorreu a estrada de chão batido por mais ou menos um quilômetro. Francesca não queria perder um único detalhe, com os olhos presos na paisagem que se descortinava ante seu nariz. Logo a casa surgiu ao fundo e já de longe dava para perceber que era grande e bem cuidada. Quando o automóvel finalmente parou frente aos degraus da entrada, uma mulher de cabelos escuros, com mais ou menos cinquenta anos, aguardava Francesca.

A moça havia sido escolhida entre várias candidatas para ser a acompanhante de Laura Pedroso, uma senhora de 80 anos, mãe da prefeita da cidade de São Tomás. Os demais empregados não tinham habilitação suficiente para a colocação e Magda decidiu abrir uma seleção. Agora Francesca, depois de uma viagem de três horas de ônibus, finalmente chegava ao seu destino. Pelo visto, o anúncio não estava mentindo quando informara que o local era realmente diferenciado.

O motorista abriu a porta para Francesca saltar e Magda já a aguardava com sua pose altiva. Não foi preciso sequer pegar as duas malas. Um empregado surgiu de dentro da casa e fez isto por Francesca.

— Bom dia, Francesca - cumprimentou Magda, estendendo a mão. — Sou Magda Pedroso.

Nem precisavam apresentações. Francesca já havia consultado o Google e sabia algumas coisas sobre sua nova chefe.

— Muito prazer - devolveu Francesca.

— Vamos entrar. Tenho um tempinho antes de ir à Prefeitura.

Francesca foi conduzida até a biblioteca. Os móveis pesados e as estantes lotadas de livros deixaram bem claro onde ela iria querer passar suas horas de folga.

— Seja muito bem-vinda - disse Magda puxando uma cadeira e se acomodando atrás de uma pesada mesa. — Sente-se, por favor. Quero conversar com você antes de lhe apresentar minha mãe.

Francesca sentou frente a Magda, curiosa pelo que estava por vir. Esperava que a tal Dona Laura não fosse uma velha ranzinza.

— Minha mãe é uma pessoa muito carismática - começou Magda, olhando atentamente para Francesca, — mas é preciso de alguém sempre ao seu lado. Ela tem problema em um dos quadris e não pode andar longas distâncias. Para isto ela prefere a cadeira de rodas. Você já deve ter percebido que a casa é grande e ela gosta muito de passear. Prepare-se para passeios pelos nossos jardins. Como você sabe, sou a prefeita da cidade e nem sempre tenho condições de ficar junto a ela. Isto caberá a você.

— Sim, senhora.

— Minha mãe tem uma cabeça boa, mas algumas vezes ela alega ver meu pai - Magda riu. — O problema é que ele desapareceu há mais de 40 anos, sem deixar vestígios, portanto, deve ser coisa da cabeça dela. Ela quase não se queixa de nada, além da solidão. Para isto você está aqui.

— Tenho certeza que nos daremos muito bem, prefeita.

— Aqui estão o número do meu telefone e o do médico. Não hesite em ligar se for preciso, a qualquer hora - Magda esticou um pedaço de papel com os números dos celulares. Consultou o relógio. — Vamos conhecer a famosa Dona Laura.

Francesca estava curiosa em conhecer a velha senhora. Magda a conduziu pela sala grande até uma escadaria.

— Esta casa foi construída pelo meu avô. Deve ter uns 130 anos. Há algum tempo passou por uma grande reforma.

— É uma linda casa, Prefeita.

— Você vai gostar daqui.

Magda e Francesca subiram os degraus que levavam ao primeiro piso. Quando a jovem olhou para baixo a fim de olhar melhor a sala e todos sua decoração, teve a impressão de ter visto uma sombra perto de um dos corredores, espreitando-a.

Quem seria? Por algum motivo, os pelinhos do seu braço ficaram todos arrepiados.

O HOMEM DO JARDIM (apresentações)

Queridos leitorinhos

Estou investindo em um novo conto de suspense. Vem comigo?




A história se passa em uma cidade do interior, onde a jovem Francesca inicia seu novo emprego como acompanhante de uma senhora de 80 anos, muito solitária. Mal a moça começa sua nova função e avista um homem estranho nas imediações da casa, mais precisamente no jardim. Curiosa, aliada às histórias que Dona Laura conta, Francesca se dá conta que está frente a um mistério que envolve a família. O que será? Quem é o belo homem que parece cuidar todos os passos de Francesca?

domingo, 15 de janeiro de 2017

SOMENTE NOS MEUS SONHOS (Final)






Lucinda, apesar do pavor, pôde contar com as suas pernas. Assim que se embrenhou no bosque, escutou os berros aterrorizantes de João atrás de si. Ele não hesitaria em matá-la. O seu consolo era que certamente Doutor Henrique escutara os tiros e talvez tivesse condições de providenciar ajuda.
Dentro da mata se fazia cada vez mais escuro. Lucinda temia ficares em lugares mal iluminados, mas daquela vez não teria jeito. A luz da lua entre as nuvens pouco lhe ajudava e sabia estar em desvantagem. João devia conhecer muito bem aquelas trilhas, cada árvore e arbusto. Os braços e o rosto de Lucinda já estavam arranhados por bater nos galhos que surgiam a sua frente. Não ouvia mais os gritos de João, mas ele devia estar ao seu encalço. O homem era esperto. Quanto mais silêncio fizesse, mais fácil seria de acabar com ela.

