sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

UM CADÁVER NO MEU JARDIM (Cap. 13)

Marília deu um pulo da cadeira aos gritos e correu para o outro lado da sala. Enquanto Amanda, André e Cris praticamente rolavam de tanto rir, Carlos se levantou furioso, enxotou Poncho aos berros e tapando o nariz, levou o braço para fora com a ajuda de uma toalha que Marília jogou para ele.

Os filhos seguiram Carlos até a sepultura de Tereza onde sem muito cuidado, ele enterrou o braço de novo. O cheiro estava terrível.

− Não passa de amanhã, sem dúvida nenhuma – esbravejou Carlos esquecendo que os vizinhos podiam escutar alguma coisa. – E se tivéssemos uma visita? Como eu iria explicar a origem do braço?
− Pai, é melhor mantermos o Poncho preso – avisou André. – Ele adora fuçar onde a Terê está enter…
− Ei, não fale demais! – disse Cris pegando o cachorro e o levando para sua casinha.

Poncho foi devidamente preso, ainda que sob protesto. André se aproximou e colocou o prato de ração perto dele.

− Misturei o restante dos comprimidos da mamãe. Isto vai mantê-lo quieto até nos livrarmos da Tereza.

Lá de dentro veio a voz de Marília:

− Já enterraram o braço da mulher?

Cris olhou para o irmão sem acreditar no que estava ouvindo.

− Será que vocês querem que a vizinhança saiba que tem um corpo enterrado no nosso jardim? – perguntou ele tenso.
− Por culpa de vocês dois – acusou Carlos lavando com esmero as mãos no tanque. – Se ambos tivessem tido a decência de ter chamado a polícia, tudo isto já teria sido resolvido.
− Quer saber? – Amanda perguntou enquanto entrava com o pai e os irmãos para dentro da casa. – Estou achando tudo isto sen-sa-cio-nal.

*

Naquela noite ninguém dormiu direito (com exceção de Amanda) e durante todo o dia nenhum deles conseguiu se concentrar direito nas suas atividades. Poncho havia sido solto pela manhã, mas, sonolento, se contentou em ficar quieto descansando no gramado.

Era próximo das dez horas da noite quando a família inteira rumou para o jardim. Carlos forrou com toalhas e cobertores velhos o porta-malas do carro. Ninguém havia jantado e nenhum deles estava com fome. Luvas cirúrgicas e máscaras estavam ao alcance de todos. André e Cris aguardavam nervosamente o momento em que teriam que cavar a cova e desenterrar Tereza. Um saco preto de bom tamanho estava ao lado da sepultura. Marília observava a tudo de longe com uma toalha no nariz.

− O que é aquilo ali?

A voz de Amanda interrompeu o silêncio da noite. Carlos que segurava a pá olhou para onde a filha apontava.

− Ora, Amanda! – Carlos se sentia completamente sem paciência. – É somente o Poncho dormindo.

André olhou com mais atenção. Havia algo estranho ali.

− Espere um pouco – disse ele.
− Esperar o quê? – Carlos não esperou e deu duas escavadas seguidas. Queria se livrar daquele fardo de uma vez por todas.
− Pai, para tudo – pediu Cris apressando seus passos em direção ao seu animal de estimação.

A família observou quando o gêmeo tocou no bicho, puxando a mão em seguida.

− Gente, ele está morto.

Um “oh” generalizado ecoou por todo o jardim. Cris se levantou furioso e encarou o irmão.

− Foi você!
− Eu? Eu o quê?
− Você matou Poncho!
− Eu? Antes eu havia matado o Rodolfo! Agora você vai me acusar de ter matado o cachorro também? E Tereza? Sou culpado também pela morte dela?
− Ei, falem baixo! – pediu Marília correndo na direção dos dois brigões, implorando para que baixassem o tom de voz. – Deixem para discutir depois.
− Você exagerou na dose dos comprimidos da mamãe. Ele não suportou!

Amanda, que até então tinha achado tudo muito divertido, naquele momento estava à beira das lágrimas.

− Vocês dois… são uns assassinos! Assassinos!
− Calem a boca todo mundo! – ordenou Carlos. – Temos algo mais importante para fazer do que discutir a morte dele!
− Eu não matei ninguém! – defendeu-se André. – E você apoiou quando dei a ideia de roubar os comprimidos da mamãe para dopá-lo.
− Eu não acredito que vocês fizeram uma coisa destas – murmurou Amanda.
− Carlos, nós precisamos dar um jeito neste corpo também – exigiu Marília evitando olhar para onde estava Poncho. – E breve! Estou de saco cheio desta história!
− Sabe qual é a minha vontade? De atirar vocês todos no rio! – Carlos parecia um louco, com os olhos vidrados e descabelado.