— Oh, Álvaro... Por favor, me salve...

Ela esperou que Álvaro surgisse em algum recanto do bosque para resgatá-la. Nunca imaginou que uma simples visita ao cemitério fosse render aquilo tudo. Conseguira mexer com a família mais poderosa da região e também temia por sua própria família. Cada passo dado agora já era com dificuldade, pois além da tensão, sentia-se cansada. Aos poucos escutou o som manso do rio. Parecia não estar muito longe agora. Guiada pelo ouvido, imersa na escuridão, Lucinda seguiu a duras penas a trilha, atenta para ruídos de passos atrás dela. Não escutou nada. Em menos de dez minutos chegou ao rio. E simplesmente não soube o que fazer.

Lucinda desabou na beira do rio, exausta. O coração batia em alta velocidade, por medo e cansaço. Aparentemente estava sozinha ali e as nuvens haviam encoberto a lua, o que era muito bom caso João aparecesse. Respirando fundo, Lucinda olhou para frente. Se tivesse fôlego podia atravessar a nado o rio. O problema é que nunca soubera nadar direito e não fazia isto há anos. Tampouco sabia a profundidade ou o que encontraria do outro lado. Porém, qual a alternativa que tinha? João poderia surgir a qualquer momento e não podia se dar ao luxo de ficar sentada ali. Precisava se salvar.
No momento em Lucinda equilibrou-se para ficar em pé, a lua surgiu brilhante. Observando o leito do rio, ela calculou que precisaria de bastante energia para chegar ao outro lado. Mas antes que desse um passo a frente, uma mão áspera a pegou fortemente pelo cotovelo, torcendo seu braço. Lucinda não precisou sequer se virar para saber quem era.

— Então você pensou que poderia escapar de mim, sua cadela?

O bafo de João fez Lucinda ficar nauseada. Ela tentou puxar o braço, mas João evidentemente era mais forte.

— Você é muito ousada. Seus amiguinhos empregados também. Mas vocês terão tudo o que merecem.

Lucinda gemeu quando João começou a arrastá-la para o rio. Ele fez com que a moça entrasse na água à força. A cada passo dado, Lucinda afundava um pouco. O rio era profundo e em breve não daria mais pé. Com força, João afundou a cabeça dela por alguns momentos, trazendo-a de volta à tona. Lucinda respirou todo o ar que podia, já tonta. Ele deveria estar repetindo o que havia feito com Julieta na noite anterior.

— Foi assim que vocês a mataram... não foi?

A voz de Lucinda saiu entrecortada e João ficou furioso. Esbravejou:

— Cale a sua boca!

Antes de ter a cabeça mergulhada novamente na água, Lucinda percebeu que João olhou para os lados. Parecia observar se havia alguém nas proximidades. Desta vez, na percepção de Lucinda, João a deixou um pouco mais de tempo submersa. Quando finalmente ele a soltou, a moça mal enxergou as estrelas brilhantes no céu. Estava zonza, sem ar, como se a morte estivesse lhe rondando. Ela tentou se segurar, instintivamente, na camisa de João. Ele deu uma gargalhada maldosa.

— Fim de linha para você, garotinha. Quando você nascer de novo, aprenda que não deve se meter com gente poderosa.

João não precisou quase de força nenhuma para empurrar Lucinda na água. O rio não estava com muita correnteza naquela noite, porém ela estava tão fraca, exausta e sem ar que facilmente foi levada pelas águas. A última visão que teve de João foi dele rindo com a cabeça jogada para trás.

*

O corpo de Lucinda foi levado lentamente pelo rio. No início ela afundou, mas uma força sobrenatural a fez voltar à superfície antes que perdesse os sentidos. “Se ao menos eu conseguisse boiar”, gemeu ela, tentando manter a cabeça fora da água. Com os olhos marejados de lágrimas, Lucinda observou as estrelas lá em cima, tão belas, alheias ao sofrimento dela. Os braços estavam tão cansados que ela mal podia se debater. Conseguiu boiar por alguns segundos, mas por fim afundou. E na exaustão em que se encontrava, não achou isto tão ruim. Se era para morrer, que fosse de uma vez.

De repente, Lucinda voltou à tona novamente. Abriu os olhos enquanto sentia que estava sendo levada para a beira do rio não pela correnteza, mas por alguma outra coisa. Aos poucos foi sentindo que não estava mais tão fundo assim e os pés tocaram o chão. Quando Lucinda caiu de novo, a água já lhe batia nos joelhos. Achou que não fosse mais levantar, mas foi levada até a beira quase engatinhando, os cabelos grudando no rosto e no pescoço. Quase não tinha mais força para gemer. Quando finalmente tombou na beira do rio, fora da água, olhou para os lados. Não ficou surpresa ao se deparar com Álvaro.

Ela sorriu e por alguns instantes achou que tinha morrido também.

— Obrigado por tudo o que você fez.

Lucinda tentou falar, mas a voz não saiu. Álvaro prosseguiu:

— Não se preocupe. Eles vão lhe encontrar. Você não irá morrer.

Ela balançou a cabeça sem saber exatamente em que mundo se encontrava. Mas estar com Álvaro estava sendo bom. Sentia-se em paz, um pouco à parte da crueldade e injustiça que presenciara e vivera. Mesmo molhada não se sentia desconfortável. O barulho do rio era relaxante e quase pôde sentir o toque da mão de Álvaro na sua. As pálpebras pesaram antes que conseguisse dizer qualquer coisa para ele. Porém, de onde Álvaro vinha provavelmente ele já sabia tudo o que ela gostaria de dizer. Precisava descansar. Estava tranquila. Álvaro a protegia. Não precisava de mais nada.

Lucinda não soube quanto tempo se passou. Despertou com latidos de cachorro e gritos de homens. Ao abrir os olhos percebeu fachos de lanterna próximo onde ela estava. Ergueu o braço para se fazer visível e a voz de um homem, provavelmente Henrique, gritou:

— Lá está ela! Viva!

Sim, viva. Lucinda sorriu ao se lembrar de quem a salvara. Quem acreditaria? Mas para que contar? Levaria aquele segredo para o resto da sua vida e, quem sabe, encontraria Álvaro em outros tempos.

Ou nos seus sonhos.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

SOMENTE NOS MEUS SONHOS (Cap. 8)






Henrique estava frente à cunhada no salão da mansão. Ele conhecia aquele lugar muito bem. Passara sua infância lá, entre brincadeiras e travessuras com o irmão Álvaro. Quando os pais faleceram, Álvaro já estava de casamento marcado com Marília. Henrique nunca gostara dela. Marília era outra mulher por dentro. Era uma pena que Álvaro não tivera tempo de se livrar daquele embuste.

— Fiquei sabendo que houve uma morte aqui ontem. Mais uma – disse ele, implacável. A conversa que tivera com a moça Lucinda pela manhã o enchera de dúvidas e depois de certezas. E no final do dia descobrira, casualmente, que ela estava desaparecida.

Marília estava sentada no sofá macio, ainda do tempo da mãe de Álvaro e Henrique. Claramente ela não se sentia à vontade. A visita inoportuna do cunhado estava atrapalhando seus planos.

— Pobre Julieta – murmurou ela. — Uma empregada excelente. Acreditamos que bebeu demais e foi para o rio de madrugada.
— Qual o motivo que teria ela para beber? Julieta vinha tendo algum problema com você?

A pergunta foi direta. Marília o encarou, surpresa.

— Comigo? De jeito nenhum. Sempre me dei bem com todos os empregados. 

Fico surpresa com este seu questionamento.

— Fiquei sabendo que ontem uma moça veio à força para cá. João a trouxe do cemitério. Qual o motivo?
— Qual o seu interesse em…
— Tem relação com o meu irmão? Com a morte dele?

Não estava nos planos de Marília entrar em atrito com o cunhado. Ele era esperto demais. E a odiava.

— É uma maluca. João a viu chorando várias vezes no túmulo do Álvaro. Pensei que fosse alguma namorada perdida dele. Fiquei intrigada e com raiva, ora esta! Mandei João trazê-la para cá.
— O que ela respondeu?

Henrique não estava disposto a ser simpático e Marília começava a se sentir acuada.

— Negou tudo, é claro. Depois eu vi que era maluca e a mandei embora. Não entendo tantas perguntas!
— Eu soube que a moça que você diz que é doida desapareceu. Você tem alguma coisa a ver com isto?

Marília sentiu as faces ficarem avermelhadas. Não podia se deixar trair.

— Eu? Pelo amor de Deus, Henrique! Eu já falei que a mulher tem um parafuso a menos! Deve ser por isto que desapareceu.

Naquele exato momento os gritos de João foram ouvidos do lado de fora e Henrique se pôs de pé. Marília permaneceu sentada, sem coragem para levantar. Seus instintos lhe diziam que algo estava dando errado.

— É João? – perguntou Henrique indo até a janela. — Seu empregado anda meio nervosinho, não é mesmo?

Antes ainda de Henrique chegar à janela, um tiro foi disparado. Henrique e Marília se entreolharam, assustados. Ela ficou em pé e de tão nervosa esbarrou em um vaso que se espatifou ao lado do sofá.

— Mas o que é isto? – Marília estava apavorada. João não daria um tiro por nada. Quando percebeu a movimentação de Henrique em direção à porta, ela gritou: — Tome cuidado! Podem ser bandidos!