Silêncio total.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

UM CADÁVER NO MEU JARDIM (Cap. 12)

− Foi você?

Os dois irmãos se encontravam no banheiro da casa. Os pais degustavam a sobremesa na sala de estar. Cris encarou André surpreso com aquela pergunta descabida.

− Foi você? – ele devolveu a pergunta muito ofendido.
− Claro que não.
− Também não matei ninguém – estrebuchou Cris. – Não tenho o hábito de sair por aí atropelando pessoas.
− Ok, desculpe. Só queria ter certeza – falou André tentando apaziguar o ânimo do irmão.
− Pode ter sido nosso pai.
− Ou nossa mãe – emendou Cris, pesaroso.
− O importante é que não temos mais nenhuma testemunha. Quem atropelou o velho na verdade nos prestou um grande favor. Ei! Quer parar de me olhar com esta cara? Quem estava com a chave do carro hoje de manhã era você.
− Nossa única testemunha ainda é o Poncho.
− Inofensivo agora que toda a família sabe que a Tereza está enterrada no jardim.
− Será que papai já tem alguma ideia de como vai despachar o corpo?
− Se não teve ainda, é melhor que tenha de uma vez por todas. Daqui a pouco a Tereza vai virar adubo no jardim da mamãe.

*

A decisão foi comunicada à noite durante o jantar com toda a família reunida novamente. Tomando um cálice de vinho, Carlos declarou:

− Pensei bastante sobre o caso da Tereza. O melhor que temos a fazer é jogá-la dentro de um rio. De preferência bem distante daqui.
− Rá! – exclamou Cris se sentindo o tal. – Esta ideia é minha.
− Certamente se vocês fossem jogar o corpo da infeliz no rio no dia do ocorrido, seriam descobertos. A pressa é inimiga da perfeição.
− Humm, que legal – Marília debochou. – Você irá executar este servicinho na maior perfeição. Que bonito.

Carlos ignorou a ironia da esposa e continuou:

− Amanhã eu vou forrar o porta-malas com lençóis e toalhas velhos. Desenterraremos o corpo depois que tivermos certeza que os vizinhos estão recolhidos. Vamos ensacá-la e a colocar dentro do carro. Vou comprar luvas descartáveis e máscaras porque o cheiro vai estar insuportável. Depois vamos até o local a uns 50 quilômetros daqui e jogamos o corpo no rio. Tenho alguns tijolos que sobraram da última reforma. Ela vai afundar que é uma beleza.
− Não vejo a hora de ver tudo isto. Já tenho uma história para contar aos meus netos! Uhu! – Amanda esfregou as mãos muito empolgada. – Quanta emoção!
− E quem disse que você vai ir junto conosco? – indagou Carlos irritado. – Quanto menos gente, menos atenção iremos chamar.
− O quê? Você acha que eu vou perder esta? Nunca! Nunquinha mesmo!
− Bem, se toda a família vai – declarou Marília tomando chá, – por óbvio que eu também irei para dar uma força.

Poncho latiu lá fora. Cris comentou:

− O cachorro quer ir junto também!

Gargalhada geral. Naquele momento Poncho entrou na sala sem ninguém perceber e largou algo atrás da cadeira de Marília. Amanda fungou o ar e perguntou:

− Alguém peidou?
− Olha os modos, Amanda – ralhou Marília. – Onde está sua sofisticação?

A garota farejou a direção do fedor que já empestava a sala. E então disse:


− Minha sofisticação está no lugar de sempre. Mas o braço de Tereza está bem atrás de você.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

UM CADÁVER NO MEU JARDIM (Cap. 11)

Eram onze horas da manhã quando o celular de Marília tocou. Naquele momento ela estava na cozinha tentando preparar o almoço da família. Tereza estava fazendo muita falta naquela casa. E o pior de tudo é que enquanto houvesse o corpo enterrado no jardim, não podia se dar ao luxo de contratar outra empregada. Vida cruel.

− Oi, Carlos. Seja rápido. Acabei de queimar o arroz e…
− Seu Rodolfo morreu.
− Quem? O jardineiro? – Marília desligou todas as chamas do fogão e sentou em uma cadeira da cozinha, atordoada. – Morreu como?
− Atropelado. Acabei de ler na internet. Foi hoje de manhã.
− Mas… você tem certeza que é ele?

Carlos se mostrava nervoso ao telefone.