Henrique não deu ouvidos à cunhada. Correu até a varanda a tempo de ver Lucinda se embrenhando no bosque escuro e João no seu encalço. No chão o empregado ferido se contorcia de dor. Havia gritaria dos empregados e correria para salvar o homem. Marília apareceu na varanda e desceu alguns degraus parando ao lado de Henrique. 

Àquela altura ela já sabia que sua farsa estava em vias de ser descoberta. Não viu João em lugar nenhum.

— O que houve?
— Chame o socorro imediatamente. João tentou matar um dos seus empregados e agora quer fazer o mesmo com Lucinda!

Marília viu quando Henrique colocou a mão na cintura e retirou uma pistola do coldre. Balbuciou:

— O que você vai fazer?

— Salvar a moça.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

SOMENTE NOS MEUS SONHOS (Cap. 7)




Ela acordou depois de um tempo, sem saber exatamente onde estava. O lugar era abafado e pouco iluminado. As janelas estavam fechadas, pregadas firmemente com pedaços de madeira. O coração de Lucinda disparou. Havia sido sequestrada. Talvez estivesse na mansão, em cativeiro.

Lucinda sentou na cama, desnorteada e apavorada. A cabeça estava dolorida. Passou a mão na parte de trás e encontrou um galo, sinal que havia levado uma pancada. Não se lembrava de muita coisa também. Vagamente veio a sua mente a imagem de dois homens descendo de um carro, sem dar chance de ela tentar sequer fugir. Não sabia o que fazer. Estava à mercê das maldades da família Malta. Eles já haviam matado Julieta. A próxima, com certeza, seria ela.

O pavor tomou conta de Lucinda e gotas de suor escorreram pelas suas costas. Levantou da cama, desesperada, e foi direto para a porta que, como era de se esperar, estava trancada. Furiosa e temendo o pior, Lucinda esmurrou a madeira diversas vezes. Não teve coragem de pedir ajuda. Aquilo atrairia seus algozes e Lucinda temia ser torturada. Sem ter o que fazer ou para onde fugir, a moça sentou na cama dura e cobriu a cabeça com as mãos. Não tinha a menor ideia de que horas eram. Esperava que a mãe e as irmãs já tivessem se dado conta da sua ausência e acionado a polícia.

Subitamente, Lucinda escutou passos do lado de fora e eles ficavam mais fortes à medida que se aproximavam do lugar onde ela estava. Lucinda rezou para passarem reto pela porta, porém, escutou a chave entrando na fechadura. Pouco depois duas pessoas entraram na peça abafada, uma delas segurava um lampião. Lucinda levou alguns segundos até se dar conta que estava novamente à frente de Marília e João.

Lucinda se encolheu sobre a cama. Ambos pareciam estar furiosos. Marília entregou o lampião para o empregado e avançou na direção de Lucinda. Ela bem que tentou se afastar, mas Marília foi mais ágil. Pegou Lucinda pelos cabelos e a sacudiu violentamente:

— O que você foi fazer na empresa do meu cunhado?
— Me solte, por favor – implorou Lucinda, usando as mãos para afastar Marília. — Eu não estive lá.
— Não ouse me enganar! – Marília deu mais puxão e a soltou de forma brusca. — Você é muito atrevida! Desde quando ousa desafiar os Malta?
Ela respirou fundo. Encarou Marília e percebeu que a mulher estava disposta a tudo. João, posicionado mais para o canto, observava a cena com atenção, pronto para agir se fosse preciso.
— Estou quieta no meu canto. Sempre estive. O máximo que fiz foi orar no túmulo do seu marido – Lucinda massageou o couro cabeludo dolorido pelos puxões. — Me deixe ir embora, minha mãe deve estar preocupada.

Marília ignorou a súplica de Lucinda.

— O que Julieta disse para você ontem no jardim?
— Não me disse nada. Mal falei com ela! – Lucinda sabia não estar sendo convincente. — Apenas falamos sobre o tempo.

A gargalhada de Marília soou tão sinistra que Lucinda ficou toda arrepiada.

— Você deve me achar com cara de trouxa! Pensa que vou deixar você se safar?

Naquele momento João se moveu. Lucinda ficou mais apavorada que podia. Ele seria o seu torturador, então? Contudo, João passou reto pela cama onde ela estava e se dirigiu até as janelas pregadas por madeira. Marília o olhou, tensa. O homem encostou o ouvido na janela e fechou os olhos. Parecia tentar ouvir alguma coisa. Lucinda olhou de um para o outro, sem saber o que fazer. Talvez aquele fosse um bom momento para fugir.

De repente, João falou, pregando um susto em Lucinda. A voz dele estava estranha.

— Alguém chegou, Dona Marília. Tenho a impressão que pelo barulho do motor é o carro do Doutor Henrique.
— Que inferno! – rugiu ela. Olhou para Lucinda e deu-lhe um empurrão que a fez cair do outro lado da cama. — Nós voltaremos. É só o tempo de eu despachar aquele idiota e virei novamente acertar as conta com você. Em definitivo.

João falou em um tom mais baixo para Marília:

— Devíamos ter dado cabo dela logo que a trouxemos para cá.

Lucinda estremeceu. Ambos saíram do lugar, deixando-a trêmula e enjoada. Doutor Henrique estava tão perto... Mas jamais iria saber que ela estava por lá, presa sabe-se lá Deus onde, à beira da morte. Se gritasse bem alto, talvez Doutor Henrique fosse capaz de escutar alguma coisa.

Passaram-se poucos minutos e novamente Lucinda escutou passos vindos pelo corredor. Era como se alguém estivesse correndo. Achou que João tivesse voltado para terminar o serviço enquanto Marília distraía o cunhado. Mas não entregaria sua vida assim tão fácil. A porta foi aberta bruscamente e era nítido que a pessoa não fazia a menor questão de ser discreta. Lucinda soltou um pequeno grito. Não era João.

*

Um rapaz jovem e magro, de aproximadamente 17 anos, entrou rápido no quarto. Ele foi logo dizendo enquanto pegava Lucinda pelo braço:

— Venha de uma vez. João e Dona Marília vão ficar um tempo com o Doutor Henrique. É a sua chance de escapar com vida daqui.

Lucinda não conseguiu articular nenhuma palavra. Estava assustada demais. O garoto trancou novamente a porta e a puxou por um corredor iluminado somente por velas.

— Onde estou? – ela conseguiu perguntar, em voz baixa, pisando fininho para não ser ouvida por mais ninguém.
— Você não precisa falar tão baixo aqui. Estamos nos subterrâneos da mansão. Há muitos anos era comum torturarem os escravos aqui embaixo. É o que pretendem fazer com você se não dermos o fora o quanto antes.

A pele de Lucinda se arrepiou toda mais uma vez. O menino olhou para ela e se apresentou:

— Meu nome é Mateus. Eles afogaram minha tia Julieta ontem no rio.
— Eu… eu presumi. Falei isto também para o Doutor Henrique hoje.
Os olhos de Mateus brilharam. — Jura? Puxa, espero que ele consiga fazer alguma justiça por aqui.

Mateus conduziu Lucinda pela penumbra do corredor. Em seguida, dobraram à direita e subiram uma escada. De tão nervosa, Lucinda tropeçou e caiu duas vezes, machucando os joelhos. No alto da escadaria, havia uma porta. Mateus olhou para Lucinda que vinha logo atrás e sussurrou:

— Vamos ficar o mais silenciosos possível agora. Esta porta sai na cozinha e o salão onde eles estão fica próximo. Vamos tentar fazer você chegar o quanto antes ao jardim. Depois, corra!

Lucinda mal balançou a cabeça. As pernas já estavam bambas. Pediu aos céus que realmente tivesse forças para fugir quando chegasse o momento. Na cozinha duas mulheres os aguardavam com o semblante carregado. Quando viram Mateus e Lucinda fizeram um sinal para seguirem em frente. O casal se esgueirou pelas paredes da grande cozinha até chegarem à porta. Logo Lucinda se viu ao ar livre. Recém anoitecera e havia ainda alguma luminosidade no céu. Outro empregado esperava Lucinda do lado de fora. De relance, ela enxergou uma caminhonete branca na frente da mansão. Devia ser a do Doutor Henrique.

— Venha – disse o empregado mais velho pegando o braço de Lucinda. — Você precisa sair daqui antes que os assassinos a vejam.

Porém, Lucinda não pôde sequer se afastar o quanto gostaria. Uma voz grossa e asquerosa gritou da varanda da mansão:

— Ei! Para onde você está levando esta mulher?

Lucinda olhou para trás e deparou-se com João mirando uma espingarda na direção dos dois. O homem que a acompanhava ainda gritou:

— Corra até o portão! Há uma pessoa esperando você lá.

Naquele momento um tiro certeiro o atingiu no coração, tingindo sua camisa branca imediatamente de vermelho. Ouviram-se vários gritos, inclusive o da própria Lucinda. Ela olhou na direção de João. Ele já havia deixado a varanda e avançava perigosamente na sua direção.

— Pode parar aí, sua vagabunda.


Lucinda não teve um segundo sequer de hesitação. Deu meia volta e se embrenhou no bosque que havia na lateral da casa. Sabia que mais adiante o rio cruzava os limites da propriedade. Seria por lá que ela haveria de fugir.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

SOMENTE NOS MEUS SONHOS (Cap, 6)




Por precaução, Lucinda pediu para o motorista do carro parar uma quadra antes. Depois, mal o veículo se afastou, encaminhou-se a passos lentos até a sede da empresa. Somente então se deu conta do tamanho da sua ousadia. Henrique Malta era o dono todo poderoso daquele lugar. Ele certamente teria coisa mais importante para fazer a receber uma total desconhecida com uma ideia maluca. Lucinda tinha a clara impressão que não passaria sequer da recepção.