− Sim. É ele. Você acha que…

Ele interrompeu a frase. Marília, ainda sem entender o que o marido queria dizer, insistiu:

− Acho o quê, Carlos? O que você está tentando dizer?
− Você acha que um dos meninos poderia… Bem, um deles ou dois poderiam ter…

Marília sentiu o mundo rodar. Se não estivesse sentada, talvez tivesse desabado no chão.

− Não! Eles não seriam capazes disto!
Ou seriam?
*

Quando André e Cris chegaram da faculdade pontualmente às 12h30min se depararam com os pais sentados no sofá aguardando-os com ansiedade. A expressão deles era terrível.

− E aí, gente – cumprimentou André para só depois se dar conta que algo estava errado. – Ué, o que houve? Morreu alguém?

Carlos não deixou por menos.

− Talvez você possa nos dizer – e apontando para Cris. – Ou você.

Os irmãos se entreolharam sem entender absolutamente nada.

− Ei, espera aí! – exclamou Cris ficando nervoso. – Fale abertamente. Qual a desgraça da vez?
− Seu Rodolfo morreu esta manhã.
− Puxa, sinto muito – falou André disfarçando seu alívio. – Mas o que nós temos a ver com isto?
− Me respondam com franqueza – exigiu Carlos ficando em pé e encarando os filhos de igual para igual. – Foi um de vocês?
− Claro que não – retrucou André rapidamente.

Cris perguntou muito pálido.

− Ele morreu como?
− Foi atropelado hoje de manhã cedo – esclareceu Marília um pouco mais tranquila. Os meninos não podiam estar mentindo. – Saiu em um site de notícias e o pai de vocês o reconheceu pelo nome.
− Me admiro, mamãe – André fingiu estar muito ofendido, − que vocês dois tenham desconfiado de nós.
− Tudo bem, desculpe – pediu Carlos passando a mão nos cabelos, tentando recuperar a serenidade. – Desculpem, garotos. É que esta história nos perturbou demais. Eu vou resolver tudo. Estou pensando em uma maneira de tirarmos o corpo da Tereza daqui e pôr um fim nisto tudo.
− Não vejo a hora – suspirou Marília.
− Nós também – retrucaram em uníssono os gêmeos.


sábado, 10 de janeiro de 2015

UM CADÁVER NO MEU JARDIM (Cap. 10)

A família toda estava reunida na sala de jantar. Marília fazia questão de ter todos juntos às refeições sempre que possível. Como naquela noite. Amanda trouxe a sobremesa e colocou à disposição de todos. Foi então que André começou a se levantar, dizendo:

− Bem, se vocês me dão licença, eu vou jogar videogame.
− Legal. Eu vou junto – anunciou Cris.

A voz trovejante de Carlos se fez ouvir.

− Vocês dois sentem de volta. Agora.

Os gêmeos se entreolharam discretamente e tornaram a se acomodar em seus lugares.

− Bem, como vocês sabem, a Tereza sumiu.

Silêncio.

− E hoje o irmão da Terê, o Bráulio, esteve aqui muito preocupado com a situação.
− Eu me vi obrigada a registrar uma ocorrência na delegacia – emendou Marília engolindo um pedaço de pudim.

Carlos prosseguiu:

− Cris e André, o que aconteceu exatamente naquela tarde?

André deu um chute no pé do irmão por debaixo da mesa. Era um sinal para que ele mantivesse a calma e a mentira.

− O celular dela tocou – respondeu Cris convicto.
− Onde ela estava?
− Na sala – disse André.
− Na cozinha – disse Cris.

Amanda, Carlos e Marília se entreolharam.

− Onde ela estava, afinal?

− Pai, o que isto importa? – perguntou André, servindo-se de pudim. Estava ainda louco de fome. – O fato é que eu e o Cris estávamos super envolvidos com o jogo do videogame. O celular dela tocou, Terê ficou ansiosa, disse que precisava sair e saiu mesmo.

Cris percebeu que Amanda olhava para André ironicamente. Mau sinal.

− Foi isto o que aconteceu?

A voz de Carlos estava terrível. Cris chutou André por debaixo da mesa.

− Cris, por que você está me chutando? – indagou Marília furiosa.
− Eu?
− O negócio é o seguinte – esbravejou Carlos. – Tem um corpo enterrado no jardim e eu quero saber como ele foi parar lá.
− O quê? Um corpo? – André pousou a sobremesa sobre a toalha. – No nosso jardim?
− Sim. Provavelmente é da Tereza. E foram vocês as últimas pessoas que a viram viva.
− Acho que há um equívoco aí, pai – falou Cris com vontade de vomitar.

Amanda então resolveu se meter.