Entrar no prédio não foi difícil. Lucinda nunca havia estado em um lugar tão chique. Uma recepcionista bem arrumada a encarava detrás de um balcão. Foi para lá que Lucinda se dirigiu lembrando que não tinha ensaiado nada para dizer.

— Bom dia – cumprimentou a recepcionista, formalmente. — Em que posso ajudá-la?
— Preciso falar com o Doutor Henrique Malta – a voz de Lucinda era praticamente um sussurro.
— Tem hora marcada?

Meu Deus. Não havia pensado naquilo. Com o coração acelerado, ciente de que da recepção não passaria, Lucinda disse:

— Não.

A moça alcançou para Lucinda um crachá escrito “visitante” e indicou:

— Pegue o elevador. 4º andar.
— Obrigada – respondeu Lucinda, afastando-se rapidamente antes que alguém interrompesse seu trajeto.

Ela entrou no elevador e quando informou ao ascensorista o andar que pretendia ir, esperou da parte dele uma reação. Nada.

O elevador chegou ao andar da presidência e Lucinda se viu subitamente em um local sofisticado, muito diferente do seu mundinho simples. Ela percorreu um pequeno trajeto até uma porta envidraçada. Uma mulher estava atrás de uma mesa grande com muitos papéis, computador e agenda. Ela estava ao telefone quando Lucinda empurrou a porta devagar. Com passos miúdos, a jovem se postou frente à mesa e aguardou, tensa, que a secretária particular de Henrique Malta pudesse lhe atender. Talvez ela já soubesse que uma moça esquisita queria falar com o todo poderoso.

— Bom dia. Você veio aqui falar com o Doutor Henrique.

Não era uma pergunta. Lucinda se sentiu intimidada, embora a mulher não estivesse sendo grosseira ou mal educada.

— Sim senhora.
— Qual o assunto? Você não marcou hora.

Lucinda confessou:

— Foi tudo muito repentino. E eu não sabia que deveria agendar.
— Bem, mas sobre qual é o assunto? Emprego?
— Não. Eu… é particular.

A secretária suspirou.

— Moça… Seu nome qual é?
— Lucinda – a voz saiu rouca.
— Doutor Henrique é muito ocupado. Às vezes as pessoas o procuram para tratar de assuntos que poderiam muito bem ser resolvidos por mim.
— É sobre Álvaro Malta – despejou Lucinda antes que a coragem acabasse. — E também sobre a morte de Julieta, a empregada da mansão.

A fisionomia da mulher se alterou completamente.

— Um instante, por gentileza.

A mulher se levantou e entrou no Gabinete. Menos de um minuto depois ela retornou.

— Senhora Lucinda, por gentileza.

Lucinda chegou a levar um susto. Já não tinha esperança alguma que pudesse ser recebida por Henrique Malta. A secretária a aguardava segurando a porta do Gabinete para que Lucinda passasse. Tímida e preocupada com o que iria enfrentar, a jovem entrou na grande sala clara e de móveis sóbrios. Ao fundo, um homem moreno e muito parecido fisionomicamente com Álvaro a encarava com alguma curiosidade.

Imediatamente, depois de se deparar com tanta sofisticação, Lucinda se arrependeu de não ter colocado uma roupa melhor. Receou, além de tudo, parecer simples demais ante a riqueza do lugar e do homem sentado a sua frente.

— Bom dia – cumprimentou ele. A voz era firme e demonstrava não ter muito tempo a perder. Mesmo assim Henrique Malta parecia interessado no que ela tinha a dizer. — Sente-se, por favor.

Lucinda sentou agarrando-se a bolsa. Não sabia por onde começar. Deveria ter ensaiado alguma coisa antes.

— Bom dia – a voz dela saiu fraquinha. Péssimo para quem tinha tanta coisa importante.

Ele se inclinou para frente e encarou Lucinda.

— Minha secretária me disse que você quer falar comigo sobre meu irmão e sobre a moça chamada Julieta que trabalha, ou melhor, trabalhava na mansão.
— Isto mesmo – Lucinda respirou fundo. — Eu… eu acho que ela foi morta.
— Como? – Henrique arqueou uma das sobrancelhas.
— Eu estive na mansão ontem.

Ela não podia parar para pensar. Se isto acontecesse, daria meia volta e sairia correndo dali.

— Você esteve na mansão? – Henrique mostrou seu estranhamento. — Quem você conhece por lá?
— Na verdade, ninguém. Mas eu fui levada à força por João.

Henrique passou a se interessar mais pela história de Lucinda. Desde que o irmão morrera, só havia retornado uma vez na mansão para uma visita de condolências à cunhada. Nunca haviam se dado bem. Henrique considerara um erro aquele casamento e Álvaro lhe confidenciara dias antes de morrer que estava vivendo momentos difíceis com Marília.

— João, o capanga da minha cunhada. Por que ele fez isto?
— Fui vista duas vezes orando na sepultura do seu irmão, Doutor Henrique. Eu estava no velório e me surpreendi com a juventude dele. Fiquei impressionada, chocada. E voltei algumas vezes no túmulo do senhor Álvaro. João contou para Dona Marília e acho que ela não gostou.
— Ele tratou mal você?
— Sim – Lucinda ainda se sentia envergonhada. — Ele me colocou dentro de um carro ontem à tarde e fui levada até a mansão. Lá Dona Marília me acusou de ser amante do falecido.

Lucinda esperou que Henrique falasse alguma coisa, mas ele permaneceu calado. Ela respirou fundo e prosseguiu:

— Óbvio que eu neguei. Só conheci o senhor Álvaro dentro de um caixão. Quando nossa conversa acabou, ela mandou Julieta me levar até os portões. Foi quando Julieta me fez algumas revelações.
— Que revelações? – Henrique estava muito sério.
— Ela acusou Dona Marília de ter envenenado o marido. Na véspera da morte Julieta deu falta de um frasco de veneno. No outro dia seu Álvaro caiu morto. Nenhum dos empregados acreditou. Todos desconfiam que Dona Marília esteja de caso com o cavalariço.

A fisionomia de Henrique pouco se alterou. Lucinda esperava uma reação diferente. Algum tipo de reação pelo menos.

— Percebi que alguém estava nos observando pela janela do primeiro andar da mansão enquanto ela me contava tudo no jardim. Ela me pediu ajuda. Disse para que eu viesse até aqui contar tudo para o senhor. Foi o que eu fiz.

Henrique ficou em silêncio como se estivesse analisando tudo o que Lucinda dissera. Sentindo-se desconfortável, ela emendou:

— O senhor Álvaro tem aparecido para mim também. O espírito, eu quero dizer. Ele pede ajuda, está muito angustiado.

Ela esperou que Henrique Malta fizesse troça dela por revelar aquilo. Imagine, o fantasma do irmão vagando por aí e conversando com desconhecidos. Porém, ele ficou calado, ensimesmado nos seus pensamentos. Depois de algum tempo onde Lucinda não sabia se ia embora ou continuava sentada, finalmente escutou a voz dele.

— Obrigado por me contar isto tudo, Lucinda. Agora volte para casa. Fique um tempo sem sair. É bom que você não seja vista. Se puder, faça uma viagem.

Lucinda ficou assustada. Como assim? Viagem? Então estava correndo perigo? Ela levantou e estendeu a mão gelada para Henrique.

— Obrigada por me ouvir, Doutor Henrique.

Ela deu meia volta e saiu. Despediu-se da secretária, ansiosa por sair de lá e ir para casa. Lembrou da pedra que estilhaçara a vidraça da sala. Os moradores da mansão não estavam de brincadeira. Preocupada, Lucinda procurou um táxi para levá-la de volta. Caminhou um trecho da avenida olhando para os lados a procura de um. Se quisesse podia voltar à pé. Seria uma caminhada de uma hora, mais ou menos, o suficiente para espairecer. Mas sabendo o perigo que a rondava, não podia se dar a este luxo.

Depois de cinco minutos Lucinda achou melhor procurar uma parada de ônibus. Talvez tivesse mais sorte, quando passava algum táxi este já vinha ocupado. Sabia que na rua detrás, não tão movimentada, havia um ponto. Desejou não ficar tanto esperando um ônibus e que mais pessoas estivessem na parada com ela. Se sentia ansiosa para chegar em casa e começou a providenciar uma boa desculpa para não sair por alguns dias. Nunca imaginou que na sua cidade tão calma e de pessoas tão pacíficas, pudesse realmente correr risco de vida.


Lucinda se posicionou na parada de ônibus. Ela estava deserta àquela hora. Aquilo deixou a moça apreensiva. A rua era calma, com simpáticas casinhas. Um ou outro cachorro passeava por ali. Por onde olhasse, não havia vivalma por perto. O coração de Lucinda acelerou. Quando passou a considerar a hipótese de sair dali o quanto antes, um carro negro parou bem a sua frente.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

SOMENTE NOS MEUS SONHOS (Cap. 5)






Lucinda chegou em casa sentindo uma enorme dor de cabeça. Trancou-se no quarto com uma xícara de chá de camomila para se acalmar. Pobre Álvaro. Lágrimas vieram aos olhos dela. Que morte terrível tinha sofrido nas mãos daquela megera. Marilia ainda tivera coragem de acusa-la de ser a amante do marido. Era uma questão de honra atender ao pedido de Julieta e também de Álvaro. Em meio à angústia que tomava conta do seu coração, Lucinda tomou uma decisão. No dia seguinte iria procurar Henrique, o irmão de Álvaro. Ele precisava saber o que estava acontecendo na mansão antes que Marília tomasse conta de tudo.