− Explique, por favor, por que naquela noite você estava tentando arrancar um pé humano da boca do Poncho e depois o enterrou de volta no jardim. Hein?

Todos os olhos se voltaram para Amanda que continuou comendo seu pudim como se sua declaração fosse algo normal.

− Ei, espere um instante! – Carlos ficou em pé e se curvou sobre a mesa em direção à filha. – Repita o que você disse!

− Em primeiro lugar, quero dizer que não tenho nada a ver com esta putaria – retrucou a garota servindo-se de mais pudim. – Mas eu não sou cega. Eu vi nitidamente o Poncho com o pé de alguém na boca e o meu mano Cris, em desespero, tentando fazer o bicho soltar. Assisti toda esta cena ridícula da janela do meu quarto enquanto vocês assistiam aquela comédia sem graça na sala. Depois que o Poncho soltou, o Cris enterrou o pé de novo na cova.

Marília pôs as mãos na cabeça, incrédula.

− E eu posso saber por que você não nos avisou que tinha um corpo enterrado no jardim?
− E você acha que eu iria me envolver com um crime destes?

Sem saída e vendo que o irmão estava à beira de sofrer um colapso nervoso, André resolveu finalmente revelar a verdade.

− Vocês querem realmente saber o que aconteceu naquele dia? Eu conto.

Cris encarou André como se não acreditasse que ele fosse abrir o bico.

− Estávamos jogando videogame e a Tereza, na cozinha. De repente nos desentendemos durante o jogo e começamos a discutir. Era uma discussão boba, não tinha nada de sério. Quando me dei conta, eu e Cris estávamos trocando socos e empurrões. Mas era só brincadeira, pai. Dei um passo em falso e derrubei o vaso de porcelana. Acho que foi o barulho do vaso quebrando que chamou a atenção da Tereza. A criatura apareceu do nada, berrando para que a gente parasse de brigar. Então sobrou um empurrão pra cima dela. E ela voou.

Marília e Carlos se entreolharam sem entender direito.

− Voou para onde?
− Para o outro lado da sala – esclareceu Cris com a voz por um fio. – Não sabemos como e nem de onde partiu. De repente a coitada estava jogada no chão, sem se mexer. Deve ter dado uma cabeçada na quina da mesa.
− Pai, pensamos que ela estava brincando com a gente. Mas ela não se mexia. Foi quando descobrimos que Tereza estava morta. Bem morta. Cris pensou em atirá-la no rio, mas me pareceu mais fácil enterrá-la no nosso jardim.

Amanda perguntou:

− E o que vocês queimaram na churrasqueira? Não era trabalho nenhum de faculdade que eu sei...
− A bolsa e o celular dela. Sabe como é, não queríamos deixar pistas.  Mas o Poncho estragou tudo. Ele nos viu enterrando Tereza e… bem, o resto vocês já sabem – finalizou André tomando um copo inteiro de refrigerante de uma vez só.
− Estou chocada – murmurou Marília. – Não posso acreditar que meus dois filhos gêmeos tenham feito isto. Não era mais fácil chamar a polícia?
− E se não conseguíssemos provar nossa inocência, mãe? – André tentou se defender.
− Qualquer perícia poderia inocentar vocês! – esbravejou Carlos sentando outra vez. A coisa que ele mais queria naquele momento era tomar um porre e acordar somente dali a dez anos. – Vocês terão que responder por ocultação de cadáver se a polícia descobrir.
− Ah, mas não se preocupem – disse Amanda muito séria. – No Brasil ninguém vai preso. E como a Tereza era uma simples empregada, nada vai acontecer com vocês dois. Ricos, bem nascidos, bonitos... A mídia vai adorar.
− E agora, Carlos? O que vamos fazer?
− Quer saber? Eu vou dormir!

Carlos se levantou e subiu as escadas pisando duro. Apesar de tudo, Cris se sentia mais aliviado. Foi então que André perguntou:

− Por que vocês desconfiaram de nós, afinal?
− O seu Rodolfo esteve aqui hoje – respondeu Marília começando a sentir uma dor de cabeça daquelas. – Ele foi remexer na terra e encontrou o pé da Tereza mal enterrado. Fomos chamados e descobrimos tudo. Seu pai deu uma boa grana para o que homem cale a boca.

Marília esfregou a testa e continuou:

− Realmente foi um choque encontrar o corpo da pobre Tereza enrolado naquele cobertor cor-de-rosa.

− Cobertor cor-de-rosa? – berrou Amanda, surtada. – Vocês enrolaram o corpo da defunta com o meu cobertor de estimação?