Triste e sorvendo o chá em pequenos goles, Lucinda aproximou-se da janela. Grossas nuvens se aproximavam da região. Dentro em breve uma chuva forte iria cair sobre a cidade e Lucinda estremeceu. Esperava que não fosse um mau agouro.

*

Lucinda se viu envolvida em meio à bruma. Olhou para os lados, mas não conseguiu distinguir nada. Aos poucos a névoa foi se abrindo e ela pôde visualizar onde estava. Os portões da mansão surgiram altos e sólidos a sua frente e Lucinda estremeceu. Estava presa dentro daquele lugar pavoroso, onde Álvaro havia sido assassinado! Trêmula, Lucinda se dirigiu mesmo assim aos portões, segurou com força as grades e as sacudiu. Elas não se mexeram. O pânico tomou conta dela. A moça olhou para trás e pôde ver que Marília se aproximava segurando uma faca, lentamente e com um sorriso malvado nos lábios. O pavor aumentou. Lucinda olhou para cima. Os portões eram muito altos, bem como os muros. Jamais conseguiria escalá-los. Escutou os passos da sua algoz partindo as folhas secas caídas no chão à medida que chegava perto de Lucinda. Ela não teve coragem de olhar para trás. Viu um homem passando do lado de fora e tentou gritar. Sua voz, porém, saiu rouca, quase inaudível. Uma mão pesada pousou sobre o ombro dela e Lucinda se virou para ver quem era, encolhendo-se toda. Era Álvaro.

Lucinda sentiu a mão dele fria e rígida e seu olhar era tão doloroso que ela sentiu vontade de chorar. Álvaro não falou, mas Lucinda entendeu exatamente o que ele queria dizer:

— Não desista.

Ela acordou sobressaltada e com o coração saltando pela boca. Não havia sido um sonho, Lucinda sabia, enquanto se dirigia à cozinha para beber um copo de água. Ainda sentia a pressão da mão dele sobre o ombro e, apesar de toda a tragédia envolvida, Lucinda sentia um tipo de contentamento esquisito. Álvaro a escolhera para ajudá-lo.

*

Lucinda conseguiu dormir depois do sonho e despertou suando por volta das nove horas da manhã. Ela se levantou rapidamente. Tinha uma missão a cumprir e não podia mais adiar. Quando apareceu na cozinha para um café rápido, Dona Francisca exclamou:

— Finalmente! Eu já ia acordar você. Ué, aonde você vai? Morreu alguém?

Ela balançou a cabeça, negando. Estava tensa e sem muita vontade de conversar.

— Preciso resolver uma questão.
— Ih, você está muito misteriosa, viu? – a mãe serviu café na xícara preferida de Lucinda. — Espero que não esteja aprontando nada.

Lucinda bebeu um pequeno gole do café. Se a mãe soubesse aonde ela pretendia ir, teria um ataque do coração.

— Eu, mãe?

Neste momento Isabel entrou afobada em casa. Tinha ido à feira cedo e pelo visto chegara com novidades.

— Vocês não imaginam o que aconteceu!

Por algum motivo as pernas de Lucinda ficaram fracas. Em silêncio, esperou o que a irmã tinha para contar.

— Desembucha, criatura! – Dona Francisca não se aguentava de curiosidade. — Qual a fofocada da vez?
— Encontraram morta uma empregada da família Malta!

Lucinda resolveu sentar quando percebeu que poderia cair de joelhoes no piso frio da cozinha. As mãos tremiam e ela as escondeu para que nenhuma das duas reparasse no seu estado nervoso.

— Quem foi?
— Não sei quem é, mãe. Você sabe como são os Malta. Eles se enclausuram naquele castelo e ninguém sabe o que se passa lá dentro.

Com os olhos vidrados na irmã, Lucinda acompanhou cada palavra que a outra dizia.

— Mas o nome eu descobri. Julieta. Contaram na feira que a mulher desapareceu ontem de noite e hoje a encontraram boiando no rio há dois quilômetros da cidade.
— Puxa, que coisa horrível – murmurou Dona Francisca, chocada. — Será que a moça bebeu?

Isabel sacudiu os ombros. Também não fazia a menor ideia do que poderia ter acontecido.

— Ninguém sabe, mãe. O que acontece atrás daqueles muros é segredo. Veja você. O tal Álvaro Malta morreu do coração e ninguém nunca mais viu a viúva, nem para prestar condolências. É tudo muito esquisito o que acontece por lá. O que foi, Lucinda? Você está branca!

Ela tentou disfarçar. O cerco se fechava. Dentro em pouco seria ela a ser assassinada.

— Nada, não foi nada – Lucinda ficou em pé mesmo com as pernas bambas. — Notícia triste, não? Bem, mas eu preciso sair. Nos vemos mais tarde.


Lucinda saiu rápida de casa antes que viessem mais perguntas. O medo era grande e só não desistiu por Álvaro. Na calçada fez sinal para um táxi. Não tinha mais como voltar agora.