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

UM CADÁVER NO MEU JARDIM (Cap.9)

Para não dar na vista, André surrupiou dois calmantes da mãe, dividiu em três pedaços e misturou um deles na ração do Poncho. Em pouco tempo, o cachorro dormia o sono dos inocentes. E parecia que não iria acordar tão cedo.

− Será que ele vai dormir para sempre?
− Claro que não, Cris. Nem foi tanto assim.
− Mas ele é um cachorro. Talvez não reaja bem ao remédio.
− Bem, a polícia também não vai reagir muito bem quando encontrar o corpo da Tereza no jardim. Vamos nos livrar do corpo esta madrugada.
− Certo. Não vejo a hora. Isto está me consumindo.

Os dois comeram alguma coisa rapidamente. Ficou combinado que Cris não precisaria matar aula e iria à faculdade pela tarde, já que Poncho dormia pesadamente e não dava mostras que acordaria tão cedo. Além do mais, era melhor evitar qualquer contato com a mãe e com isto, perguntas mais indiscretas. Assim, um pouco antes de ela chegar, os gêmeos saíram juntos mal esperando a bomba que os aguardava quando chegassem logo mais à noite.

*

Marília retornou para casa no meio da tarde segurando o boletim de ocorrência nas mãos. Pouco depois chegou Carlos, preocupado. Ele recebera uma ligação da esposa contando sobre o caso e resolvera voltar mais cedo. Os dois discutiam o destino de Tereza quando a campainha tocou. Era o jardineiro.

Afobada, Marília despachou seu Rodolfo para fazer o trabalho no jardim enquanto ela discutia com o marido a triste situação de Tereza. Ou não. Carlos acreditava que a mulher tinha arranjado um namorado e dado no pé, deixando o irmão na mão.

Neste meio tempo seu Rodolfo chegou ao jardim. Surpreendeu-se ao encontrar Poncho dormindo tão profundamente. Logo ele, sempre tão ativo... O homem largou seus apetrechos no chão e começou a trabalhar com a terra. Logo se deu conta que ela estava um pouco diferente do que da última vez que ali estivera. Parecia que alguém havia remexido nela...

Sem dar muita atenção para aquilo, seu Rodolfo se concentrou no trabalho para logo em seguida franzir o rosto. Que cheiro era aquele? Um odor fétido vinha dali, de onde ele estava trabalhando e pretendia plantar as flores de dona Marília. Não era possível que a família tivesse resolvido enterrar alguma coisa justo naquele local. Um corpo, por exemplo. Rodolfo até riu da sua ideia. Imagine! Todos eles eram do bem, inclusive os gêmeos, mesmo que às vezes eles se comportassem tão estranhamente.

Mas ele começou a ficar intrigado quando remexeu um pouco mais na terra e o cheiro ficou mais forte. Pegou a pá e não precisou cavar muito para se deparar com um pedaço de pé e um cobertor de cor-de-rosa perdidos no meio da terra. O fedor aumentou e o homem ficou nauseado. Mas que merda era aquela?

Ele se dirigiu sem jeito para dentro da casa. Encontrou dona Marília e seu Carlos rindo e bebendo suco de laranja. Constrangido por interromper aquele momento de descontração, seu Rodolfo resolveu ir direto ao assunto:

− Dona Marília, seu Carlos…
− Sim, Rodolfo?
− Er… será que podem me acompanhar até o jardim?
− O que houve, criatura? – perguntou Marília largando o suco em cima da mesa. – Você está branco.
− Acho que a senhora também vai ficar. Eu encontrei um presunto no jardim.

*

Em menos de 10 segundos Marília, Carlos e Rodolfo cercavam a cova de Tereza. Tapando o nariz e sentindo vontade de vomitar, Marília disse, incrédula:

− Não sei como isto foi parar aí.
− Nem eu – retrucou Carlos olhando para a esposa.

Ambos queriam matar os gêmeos.

− Cara, é o seguinte. Vá para casa – falou Carlos, imediatamente pegando a carteira e dando uma boa quantia ao homem. – Faça de conta que você não viu nada e nem nunca esteve aqui. Nós vamos chamar a polícia agora. Alguém pulou o muro e enterrou alguma coisa no nosso jardim.

Seu Rodolfo foi embora satisfeito com a grana a mais recebida. Marília e Carlos se entreolharam assim que o homem desapareceu das suas vistas.

− Você vai mesmo chamar a polícia?
− Claro que não – respondeu Carlos furioso, voltando ao jardim e pegando uma pá para cobrir o corpo novamente. – Alguma dúvida do paradeiro da sua empregada? Eu vou estrangular seus dois filhos bem devagarinho.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

UM CADÁVER NO MEU JARDIM (Cap.8)

A festa foi um sucesso. No final do dia Carlos, Amanda e Marília se reuniram na sala de estar para relembrarem os melhores momentos. Os gêmeos bem que tentaram se integrar, mas era impossível. Poncho estava solto no jardim naquele momento a mando de Carlos, que ficara indignado quando descobriu que o cachorro havia ficado preso no quarto de André por tantas horas seguidas. Seguidamente André ou Cris iam até a cozinha pegar um copo de água. Na verdade, aquilo era um disfarce para saber o que Poncho estava fazendo. Para alívio de ambos, o cão dormia tranquilamente na área de serviço sem dar maior importância ao corpo enterrado no jardim.

- Ainda bem que ele está com sono… - suspirou Cris quando André apareceu subitamente ao seu lado na cozinha.
- E se a gente colocasse um dos calmantes da mamãe na ração dele até a gente se livrar do corpo?
- Acho uma boa ideia. Mas precisamos nos livrar da Tereza o quanto antes. Ninguém fica desaparecido tanto tempo sem que alguma suspeita seja levantada.
- Teremos que nos revezar para controlar o Poncho – disse André baixinho e olhando para os lados para ver se ninguém estava se aproximando. – Você vai para a faculdade pela manhã e eu vou à tarde. Neste meio tempo pegamos o Poncho e levamos para a rua. Vou tentar encontrar onde mamãe coloca as pílulas para dormir.
- Combinado – concordou Cris ligeiramente apavorado. Aquele pesadelo parecia não ter fim.

*

Quando Cris chegou em casa da faculdade logo depois do meio dia escutou uma voz diferente na sala. Com um mau pressentimento, ele entrou devagar e se deparou com a mãe conversando com um homem de aparência humilde, sentado na ponta do sofá, parecendo desconfortável. De André, nem sinal.

- Bom dia – cumprimentou ele jogando a mochila no chão, sabendo que seu dia a partir dali não seria tão bom assim.
- Cris, venha cá – disse a mãe com um tom de voz preocupado. – Sente aqui conosco.

Sem sentir as pernas, ele se arrastou até onde a mãe estava e arriou no sofá esperando o pior.

- Este senhor aqui é o Bráulio, irmão da Tereza.
- E aí, Bráulio? Tudo em cima? Mãe, cadê o André?
- Seu irmão está desaparecido com o Poncho desde as nove horas da manhã – respondeu Marília impaciente. – Você quer fazer o favor de se concentrar? O Bráulio está aqui porque a Tereza saiu daqui de casa aquele dia e não voltou para a dela.

Bráulio sacudiu a cabeça levemente, confirmando aquela situação. Cris se sentiu empalidecer de puro medo. Marília acreditou que a reação do filho fosse somente susto.

- Sim, meu filho. Estamos todos assustados. Aliás, eu estou surpresa. Tereza não é de fazer isto!
- Senhora, minha irmã ía de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Nos domingos ela somente chegava na igreja rapidinho e só. Mas ela sumiu.

Marília se virou para o filho e perguntou firmemente:

- Naquele dia ela recebeu um telefonema e saiu? Foi isto que aconteceu?
- Eu… sim, foi. Quer dizer, deve ter sido. Ouvi o celular dela tocar.

Bráulio interviu.

- Senhora, tudo isto é muito esquisito. Somente eu tinha o número dela.
- Esta é uma história bem estranha mesmo, Bráulio – concordou Marília, enquanto Cris mal respirava. – Mas pelo visto ela passou o número para outra pessoa. Talvez um namorado.

Cris resolveu dar o ar da sua graça.

- Para ela sair correndo daquele jeito só pode ter sido homem.

Marília e Bráulio o olharam de cara feia. Cris tentou consertar:

- Mas não pode ser?
- Não, não pode – retrucou Bráulio enfezado. – Minha irmã não era destas coisas.

Marília se levantou bruscamente.

- Espere aí, Bráulio. Não estou gostando desta história. Vou pegar minha bolsa e nós vamos à delegacia mais próxima registrar uma ocorrência.
- Sim, senhora – respondeu Bráulio um pouco nervoso.

De repente se viram os dois sozinhos na sala de estar. Bráulio encarou Cris com uma expressão severa como se desconfiasse de alguma coisa.

- Situação difícil esta, não é? – comentou Cris sem saber o que fazer com as mãos.
- Ela que sustentava a casa, garoto. Eu não consigo serviço há dois anos.

O bafo de cachaça vindo de Bráulio quase tonteou Cris.

- Quem sabe você para de beber e começa a procurar trabalho? Tipo assim, só para conseguir uma graninha?

Os punhos de Bráulio se fecharam e Cris teve a nítida impressão que levaria um soco. Foi salvo pelo irmão que chegou naquele momento trazendo Poncho preso pela coleira. Sem soltar o animal, o jovem se aproximou da dupla percebendo a tensão no ar.

- Oi, Cris. Faz tempo que você chegou?
- Agora mesmo. Bem, este… este é o irmão da Tereza.

André disfarçou bem sua surpresa. Estendeu a mão livre para o homem e o cumprimentou efusivamente.

- E aí, cara? Cadê a sua irmã?

Marília apareceu naquele momento segurando a bolsa e a chave do carro.

- Garotos, eu vou até a delegacia registrar uma ocorrência do desaparecimento da Tereza. Depois irei levar o Bráulio até em casa. Preparem alguma coisa para comerem ou passem fome. Até mais.

Bráulio se levantou do sofá e passou reto pelos dois meninos. Quando a porta bateu e se viram sozinhos em casa, André perguntou:

- Eu escutei bem? Ela vai até a polícia registrar o desaparecimento da Tereza? Será que vão investigar?

Cris simplesmente estava branco.

- Se isto acontecer estaremos fodidos e mal pagos.
- Calma – André pensava rapidamente. – Vamos até o quarto da mamãe tentar achar as pílulas para dormir e dar para o Poncho. Depois pensamos de que jeito vamos nos livrar do corpo.


segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

NÃO MEXA COM O QUE É MEU

Namorava o André fazia uns dois anos. Ele sempre foi meu tudo. Tudo mesmo. Amigo, companheiro, ótimo amante. Sem que André soubesse, já estava planejando que ele seria também o pai do meu filho em breve.

Feliz e completa. Era assim que André me fazia sentir.

Um dia meu amor estava no banho e esqueceu o celular em cima da mesa. Foi quando aquele sinalzinho irritante do whats tocou. Devia ser o Marcelo combinando para o jogo de futebol de logo mais. Prestativa como sempre fui, peguei o telefone para levar até ele. Sem querer vi o recado.
“Amorzinho, estou esperando você na frente do shopping. Louca de saudades aqui. Carol.”

Carol. Carol.

Carol?

Como assim? Carol?

Eu iria descobrir. Nossa cidade era pequena, só havia um shopping. Bati na porta do banheiro, berrei que minha mãe tinha me ligado urgente e precisava sair. Dentro da bolsa, minha pistola. Eu portava uma, ainda que André não soubesse. Tinha herdado do meu pai. Eu adorava atirar. Um segredinho meu.

Tomei um táxi e pedi para o motorista me deixar perto do shopping. Era domingo, cinco horas da tarde. Não havia muito movimento. Era verão e a muita gente tinha ido para o balneário a uma hora da cidade.

Havia uma vadia plantada na frente do shopping. Cabelo loiro platinado, shortinho mostrando a bunda e um top que mal escondia o peitão siliconado. Só podia ser com aquela que meu queridinho estava me traindo.

Me postei em uma parada de ônibus próximo dela. A idiota nem se deu conta que estava sendo observada. Olhava a todo o instante o celular, esperando algum sinal do meu André. Não demorou muito eu vi um carro vermelho dobrar a esquina. Era ele. André veio bem devagarinho, deu uma buzinada ainda que não precisasse. A puta estava super atenta e já fazia caras e bocas para o filho da mãe. André parou o carro e ela entrou em seguidinha. Ambos trocaram um longo beijo (nem comigo era assim) e André começou a pôr o carro em movimento. Bem, ele só ficou na tentativa. Quando voltou seu rosto para frente se deparou comigo empunhando uma pistola na direção deles.

A puta gritou. Foi um grito agudo e que me feriu os ouvidos. Cadela. O primeiro tiro pegou na cabeça dela. Quando mirei André, ele já tinha aberto a porta e tentava correr pela rua. Aquela altura mais gente corria também.

Acertei um tiro na panturrilha dele e o idiota desabou no chão. Aproximei-me rapidamente sempre empunhando a arma. André estava virado para cima, com as mãos para frente, como se aquele gesto fosse me impedir de fazer o que eu pretendia.

O segundo tiro pegou nos testículos. O terceiro também.


Bem feito. Agora nunca mais André treparia com mulher alguma.

sábado, 3 de janeiro de 2015

UM CADÁVER NO MEU JARDIM (Cap. 7)

O domingo amanheceu ensolarado e perfeito para a festa de Marília e Carlos. Cris e André, no entanto, tentavam disfarçar o nervosismo contando piadinhas e não arredando pé do jardim. Carlos soltou Poncho logo de manhã cedo para terror dos rapazes que não desgrudavam do animal nem por um instante. De repente, Amanda surgiu perto deles e perguntou:

− Por que vocês não deixam o Poncho em paz?

Os três irmãos se encararam por longos dez segundos em silêncio. Cris abriu a boca para responder alguma coisa, mas faltou voz. André retrucou tentando demonstrar normalidade:

− Nós gostamos muito do Poncho.
− Ah… − fez ela.

Os convidados começaram a chegar. Diversão e animação tomaram conta do ambiente, contagiando a todos. Menos Cris e André. Alguns se atiraram dentro da piscina, outros se alojaram debaixo das tendas. Por duas vezes Poncho escapou das mãos de André e foi direto para o local onde Tereza estava enterrada e de onde foi tirado aos puxões para espanto de todos.

Marília se aproximou dos filhos e cochichou:

− Qual é o problema? Deixem o cachorro circular. O Poncho é tão sociável...
− Ele está fedendo, mãe – mentiu Cris pegando forte a coleira do bicho. – Vai ficar chato caso ele queira se esfregar em alguém.
− Não estou sentindo cheiro nenhum nele…
− Cris, vamos dar uma volta com o Poncho. Venha, vamos – intimou André, puxando o irmão pelo braço.

Em menos de cinco minutos, Poncho estava no quarto de André, acomodado em cima da cama. Cris disse:

− Acho que vou buscar água e comida para ele.
− Boa ideia. Daqui o Poncho não irá sair tão cedo.

Mais tarde Cris, depois de providenciar ração para o cão, observou da janela a movimentação dos convidados. A festa estava bem divertida, principalmente depois da chegada do DJ. O que será que as pessoas que estavam lá embaixo fariam se descobrissem que um cadáver estava muito próximo deles? Tipo, ao alcance do Poncho?

− O que você está olhando tanto? – indagou André afagando a cabeça do cachorro.
− Você nem imagina o que eu estou vendo agora...

André deu um pulo da cama e em segundos estava na janela. Naquele exato momento, Carlos e Marília estavam justamente sobre a sepultura de Tereza posando para fotos.


− Cara, que bizarro... – murmurou Cris. – O que mais falta acontecer?

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

UM CADÁVER NO MEU JARDIM (Cap. 6)

André entrou de supetão no quarto de Cris, surpreendendo-o de cueca. A calça embarrada jazia no chão.

− O que aconteceu lá fora? – perguntou André olhando para o irmão que naquele momento pegava uma toalha para se secar.
− Você tem certeza que quer saber?
− Ué! Claro que sim! O que houve com a sua calça? Por que você está molhado?

Cris suspirou de puro nervosismo antes de finalmente responder:

− Sente-se primeiro.
− Qual é! Para com este suspense!
− Aquele cachorro filho da puta desencavou o pé da Terê.
− Como assim?

André se assustou, finalmente, abandonando sua expressão sempre relaxada.

− Sabe aquela hora que o Poncho fez um som estranho? Encontrei-o na cozinha com o pé da Tereza na boca.
− O quê? – André pôs as mãos na cintura como se não acreditasse no que o irmão estava lhe dizendo. – O Poncho desenterrou a Tereza?
− Somente o pé. Tive que jogar um balde de água no bicho para que ele soltasse o osso. Quer dizer, o pé.
− Você fez o que com o pé?
− O óbvio. Enterrei-o de novo.
− Puxa vida, nunca pensei que o Poncho seria capaz de fazer isto. Ele não pode ficar solto no jardim.
− E não ficou. Deixei-o preso na casinha dele.

Os dois irmãos se encararam por alguns segundos. André aos poucos tentava recuperar a calma, colocando a mente desesperadamente para funcionar. Mas nenhuma ideia mirabolante lhe ocorria. Por fim disse, tentando aparentar uma tranquilidade que estava longe de existir:

− Eu vou pensar em alguma coisa para resolver o problema. Tente não dar na vista. Mamãe já reparou que você está esquisito.
− Você acha normal um corpo enterrado no seu jardim? Toda vez que chego na janela do meu quarto dou de cara com a cova da Tereza.
− Me dê um tempo está bem?
− Quanto tempo? Até Poncho comer o que sobrou da infeliz?
− Não seria uma má ideia. Além de acabar com todas as provas, não precisaríamos comprar ração para ele por um bom tempo.


André saiu do quarto prometendo uma solução para em breve. Na verdade, o garoto não conseguia pensar em nada. Nunca imaginara que o seu cachorro de estimação se tornasse uma verdadeira ameaça.